00:00Para a gente entender melhor esses números, eu vou conversar agora com o Felipe Corleta,
00:04sócio da Delink Investimentos.
00:06Corleta, boa tarde para você.
00:08Semana inteira, então, no Vermelho e Bovespa, né?
00:12Boa tarde, Turce.
00:13Boa tarde para todo mundo ligado aqui no Times Brasil.
00:16É uma semana pesada, uma semana em que começou com a expectativa de que a gente pudesse ver
00:23alguns números econômicos mais fracos antecipando no imaginário dos investidores
00:27uma queda da Selic ainda esse ano.
00:31E além da tarifa do Donald Trump, a gente ainda teve dados econômicos relativamente fortes.
00:36O IPCA saiu um pouco acima do consenso, hoje o volume de serviços até saiu abaixo do que o mercado esperava,
00:42mas houve uma revisão de abril de um crescimento de 0,2 para 0,4.
00:46Então mostra uma economia ainda resiliente, uma perspectiva muito pequena
00:50de que a gente tem uma queda da taxa de juros ainda esse ano.
00:53E tudo isso se somou a, logicamente, o conflito diplomático, comercial,
00:57que foi instaurado pelo Trump também essa semana.
01:02Então hoje é um dia mais pesado, o dólar até subia bem mais, acabou conseguindo respirar um pouco,
01:09especialmente depois que o Trump disse que pode conversar no telefone com o Lula hoje à tarde,
01:14apesar de falar que não agora, ele disse que pode conversar.
01:16Então depois das entrevistas do Lula ontem, que mantiveram um tom relativamente agressivo com relação ao Trump,
01:25hoje a fala do Trump não foi uma fala que elevou de novo o clima.
01:29Então isso trouxe, de certa forma, um alívio para o câmbio, que fechou numa leve alta pena do dólar.
01:35E a Bolsa, sim, essa pesou bastante com os juros estressados, os ativos sensíveis a juros bastante estressados hoje.
01:43A salvação foram algumas empresas do setor imobiliário, que acabaram subindo,
01:46depois que no meio dessa entrevista, onde o Lula comentou, o Trump disse que vai lançar um novo programa habitacional,
01:54isso animou bastante o setor.
01:55E empresas do petróleo, já que o petróleo subiu quase 3%, retomando o patamar de 70 dólares.
02:01Então foram as únicas que se salvaram na Bolsa hoje, em geral, o dia vermelho para o investidor aqui do Ibovespa.
02:07Maior queda semanal do Ibovespa B3 desde 2022, Corleta?
02:13É, a gente teve um evento sem precedentes, que motivou em parte essa queda.
02:20A gente já vinha com o mercado lateralizando, querendo corrigir, depois de renovar os recordes históricos na semana passada.
02:27Mas o Trump acabou realmente sendo a grande manchete da semana e, com isso, a Bolsa faz uma queda semanal importante.
02:36A gente passa a questionar a tendência de curto prazo nesse momento e pensa em se proteger,
02:44já que há uma expectativa de que essa troca de farpas, por assim dizer, pode continuar ao longo da próxima semana.
02:52Corleta, hoje a gente teve também, acho que o diferencial aqui foram os índices americanos também operando no negativo, né?
03:01Esse anúncio de uma sobretaxa mais alta também a produtos do Canadá e também Trump falando, inclusive a NBC News,
03:09aqui do mesmo grupo da CNBC, que a tarifa base, que vem sendo de 10% durante o período de trégua,
03:15pode subir para 15% ou 20%, ou seja, para os demais países a tarifa de importação passaria de 10% para 15% ou 20%.
03:22Tudo isso influenciou também?
03:25É, ao longo dessa semana, isso sim hoje, né?
03:27A tarifa ao Canadá foi bastante importante porque se tinha uma percepção de que haviam negociações avançando ali com relação ao Canadá,
03:35mas essa semana a gente teve um aumento da expectativa da tarifa média efetiva, né?
03:42Que antes do Trump assumir era perto de 2,5%, né?
03:46A gente chegou a ter momentos em que essa tarifa foi esperada perto de 20%.
03:50No começo da semana, a expectativa estava em torno de 12%, 13%, a tarifa média que o Trump aplicaria a todos os países.
03:58Ao longo dessa semana, com as declarações, com a retomada dessa pauta comercial por parte do Trump,
04:05essa expectativa subiu para 17%, 17,5% por parte de uma média de economistas, né?
04:10Então a gente está falando aí de um aumento, sim, da expectativa.
04:14O Trump, a gente sabe que quando ele consegue vitórias que elevam a sua popularidade,
04:20ele fica mais confiante, ele é mais agressivo no seu tom das negociações,
04:24e isso aconteceu na última semana.
04:27Ele aprovou um grande pacote legislativo com várias medidas prometidas em campanha,
04:31ele conseguiu há poucas semanas atrás também atingir um cessar-fogo lá entre Irã e Israel,
04:37fatores que trouxeram bastante confiança e bastante popularidade para a administração do Trump,
04:42o que inflou essa confiança e ele vem aí agora retomando essa agressividade na política comercial
04:49que está penalizando os mercados, especialmente hoje com essas tarifas ao Canadá,
04:53e a promessa de que talvez ainda hoje saia o nível de tarifa da União Europeia.
04:59E aí, Corleta, saindo também para a União Europeia, como está sendo amplamente cogitado aí,
05:05sondado, para que ponto dessa guerra comercial a gente iria e poderíamos ter uma reação mais aguda dos mercados
05:13ou isso é exatamente o que a gente está vendo hoje?
05:15O mercado já está precificando a União Europeia e entrando na lista de quem recebeu cartinha do Trump também?
05:23Acho que já há uma expectativa de que sim vai ter uma tarifa para a União Europeia,
05:26a gente tem esse ano a Europa passando por um belo momento dentro dos mercados,
05:32as bolsas todas em recordes históricos, ontem Londres fez recordes históricos,
05:36a Alemanha também flertando com recordes históricos esse ano,
05:40o euro muito forte em relação ao dólar,
05:43mas essa tarifa, caso ela venha assim acima dos esperados,
05:47pode reverter um pouco essa sensação com os ativos europeus,
05:51que esse ano tem sido bastante positiva.
05:54Há uma expectativa, o Trump já deu declarações pesadas com relação à União Europeia,
06:00nessa semana ele falou que está tendo conversas muito boas com a Ursula von der Leyen,
06:05da Comissão Europeia, que acaba representando o bloco econômico
06:08nessas negociações com os Estados Unidos, porém o homem é uma catinha de surpresas,
06:15no Brasil a gente esperava 10 a 20, veio 50,
06:18então qualquer coisa que tire ele do cérebro pode fazer um anúncio de uma tarifa maior,
06:23disparar uma preocupação maior aí com a Europa.
06:26Enquanto a gente conversa aqui, Corleta, estamos dividindo a tela com o próprio Donald Trump,
06:31que continua falando ali do Texas, onde ele foi visitar,
06:35prestar solidariedade às vítimas e famílias de vítimas das enxurradas que atingiram o Estado,
06:42está ali conversando com autoridades locais,
06:45também com equipes que participam diretamente dos trabalhos de buscas
06:49e reconstrução das áreas atingidas.
06:51E enquanto isso a gente vai seguindo aqui, Corleta,
06:54agora o dólar, você observou aí que o desempenho dele foi arrefecendo durante o dia
07:01a ponto dele fechar muito perto aí da estabilidade.
07:05Ele parece contido também aí nessa faixa dos 5,50, sem muito fôlego para ir além disso?
07:11Olha, o cálculo que o mercado fazia até o começo da semana,
07:15até esse anúncio de tarifas do Trump, era até onde o dólar podia cair, certo?
07:20E nesse momento a gente tem agora uma dinâmica um pouco diferente,
07:24no momento em que lá fora ainda há uma percepção geral de um dólar muito fraco,
07:29de que a política fiscal, a política comercial e essas brigas que o Trump tem feito com aliados históricos,
07:36especialmente no fronte comercial, são enfraquecedores do dólar a nível global.
07:42Só que aqui no Brasil, diante dessa tarifa, diante desse cenário mais incerto que a gente tem agora,
07:48o debate é até onde o dólar pode se recuperar, certo?
07:51Então a gente mudou um pouco essa cabeça com relação ao câmbio
07:55e não surpreenderia ver o dólar aí voltando a subir na próxima semana,
08:01ao mesmo tempo que a pressão externa, ela continua e continuará sendo baixista para a moeda americana.
08:09Então se a gente fosse olhar uma cesta de moedas, muito provavelmente a gente estaria ainda falando
08:13de uma tendência de baixa do dólar, a gente estaria falando de uma expectativa de um dólar fraco,
08:17disso sendo inclusive resultado esperado da política econômica do Trump,
08:22mas com esses fatores domésticos, com essa rixa política que se criou entre o Lula e o Trump,
08:28essa tarifa que até o dia 1º de agosto vai ter muita notícia envolvendo isso,
08:35o debate aqui no Brasil especificamente passa a ser até onde o dólar pode se recuperar.
08:40E Corleta, os mercados estão trabalhando ainda com uma possibilidade de acordo?
08:45Porque claramente, quando o Trump anuncia essas tarifas todas,
08:48mas diz que elas só entram em vigor no dia 1º de agosto,
08:51ele está querendo negociação ainda, ele quer capitalizar em cima dessas negociações,
08:55a diferença é que agora está colocando a faca no pescoço,
08:57porque se não deu certo negociar em três meses, tem que sair alguma coisa agora em 20 dias.
09:02O mercado está olhando para isso e ainda com o olhar de que nem tudo o que está sendo anunciado
09:07provavelmente vai entrar em vigor?
09:09Olha, o Trump chamou o Brasil para a mesa de negociações de uma forma ou de outra,
09:13é verdade que com toda a politização desse discurso,
09:18mas a gente viu, especialmente desde abril,
09:20muito provavelmente o Itamaraty bastante silencioso, bastante recuado,
09:24na medida que a gente ficou lá em abril, no dia da libertação,
09:29na faixa inferior das tarifas, o Brasil estava com a tarifa mínima.
09:32Então, não quis mexer nesse time que estava ganhando e agora vai ter que fazer diplomacia.
09:37Eu acho que para a gente responder essa tua pergunta,
09:39tem que olhar um pouquinho para o que aconteceu com o México e com a Colômbia.
09:44A Colômbia foi logo no começo do governo,
09:46sob ameaças de que a Colômbia estava mandando muitas drogas para os Estados Unidos,
09:51era uma origem de envio de drogas para a economia dos Estados Unidos,
09:55o Trump tarifou, a Colômbia retaliou e o Trump retaliou novamente,
10:00isso fez com que fossem à mesa de negociação e as coisas acabaram relativamente bem entre os Estados Unidos e Colômbia.
10:06E a mesma coisa aconteceu no México e a gente está falando de governos aí que são também governos de esquerda,
10:11governos que não são alinhados ideologicamente ao Trump.
10:15Então, ele já mostrou, sim, que há dentro da Casa Branca uma certa sensibilidade para negociar,
10:20apesar de diferenças ideológicas.
10:23Só que no caso do Brasil, a gente tem um agravante,
10:25que é a colocação muito clara de uma condição para que haja essa queda das tarifas.
10:31A própria conselheira da Casa Branca falaram,
10:34ó, sem anistia não haverá corte de tarifas.
10:37Então, essa é a grande declaração, porque, assim, o judiciário muito provavelmente não vai ceder,
10:43a gente não vai ter o Congresso acelerando um projeto de anistia,
10:46justamente porque os poderes estão agarrados nesse discurso de soberania nacional,
10:51de não interferência exterior.
10:53Então, vai precisar uma diplomacia muito hábil para que possa se contornar essa condição colocada pela Casa Branca,
11:00para que as tarifas possam ficar em um patamar mais razoável entre o Brasil e os Estados Unidos.
11:05Coleta, para a semana que vem, fora, evidentemente, o olhar no tarifaço,
11:11alguma coisa aí para se prestar atenção?
11:14Olha, aqui no Brasil vai ser muito importante acompanhar as negociações com relação à retaliação para essa tarifa,
11:20isso vai acontecer na próxima semana.
11:22A gente está entrando no finzinho do semestre legislativo,
11:27então vai ser antes de um recesso parlamentar.
11:30Então, o tema político vai fazer preço aqui no Brasil.
11:33E lá fora, no mercado exterior, começa a temporada de balanço do segundo trimestre,
11:40especialmente com o balanço dos grandes bancos, na outra semana as big techs.
11:43Então, vai ser a atenção, além, claro, do CPI, o número de inflação americana que vai ser divulgada,
11:50que vai calibrar expectativas quanto ao corte de juros lá nos Estados Unidos.
11:54O que pode acontecer?
11:55Uma inflação baixa nos Estados Unidos pode fazer com que o mercado espere,
11:59aumente a expectativa de cortes de juros para esse ano e, com isso, a gente conviva com um ambiente de dólar mais fraco.
12:05Certo?
12:05Então, esse é o principal dado da agenda econômica.
12:08Lá fora, a gente tem a agenda corporativa, tomando conta do noticiário.
12:12E por aqui é o tema político e a questão da retaliação que o Brasil vai fazer
12:16com relação a essa tarifa anunciada pelo Trump essa semana.
12:19Felipe Corleta, sócio da The Link Investimentos.
12:23Valeu, Corleta, obrigado.
12:24Bom fim de semana para vocês.
12:26Semana que vem tem mais.
12:28Valeu, Turcio.
12:29Um abraço.
12:29Um abraço.
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