00:00Professor Marcos Vinícius de Freitas, eu sei que o professor destacou bem, olha,
00:06BRICS é comércio, comércio, comércio igual a comércio.
00:09Bem, porém, há algumas contradições no campo geopolítico,
00:14não vou falar tanto entre os membros do BRICS,
00:16algumas são evidentes, problemas fronteiriços entre China e Índia,
00:21problemas em certa época entre Rússia e China,
00:24hoje é um pouco até esquecido, mas teve problema,
00:26me recordo, lá em 1969, por exemplo,
00:30mas eu queria colocar o professor o seguinte,
00:33todos falam que vai chegar o momento que a província rebelde,
00:38Taiwan, para o governo de Pequim, vai ter de fazer parte do território da República Popular da China,
00:46lembrar que a República Popular da China foi proclamada 1º de outubro de 1949,
00:51com a tomada de Pequim, e Chiang Kai-shek, do Comitang,
00:54vai para Taiwan, Formosa, e ali, durante um longo período,
00:59era considerado a China, Taiwan era considerada representante da China,
01:04porém, a partir da célebre visita de Nixon à China,
01:08tudo mudou antes, pelo seu enviado, que depois vira secretário de Estado,
01:13Henrique Kisser, estabelece as relações mais à frente entre China e Estados Unidos,
01:19lembrando que o Brasil estabelece relações com a China,
01:22antes de, oficialmente, os Estados Unidos estabelecer relações com a China,
01:26só para lembrar a importância do pragmatismo responsável, que eu me lembrei agora.
01:31Professor, Taiwan não é pouca coisa,
01:34ela tem uma importância econômica muito grande,
01:37e há todo um simbolismo,
01:39mas o governo chinês, a todo dia, faz atividades militares próximas,
01:43tem problema com as Filipinas também, de algumas ilhas e tal,
01:46mas Taiwan é um cerne da questão, é uma província rebelde.
01:49E aí?
01:50E se o governo chinês, em certo momento,
01:52resolver enfrentar os poderosos aliados de Taiwan,
01:57especialmente os Estados Unidos, e ocupar Taiwan,
01:59o que pode acontecer?
02:00Eu sei que nós estamos no exercício de futurologia,
02:02mas que cenários são possíveis disso?
02:05Ou isso não se coloca?
02:07Eu posso só fazer uma digressão no Mercosul e já entra na questão?
02:10Claro, claro, como não?
02:11Eu sempre digo, e muita gente sempre me critica,
02:13mas eu acho que o Mercosul tinha que dar um passo atrás,
02:16virar uma área de livre comércio,
02:17cada um fazer o que quiser,
02:19ter um acordo de comércio entre si,
02:21para que cada um tenha a liberdade de fazer um acordo comercial.
02:25O Uruguai queria fazer com a China,
02:26o Brasil tem a liberdade de fazer.
02:28Porque essa história de negociar em bloco
02:30tem sido um impeditivo para que o bloco cresça.
02:35Claro que o Brasil usa isso como desculpa
02:37para não tomar algumas medidas que são necessárias
02:40para se desenvolver ou para ampliar
02:43e tirar esse protecionismo que é característico do Brasil.
02:48Então, os argentinos fazem a mesma coisa.
02:49Então, eu acho que tinha que dar um passo atrás,
02:52falar, olha, que tentamos o mercado comum,
02:54não deu certo, vamos voltar aqui numa área de livre comércio
02:56e vamos em frente que vai ser melhor para todo mundo.
02:58Eu acho que isso é importante.
03:00Até porque o acordo com a Europa,
03:02duvido que saia nos próximos 20 anos,
03:04justamente porque os europeus entendem que
03:07comida é um assunto estratégico,
03:10não um assunto comercial.
03:11Então, isso muda muito na dinâmica
03:13de como poderia o bloco funcionar.
03:16Agora, a questão de Taiwan, eu sempre falo,
03:18o nome oficial de Taiwan é República da China.
03:21Nunca se pretendeu que houvesse
03:24uma separação entre a China continental e Taiwan.
03:29O objetivo do Kuomintang
03:31era justamente de transferir o governo
03:33que estava em Beijing temporariamente para Taiwan.
03:36Então, esta ideia separatista
03:39que nós observamos e que existem grupos separatistas
03:43que atuam dentro de Taiwan
03:44vem muito insuflada também pelo Ocidente
03:48no sentido de querer transformar Taiwan
03:50numa pedra de tropeço chinês
03:53para a China continental.
03:55Mas os chineses são muito claros.
03:57Taiwan é parte da China.
03:58É como se, por exemplo,
03:59durante o último pleito eleitoral brasileiro,
04:03o presidente que não foi eleito
04:05mudasse para Fernando de Noronha
04:08e dissesse, não, aqui é o Brasil agora
04:10e eu sou independente.
04:12E olha vocês, aí nós recebemos
04:13apoio dos Estados Unidos.
04:15É uma carta do presidente dos Estados Unidos
04:17apoiando, né, que aquela ali é o Brasil.
04:20E o Brasil não acha, não pode fazer nada
04:22porque tem o apoio dos Estados Unidos.
04:23Então, a gente entende que a situação
04:25como o Ocidente prega é ridícula
04:27nesse processo histórico
04:29de querer criar este conflito com a China.
04:33Itaio tem uma posição estratégica
04:34também muito importante.
04:36A semelhança de o que Cuba é
04:38ali no Golfo do México,
04:40que agora eu já não sei como é que eu chamo, né, professor?
04:42Chama o Golfo da América,
04:44Golfo dos Estados Unidos, Golfo do Texas,
04:46não sei o nome, né,
04:47que os geógrafos agora utilizam
04:50ao se referirem ali,
04:51mas há que se lembrar que quando
04:53os russos pretenderam colocar
04:56mísseis em Cuba,
04:59os norte-americanos quase fizeram
05:00uma terceira guerra mundial.
05:03Agora, para o comércio internacional,
05:06é importante que a China
05:08consiga desenvolver o seu comércio.
05:10Porque uma das coisas que nós nos lembramos
05:12das duas guerras do ópio
05:13é que os ingleses basicamente fecharam
05:16o acesso também àquela região
05:19e, com isso, os chineses não têm locomoção.
05:22Não podemos esquecer que a locomoção da China
05:24se dá pelo Pacífico,
05:26pela costa leste do país.
05:28Então, esta é uma área fundamental
05:31de relevância e importância estratégica.
05:36É a mesma coisa que a Ucrânia.
05:38Só que a gente, no Ocidente,
05:40vai querendo tomar esses passos,
05:42fazer guerra preventiva,
05:44dizer que existe a iminência de atacar,
05:46e aí nós criamos toda essa situação complexa.
05:50Agora, o Estreito de Taiwan
05:51é um processo de incorporação
05:56ou de reincorporação à China continental,
06:00que pode não acontecer no governo
06:01do presidente Xi Jinping,
06:03mas é alguma coisa que,
06:04como os chineses têm aquela famosa
06:06paciência histórica,
06:08é só observar o que aconteceu em Hong Kong.
06:11Eles esperaram, no relógio,
06:14aos 99 anos,
06:16quando deu,
06:17resolveram a situação sem uma bala.
06:21E é isso que os chineses não querem fazer
06:23justamente em Taiwan.
06:24Não haverá ali a impressão que nós temos,
06:26a não ser que esses grupos
06:27continuem com essa tentativa
06:32de transformar em maior independência,
06:34que poderiam criar problemas.
06:36Mas, baseado naquilo que a gente viu na Ucrânia,
06:40depender dos Estados Unidos e dos do Ocidente
06:42para dar ajuda
06:44num momento de conflito militar
06:47é meio complicado.
06:49E pegando...
06:50Claro, claro.
06:50O professor Marcos tocou até num ponto importante,
06:53porque a China,
06:54como uma civilização milenar,
06:56não tem pressa
06:57em relação à reincorporação de Taiwan.
07:00Apesar de existirem algumas estimativas
07:03de altos escalões militares dos Estados Unidos,
07:08dizendo que a probabilidade
07:10de uma guerra entre americanos e chineses
07:13acontecer em torno de Taiwan
07:15até 2030 é bastante alta.
07:17A bem da verdade
07:18é que os Estados Unidos
07:20me parecem ansiosos por essa confrontação.
07:23Porque uma guerra direta com a China
07:25seria uma forma de você
07:26enfraquecer um competidor internacional.
07:28até um dos dados
07:30que o professor Marcos também trouxe
07:31é de que a China já é a primeira economia do mundo
07:33em termos de paridade de poder de compra.
07:36E os gastos militares da China hoje
07:38representam 35% dos gastos militares
07:41dos americanos,
07:42que o Trump prometeu chegar agora
07:44a mais de um trilhão de dólares,
07:46a primeira nação a gastar
07:47um trilhão de dólares
07:49em armamentos e defesa.
07:51E essa preocupação dos americanos com a China
07:53e a administração Trump,
07:55ela tem essa ênfase
07:57num antagonismo geopolítico com esse país,
08:00acaba se transferindo para os BRICS.
08:02Porque os BRICS, para os Estados Unidos,
08:04é considerado como um grupo
08:05liderado pela China,
08:07que é vista pelos americanos
08:08com esse ar de competição.
08:11Só fazer uma notinha de rodapé bem aqui,
08:14que ele falou e ele mencionou.
08:16O mesmo pessoal que fala
08:17que a China vai atacar Taiwan em 2027,
08:21vai alterando a data.
08:23é o mesmo grupo que praticamente
08:24diz que a China chegou no seu ápice
08:26como economia faz seis vezes.
08:28E que a China vai começar o seu declínio.
08:31Faz seis vezes que profetizaram
08:33que isso iria acontecer com a China.
08:35Então é o mesmo grupo,
08:36nesse sentido de querer desestabilizar
08:38o progresso que a China tem tido
08:40nos últimos anos.
08:41Que é visível, né?
08:42Que é visível.
08:43Eu vou passar para a professora Juliana
08:45só para fazer uma observação.
08:48Nos Estados Unidos tinha um estudo,
08:52uma cadeira chamada Sovietologia,
08:53sobre a União Soviética.
08:55E todas as previsões,
08:56ou todas erradas,
08:57sobre o fim da União Soviética,
08:58não acertaram uma do processo histórico
09:01como ocorreu.
09:02Com a queda no Muro de Berlim
09:03de forma súbita,
09:04quem imaginaria que no dia 9 de novembro
09:06de 1989 cairia o Muro de Berlim.
09:09E dois anos depois,
09:11no Natal de 1991,
09:13o fim da União Soviética.
09:14Foi uma grande surpresa.
09:16Então tudo aquilo
09:16era uma grande,
09:17numa linguagem mais vulgar,
09:19uma conversa fiada, né?
09:20Porque os acadêmicos não entenderam
09:23o que estava acontecendo na Europa,
09:24e tal, especialmente na União Soviética.
09:26Professora Juliana,
09:27justamente pegando esse gancho do...
09:29Certo, mas a gente falou do Mercosul.
09:31O professor Marcos Vinícius também lembrou.
09:33O Mercosul tem futuro.
09:34É melhor que seja uma união comercial.
09:36Por exemplo, foi lembrada a questão do Uruguai.
09:38Uruguai tem insistido,
09:39e não é de hoje,
09:40de ter um acordo,
09:41um acordo bilateral com a China,
09:43se não me engano, né?
09:44E teve problemas na indústria de papéis,
09:46as fapeleiras com a Argentina,
09:48um tempo atrás.
09:50E como é que fica isso?
09:51Não é melhor a gente repensar o Mercosul?
09:53Não é extinguir o Mercosul,
09:55mas repensá-lo?
09:56Eu concordo muito com o professor Marcos
09:58nessa história de que
09:59talvez o Mercosul tenha que realmente
10:00dar um passo atrás, né?
10:02Eu acho que a pergunta,
10:03talvez, nesse momento,
10:04é o quanto que os signatários do Mercosul
10:07desejam e entendem essa dinâmica
10:09de dar um passo atrás, né?
10:11Porque, claro,
10:12para países como o Brasil,
10:14seria interessantíssimo
10:15a gente ter menos apego ao bloco, né?
10:18O Brasil fica muito
10:19numa posição muito vendida, né?
10:21De ter que encabeçar, muitas vezes,
10:24parte dessas negociações.
10:26Pela própria relevância que tem,
10:28inclusive, com outras nações.
10:29Então, acho que seria realmente importante
10:31que a gente tentasse mudar
10:32a essência do bloco, né?
10:34Eu acho que do jeito que está,
10:35a percepção que me vem
10:37é que o Mercosul vai ficar eternamente
10:39dentro desse desenho.
10:41E que não é bom para a gente.
10:42Não é bom, na verdade, para ninguém, né?
10:44Os países gostariam, certamente,
10:46de ter mais liberdade
10:47para fazer as negociações,
10:48ao invés de ficar barrando
10:50negociações que são multilaterais
10:51ou que são feitas junto ao bloco
10:53e que trazem, realmente,
10:55custos expressivos para a gente, né?
10:57E o custo aqui não é necessariamente
10:59um custo econômico direto,
11:00mas é o que a gente deixa de fazer, né?
11:02A gente vê países do Mercosul
11:03perdendo um tanto de uma possível
11:06inserção em outros mercados,
11:08não que tenham hegemonia,
11:09mas que, certamente,
11:10poderiam estar numa posição muito melhor.
11:12Então, acho que a gente realmente,
11:13a gente se perdeu nessa essência
11:16do Mercosul ao longo do tempo, né?
11:18Inúmeras características,
11:20inúmeras coisas aconteceram,
11:24cenários foram sendo desenhados para isso,
11:26né?
11:27As inúmeras crises, né?
11:28Aqui no Cone Sul,
11:30especialmente na América Latina,
11:32favoreceram muito, né?
11:33Esse desenho que o Mercosul tomou até hoje,
11:36mas, certamente,
11:37a gente perde muita oportunidade.
11:39que vocês também já falaram Lawrence,
11:57a gente tem que prender a bolinha de tela,
11:57né?
11:58E aí
11:59é o meu apartamento.
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