00:00Agora a gente vai mostrar para vocês o seguinte, como as indústrias brasileiras podem ser impactadas
00:05se a ameaça de sobretaxa de 50% pelos Estados Unidos seguir adiante.
00:11É sobre esse tema que a gente conversa com o Flávio Roscoi, que é presidente da FIEMG,
00:15a Federação das Indústrias de Minas Gerais.
00:18Bom dia para você, Flávio. Seja bem-vindo ao Real Time.
00:21Bom dia, é um prazer enorme estar aqui.
00:24O Flávio Minas tem um grande parque siderúrgico que já foi sobretaxado.
00:28Como é que tem sido o desempenho da exportação do aço de Minas até agora?
00:34O desempenho tem sido positivo, porque no início do ano, quando houve aqueles primeiros comentários sobre a taxação,
00:42houveram antecipar os seus embarques.
00:45Além disso, o Brasil ficou no menor nível de tarifa, estava no menor nível de tarifa até pouco tempo atrás.
00:53Então, isso não prejudicou as exportações brasileiras.
00:58Pelo contrário, até auxiliou em alguma medida.
01:02Agora, sim, com essa elevação, o Brasil sairá de uma posição de ganhador para perdedor.
01:09Isso, com certeza, irá impactar em muito as nossas exportações futuras.
01:15Bom, eu queria entender o seguinte.
01:17Caso o pior cenário se concretize, como é que você acha que as indústrias brasileiras devem se preparar?
01:23Tem forma de se preparar para isso?
01:25Olha, os setores que são menos dependentes vão ter uma situação mais tranquila.
01:32Agora, aqueles setores em que a participação da venda para os Estados Unidos é muito relevante no negócio,
01:40com certeza irão sofrer muito.
01:43Nós teremos, caso essa taxação permaneça por um prazo, pelo menos de alguns meses,
01:53nós teremos algumas empresas encerrando as atividades, mesmo que temporariamente.
01:59você tem empresas hoje que produzem 100% voltado para o mercado americano.
02:04Eu tenho tido feedback nesse sentido.
02:08E tem também empresas em que a fatia do mercado americano é muito alta.
02:12Essas empresas terão sua sobrevivência comprometida, pelo menos no curto prazo.
02:19O presidente Lula deve convocar, em breve, um encontro com exportadores para discutir estratégias nessa negociação.
02:28O que você diria, neste momento, para o governo?
02:32Negocie, negocie, negocie.
02:34O fim, nós precisamos de um acordo com os Estados Unidos, não somente para o setor exportador.
02:39Se o Brasil escalar essa briga, se ele impor ali outras secessões, reciprocidade aos produtos americanos,
02:50o governo americano é exemplo, já fez com outros países, vai escalar,
02:54e em algum momento o Brasil vai ter que voltar atrás, mas com um prejuízo muito maior.
02:59A verdade é que a própria retaliação nos Estados Unidos seria como dar um muro numa parede de tijolos.
03:05O máximo que você vai conseguir fazer é quebrar os dedos da mão,
03:09porque a retaliação vai pesar mais no Brasil que nos Estados Unidos.
03:14Por quê?
03:15Porque as economias são completamente diferentes.
03:18A economia americana é mais de 12 vezes a nossa.
03:24Nós não somos o segundo maior destino de exportações dos Estados Unidos para o mundo.
03:30Nós estamos longe entre os principais players com os Estados Unidos.
03:34Enquanto para nós, os Estados Unidos é o maior comprador de produtos manufaturados
03:39e é o segundo maior comprador no total.
03:42Então, a relevância para os Estados Unidos, dos Estados Unidos para nós, é muito maior.
03:47Além disso, os Estados Unidos investem quase 27% de tudo aquilo que é investido
03:52por investidores estrangeiros no Brasil.
03:55Então, nós perderemos lá o nosso maior player na atração de investimentos também.
04:01Porque, obviamente, quando o Brasil fica ali qualificado entre um país não alinhado,
04:07as empresas americanas vão pensar duas vezes antes de investir,
04:11principalmente se a retaliação, por exemplo, foi em cima de lei de propriedade,
04:15propriedade intelectual, patentes.
04:18Então, nós teremos aí, com certeza, um cenário bastante crítico.
04:22E nós entendemos que a opção agora é negociar, negociar, se manter neutro na esfera internacional.
04:32O Brasil, ele é muito fácil de servir de exemplo, porque ele é um player relevante,
04:38mas não tão relevante que não possa ali servir de exemplo para os demais.
04:44Então, nessa guerra entre titãs aí, que é a guerra entre Brasil e China,
04:49o melhor é ficar de lado, esperando e ver se a gente encontra alguma oportunidade nesse conflito.
04:58Bom, mas negociar o Brasil está negociando já faz tempo, né?
05:01E a gente sabe que o Trump também não é o negociador mais confiável do mundo.
05:05Se a gente chegar num ponto em que a negociação não sortia efeito,
05:08e eles mantiverem os 50% de tarifas contra o Brasil,
05:11você defende, então, que o Brasil não faça nada como resposta a isso?
05:16Defendo, porque quem vai pagar é o próprio Brasil, né?
05:19A retaliação, quando o Estado se impõe em tarifa,
05:22aqueles produtos que ele não tem como comprar de outro lugar, não ser do Brasil,
05:27vai ficar mais caro para o consumidor americano, para o próprio Estados Unidos.
05:34Se nós detalharmos na medida, na mesma medida,
05:38boa parte das exportações dos Estados Unidos para o Brasil,
05:42nós teremos dificuldade de encontrar outros players para substituir,
05:46nas mesmas condições e no mesmo preço.
05:48Ou seja, pagaremos aqui um preço por isso.
05:52Então...
05:53Que setores você acha que vão conseguir redirecionar as exportações
05:58com mais facilidade para outros países?
06:00Os de commodities, né?
06:03Os de commodities deverão ir commodities que estejam em um bom momento.
06:07Exemplo, o café, na minha leitura,
06:09é o setor que vai ter menos impacto,
06:12porque o Brasil é um grande player,
06:15o mercado no mundo hoje.
06:17Está faltando café,
06:18tanto é que o preço do café subiu muito
06:20nos últimos dois anos.
06:25Então, esse produto é um produto que está escasso no mercado internacional,
06:29o Brasil vai conseguir redirecionar.
06:32Os demais, eu não diria na mesma...
06:34O suco de laranja é a mesma coisa também, né?
06:37Mas o resto dos produtos nós teremos dificuldade.
06:41Agora, se o Trump insistir na tecla política ali
06:45de derrubar processos contra o ex-presidente Bolsonaro,
06:48como é que você acha que o Brasil deve responder a isso?
06:51Olha, eu acho que, em qualquer solução,
06:56o Brasil tem que ser outro.
06:58Resolver através do diálogo, né?
07:02Porque nós não temos força,
07:04nem poderio econômico,
07:06nem poderio militar para brigar com os Estados Unidos.
07:08Então, não é inteligente,
07:11eu acredito que não é uma decisão inteligente,
07:13comprar esse conflito.
07:14Quem vai pagar o preço, de maneira geral,
07:17é a população brasileira.
07:18Você vê que nem a China comprou o conflito com os Estados Unidos.
07:22Na hora que a coisa pegou mesmo,
07:25eles foram lá e negociaram.
07:26O Brasil vai ficar peitando?
07:28Quer dizer, eu acredito que é uma estratégia
07:31não muito feliz
07:33e que vai ter um custo muito grande para o Brasil
07:37se a gente for para o confronto.
07:39E se o Brasil entregar tudo o que o Trump quer,
07:41ele achar pouco ainda e pedir mais?
07:43Porque negociação é isso, né?
07:44Se você entrega tudo muito fácil,
07:46a pessoa que está negociando com você
07:47ou a parte que está negociando com você
07:49pode falar,
07:50bom, está fácil, eu vou exigir mais.
07:53É, na prática, o que eu acho que é muito claro,
07:57que é um desalinhamento do Brasil
07:59com esse eixo que antagoniza os Estados Unidos.
08:04O resto é pano de fundo,
08:06na minha leitura,
08:07não é, na verdade,
08:08aquilo que há o maior interesse dos Estados Unidos.
08:12Então, eu acredito que foi justamente
08:15o posicionamento aqui na cúpula dos BRICS
08:18que gerou a situação.
08:19Porque a situação, por exemplo, com o Bolsonaro,
08:21ela já existia, com o Supremo, ela já existia.
08:24E o Brasil, quando o Trump soltou o primeiro tarifácio,
08:29ele classificou o Brasil no menor nível, né?
08:33E já tinha toda a situação,
08:34a situação com o Bolsonaro, com o Supremo,
08:37toda ela já existia.
08:38E mesmo assim, a gente ficou no menor nível.
08:42O que é que mudou de lá para cá?
08:43Foi o nosso posicionamento,
08:46um maior alinhamento com o Irã, com o China,
08:48e isso, com certeza, gerou incômodo.
08:50Falar de moeda, combater o dólar, etc.,
08:55não somou nessa relação.
08:57Então, o que mudou efetivamente,
09:00eu estou fazendo uma análise crítica,
09:02o que mudou efetivamente
09:03foi o nosso posicionamento que ficou um pouco mais agressivo
09:08e foi dado o alofote em função da cúpula do BRICS ter sido aqui.
09:13Então, foi dado o alofote ao Brasil.
09:15E aí, eu acredito que
09:17o presidente Trump resolveu deixar de exemplo, né?
09:22Para países que se alinhavam contra os Estados Unidos.
09:25Olha, vai sair do mais beneficiado para o pior.
09:28E aí, adicionou ali no bolo de cereja
09:30esse assunto político,
09:32mas eu não acho que é esse o relevante,
09:34não acho que é esse que vai ser o divisor de águas.
09:36Por isso que eu recomendo aqui a negociação,
09:39porque o que eu entendo é
09:40que o que os Estados Unidos querem
09:43é um maior alinhamento do Brasil
09:44aos Estados Unidos,
09:46como, aliás, sempre foi nos últimos 200 anos.
09:49Os Estados Unidos têm sido um país amigo do Brasil
09:51e acredito que é no melhor interesse
09:53de todos do Brasil que assim continue.
09:55Qual o cenário mais benigno
09:57que pode sair de tudo isso na sua avaliação?
10:01É justamente o acordo, né?
10:03O acordo seria fundamental.
10:06E esse acordo de redução das tarifas, né?
10:10Um Brasil ficando mais neutro
10:12no cenário internacional, né?
10:15Eu acho que seria um ótimo indicativo
10:18para o país, seria o...
10:20O acordo eu não sei
10:22porque eu não estou na mesa negociando, né?
10:23Mas espero que tenha alguém negociando na mesa.
10:27Tá certo.
10:28Flávio Roscoi, presidente da FIENG,
10:30a Federação das Indústrias de Minas Gerais.
10:33Muito obrigado pela participação
10:34hoje aqui no Real Time.
10:35Bom dia.
10:36Muito obrigado.
10:37Foi um prazer.
10:37E aí
10:51E aí
10:52E aí
10:53E aí
10:54E aí
10:54E aí
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