00:00O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que adiou a imposição de tarifas de 50%
00:06sobre produtos da União Europeia que antes estavam previstas para o dia 1º de junho.
00:10Essa medida reduz um pouco a tensão no comércio internacional, mas ainda gera incertezas.
00:16Para falar sobre o assunto, eu converso agora com o Roberto Giannetti da Fonseca,
00:19que é economista e ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil.
00:23Bom dia, boa tarde já, né, professor? Seja bem-vindo aqui ao Real Time.
00:27Boa tarde, é um prazer estar com vocês.
00:29Bom, desde o começo era difícil a gente imaginar que uma tarifa de 50% sobre a União Europeia prosperasse.
00:36Esse estilo de negociação do Trump já não está ficando previsível demais?
00:41Sim, não há dúvida. Está não só previsível como absolutamente inócuo,
00:46porque a leitura desse comportamento está entrando já em desgaste.
00:53É evidente que todos os negociadores estão vendo que é insustentável a imposição de tarifas tão elevadas
01:00quanto ele...
01:01Quando ele coloca essas tarifas, ele, evidentemente, sabe que isso é puramente objeto negocial.
01:14Não tem como sustentar isso a longo prazo.
01:17No caso da União Europeia, afeta basicamente a indústria automobilística, a indústria de alimentos,
01:25a indústria de alto luxo, cosméticos e alta costura, perfume, essas coisas,
01:30essas marcas tradicionais, especialmente da França e da Itália,
01:33e traz mais um elemento recessivo para a economia europeia que já não anda bem.
01:41Então, de fato, acho que vamos ver os próximos capítulos,
01:46mas eu acho que até 9 de julho ele vai ter que chegar a um acordo com a União Europeia
01:50para fazer tarifas muito mais baixas e não vai conseguir dobrar tanto a União Europeia
01:58quanto ele provavelmente imagina.
01:59Agora, a União Europeia tem uma desvantagem em relação à China nas negociações,
02:04caso o Trump endureça e coloque tarifas, pelo menos, temporárias, altas,
02:09porque a China mostrou uma paciência incrível para fazer negociação,
02:16coisa que a União Europeia imagino que tenha mais dificuldade para fazer
02:19porque tem uma sociedade que cobra mais os governos,
02:22mesmo se for um prejuízo de curto prazo, vamos dizer, por exemplo,
02:27para a indústria vinícola ou para a indústria automotiva,
02:30isso vai gerar um ruído muito maior do que geraria na China, por exemplo.
02:34Não há dúvida.
02:35Acho que a China teve uma sabedoria milenar nessa negociação,
02:39manteve-se fria,
02:42o Trump anunciava que estava querendo abrir diálogo,
02:45esperando um telefonema,
02:46esperou sentado,
02:48não houve esse telefonema,
02:49nunca houve uma reação da China,
02:51até que os ministros resolveram se encontrar.
02:54E aí a China impôs,
02:56olha, para mim,
02:58se vocês quiserem manter essas tarifas,
03:01nós seguimos em frente,
03:02senão vocês voltam para 2 de abril
03:04e a gente continua a falar.
03:06E eles voltaram para 2 de abril,
03:07acabou ficando realmente no nível dos 10%,
03:10alguns produtos com um pouco mais,
03:13mas basicamente a China ganhou o jogo.
03:15E acho que deu realmente um exemplo,
03:20uma referência de frieza e pragmatismo na negociação.
03:26Eu falei da União Europeia,
03:28da dificuldade que países democráticos têm,
03:31com imprensa livre,
03:32com pressão de vários setores organizados da sociedade sobre os governos,
03:38mas isso também é um problema para o Trump,
03:39porque a gente vê pesquisas recentes
03:41mostrando que mesmo entre eleitores do Trump
03:44há um descontentamento com essa política comercial dele.
03:47Algo que é difícil até a gente ver,
03:50porque o Trump tem ali um núcleo duro de apoio
03:53que já ficou passivo diante de coisas
03:56que o resto do eleitorado considerava inaceitáveis.
03:59No caso da guerra comercial,
04:01quando a gente já está vendo consequências imediatas
04:03para a economia americana,
04:04ameaça de aumento de preços,
04:06mesmo os eleitores do Trump aí não ficam muito contentes,
04:10porque pagar mais por coisas que eles costumavam
04:13a ter muito facilmente na mesa ali
04:15não é algo que agrade ninguém.
04:18Exatamente.
04:19Eu acho que essas medidas,
04:21eu falo isso desde o início,
04:23elas têm como principal vítima
04:25o próprio consumidor americano,
04:27a população americana,
04:28que eles vão pagar mais caro pelos produtos importados
04:31e esses produtos são produtos,
04:33alguns insubstituíveis,
04:35não é que tem algum concorrente americano
04:38no dia seguinte para pôr na prateleira,
04:40ao contrário,
04:41eles vão precisar anos,
04:43se é que algum dia serão produzidos nos Estados Unidos
04:46na mesma situação de preço e qualidade
04:49e, além do mais,
04:51ele traz também um efeito recessivo nos Estados Unidos.
04:54Ao invés de gerar emprego,
04:56ele está destruindo empregos,
04:57porque toda a cadeia de valor
04:59das distribuidoras,
05:02importadores,
05:03lojas,
05:04supermercados,
05:05estão ficando desabastecidos
05:07ou estão colocando produtos europeus e asiáticos
05:10muito mais caros
05:12por causa da tarifa
05:13e isso reduz o consumo
05:15e eles têm prejuízo,
05:17não têm o mesmo resultado que tinham
05:19com esses produtos ao longo de tantos anos.
05:21Então, é um perde-perde,
05:24perde os Estados Unidos,
05:26perde os parceiros comerciais
05:27e, portanto,
05:29eu acho que é uma idiotice total do Trump
05:32essa tentativa de elevar tarifas
05:34de forma unilateral,
05:36desrespeitando o multilateralismo,
05:39a organização mundial do comércio
05:41e tantas outras coisas.
05:42É uma pena que isso esteja acontecendo
05:45no século XXI,
05:47no ano de 2025,
05:49quando nós deveríamos estar evoluindo
05:50para um livre comércio,
05:52para uma colaboração entre os países,
05:55formação de cadeias produtivas internacionais confiáveis,
05:58ao contrário,
05:59isso é um grande retrocesso.
06:01Como é que o senhor está vendo
06:02a negociação do Brasil com os Estados Unidos?
06:04Está indo muito bem.
06:06Eu acho que temos adotado
06:08uma postura calma,
06:10pragmática também.
06:13Ficamos até numa situação
06:14relativamente privilegiada,
06:16só com 10% de tarifa.
06:18E não que seja para comemorar,
06:20mas é melhor do que os outros.
06:23E acho que estamos também
06:24tendo algumas vantagens
06:26do ponto de vista
06:27de ganho de market share.
06:31porque, por exemplo,
06:33o setor agrícola do Brasil,
06:35o setor do agronegócio do Brasil na China,
06:38a China está tendo uma postura
06:40de transferir
06:41compras de produtos agropecuários,
06:44inclusive carnes e grãos
06:47e outros produtos,
06:48para o Brasil,
06:49ao invés de comprar dos Estados Unidos.
06:52Isso nos traz, então,
06:53algumas vantagens adicionais
06:55que não era previsto que acontecesse,
06:58mas está acontecendo
06:59por conjunção
07:01dessa geopolítica
07:02de menos confiança
07:04nos Estados Unidos.
07:05A imagem dos Estados Unidos
07:07no mundo
07:07ficou bastante arranhada.
07:09Então, todos achando
07:10que a atitude do Trump
07:11foi desleal,
07:13foi agressiva
07:15e continua sendo,
07:17ele todo dia
07:18agride um ou outro país,
07:20isso tem sido muito lamentável.
07:22Quando essa confusão toda começou,
07:24a gente ouvia muitas análises
07:25de que a União Europeia
07:27poderia se sentir estimulada
07:29a fechar logo
07:30um acordo com o Mercosul.
07:31Agora, a gente tem ouvido
07:32outras opiniões
07:34de que esse problemão
07:35que está na mesa
07:36da própria União Europeia
07:37na negociação
07:38com os Estados Unidos
07:39poderia deixar esse acordo
07:40com o Mercosul
07:41em segundo plano.
07:42De que maneira
07:43o senhor está vendo
07:43essa questão?
07:45Eu acho que a leitura
07:46foi precipitada
07:48de que isso faria
07:50estimular o acordo
07:51com o Mercosul.
07:52A meu ver,
07:53a União Europeia
07:53adotou uma postura
07:55mais cautelosa
07:56de não avançar
07:58no que poderia ser
07:59uma espécie de
08:00provocação
08:02ou retaliação
08:02com os Estados Unidos
08:03e esperou avançar
08:05um pouco as negociações
08:06e o nosso acordo
08:08está lá esperando
08:09com muita resistência
08:10na França,
08:11mas com apoio
08:12de Alemanha
08:13e Inglaterra,
08:14não que está fora
08:14da União Europeia,
08:15mas da Alemanha,
08:16dos outros países
08:20ali do leste europeu
08:21que também tem interesse
08:22nesse acordo.
08:23Enfim,
08:24a gente tem aí
08:25um número
08:26de países
08:27que são favoráveis
08:29ao acordo
08:29com o Brasil,
08:30no entanto,
08:31a França
08:31continua resistindo.
08:33Que futuro
08:34que o senhor vê
08:34para a OMC?
08:35A gente soube
08:36que o Trump
08:37nessa negociação
08:38com a Europa
08:38começou até
08:39de sair da OMC.
08:42Pois é,
08:42a OMC
08:43anda muito
08:43desprestigiada
08:44já há um bom tempo.
08:46Quando ainda
08:47estava lá
08:47o nosso amigo
08:48diplomata brasileiro
08:50Roberto Azevedo,
08:51ela tinha
08:52algum prestígio,
08:53alguma relevância.
08:57Mas nos Estados Unidos
08:58foi boicotando
08:59cada vez mais
09:00a OMC,
09:01tirando inclusive
09:02força do
09:03órgão de
09:04solução de
09:05controvérsias,
09:06que é um organismo
09:07fundamental dentro da OMC,
09:09que realmente
09:10é onde se resolve
09:11os grandes temas
09:13de conflitos
09:14entre os países
09:15integrantes
09:16da organização,
09:17que são quase todos.
09:18e ali
09:19parou então
09:21numa situação
09:22que a OMC
09:22hoje
09:23está muito
09:25inativa
09:25e passiva.
09:27Você vê que não tem
09:27nenhuma reação,
09:28nenhuma
09:29medida
09:30de nível
09:32multilateral
09:32que possa se
09:33contrapor
09:34ao que o Trump
09:35vem fazendo.
09:36Então,
09:37eu acho que nós
09:38temos que reinventar
09:39a OMC,
09:40revitalizá-la,
09:41dar força,
09:43talvez fazer um novo
09:44acordo
09:44e tentar trazer
09:45os Estados Unidos
09:46de volta,
09:47porque sem os Estados
09:47Unidos,
09:48de fato,
09:49a OMC
09:49fica relativamente
09:50inútil.
09:52Bom,
09:52para a gente finalizar,
09:53eu queria a sua opinião
09:54sobre uma questão
09:54que tem rondado também
09:55no noticiário
09:56ultimamente,
09:56que é a relevância
09:57do dólar
09:58como moeda
09:58internacional.
10:00A gente viu,
10:00por exemplo,
10:01o Trump
10:01expressando um certo
10:02medo de que o BRIC
10:03estivesse no sistema
10:04próprio de pagamento,
10:05ameaçando até
10:06tarifas de 100%
10:07sobre os países
10:08do BRIC
10:08por causa disso,
10:10e também
10:11muita gente falando
10:12já se o euro
10:13seria uma alternativa
10:15ao dólar.
10:15não vamos nem
10:16entrar na questão
10:17das criptomoedas,
10:18como é que o senhor
10:19vê o futuro
10:19do dólar
10:20como a moeda,
10:22digamos,
10:22internacional?
10:24Muito boa pergunta.
10:25Isso foi um tema
10:26que talvez no início
10:27o Trump
10:28tenha subestimado,
10:30de que o dólar
10:31continuava
10:32dominante
10:33e substituível
10:34com esse,
10:36isso que chama-se
10:38uma
10:38posição
10:42muito privilegiada
10:45como moeda mundial
10:46e de repente
10:49começa a haver
10:50países do BRIC
10:51e outros
10:52fazendo,
10:54ensaiando
10:55operações
10:56de moeda local,
10:58cada um
10:58transicionando
10:59nessa moeda
11:00e permitindo
11:02que os fechamentos
11:03de câmbio
11:04sejam feitos
11:05fora daquela regra,
11:07daquele mecanismo
11:08do SWIFT,
11:09que é o mecanismo
11:10internacional
11:10imposto
11:11pelos Estados Unidos
11:12logo depois
11:13do acordo
11:14de Bretton Woods
11:14em 1946
11:15e agora
11:17a China
11:17lança
11:18um novo
11:18mecanismo
11:19muito mais
11:19moderno,
11:20ágil
11:20e muito
11:21mais barato
11:22fazendo com
11:23que o Yuan
11:24também se
11:24sobressaia
11:25entre as moedas
11:26de reserva
11:26no mundo.
11:27Isso coloca
11:28sem dúvida
11:29um desafio
11:30para o dólar
11:31que vai perdendo
11:31a sua
11:32predominância
11:33e muitos
11:35países
11:35já
11:36procuram
11:38diversificar
11:39suas reservas
11:40internacionais
11:41tanto o Yuan
11:42quanto o Euro
11:42tem ganho
11:43essa posição
11:46mais pronunciada
11:48nas reservas
11:49internacionais
11:50e além disso
11:51temos também
11:52países que estão
11:53a própria China
11:54não mais aceitando
11:56acumular dólar
11:57mas tentando
11:57comprar ouro
11:58e comprando ouro
12:00o ouro está
12:00a mais de 3 mil dólares
12:01a onça
12:02subiu de forma
12:03magnífica
12:04nos últimos meses
12:05por causa disso
12:05se criou uma demanda
12:07do ouro
12:08como uma moeda
12:10de segurança
12:11que o lastro ouro
12:12sempre foi
12:13na história
12:14da humanidade
12:14a grande referência
12:17de valor
12:17para as moedas
12:19internacionais
12:20e agora
12:21nós temos
12:22então
12:22a volta
12:23dessa importância
12:25do ouro
12:25nas reservas
12:26internacionais
12:27de muitos países
12:27e colocando em risco
12:29essa predominância
12:31do dólar
12:31que eu acho
12:32que de fato
12:33é declinante
12:34e nós vamos ver
12:35cada vez mais
12:36países usando
12:36outras moedas
12:37nos fechamentos
12:38de negócio
12:39Roberto Janete
12:40da Fonseca
12:41foi um prazer
12:42falar contigo
12:42aqui no Real Time
12:43boa tarde
12:44boa tarde
12:45um abraço
12:46para vocês
12:46um abraço
12:47e aí
12:51e aí
12:53e aí
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