00:00Olá, bom dia! O painel RPC de hoje começa de um jeito diferente.
00:14Nós estamos na casa da Ana Bertier, que tem 53 anos, é aposentada e desde os 13 anos de idade é cadeirante.
00:23Bom dia, Ana!
00:23Bom dia!
00:25Ana, por que você se tornou cadeirante?
00:27Eu tive paralisia infantil, poliomielite, com 3 meses de idade.
00:33Eu andei de muleta até os 12 anos.
00:36Aos 12 eu fiz uma cirurgia de coluna, fiquei um ano de cama e fui para a cadeira.
00:42E como é o seu dia a dia? Como você circula pela cidade?
00:45Aí eu saio de ônibus, em Curitiba isso está fácil agora de sair de ônibus.
00:52No programa de hoje vamos falar de limitações, mas principalmente como as pessoas que têm alguma limitação na vida convivem e observam o mundo ao redor delas.
01:03Para essa conversa nós vamos agora até o estúdio da RPC TV, junto com a Ana, fazer o mesmo caminho que ela faria sozinha para chegar até lá.
01:11Temos outros convidados nos esperando. Vamos lá?
01:13E a Célia sempre te acompanha, Ana?
01:16Sempre. Sempre eu preciso de uma pessoa me acompanhando, porque por causa da síndrome pós-fólio, eu não posso cansar, não posso fadigar.
01:26Bom, esse é o nosso ônibus. Nós estamos a mais ou menos uns 2 quilômetros da RPC TV.
01:31A gente tem que ter muito cuidado com o acesso, com pequenos degraus.
01:44Se a gente liga para um lugar, ah, você tem degrau, quando a construção é muito antiga, tem degrau? Ah, não tem nenhum.
01:49A gente chega no lugar, tem dois degraus pequenos, que as pessoas que andam não percebem.
01:53Para a Ana é um problema, é um empecilho.
01:57A gente tem que ter esse cuidado, a gente tem que sempre fazer uma avaliação do lugar onde se vai.
02:01E quando eu estou sozinha, isso não acontece, né?
02:04Estamos quase chegando ao estúdio do painel RPC.
02:08Agora, nós vamos fazer uma caminhadinha, temos algumas quadras para andar até a emissora.
02:13Aqui é perigo, perigo.
02:16Acho que nós vamos ter que ir pela rua.
02:18Se eu estivesse sozinha, jamais, mesmo com cadeira motorizada, acho que eu não conseguiria passar.
02:24Bom, chegamos à emissora, daqui a pouco vamos estar no estúdio.
02:29O nosso trajeto de dois quilômetros, nós fizemos em uma hora e oito minutos, um trecho de ônibus e mais uma boa caminhada do ponto até aqui.
02:40Então agora vamos para o estúdio por aqui, que temos outros entrevistados nos esperando para o painel RPC desse sábado.
02:49Então, por gentileza, podem entrar aqui ao nosso estúdio.
02:58Célia, foi uma caminhada pesada, né?
03:01Em alguns momentos subidas, descidas, as calçadas, um pouco difíceis.
03:06Mas conseguimos chegar.
03:07Bom dia, meninos.
03:09Vocês estão aqui nos aguardando.
03:11Nós temos aqui também no estúdio duas convidadas.
03:13E sabe o que me chamou a atenção no nosso caminho?
03:16É que justamente na quadra, aqui pertinho, bem pertinho da emissora, onde tem um hospital, você precisou descer pelo meio fio.
03:26Não tinha guia rebaixada, né?
03:28Quer dizer, né, Ana?
03:29Senta aqui com a gente, Célia.
03:30Sozinha na cidade...
03:32Não, é impossível.
03:34Precisa de uma estrutura.
03:36E olha essa dificuldade que nós vimos vocês passando ali, elas acontecem também com os idosos, com a mãe que tem um carrinho de bebê, que precisa carregar.
03:45É a mesma dificuldade, não é?
03:47É a mesma dificuldade.
03:47Quero agradecer a presença da Ana, da Célia, da irmã que sempre a acompanha.
03:52E também temos mais duas convidadas que já estavam aqui nos aguardando.
03:58A Diele Fernanda Pedroso Moraes.
04:00Muito obrigada por ter vindo, Diele.
04:01Eu quero agradecer o convite.
04:02A Diele é professora do Instituto Paranaense de Cegos e coordenadora do projeto Ver com as Mãos.
04:08Ela já vai trazer mais detalhes pra gente desse trabalho.
04:11E também quem está aqui com a gente é a Daiane Mendes, assistente administrativo e estudante de psicologia.
04:18Daiane, você tem dois filhos, né?
04:20Você me falou, um filho, uma menina de 11 e um menino de 6 anos.
04:24E há 5 anos, quando o seu filho estava com um ano e meio, mais ou menos, você ficou cega.
04:30Fiquei dormindo, enxergando e acordei seca.
04:33E como foi esse dia que você amanheceu e se percebeu sem visão?
04:40A palavra, acho que certa, foi terrível, né?
04:44Apesar de ainda haver uma esperança de que não, foi só um susto, né?
04:47Como uma cirurgia consegue corrigir.
04:50Depois, declarado mesmo do médico que não, que realmente seria perda de visão total.
04:57Então, foi uma fase de depressão, uma fase de tristeza, né?
05:02Mas até o momento que eu pensei que eu teria dois caminhos.
05:05Ou eu me entrego, ou eu levanto e mostro que mesmo cega eu posso fazer uma história diferente, né?
05:10E o fato de você já ter a referência do mundo visual, isso te gerava mais angústia ou te facilitou?
05:19Como foi essa adaptação?
05:21Eu até no início cheguei a pensar que se nascesse cega seria mais fácil, né?
05:27Porque não teria noção de nada, então eu teria que me adaptar com nada, né?
05:33Mas hoje, depois desses cinco anos, eu penso que a memória visual que eu tenho das coisas,
05:40de localização, né?
05:41De como fazer para chegar em determinado lugar é mais fácil.
05:45E o que você acha que é importante, como educadora, para conseguir ter mais acesso a esse mundo?
05:53Porque é um mundo diferente do mundo anterior, Daiane?
05:56Ah, sim, é um mundo diferente.
05:57É um mundo diferente, é que nem eu falo, agora eu vejo com os ouvidos, com o nariz, com a mão, né?
06:04É bem diferente.
06:06Como que você acessa esse mundo?
06:06Ver com as mãos é só um detalhe até, né?
06:09São diversos outros canais.
06:11É, são outros.
06:11É um clichê até essa ideia de que o cego só tem contato com as coisas usando o tato.
06:17Ele vai conhecer o mundo de diversas outras formas.
06:19Eu acho que para a gente, enquanto educador, o ponto principal é você ter essa abertura para ouvir o outro.
06:25Então, se eu recebo a Daiane pela primeira vez na minha sala, não importa, na verdade, o que eu aprendi no livro sobre a deficiência visual.
06:33A Daiane, ela vai ser uma pessoa e ela tem uma história e ela vive dentro de um contexto e eu vou ter que entender isso, né?
06:41E a partir disso eu vou adaptar o meu método de ensino.
06:44Eu acredito que esse seja o grande diferencial do que a gente acredita no projeto, que é justamente você ter esse olhar sobre o outro, de ouvir ele, de entender ele e a partir daí você sim se adaptar.
06:57Essa adaptação que você está falando, você teve que passar por isso, né, Célia, dentro da sua casa.
07:01Vocês moram juntas.
07:03Só na hora de escolher o lugar onde vocês foram morar, você já teve que pensar em tudo isso?
07:08É, porque a gente tem que ter essa visão diferenciada.
07:11Então, a gente optou por morar em apartamento.
07:14E foi fácil achar esse apartamento?
07:15Não, muito difícil.
07:16Nós ficamos uns cinco anos procurando, visitei inúmeras, dezenas de apartamentos.
07:22Alguns, a maioria tinham degraus ou que fosse um ou dois, mas que já impedisse o acesso.
07:28Ou o elevador muito pequeno, ou os botões do elevador muito alto, em que ela não pudesse subir e descer sozinha.
07:33É importante ter gente na portaria, um acesso coberto para quando ela chega.
07:39Porque você, um dia de chuva, correr e entrar num carro é uma coisa.
07:42Uma pessoa com deficiência, nossa, ela se molha demais.
07:45Então, a gente tem que ter sempre esse olhar diferenciado.
07:47Então, foi muito difícil.
07:49E, Ana, o que você teve que aprender para conviver e se locomover num mundo que é mais preparado para quem não tem limitação, né?
07:57É, eu acho assim, primeiro que você tem que mostrar para as pessoas a sua capacidade.
08:07Não falar, mostrar.
08:09Ah, eu sou capaz.
08:10Não, você tem que ir entrando no mundo das pessoas.
08:14Você tem que ir até esse mundo.
08:16Até esse mundo.
08:16As pessoas têm dificuldade de chegar?
08:19Você acha que é uma barreira?
08:20E não é só o preconceito, é a falta de conhecimento.
08:25Então, às vezes, você está precisando de ajuda e a pessoa está ali e não sabe se te ajuda, se vai te ofender.
08:34Vamos falar um pouquinho mais depois do intervalo.
08:36Vamos acompanhar uma aula do curso de Libras.
08:39O programa volta já!
08:42Bom, vamos lá!