00:00O governo americano, em decisão surpreendente, anunciou a retirada do tarifaço sobre vários produtos brasileiros.
00:07A sobretaxa de 40%, que ainda afetava café, carne, frutas, acabou.
00:13Enquanto outros produtos, como máquinas e pescados, continuam pagando a tarifa proibitiva.
00:19A medida já está em vigor.
00:21Sobre essa mudança, eu vou conversar agora com o Felipe Teixeira, especialista em comércio exterior.
00:27Felipe, boa tarde, tudo bem?
00:30Boa tarde, Turcia. Prazer em falar com o público da TV Brasil.
00:34Prazer. Muito obrigado pela sua participação aqui.
00:36Felipe, como é que essa mudança, esse recuo dos Estados Unidos, em parte do tarifaço, impacta o agronegócio brasileiro?
00:45O agronegócio vinha tentando achar novos mercados, mas mesmo assim em queda, as exportações, principalmente de café, de outras commodities.
00:51Então isso impactou nos últimos meses, de grande forma, o agro.
00:57Agora, com esse alívio, o agro está comemorando muito, porque desenvolveu novos mercados e aí tem a nova possibilidade de voltar a exportar para o governo americano, para os Estados Unidos.
01:06Na sua leitura, claramente, a inflação nos Estados Unidos está por trás também dessa decisão?
01:14Os alimentos que o Brasil vende para lá, ou até então vendia, representam uma parte importante da oferta?
01:20Com certeza, Turcia. Eu acho que está muito mais envolvido com isso do que a própria questão política.
01:27Eu acho que os Estados Unidos, os índices de aprovação do Trump vêm caindo, então a inflação é um fator que pesa muito para o consumidor, para o público americano, para a população americana.
01:39Então esse, eu acho, é o grande fator do governo americano recuar e tirar ali a barreira da grande parte dos produtos que estavam com essa taxação.
01:48E dessa lista de produtos do agro que estavam ainda sobretaxados e agora não estão mais, na sua leitura, quais eram os que tinham a situação mais crítica para os produtores?
01:57Eu acho que o café e a carne brasileira, o café principalmente é um produto que o americano consome muito, é o produto do dia a dia, então isso com certeza impacta no bolso do americano e eu acho que foi o fator, o produto mais importante dessa cesta de produtos que tinham sido taxados.
02:13Agora, qual deve ser o efeito desse recuo americano na nossa balança comercial?
02:19Lembrando que os mercados aqui vinham buscando alternativas para vender esses produtos e vários deles conseguindo, o próprio caso do café, o próprio caso da carne, por exemplo.
02:31E agora com essa retomada, que tipo de impacto deve ter sobre a balança comercial?
02:36Isso vai impactar positivamente no sentido que o Brasil vai exportar mais, por mais que o Brasil tenha desenvolvido novos mercados, não tinha um volume suficiente para suprir o que os Estados Unidos deixou de importar.
02:46Então eu acho que esses novos mercados podem ser fortalecidos, mas o grande volume ainda estava dependente do governo americano e agora eu acho que tem tudo para voltar a exportar para esses mercados se recuperarem.
02:58Agora, exatamente porque os setores no Brasil vinham conseguindo mercados alternativos, não houve exatamente uma abertura de capacidade ociosa de infraestrutura, de portos, por exemplo.
03:10Já tem setor, inclusive, avisando que os portos podem ter algum tipo de gargalo agora nessa retomada de venda para os Estados Unidos.
03:18Como é que você vê esse cenário agora? Que tipo de efeito pode haver?
03:23Infelizmente, a infraestrutura logística do Brasil não é robusta como a americana, como a chinesa.
03:29Então, essas oscilações de para de exportar no momento, dois meses, muita gente segura a exportação e depois, num outro período, vamos voltar a importar, porque pode ser daqui a um mês, voltem essas taxas.
03:39Isso que é o grande problema. O problema não é você ter uma taxa alta e nem você ter uma taxa baixa.
03:44O problema é você fazer essas alterações a curto prazo.
03:48Isso gera uma insegurança, tanto para o produtor quanto para o contrador da outra ponta, que quando você tem essa baixa na taxação, ele quer importar tudo que ele pode nesse momento.
03:55Ou quando tem a alta na taxa, ele para de importar tudo também, porque ele acha que no próximo período isso pode baixar.
04:01Então, pode ser que gere um gargalo, a gente está no final do ano, a gente sabe como que é o movimento nesse período, que os nossos portos não dêem conta de fazer essa exportação.
04:09Isso pode afetar, sim, também os preços como commodities internacional.
04:12Você citou que, claramente, a inflação, a preocupação com a inflação nos Estados Unidos, pesou para a decisão de Donald Trump.
04:21Qual o peso que você acha que teve, a química, nessa relação entre Trump e o presidente Lula?
04:28Eu acho que teve um peso positivo, sim, a conversa que teve, mas, como eu falei no início, o grande peso foi a inflação.
04:36Foi a aprovação do Trump, que vem caindo com as outras questões que o Trump está tratando.
04:40Como o americano está sendo visto, como o governo americano está sendo visto para os outros países, com essas barreiras, então ele já tinha tirado de outros países também.
04:48Então, não é só com o Brasil que isso estava acontecendo.
04:51E o que mais pesou foi o bolso do americano, que estava sentindo, tanto no preço da carne, quanto no preço do café, o preço mais alto lá.
04:59E, com certeza, a última medição da inflação americana tinha ficado em 3%.
05:02Agora, devido ao breakdown, não teve a medição no último mês, mas, com certeza, a tendência seria de subida e o americano também está nessa briga pela taxa de juros.
05:12O Brasil conseguiu essas concessões ainda sem entregar nada concreto em troca, ainda sem fechar um acordo comercial, ou pelo menos as linhas gerais de um acordo comercial.
05:23Uma situação que é bem diferente daquela que a gente viu com outros parceiros comerciais, quando as concessões foram mútuas já no fechamento ou da estrutura de um acordo ou da assinatura efetivamente de um acordo.
05:33É claro que a gente ainda vai ter que caminhar para esse acordo e aí, sim, o Brasil vai ter que ceder.
05:40Como é que você vê esse terreno, se ele está mais favorável agora, que já foi dado esse primeiro passo, nessa primeira retirada do tarifácio?
05:49E em que papel, em que posição o Brasil fica ao ter que ceder para os Estados Unidos e onde ele teria que ceder?
05:55Na questão comercial, o Brasil já tem altas taxas para vários produtos, para a grande maioria dos produtos.
06:00Então, eu não vejo como o Brasil, nesse sentido de diminuir taxa de produtos, vai ajudá-lo nessa negociação.
06:09Eu acho que é mais um sinal do Trump sinalizando para o governo que estamos dispostos a negociar e também dar sequência nessa boa relação e o governo brasileiro respondendo.
06:19Então, hoje a gente já viu o presidente Lula também respondendo que estou feliz com essa posição.
06:23Então, são dois sinais ali que esse campo de negociação está aberto.
06:27Mas eu não vejo o Brasil fazendo a taxação ou deixando de taxar os produtos americanos, porque ele já tem uma taxa alta para diversos tipos de produtos.
06:36Então, o Brasil já é considerado um país que protege o seu mercado com essas taxações.
06:42E teria que ceder, por exemplo, em o que? Etanol? Deve ser um tema?
06:47Um dos produtos pode ser esse, mas eu acho que é mais a questão política.
06:52A gente tinha visto lá atrás, se tinha envolvido outras questões políticas, o Brasil deixou claro que ele não vai ceder nessa questão.
06:59Então, eu acho que é mais de sinalizar, porque o Brasil não chegou a aumentar as taxas de produtos americanos,
07:04sinalizou que poderiam taxar as big techs, que poderiam fazer isso, mas não chegou a se concretizar isso na negociação.
07:13Então, eu acho que é mais de falar, estamos dispostos a vender, o mercado americano é importante para nós,
07:18e as nossas commodities, a gente já sabe, é um histórico de longa data ali, que a gente já fornece isso para o governo americano,
07:24e a gente vai estar disposto a fazer isso, a fazer essa negociação.
07:28Felipe Teixeira, especialista em comércio exterior. Obrigado, Felipe, pela sua análise aqui. Bom fim de semana.
07:34Obrigado, Turso. Bom final de semana para vocês também.
07:37Obrigado.
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