00:00A possível retaliação brasileira às tarifas de 50% anunciadas pelo governo Trump
00:05pode custar até R$ 259 bilhões à economia do país.
00:09Só Minas Gerais pode perder mais de R$ 21 bilhões em PIB e até 187 mil postos de trabalho.
00:16Os dados são de um estudo exclusivo da FIENG.
00:19E quem conversa com a gente sobre esse impacto é o presidente da Federação, Flávio Roscoi.
00:24Bem-vindo ao Real Time, Flávio. Bom dia.
00:27Bom dia, Marcelo. É um prazer enorme estar aqui no Real Time.
00:32Eu queria então que você trouxesse para a gente mais alguns detalhes dessa pesquisa,
00:35como ela foi feita, trazer mais alguns aspectos que foram levantados.
00:41A pesquisa considerou três cenários.
00:45O primeiro cenário é o cenário atual, em que a gente está com uma tarifa de 50%
00:51para exportar para o mercado americano.
00:53Nesse cenário, o impacto no curto prazo é menor.
00:59O impacto seria de R$ 47 bilhões anualmente no PIB brasileiro.
01:05Chegaria, em efeitos cumulativos, a ter um impacto anual, a partir do quinto ano, R$ 175 bilhões.
01:12Ou seja, à medida que a tarifa vai se consolidando, ela tem um impacto maior no futuro até mesmo que no presente,
01:24porque você perde a perspectiva de efetivamente exportar para o maior mercado consumidor do mundo.
01:29Agora, se o Brasil escala, e é o que está aparecendo, que vai ocorrer nesse momento,
01:36a gente espera muito que não ocorra,
01:38se o Brasil retalhar, aí as consequências serão muito piores,
01:44e aí nós chegaremos a esse número de R$ 259 bilhões de impacto no mercado brasileiro anualmente,
01:53que é um número efetivamente muito danoso.
01:57Porque no cenário com retaliação, ele já está prevendo uma queda dos investimentos aqui no Brasil,
02:06e não seriam só investimentos vindo dos Estados Unidos.
02:11Mesmo empresas de outros países que viriam para o Brasil, por exemplo,
02:15para construir uma plataforma de exportação,
02:17acabariam optando por outros países por não poder exportar para o maior mercado mundial.
02:24Então, nós teríamos um problema, inclusive, de concorrência com os vizinhos.
02:27Hoje, a Argentina está com a alíquota zero para exportar para os Estados Unidos.
02:33Então, se nós formos disputar o investimento internacional com a Argentina hoje,
02:39ela já sai com essa enorme vantagem na situação atual.
02:43Então, nesse terceiro cenário, é avaliado a retaliação e também perda de investimentos,
02:50caso a crise dure muito tempo.
02:53Então, por isso é que nós temos defendido uma negociação imediata.
02:58Agora, como é que você negocia com um presidente que, aparentemente,
03:02não está disposto a conversar agora, que não conversa, pelo menos, formalmente com o governo?
03:08Todos os outros países do mundo estão conseguindo negociar.
03:10Nós temos que entender que nós estamos com o King Kong, né?
03:15Você não pode caçar a briga com o King Kong.
03:18Não adianta, nós temos que mandar sinais de paz ali, dizer que, olha,
03:24nós vamos, o Brasil entende a relevância dos Estados Unidos,
03:28os Estados Unidos é um parceiro estratégico, é relevante.
03:32Nós queremos ter parceria, nós queremos retomar o diálogo.
03:36Quer dizer, o sinal público tem que ser esse.
03:37E, infelizmente, nós estamos dando sinais públicos no contrário, né?
03:43E não dá para ameaçar os Estados Unidos.
03:46Essa é uma realidade.
03:47Nós estamos vendo todos os países do mundo ali,
03:51sentando humildemente e negociando com os Estados Unidos.
03:55É aquele momento.
03:57Se você não pode com o seu inimigo, junte-se a ele.
04:01Essa é a discussão.
04:02Está todo mundo sendo pragmático no mercado internacional.
04:04A China foi, a Índia está sendo, a União Europeia está sendo.
04:09Então, não tem por que o Brasil bancar o valentão da rua.
04:14Agora, fala um pouco para a gente sobre os impactos que vocês mais temem para a indústria mineira.
04:19Os impactos, o que a gente está sentindo de maneira muito clara,
04:25que é além da estatística, o que ocorre?
04:28Quando a empresa tem competitividade para vender para os Estados Unidos,
04:32ela acaba, como o mercado americano é muito grande,
04:35ela acaba concentrando um percentual muito alto da sua atividade
04:39no mercado americano, que sempre foi considerado um mercado maduro,
04:42um mercado seguro, menos sujeito ali a volatilidade.
04:46Então, o que nós estamos observando é que as empresas afetadas ficarão muito afetadas,
04:53porque a dependência delas do mercado americano é sempre, ou na maioria dos casos,
04:59é superior a 50%, em algumas empresas chega a ser 100%.
05:04Quer dizer, o que a empresa vai fazer se 100% das vendas delas são para os Estados Unidos?
05:09Ela não tem outra opção, neste momento, do que eventualmente estudar o encerramento temporário das atividades.
05:18E isso é um quadro muito trágico, porque é um número razoável de empresas,
05:21não somente aqui, mas no Brasil todo.
05:25E nós temos que lembrar que os Estados Unidos compram aquilo que a gente gosta de vender,
05:29que todos os países gostam de vender, que é o produto industrializado.
05:32O produto industrializado, enquanto para outros mercados, a gente vende mais ou menos só commodities.
05:39Então, esse produto industrializado, com alto valor agregado,
05:43ele tem muito mais dificuldade de ter opções além do mercado americano,
05:49mesmo porque existe uma guerra comercial lá fora, neste momento,
05:53com a China praticando dumping em quase todos os mercados industrializados.
05:58O ministro Haddad, nesta semana, deu uma entrevista,
06:02dando a entender que pode haver um pacote para ajudar os setores que vão ser mais prejudicados
06:06caso essa tarifa de 50% continue.
06:09Do ponto de vista dos produtores, do seu ponto de vista, Roscoi,
06:14que tipo de ação poderia ser feita pelo governo se a gente tivesse que arcar com essa tarifa de 50%
06:20para minimizar as perdas e também a questão dos empregos,
06:24a questão de capital de giro das empresas?
06:26A primeira coisa é garantir mercado.
06:30Não adianta você dar linha de crédito para quem não tem para quem vender o produto.
06:35Não resolve.
06:36Pode mitigar ali no curto prazo,
06:39mas lá na frente a empresa vai acabar encerrando as atividades
06:43ou até mesmo ficando inadimplente.
06:46O que a gente tem que garantir é mercado.
06:49Então, nesse momento, o governo deveria estudar medidas de proteção ao mercado brasileiro,
06:54porque o mundo está numa verdadeira guerra comercial,
06:56todos os países estão fazendo isso,
06:58e o Brasil até agora não tomou nenhuma atitude.
07:02Nós estamos vendo invasão em aço.
07:04Aço é um dos principais produtos exportados para os Estados Unidos.
07:08Nós estamos vendo aqui uma invasão com a participação de mercado chinesa
07:13mais que dobrando de um ano, de dois anos para cá.
07:18Nós estamos vendo invasão em vários outros segmentos.
07:23Então, primeiro, tem que garantir mercado para o Brasil.
07:27Então, você sugere que a gente...
07:29Desculpa, só para a gente entender a questão do aço.
07:31A sua sugestão aqui é para aumentar a taxação contra a China,
07:34então, na questão do aço,
07:35para proteger a indústria local que está exportando em tese menos para os Estados Unidos?
07:40É isso?
07:40Perfeito.
07:42E não é só exportando menos.
07:44Já tem, por exemplo, vários procedimentos de ação de dumping na China,
07:48porque a China está vendendo abaixo do preço de custo,
07:50não somente para o Brasil, mas para o mundo todo.
07:54Como caiu a demanda pela infraestrutura na China de aço,
07:58ela está vendendo aço,
07:59mas não é só para o mundo inteiro abaixo do preço de custo.
08:02Vários países já colocaram medidas protetivas na sua indústria.
08:07E não é só para o aço, tem vários segmentos.
08:11Então, na verdade, como a China caiu o nível de atividade econômica,
08:16ela está direcionando as exportações para mercados maiores.
08:20E o Brasil é um dos maiores mercados,
08:22está ali entre os dez maiores mercados do mundo.
08:25Então, ele é um mercado, vamos dizer assim, alvo.
08:29E o que a gente vê em vários setores industriais
08:32é uma invasão de produtos chineses.
08:34Lembrando que em janeiro a balança comercial chegou a ficar deficitária com a China.
08:39E eu queria dizer que nós só vendemos para a China produtos primários,
08:43produtos que a China efetivamente precisa.
08:46E nós só importamos produtos industrializados.
08:49Quer dizer, produtos com valor agregado chinês,
08:52com mão de obra, com tecnologia.
08:55E nós poderíamos estar agregando esse valor aqui na indústria brasileira.
09:01Então, essa é a solução efetiva de curto prazo.
09:04É uma proteção do mercado brasileiro.
09:07E, claro, os paliativos para crédito são sempre bem-vindos.
09:10Mas eles são paliativos.
09:11Nós temos que garantir mercado.
09:13E, no caso, o mercado mais fácil de garantir nesse momento
09:16é o próprio mercado brasileiro.
09:17Ó, Flávio, mas essa sugestão sua não cria uma situação, assim, digamos,
09:23um pouco confortável do ponto de vista diplomático?
09:26Porque Estados Unidos taxam a gente de 50%.
09:29A gente não faz nada de reciprocidade.
09:31Mas aí taxa outros países, como a China.
09:33Isso não pode criar um embaraço diplomático para o Brasil, por exemplo?
09:36Porque a China, em tese, tem sido um país que está negociando bem com o Brasil.
09:40Temos um grande superávit.
09:42Não temos esse problema na balança comercial
09:44e nem ameaças vindas do governo de lá, né?
09:46Não tem nenhum embaraço
09:48porque nós não estamos propondo nenhuma medida
09:49fora das regras da OMC.
09:52Basta o Brasil implementar os mecanismos da OMC
09:54que já deveriam ser implementados
09:56e que todos os países no mundo implementam.
09:59Então, não há nenhum embaraço diplomático
10:01de fazer as coisas dentro da regra.
10:03Nós estamos solicitando para fazer fora da regra
10:06do mercado da OMC,
10:09da Organização Mundial de Comércio.
10:11Então, você tem inúmeras ferramentas
10:12para fazer dentro da regra.
10:14Isso não é nenhum constrangimento.
10:16Constrangimento é a China fazer dump
10:18e o Brasil ficar calado.
10:19Isso é constrangimento.
10:20Vender um produto a metade do preço
10:23ou um terço do preço que custa.
10:25Isso é constrangimento.
10:26Isso não é uma relação diplomática igualitária.
10:30Isso é uma relação de domínio também.
10:33Você acha que a OMC ainda está eficiente
10:35para arbitrar esse tipo de coisa
10:38no comércio internacional?
10:39Porque os Estados Unidos estão praticamente
10:41esvaziando a OMC, né?
10:42Essas medidas que o Trump adotou,
10:44se fossem analisadas de forma imparcial
10:46pela OMC, dificilmente parariam de pé, não?
10:50É, com certeza.
10:51Agora, dentro das regras,
10:53o Brasil fazendo as regras
10:55não pode ser questionado por ninguém.
10:56mesmo que a OMC esteja frágil, né?
10:59Porque todos os países fazem.
11:01Então, não há que se falar
11:03o processo anti-dumping
11:05é um processo reconhecido
11:06no mercado internacional.
11:07Não é nenhum problema diplomático.
11:09É um mecanismo multilateral
11:11já consolidado.
11:16Essa é a realidade.
11:17Então, não é nenhum conflito diplomático.
11:20E volto a dizer,
11:22nós exportamos para a China
11:23aquilo que a China precisa.
11:26A China não compra nada do Brasil
11:28além do que ela precisa.
11:31E os nossos principais produtos exportados
11:32para a China são
11:33minério de ferro.
11:35Se ela não comprar do Brasil,
11:36ela vai comprar da Austrália,
11:37que é um aliado histórico dos Estados Unidos,
11:40muito maior do que o próprio Brasil.
11:43Se ela não comprar soja,
11:44ela vai comprar dos Estados Unidos.
11:47Então, a opção dela
11:48é comprar dos Estados Unidos.
11:49Esses dois produtos
11:50são 60% da nossa pauta de exportação.
11:54Depois, nós vamos vender petróleo.
11:56Petróleo é um comódio mundial.
11:58Se você não vender para um,
11:58você vai vender para o outro.
12:00Não tem dificuldade nenhuma.
12:01É o terceiro item.
12:03O quarto item, se eu não me engano,
12:05é celulose e papel
12:06é o que o Brasil...
12:07Não, é carne.
12:08O quarto item é carne.
12:09Quem concorre conosco,
12:11novamente, Estados Unidos e Austrália.
12:14E o quinto item é papel e celulose,
12:16que o Brasil é o produtor,
12:18vamos dizer,
12:19o líder mundial de produção de baixo custo.
12:22Então, quando você analisa
12:23a nossa pauta de exportação,
12:25mais de 85% está concentrado
12:27em cinco itens,
12:28em que nós somos o melhor provedor.
12:30não há nenhum favor
12:32para a gente comprar da gente.
12:34É bom para a China,
12:36é bom para todos os países que compram.
12:38Porque esse é um produto
12:39sem valor agregado,
12:40com baixo valor agregado,
12:42em que a China adiciona,
12:44ela pega o nosso minério
12:45e transforma em aça
12:46e vende para a gente
12:47a metade do preço.
12:49Se tem alguma coisa errada,
12:51isso nós temos que discutir.
12:53Essa é uma relação
12:54que precisa ser efetivamente discutida
12:56no melhor do interesse dos brasileiros.
12:58É, como se diz no meio diplomático,
13:01países não têm amizades,
13:02eles têm interesses,
13:03cada país tem que defender o seu.
13:05Agora, falando de um outro produto
13:06de Minas,
13:07que é muito exportado,
13:08que é o café também,
13:09Flávio,
13:09que está no centro
13:10dessa discussão com os Estados Unidos,
13:12o café,
13:14apesar de não ser
13:15um produto tão fácil
13:16de revender como o petróleo
13:18para outros mercados,
13:19ele também é uma commodity
13:20e também é possível recolocar
13:22uma parte dessa produção de café
13:24em outros países,
13:25embora não seja algo
13:26que se faça
13:27de forma imediata,
13:28não é?
13:30O café,
13:31efetivamente,
13:32ele vive,
13:33ele está num momento
13:33muito favorável
13:34em que a falta de café
13:35no mundo.
13:36Então, o café,
13:37efetivamente,
13:38não vai ser um produto
13:39que irá sentir
13:40de maneira significativa
13:43esse impacto.
13:43Eu acho que a carne,
13:44que também é uma commodity,
13:45é um produto
13:46que se sentirá um pouco mais,
13:48porque demanda,
13:50tem inspeção sanitária,
13:51é mais complexo,
13:52tem normas e regras
13:53em cada país.
13:55Então,
13:55você redirecionar
13:56esse fluxo,
13:57no caso da carne,
13:58eu acredito que vai ser
13:59um pouco mais complexo.
14:00No caso do café,
14:01não.
14:02Há uma escassez de café
14:03no mercado mundial hoje,
14:05então,
14:05o momento específico
14:07do café,
14:08ele é muito favorável
14:09para os cafeicultores.
14:11Tanto é que,
14:12depois da medida,
14:13o preço do café
14:13não caiu,
14:14ele subiu
14:14aqui no Brasil.
14:18Então,
14:19isso já é um indicativo
14:20forte que o café
14:21efetivamente não vai sentir.
14:23quem vai sentir mesmo,
14:24Marcelo,
14:25são os produtos industrializados,
14:27que são produtos
14:28com valor agregado
14:29e que os Estados Unidos
14:30é o maior comprador
14:31do Brasil.
14:32Esses produtos
14:33que têm tecnologia,
14:34têm valor agregado,
14:36que,
14:37fora do mercado americano,
14:38vão sofrer dificuldade
14:39de logística,
14:40vão sofrer com recorrência,
14:42principalmente com a China,
14:44que é o nosso maior concorrente
14:45nos produtos industrializados.
14:47Então,
14:48o cenário
14:51é bastante complexo
14:52para esses produtos
14:54industrializados.
14:56Fábio Roscoi,
14:57presidente da Federação
14:58das Indústrias
14:59do Estado de Minas Gerais,
15:00a FIEMG,
15:01muito obrigado
15:01pela sua participação
15:02e pelas suas perspectivas
15:04aqui no Real Time.
15:06Boa tarde para você.
15:07Boa tarde para você.