00:00Segundo a agência de classificação de risco Austin Rating, o produto interno bruto brasileiro teve o quinto melhor desempenho no primeiro trimestre de 2025 em relação aos últimos três meses de 2024.
00:12Esse ranking leva em consideração os 49 países que já divulgaram o resultado do PIB no período. A gente tem alguns deles aqui, os dez primeiros.
00:21Na frente do Brasil estão Irlanda com um crescimento de 3,2%, Islândia 2,7%, Hong Kong 1,9%, Taiwan com 1,8% de crescimento.
00:36Nesse ranking, a China aparece em sétimo lugar com um avanço de 1,2%.
00:41Apesar do resultado do PIB no primeiro trimestre ter ficado ligeiramente inferior ao projetado pelo Ministério da Fazenda,
00:49a Secretaria de Política Econômica da Pasta manteve a projeção de crescimento de 2,4% para a economia brasileira nesse ano.
00:58Em nota, a Secretaria informa que a projeção segue inalterada por causa da resiliência que vem sendo observada tanto no mercado de trabalho como de crédito.
01:09Eu vou conversar com o Alberto Azental mais uma vez.
01:12Alberto, a gente viu que o resultado do PIB foi puxado pela agropecuária. Agora, esse desempenho é sustentável?
01:18Cris, mais ou menos, quando chega o primeiro trimestre, sempre tem essa sazonalidade onde o agro vem forte.
01:28E aí todo mundo fala, não, o agro que puxa a economia brasileira, o agro que puxa o PIB.
01:35E não é bem assim, porque, na verdade, quando você tem esse crescimento do agro, ele se dá em geral no primeiro trimestre,
01:43depois ele meio que some no segundo, no terceiro e no quarto trimestres.
01:48E o agro, se no primeiro trimestre o PIB, como você mencionou, foi de 3 trilhões de reais,
01:57o agro representou 233 bilhões, quase 8%.
02:02Então, assim, o crescimento do agro, ele depois some nos outros trimestres e ele representa a parte menor daquilo que é o total.
02:14E só para, vamos falar de 12 meses, em 12 meses cresceu 3,5% o PIB.
02:20E se você pega de março para trás, o agro subiu 1,8% desse 3,5%, indústria 3,1% e serviços, que representa 70% do PIB, 3,3%.
02:33Então, na verdade, se falar muito do agro no primeiro trimestre, mas depois se esquece um pouco dele.
02:39Obrigada.
02:40Eu quero falar sobre isso também com o Vinícius Torres Freire.
02:42Vinícius, o PIB vem nesse ritmo forte.
02:46Na sua visão, vai continuar assim?
02:48Eu acho que não, mas vamos começar pelo lado bom, para variar.
02:54A gente está com a taxa de crescimento em quatro trimestres, em um ano, de 3,5%.
03:00É o que a gente viu com os dados que foram divulgados hoje pelo primeiro trimestre.
03:03Quer dizer, em um ano a gente cresceu 3,5%.
03:06No ano todo passado, a gente cresceu 3,4%.
03:09Então, a economia brasileira deu uma aceleradinha.
03:12Está forte, num nível muito alto e a gente está crescendo.
03:15No ritmo do PIB e no ritmo da renda per capita, num andamento que a gente não via desde 2011.
03:24Faz 14 anos.
03:26Então, a gente voltou a ter algum crescimento.
03:28Agora, olhando lá os números do PIB, tem alguns problemas que indicam que a economia estava,
03:33vamos dizer assim, estressada, um pouco no limite.
03:36Primeiro, a gente está vendo esse limite porque a gente está vendo inflação.
03:39E outro, pelo PIB, a gente nota que a economia está estressada porque está aumentando o déficit externo de bens e serviços.
03:48Não é só bens, aquela balança comercial de que a gente fala frequentemente aqui.
03:52Quer dizer o quê?
03:52A economia brasileira está tendo de comprar mais no exterior para satisfazer a necessidade de investimento, matéria-prima.
03:59Quando a gente compra mais lá fora, tudo bem até um certo limite.
04:03Depois de um certo tempo, o déficit externo causa algum problema.
04:07E a gente está chegando perto desses limites.
04:09A economia brasileira chegou a crescer agora 3,5%, mas está estressada e a gente vê dois sinais em dois termômetros.
04:16Inflação e déficit externo crescendo.
04:19Importação crescendo muito.
04:20Em vez de a gente comprar aqui, a gente está comprando lá fora porque não tem aqui, por falta de quantidade ou de qualidade.
04:26Então, a gente tem que fazer o quê?
04:28Dar uma paradinha, que é o que o Banco Central está tentando fazer, para a inflação cair, o ritmo voltar a um nível mais baixo,
04:35para ver se a gente faz mudanças relevantes para a gente poder crescer nesse ritmo forte por mais tempo.
04:41É claro que ele já vem forte desde 2022.
04:44Já vai para quase o quarto ano.
04:47Mas agora vai ter que dar uma parada e é provável que no segundo semestre a gente veja um ritmo muito menor,
04:53até porque a taxa de juros subiu muito.
04:55Mas até agora o desempenho está melhor e a gente não via desempenho tão bom assim.
05:00Faz 11 anos, vamos repetir.
05:04Desde 2011, que você falou.
05:0711.
05:07Não é isso?
05:08É.
05:09Bom, vamos conversar agora com a economista Zeyna Latif, sócia da Gibraltar Consulting.
05:14Zeyna, boa noite para você.
05:16Que bom ter você aqui com a gente nesse dia.
05:18Eu quero começar falando da notícia mais recente, que é Mouris, que rebaixou a perspectiva de rating do Brasil, de positiva para estável.
05:26Isso é relevante na sua visão, Zeyna?
05:29Olha, não deixa...
05:31Cris, boa noite.
05:32Boa noite a quem nos acompanha.
05:33É um prazer estar com vocês.
05:34Cris, não deixa de ser relevante, porque afinal tem repercussão política também.
05:39Mas eu vejo esse movimento da Mudes muito mais como uma correção de uma decisão no ano passado muito precipitada de elevar a nota do crédito e colocar com perspectiva positiva.
05:51Então, enquanto a gente via uma piora da perspectiva do risco fiscal, quer dizer, uma percepção de aumento de risco fiscal, nós fomos surpreendidos com a melhora da nota do Brasil.
06:03Então, colocar em perspectiva estável agora, de certa forma, é reconhecer que houve um otimismo exagerado lá.
06:09É claro que a gente sabe que uma variável chave para um país conquistar o investment grade, para um país ter uma nota de crédito maior, é a perspectiva de crescimento.
06:19A gente fala muito de fiscal, fiscal, fiscal, mas país quando está crescendo ajuda a conter um pouco o risco fiscal.
06:26E eu acho que lá atrás teve esse peso.
06:28A gente estava vindo ali com surpresas com o crescimento do PIB desde 2021.
06:352020 foi um ano muito atípico, mas enfim, com certeza desde 2021 a gente tem tido surpresa e acho que isso gerou esse otimismo.
06:42Mas se fechou os olhos para um risco fiscal muito elevado, muito crescente, que vai dar muita dor de cabeça para um próximo presidente da República.
06:50Então, é isso. Eu vejo, tem repercussão política, mas era uma coisa que, de certa forma, eu não vou dizer que era esperado, mas é só uma correção de rumo.
07:02Vou passar para a pergunta dos nossos analistas. Vamos começar pelo Alberto Azental. Alberto, por favor, fica à vontade.
07:07Zena, boa noite. Falou-se muito nesse PIB pelo lado da demanda, agro, indústria, serviços.
07:17Mas o que mais me chamou a atenção, desculpa, pelo lado da oferta, o que mais me chamou a atenção pelo lado da demanda,
07:24em especial a formação bruta de capital fixo, um aumento de 8,8%, 536 bilhões, e que subiu para 17,8% do PIB.
07:36Queria que você comentasse um pouco sobre isso.
07:40Olha, tem a notícia boa, a notícia ruim. Uma parte desse aumento da formação bruta tem a ver com plataformas,
07:47que a gente teve ali, um movimento em fevereiro, principalmente, que acaba inflando um pouco artificialmente a formação bruta.
07:54Mas o que não quer dizer que a gente não tem uma tendência de recuperação de investimento da economia.
07:59Ela está acontecendo, sim. A taxa de juros mais elevada, a política monetária mais apertada, tende a desacelerar?
08:08Sim. Mas não quer dizer que a gente vai ter uma queda de investimento.
08:12O papel da política monetária é isso, é desacelerar a economia.
08:16Quando a gente olha os momentos que a gente teve queda para valer do investimento, da formação bruta de capital,
08:22é porque tinham outras crises acontecendo. Ou era a crise internacional, ou era a pandemia, ou a própria crise política,
08:30ali com todos aqueles escândalos de corrupção que fez despencar o investimento no país.
08:36Então, sim, tem uma perspectiva positiva. Vai continuar crescendo, ao meu ver, ainda com desaceleração.
08:46Então, você vê que assim, copo meio cheio, copo meio vazio, ainda que tenha tido esse fator artificial, vamos dizer assim,
08:53nesse resultado do primeiro trimestre. Mas o quadro não é um quadro ruim.
08:56A gente sabe que o desafio que tem o país para aumentar investimento é enorme.
09:02Quando a gente olha a taxa de investimento em relação a países parecidos, a gente leva uma surra, é claro.
09:09Mas aí não é só a taxa de juros. A gente está falando de ambiente de negócios muito difícil, insegurança jurídica.
09:15É uma agenda que o Brasil precisa abraçar para a gente conseguir acelerar investimento no país.
09:22Zeina, eu já passo para o Vinícius, mas só pegando aqui um gancho, esse resultado veio um pouquinho abaixo do esperado.
09:28Eu queria entender por quê. E a gente viu que, de qualquer maneira, a projeção de crescimento do Ministério da Fazenda
09:35foi mantida em 2,4% para a economia esse ano. Isso está dentro do que você... são os números que vocês estão trabalhando também?
09:44Olha, Cris, a gente começou o ano com projeção do PIB para este ano de 2%.
09:51Pessoalmente, eu achava muito conservadora.
09:55Eu acho que tem uma resiliência da economia e essa resiliência, uma parte são os estímulos do governo, mas não é só isso.
10:03É um país que voltou a fazer reforma estrutural desde 2016.
10:07Esse é um tema, esse é um debate entre os economistas.
10:09O quanto das surpresas do PIB são fruto de fatores pontuais, como estímulos fiscais,
10:17e o quanto é de um país que vai ganhando musculatura depois de uma grave recessão.
10:21E eu não estou falando da pandemia, eu estou falando da recessão entre meados de 2014 e 2016.
10:26Quer dizer, um país que ficou dois anos em recessão e começa a ter uma recuperação estrutural em função das reformas.
10:34Mal comparando, assim, o Brasil, dois anos em recessão, quer dizer, um paciente que estava na UTI,
10:39quando sai, sai, sai fragilizado, mas aí com as reformas a gente vai ganhando de novo musculatura.
10:44Então, eu tenho uma visão positiva por esse aspecto.
10:47Acho que parte da resiliência da economia é fruto de fatores que não são tão pontuais assim.
10:56Mesmo o agro, as pessoas falam, ah, mas é o agro que puxou e tal.
11:00Escuta, não é só clima, é um setor que tem ganhos de produtividade fortes todo ano,
11:07que permite o Brasil se inserir nas cadeias globais.
11:10Isso não é fruto de clima só, é fruto de investimento, de inovação, de ganhos de produtividade.
11:17Então, a gente tem que pôr na conta, sim.
11:20Agora, especificamente em relação a esse valor, esse trimestre um pouco abaixo da expectativa do mercado.
11:26Isso faz um pouco, faz parte, veja que é abaixo da expectativa do mercado,
11:32mas depois que o mercado já tinha todas aquelas leituras mensais do PIB do Banco Central.
11:38Se a gente pensa no que era a expectativa para o primeiro trimestre,
11:43antes do jogo começar, vamos dizer assim, antes de ter essas informações,
11:48eram perspectivas mais modestas.
11:49É que depois os analistas vão calibrando as suas projeções em função desse dado do Banco Central,
11:56que é mensal, e aí, claro, agora ficou um pouco abaixo.
12:00Está pouco abaixo agora, mas acima do que se esperava três meses atrás.
12:05Vamos passar para o Vinícius Torres Freire.
12:07Vinícius.
12:07A minha questão era justamente sobre potencial do Brasil.
12:12Até 2022, pelo menos, até 2023, se dizia que o potencial de crescimento da economia brasileira
12:19sem inflação, sem estresse, era alguma coisa entre um e meio, no máximo dois, e olhe lá.
12:24Aí a gente vê 22, 23, 24 com crescimento além de três.
12:29Agora que a gente vai dar uma desacelerada, a perspectiva de dois ou até 2,4,
12:34como diz o Ministério da Fazenda.
12:35Bom, aumentou o potencial, ou a gente vai ter um problema fiscal tão grande
12:39que, pelo menos a partir de 2027, que a gente vai dar com a cara no muro de novo
12:45e vai ter um crescimento menor e a gente vai para um outro patamar?
12:49Mudou o potencial?
12:50A gente estava enganado e a gente não estava entendendo direito
12:53que a economia brasileira pode crescer um pouquinho mais?
12:55Nem é tanto assim, mas é um pouco mais?
12:58Eu acho que a gente tem um potencial um pouco maior, sim.
13:01Eu acho que algo próximo de dois, dois e meio, a FMI tem dois e meio.
13:08Eu acho que é um número justo, mas como você mesmo colocou,
13:11a gente está crescendo a três e meio.
13:14Então é claro que tem um pouco de cada aí do que você falou.
13:18Uma coisa é, o Brasil vai ganhando musculatura, vai ganhando potencial?
13:23Sim, desde 2016 a gente está fazendo reformas.
13:25Muito mais lento do que a nossa necessidade?
13:28Muito mais lento, mas tem reforma.
13:30Entra presidente, sai presidente, presidentes totalmente diferentes um do outro,
13:34mas as reformas estão vindo.
13:35Isso é um fator importante.
13:37Claro que a gente precisa acelerar e o próximo vai ter que entrar na questão fiscal,
13:41porque não se sustenta o que a gente tem.
13:43O atual governo fez uma escolha política de priorizar a reforma tributária,
13:49que foi um acerto, mas gerou retrocessos na agenda fiscal.
13:52Então, assim, não tem jeito, tem um encontro marcado.
13:57O próximo presidente, em 2027, a gente já sabe, pelos próprios dados do governo,
14:04que 2026 tem um rombo potencial enorme e o risco de ter que parar a máquina,
14:11que a gente sabe que no Brasil isso é inviável.
14:142027 quadro é ainda muito mais grave, então tem um encontro marcado.
14:18Eu espero que o ajuste fiscal seja um tema do debate, minimamente.
14:24A gente não pode fugir desse quadro.
14:27Então, é isso, é o meio do caminho.
14:29Um pouco é potencial, sim, mas tem uma questão fiscal que nos desafia.
14:35E não é missão para um presidente só.
14:37A gente sabe, vai ter que ser um passar o bastão para o outro.
14:39Quer dizer, tem que ter perspectiva.
14:41Isso é importante, porque às vezes as pessoas falam assim,
14:44ah, mas não tem como fazer um ajuste fiscal de 3% do PIB,
14:49de 2% do PIB da noite para o dia.
14:51Claro que não.
14:52Mas a gente precisa enxergar a agenda para isso.
14:54Olha, a garantia de que um presidente vai começar,
14:57o outro vai continuar,
14:59nesse esforço para conter o crescimento das despesas.
15:04Zaina, muito obrigada.
15:05É sempre bom demais te ouvir.
15:07Volte mais vezes.
15:08Bom fim de semana para você.
15:10Foi um prazer.
15:10Até uma próxima.
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