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  • há 2 dias
O papel fundamental da arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina, na independência do Brasil. Por meio da leitura de cartas pessoais e imagens de arquivo, o filme transporta os espectadores para o Brasil Imperial, apresentando uma Imperatriz forte, à frente de seu tempo e politicamente mais preparada do que muitos imaginavam.
Transcrição
00:00:28A CIDADE NO BRASIL
00:00:30A Leopoldina foi uma mulher forte, foi uma mulher que teve um papel ativo na independência,
00:00:37foi uma grande erudita e que teve uma importância fundamental nas ciências e na arte,
00:00:42em termos do novo império do Brasil.
00:00:45O que significa ela ocupar um lugar que tradicionalmente é um lugar masculino,
00:00:51mas que ela ocupou sendo mãe, ela ocupou sendo esposa, ela ocupou sendo filha,
00:00:57e vivendo todas essas figuras ao mesmo tempo.
00:01:02Ao longo desses últimos 200 anos, a Leopoldina foi totalmente abafada e eclipsada pela Domitila de Castro.
00:01:12É uma história que não faz o menor sentido.
00:01:14Era para todo brasileiro ter orgulho que nós tivemos a primeira regência,
00:01:18a primeira mulher a comandar uma nação no novo mundo.
00:01:23Foi aqui.
00:01:26Querido papai, com a ajuda divina cheguei muito feliz e saudável ao Rio de Janeiro,
00:01:31após uma travessia de 84 dias,
00:01:34da qual me despedi do penúltimo dia com uma tempestade bastante violenta.
00:01:39A entrada do porto é estreita e acho que nem pena nem pincel
00:01:42podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro.
00:02:02O que é que a gente vê que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro.
00:02:17Amém.
00:02:54A Leopoldina, ela nasce em 1797, na Áustria, em Viena, no Palácio Rufburg, no meio do inverno.
00:03:04Ela foi uma arquiduquesa austríaca, criada dentro dessa família, a família dos Habsburgos,
00:03:10que estava no poder há muitos séculos já, que vinha se reinventando a cada vez que mudava o pensamento e
00:03:20a sociedade
00:03:20para se manter sempre no poder.
00:03:23Filha de Francisco I, o rei absolutista, aquela criatura que representava o antigo regime na luta contra Napoleão
00:03:32e contra as ideias liberais, não falemos nem de republicanismo nessa época,
00:03:36mas qualquer monarquia liberal, constitucional, já arrepiava todos os cabelos desse grupo mais absolutista.
00:03:45Lá, se foi uma das cortes mais rígidas da Europa, rígida moralmente falando, tinha hábitos burgueses.
00:03:53Hábitos como, por exemplo, fazer música em família, hábitos como, por exemplo, fazer teatrinho em família.
00:04:01Óbvio que havia uma preocupação, imaginava-se que isso tudo fizesse parte da educação de príncipes e princesas
00:04:08para deixá-los mais à vontade, mais donos da sua própria voz.
00:04:12Leopoldina foi, então, uma aluna aplicada, que visitava hortos, visitava jardins.
00:04:19Isso despertou nela um gosto pelo colucionismo, um gosto por mineralogia.
00:04:25Ela tinha, desde a infância, esse tipo de educação muito voltada para as ciências.
00:04:33Ela desenhava, ela estudou línguas, ela estudou história, ela estudou geografia, ela estudou arte, música.
00:04:39Uma educação típica de uma família real de primeira linha europeia,
00:04:46uma educação no sentido de que você tem que sempre, deverá obedecer os interesses,
00:04:54não do seu coração, não da sua vontade, mas da nossa família e do nosso império.
00:05:02Ela estava sendo preparada para assumir o seu papel como princesa, como rainha, como imperatriz, que foi o caso.
00:05:12E ela nasce no meio de um caos de uma mudança que está ocorrendo na Europa toda,
00:05:17que é as consequências da Revolução Francesa, as consequências dessa mudança de paradigma
00:05:24onde o rei, o imperador, passa a não ser mais essa pessoa enviada de Deus na Terra
00:05:31e passa a poder ter uma mobilidade social que anteriormente não era imaginada antes da Revolução Francesa.
00:05:39Então você tem a ascensão da burguesia, a queda da monarquia na França,
00:05:43começa com a diminuição do poder do Luís XVI da Manentonieta,
00:05:47acaba com eles sendo guilhotinados e com eles toda a grande parte da aristocracia.
00:05:52E a Áustria se envolve na guerra que é desencadeada por causa dessa Revolução.
00:05:58Viena é invadida pela segunda vez pelo Napoleão
00:06:01e ao invés de destronar os Habsburgos, ele faz todo um acordo,
00:06:05onde inclusive está a questão do casamento dele com uma irmã da Leopoldina,
00:06:12a arquiduquesa Maria Luísa da Áustria.
00:06:14É importante lembrar que a tia-avó dela tinha morrido na Revolução Francesa,
00:06:20que é a Maria Antonieta, né?
00:06:21Então os Habsburgos tinham horror ao Napoleão Bonaparte.
00:06:26Eles chamavam, na intimidade lá da família, de a grande besta.
00:06:31A Leopoldina era muito amiga da irmã Maria Luísa.
00:06:34Elas eram missíssimas.
00:06:36E depois, por conta dos interesses da Áustria e da família,
00:06:41Maria Luísa é obrigada a casar com quem?
00:06:44Com a grande besta.
00:06:50Para a gente entender a própria personagem,
00:06:52é fundamental entender esse contexto,
00:06:55que é um contexto muito conturbado.
00:06:58É um contexto de guerra que ela vive.
00:07:00O pai dela é o grande idealizador de uma reação a essa onda revolucionária.
00:07:08A partir da década de 10 do século XIX,
00:07:11onde, depois de grandes comoções de movimentos
00:07:15em nome de constituições, em nome de governos liberais,
00:07:20o pai da Leopoldina, é um momento fundamental
00:07:23de retração desse movimento, ou seja, de conservadorismo.
00:07:28Dentro desse contexto do Concerto da Europa,
00:07:31do Congresso de Viena,
00:07:32você já tem acontecendo os primeiros acordes
00:07:35das primeiras valsas vienenses.
00:07:37A valsa é criada nesse contexto do Congresso de Viena.
00:07:41Tanto que ela vai ser proibida de ser tocada na Inglaterra,
00:07:45porque eles viam isso como uma peça musical.
00:07:47Platão fala isso, tome cuidado com o que vocês escutam,
00:07:52porque tudo é política, tudo pode te envolver.
00:07:54Então, ela está dentro de algo que está borbulhando,
00:07:57que está nascendo, que é essa nova Europa,
00:08:00e que está sendo reconstruída.
00:08:02E nesse Congresso, ela vai conhecer,
00:08:04não apenas grandes testes coroadas,
00:08:07como o Czar da Rússia, o rei de Wurtenberg,
00:08:09o rei da Prússia, como vários diplomatas.
00:08:12Ela tem uma vivência, uma cultura,
00:08:15que é muito grande, não só pela quantidade de carga horária,
00:08:19pela carga horária que ela tinha que ter,
00:08:21mas porque ela se interessava por outras coisas.
00:08:23Ela tinha muitos interesses e bastante curiosidade
00:08:26sobre tudo o que estava acontecendo.
00:08:33Aqui no Rio, a corte portuguesa começa a assistir
00:08:38o crescimento, o desenvolvimento do seu herdeiro, que é Pedro.
00:08:45Então, Pedro teve uma educação, ele teve preceptores também,
00:08:48mas ele viveu um momento muito conturbado
00:08:51durante a sua infância e adolescência.
00:08:53A transferência da família real e a questão toda
00:08:58do que eles viveram, a adaptação ao novo mundo,
00:09:01a colônia e o que se esperava dele.
00:09:04Pedro I é criado, se desenvolve num ambiente
00:09:07muito diferente, vamos dizer assim.
00:09:10O pai morava na Quinta da Boa Vista
00:09:13e a mãe foi morar muito longe do resto da cidade,
00:09:16porque ela tinha um estilo de vida
00:09:18que exigia uma certa, um certo afastamento
00:09:22de vizinhos, assim, curiosos.
00:09:24E Pedro é largado aqui no Rio.
00:09:27Ele, eu costumo dizer que ele é um carioca típico,
00:09:32falava palavrão, dizem que não era muito bem educado,
00:09:35tinha uma veia musical muito, muito rica.
00:09:39E herdou da mãe, da espanhola Carlota Joaquina,
00:09:43um apetite sexual fora dos padrões.
00:09:47Ele começa a ter um comportamento
00:09:48que incomodava a corte portuguesa
00:09:53instalada no Rio de Janeiro.
00:09:54Então, estava na hora de quê?
00:09:57De arrumar um casamento e ele tinha que casar.
00:10:01E os portugueses percebem que, nesse momento,
00:10:04talvez fosse interessante um casamento
00:10:07fora dos padrões normais da família Bragança,
00:10:11que, em geral, casava com espanhola.
00:10:13Além da questão de Portugal estar procurando
00:10:16uma aliança com algum desses grandes impérios
00:10:20que saíram fortalecidos com a queda do Napoleão,
00:10:25ele também queria sair fora da esfera de influência da Inglaterra.
00:10:28Por quê?
00:10:28Porque a Inglaterra estava pressionando
00:10:30pelo fim do tráfico negreiro no Atlântico.
00:10:34Não havia mão de obra no Brasil que não fosse
00:10:37mão de obra negra, mão de obra escravizada.
00:10:39Há quase 300 anos, desde 1530, 50, no mínimo.
00:10:44Então, você já está com uma sociedade
00:10:47acostumada a não fazer nada.
00:10:48Como que vai mudar tudo isso?
00:10:50Então, sendo técnico e não levando em conta
00:10:54a condição desumana disso tudo,
00:10:56na cabeça do Dom João não tinha como
00:10:58encerrar de uma vez só o tráfico atlântico.
00:11:01Então, ele precisava de alguém que,
00:11:02alguma outra nação que fizesse contraponto.
00:11:04Quem que vai se emprestar esse papel?
00:11:05A Áustria.
00:11:06Havia uma possibilidade da Leopoldina casar com o príncipe
00:11:12daquela região ali, do que hoje nós chamaríamos de Alemanha,
00:11:15que na época seria a Confederação do Reno.
00:11:17E tinha essa proposta do casamento com Dom Pedro.
00:11:21E aí, o Francisco I achou que poderia ser interessante
00:11:26essa aliança, não com o Brasil, da Áustria com Portugal.
00:11:30E é claro que também para a Áustria haveria depois interesse
00:11:34em relação também ao comércio e da manutenção de uma monarquia
00:11:39dentro dessa América Republicana.
00:11:42Então, ela escreve para a irmã falando que ela percebeu
00:11:46que o papai queria que escolhesse aquele
00:11:48e como ela acredita que todo mundo é feliz,
00:11:51que Deus abençoa, quem faz o que o pai quer e tal.
00:11:54E aí, acaba resolvendo para o Dom Pedro.
00:11:56Ela diz, numa das cartas, salvo engano, que ela escreve para a irmã,
00:12:00que o melhor que caberia a ela era ir para o Brasil,
00:12:03porque assim ela não seria a eterna mineralogista da corte.
00:12:08Ou seja, significa que ela vai ascender
00:12:10na própria condição que é esperada dela
00:12:14como uma pessoa de uma família real.
00:12:22Viena, 4 de outubro de 1816.
00:12:26Amada, estimada Luísa,
00:12:29o Brasil é um país magnífico e ameno.
00:12:32Terra abençoada que tem habitantes honestos e bondosos.
00:12:36Logo, a Europa estará insuportável
00:12:38e daqui a dois anos posso viver aqui novamente.
00:12:40Mas esteja convicta de que meu maior empenho
00:12:43será corresponder à confiança que toda a família
00:12:46e meu futuro esposo em mim depositam
00:12:48através de meu amor por ele e meu comportamento.
00:12:53Agora estou mais empenhada na música,
00:12:55que é muito apreciada no Brasil
00:12:57e quero aproveitar todas as oportunidades
00:12:59para me tornar popular no meu futuro país.
00:13:02A partir desse momento, ela vai começar a estudar o Brasil.
00:13:05Quando o Marquês de Marialva,
00:13:07que é o diplomata que vai fazer o casamento,
00:13:09chega em Viena,
00:13:10ela já recebe ele falando português.
00:13:14Ela tenta se instruir o máximo possível,
00:13:17porque ela era ciente que ela ia governar aquele país.
00:13:20Então ela tinha que ser uma representante daquele país.
00:13:26Ela vai receber um colar de diamantes
00:13:29e um medalhão,
00:13:32onde tem uma pintura do Dom Pedro,
00:13:34o rosto do Dom Pedro de Marfim,
00:13:35e todo mundo fica escandalizado com a qualidade e o tamanho dos diamantes.
00:13:40Ela só tem olhos para o príncipe encantado, para o Dom Pedro.
00:13:44O retrato do príncipe está me deixando meio transtornada.
00:13:48É tão lindo como um Adonis.
00:13:50Imagina, uma bela e ampla fronte grega,
00:13:53sombreado por cachos castanhos,
00:13:56dois lindos e brilhantes olhos negros,
00:13:58um fino nariz aquilino e uma boca sorridente.
00:14:00Ele todo atrai e tem a expressão
00:14:03eu te amo e quero te ver feliz.
00:14:06Aseguro, te gestou completamente apaixonada.
00:14:09O que será de mim quando vir o príncipe todos os dias?
00:14:18Essa moça muito ingênua, muito católica,
00:14:21que vem para cá,
00:14:23a modéstia era muito valorizada.
00:14:25E o que a Leopoldina viveu?
00:14:26Quando a mãe estava viva e depois com a madraça,
00:14:29foram casamentos felizes dos seus pais e responsáveis.
00:14:34Então ela vinha de uma casa de muito afeto,
00:14:37onde os irmãos eram muito unidos,
00:14:40a figura feminina da mãe,
00:14:42ou da substituta da madrasta,
00:14:44muito afetuosa, cuidadosa.
00:14:47A diplomacia portuguesa movida pelo Dom João
00:14:50fez a Europa acreditar que eles voltariam.
00:14:54Eles vão vender essa ideia de que ela vai casar
00:14:57e ela retornaria em algum momento.
00:15:00Então, nesse retorno,
00:15:02ela provavelmente poderia visitar a sua família.
00:15:05Mas nunca foi de interesse do Dom João retornar para a Europa.
00:15:08Ele queria continuar no Brasil.
00:15:13Então, esse casamento, ele é realizado por procuração.
00:15:18Dizem que é o casamento mais espetacular da história de Viena.
00:15:23Realmente, os relatos são cinematográficos,
00:15:27não sei quantas carruagens,
00:15:29todo mundo superbecado,
00:15:31joias, perucas,
00:15:33uma coisa linda, maravilhosa.
00:15:36Mas os noivos não se conheciam.
00:15:40Se conheciam apenas, como era tradição na época,
00:15:43por um portré, por um retrato.
00:15:46Os jornais colocam que no baile de casamento,
00:15:50desse casamento via procuração,
00:15:52que Leopoldina dançou com esse retrato,
00:15:55abraçada, junto ao peito,
00:15:57o retrato do seu Augusto despojado.
00:15:59E ela viria em 1817 para o Brasil.
00:16:03Custou um pouco a vir em função,
00:16:06alguns dizem que foi em função do luto ainda
00:16:08da Dona Maria I,
00:16:10mas, em verdade, foi um pouco,
00:16:12que ela comenta isso do movimento de Pernambuco.
00:16:15E ela fala,
00:16:17ela usa a expressão
00:16:18de uma terrível revolução em Pernambuco.
00:16:21Então, por uma questão de segurança,
00:16:23ela não viria imediatamente para cá.
00:16:26Então, atrasou um pouco a sua vinda.
00:16:29Ela demora quase três meses para chegar no Brasil.
00:16:31Ela fica muito tempo retida na Itália.
00:16:34e, recentemente, a gente descobriu
00:16:37a documentação da família do Marquês de Marialva,
00:16:41que trouxe a Leopoldina para o Brasil.
00:16:43E a gente achou a prestação de contas.
00:16:46Então, o quanto ele deu de dinheiro para a Leopoldina
00:16:48e o que ela gastou.
00:16:51O que ela mais gasta
00:16:53é num laboratório de mineralogia
00:16:55para trazer para o Brasil.
00:16:58Pouca gente sabe
00:16:59que a Leopoldina também trouxe na sua comitiva
00:17:02a missão científica austríaca.
00:17:05Então, com ela,
00:17:06vieram vários estudiosos
00:17:09dispostos a estudarem
00:17:10a fauna e a flora brasileira.
00:17:14A ideia era fazer comércio.
00:17:15Mas fazer comércio com o quê?
00:17:16Eles não conheciam o país.
00:17:18Então, dentro desse espírito
00:17:19de descobrir a América,
00:17:22então vem essa missão
00:17:23que eles chamam de missão austríaca.
00:17:25Mas você tem italianos,
00:17:27você tem bávaros,
00:17:29você tem várias outras pessoas,
00:17:31tchecos, boêmios, húngaros.
00:17:34O cunhado do pai dela,
00:17:37o rei da Baviera,
00:17:39manda o Spixi Martius para cá.
00:17:41Então, é uma missão germânica, na verdade.
00:17:44E que vai produzir material,
00:17:46levar esse material,
00:17:47e ela vai ser um dos agentes científicos
00:17:50dessa missão.
00:17:51Ela mesma, às vezes, caçava os animais,
00:17:53empalhava esses animais
00:17:55e mandava para a Viena.
00:17:56Em Viena, o pai dela vai manter,
00:17:58durante muitos anos,
00:18:00o Museu Brasileiro de Viena.
00:18:01E a gente tem, ainda hoje,
00:18:03aqui no Brasil,
00:18:04o herbário que ela deixou,
00:18:07que são folhas,
00:18:09flores,
00:18:10frutos,
00:18:11que eles são aquecidos,
00:18:12prensados,
00:18:13e aí eles estão nas páginas
00:18:15com a letra dela,
00:18:16explicando o que é,
00:18:17que é fazer parte
00:18:18da pesquisa científica dela.
00:18:23Leopoldina conta que,
00:18:24durante a viagem aqui no Brasil,
00:18:25ainda na embarcação,
00:18:27que ela conheceu o Rodrigues.
00:18:29Rodrigues era um marujo.
00:18:30Enquanto o Leopoldina conversava com ele,
00:18:32ela aprendia coisas sobre o Brasil, né?
00:18:34Porque esse marujo conhecia o Brasil,
00:18:36explicou especificidades
00:18:37da Igreja Nossa Senhora da Glória,
00:18:39de Dom Pedro.
00:18:42Rodrigues sabe ler a mão,
00:18:43e leu a minha.
00:18:44Contou-me o que viu sobre minha vida
00:18:47nos próximos dez anos.
00:18:49Disse-me que serei feliz com o Pedro,
00:18:51pelo menos no período inicial
00:18:53e que teremos seis filhos.
00:18:55Disse ainda que serei importante para o Brasil.
00:18:58Foi isso, sim, que ele leu.
00:19:00Que eu serei importante para o Brasil,
00:19:03não para Portugal.
00:19:04E que vou me tornar
00:19:06uma brasileira de coração.
00:19:07Depois, ele também viu
00:19:10que passarei por um período triste,
00:19:12mas que o céu vai me mandar
00:19:14um amigo de cabelos brancos.
00:19:16Agora, não quero pensar
00:19:18em momentos difíceis.
00:19:20Estou ansiando por Pedro,
00:19:22pelo Rio de Janeiro.
00:19:29Eram viagens complicadas, difíceis.
00:19:32Nunca se sabia exatamente
00:19:34quanto tempo a viagem ia demorar,
00:19:37dependia dos sistemas de vento.
00:19:39E a Leopoldina,
00:19:40ela deixa bem claro,
00:19:42isso é espetacular,
00:19:43na carta que ela manda.
00:19:45Assim que ela entra na Baía da Guanabara,
00:19:48assim que ela vê
00:19:48a paisagem,
00:19:51ela cai absurdamente deslumbrada.
00:19:59A primeira carta que ela escreve é
00:20:02para o pai,
00:20:03é nem pena, nem pincel,
00:20:05podem escrever o que eu estou vendo,
00:20:07a chegada dela na Baía de Guanabara,
00:20:09até hoje impressiona,
00:20:11na época,
00:20:12então,
00:20:12que ainda a natureza
00:20:13estava mais presente,
00:20:14devia ser uma coisa belíssima.
00:20:17O Rio de Janeiro
00:20:18não tinha porto,
00:20:19o barco dela ficou
00:20:21no meio da Baía
00:20:23e veio a família
00:20:24real portuguesa
00:20:26e era a primeira vez
00:20:27que os noivos
00:20:28se encontravam.
00:20:30Vem toda a anturrage,
00:20:32vem Dom João,
00:20:33Carlota,
00:20:34as cunhadas,
00:20:35como ela dizia,
00:20:36e estão ali
00:20:37marido e mulher.
00:20:39E, segundo as fontes,
00:20:40trocando
00:20:42olhares
00:20:43envergonhados.
00:20:44E ela descreve,
00:20:45ela está encantada com tudo,
00:20:46a família a recepciona
00:20:48muito bem.
00:20:49O Dom João
00:20:50é um sogro
00:20:51que todo mundo
00:20:52devia ter,
00:20:53assim,
00:20:53porque ele vai
00:20:55recebê-la com um saco
00:20:56de joias
00:20:56e dá uma ave
00:20:58do paraíso
00:20:58em diamantes para ela,
00:21:00flores em diamante,
00:21:01outro colar,
00:21:02e ela fica assim,
00:21:04ele fala,
00:21:05você, minha filha,
00:21:06viu o país
00:21:06das pedras preciosas.
00:21:10Eles desembarcam,
00:21:11eles vão até
00:21:12a Praça 15,
00:21:14acontece uma bênção
00:21:15e depois de barco,
00:21:16que é uma coisa
00:21:17também que é estranha
00:21:19aos brasileiros
00:21:20do século XXI,
00:21:21de barco,
00:21:21eles vão para a quinta
00:21:23da Boa Vista.
00:21:24O Dom João
00:21:25manda encomendar
00:21:26na Europa
00:21:27um livro
00:21:27com o rosto
00:21:29pintado,
00:21:30página a página,
00:21:30de todos os familiares
00:21:31dela,
00:21:32para ela não sentir
00:21:33saudades.
00:21:34Manda fazer um busto
00:21:35do pai dela,
00:21:36então quando ela chega
00:21:37no apartamento
00:21:38que ele manda fazer
00:21:39para ele São Cristóvão,
00:21:40tem várias recordações.
00:21:42Aí tem o primeiro teatro,
00:21:44o primeiro teatro,
00:21:45que é um teatro
00:21:45típico das cortes europeias,
00:21:48é na hora de ir
00:21:49para o quarto nupcial.
00:21:51Vai o noivo
00:21:51com os homens
00:21:53da sua família,
00:21:54até aí está em casa,
00:21:55todo mundo se conhecia,
00:21:57mas vai a Leopoldina
00:21:59com as mulheres
00:22:00da família do noivo,
00:22:02se despir,
00:22:03para ser depois
00:22:04depositada
00:22:05no leito nupcial.
00:22:07e ela era
00:22:08super pudica,
00:22:10super católica,
00:22:11super vexada,
00:22:13assim,
00:22:13se sente que ela
00:22:14era uma pessoa
00:22:15fechada, né?
00:22:18E ela se apaixona
00:22:19pelo Pedro.
00:22:31Meu esposo
00:22:32esteve muito doente
00:22:32dos nervos
00:22:33durante uns dias
00:22:34e me deu
00:22:34um medo terrível,
00:22:36porque aconteceu à noite
00:22:37e eu era
00:22:37sua única ajuda.
00:22:39Acho que passará
00:22:40no correr dos anos,
00:22:41já que sofre
00:22:41cada vez menos,
00:22:42como todos me asseguram,
00:22:44e acho que o esquisito
00:22:45clima do Brasil
00:22:45deve contribuir muito,
00:22:47e por isso desejo,
00:22:48por todas as razões,
00:22:49voltar com ele
00:22:50à sua pátria.
00:22:51Estou muito feliz,
00:22:53só preciso de muito cuidado
00:22:54e paciência.
00:22:56Paciência que nunca tive
00:22:57na Áustria
00:22:57e que estou muito feliz
00:22:58de receber
00:22:59com o sagrado
00:22:59sacramento do matrimônio.
00:23:06No início,
00:23:08o que ela,
00:23:09Leopoldina,
00:23:10transmite
00:23:11nas cartas
00:23:12para a irmã,
00:23:12que ela fazia
00:23:14muitos passeios
00:23:15com o marido,
00:23:16né?
00:23:16Porque ela não ficou
00:23:18no Paço,
00:23:19onde era a sede
00:23:20da corte.
00:23:21Ela foi morar
00:23:23com o Dom Pedro
00:23:24na Quinta da Boa Vista
00:23:25e que ali
00:23:26ela fazia muitos passeios
00:23:27com o marido,
00:23:28que ela era muito feliz.
00:23:30Ela se dava muito bem
00:23:31com o Dom João,
00:23:33sempre reclamava
00:23:35da sogra,
00:23:36que parece que a Carlota
00:23:37tinha preferência
00:23:38para uma princesa
00:23:39espanhola.
00:23:41Mas o seu casamento,
00:23:43pelo menos,
00:23:43até mais ou menos,
00:23:451820,
00:23:451921,
00:23:46foi um casamento
00:23:47que o Dom Pedro
00:23:49parece que sempre
00:23:49teve seus casos,
00:23:51né?
00:23:51Saía à noite,
00:23:52etc.
00:23:53e tal,
00:23:53mas era um casamento
00:23:54feliz.
00:23:55Ela chegou aqui,
00:23:56já era verão,
00:23:58esse ar tropical,
00:24:00um marido
00:24:03caliente,
00:24:04né?
00:24:05Núpcias,
00:24:06quase que uma lua de mel.
00:24:08Inicialmente,
00:24:09eles andavam a cavalo
00:24:10pela cidade,
00:24:12ela se vestia,
00:24:14esse é um detalhe
00:24:15que muita gente
00:24:16não percebe.
00:24:17Ela não andava
00:24:19a cavalo
00:24:19como se andava
00:24:20na corte espanhola
00:24:21e portuguesa.
00:24:22Ela botava
00:24:23a calça comprida
00:24:24e montava no cavalo
00:24:25como todo mundo
00:24:26monta atualmente.
00:24:28Não era de ladinho assim,
00:24:29era montado
00:24:29a cavalo.
00:24:31Ele gostava disso.
00:24:32A corte portuguesa
00:24:34aqui no Rio
00:24:34achava isso
00:24:35muito vulgar.
00:24:37O Rio de Janeiro
00:24:38que Leopoldine encontrou
00:24:39era bem diferente
00:24:40da realidade
00:24:40que ela conhecera
00:24:42na Áustria.
00:24:42Mas tinham alguns pontos
00:24:44positivos, né?
00:24:45Um desses pontos
00:24:46é a musicalidade.
00:24:48Era uma cidade
00:24:48que transbordava música.
00:24:50O próprio Debré,
00:24:51pintou francês,
00:24:53ele costumava dizer
00:24:54que no Brasil
00:24:54podia se escutar
00:24:56a marimba da senzala,
00:24:58o violão do homem do povo
00:24:59e o piano do palácio.
00:25:02Ela própria escrevia
00:25:03em cartas
00:25:04como gostava
00:25:05de tocar piano
00:25:06ao lado de Dom Pedro,
00:25:07do seu esposo.
00:25:08O Rio de Janeiro
00:25:09também é um ambiente cultural,
00:25:10se a gente for pensar,
00:25:12muito rico nessa época.
00:25:13Você tem muito
00:25:14Luandu,
00:25:16você tem muitas
00:25:16outras formas
00:25:18e manifestações culturais
00:25:19que acontecem
00:25:20nas cidades,
00:25:21nas irmandades
00:25:22e tudo mais.
00:25:24No entanto,
00:25:24a Leopoldina
00:25:25tem que imaginar
00:25:26que ela chega
00:25:27no Rio de Janeiro
00:25:28e ela praticamente
00:25:29vai viver
00:25:31muito tempo
00:25:32na Quinta da Boa Vista.
00:25:33Ela vive fora
00:25:34da cidade.
00:25:35Toda aquela liberdade
00:25:36que ela podia pegar
00:25:37o sobrinho
00:25:37e ir no teatro
00:25:38em Viena,
00:25:38ela não tinha
00:25:39no Rio de Janeiro.
00:25:40Ela vivia
00:25:41praticamente clausurada
00:25:43junto com todas
00:25:43as outras mulheres
00:25:44porque rua
00:25:45não era lugar
00:25:46de mulher,
00:25:46ainda mais
00:25:47da autossossiedade
00:25:48e ela está vindo
00:25:49para um país escravocrata.
00:25:51Quem está
00:25:51nas ruas
00:25:52são os trabalhadores
00:25:54e esses trabalhadores
00:25:55em sua maioria
00:25:56são escravizados.
00:25:57E num primeiro momento,
00:25:58principalmente,
00:25:59o Dom João
00:25:59não quer muito
00:26:00que ela tenha contato
00:26:01porque não quer
00:26:02que chegue na Europa
00:26:03o que efetivamente
00:26:04era esse Brasil
00:26:05que ele pintou
00:26:06como o reino absolutista,
00:26:09o paraíso na Terra.
00:26:10Então,
00:26:10ela era trancada
00:26:11nos seus aposentos
00:26:12a partir de nove horas
00:26:13e ele desaparecia.
00:26:15E ela, então,
00:26:16vai se dando conta
00:26:17e essas primeiras cartas
00:26:19percebe-se claramente
00:26:21que ela navega
00:26:22entre um encantamento
00:26:23pelo Brasil,
00:26:24uma tentativa
00:26:26de sigseiria,
00:26:27ela ainda está
00:26:27com as suas damas
00:26:28de companhia austríaca
00:26:29nesse momento,
00:26:30e as realidades
00:26:32do casamento.
00:26:34Estou felicíssima
00:26:35com minha nova família.
00:26:36Meu esposo
00:26:37tem um boníssimo coração.
00:26:39É muito talentoso,
00:26:40porém,
00:26:41preciso de paciência.
00:26:43Virtude que nunca tive
00:26:44e que agora
00:26:45o céu me concede.
00:26:46Pedro tem enorme vontade
00:26:48de se instruir
00:26:49e aos poucos
00:26:50com inteligência
00:26:51meu trabalho
00:26:51vai dando certo
00:26:52e constato com prazer
00:26:54alguns frutos
00:26:55de minha paciência
00:26:56perseverante.
00:26:58As diversões,
00:26:59ela reclama muito
00:27:00que diversão na corte
00:27:01eram as longas temporadas
00:27:04dentro das igrejas,
00:27:05então as grandes
00:27:05festividades religiosas.
00:27:07Ela reclama muito
00:27:08do marido
00:27:09que não deixa ela
00:27:10dançar,
00:27:12não deixa ela usar
00:27:12determinados vestidos,
00:27:13ela manda a irmã
00:27:15parar de mandar
00:27:16vestido pra ela
00:27:16muito decotado
00:27:17porque o marido
00:27:18não deixa usar.
00:27:20Há um certo
00:27:21ele pode tudo
00:27:22e eu não posso nada.
00:27:23Ele era egoísta
00:27:24e egocêntrico,
00:27:25isso é,
00:27:26o Dom Pedro
00:27:27ele era muito
00:27:27egoísta e egocêntrico
00:27:28e a Leopoldina
00:27:30é meio que
00:27:30uma vítima disso.
00:27:31Ela só pode ter
00:27:32uma atuação
00:27:33dentro do que lhe permite,
00:27:34o que também fazia parte
00:27:35da estrutura
00:27:36patriarcal da época.
00:27:38ela tinha muita
00:27:40desconfiança
00:27:40com relação
00:27:41a todas as pessoas.
00:27:43Imagina,
00:27:44é alguém
00:27:45que entra
00:27:46numa família
00:27:47onde há três partidos.
00:27:49O partido da rainha,
00:27:51o partido do rei
00:27:52e o partido do príncipe.
00:27:54Os partidos lutavam
00:27:55entre si
00:27:55dentro do próprio passo.
00:27:57Então você
00:27:58há de convir
00:27:59que o momento
00:28:00em que ela entra
00:28:01numa família assim,
00:28:02ela,
00:28:02como uma moça
00:28:03inteligente,
00:28:05ela já passou
00:28:06a desconfiar
00:28:06de todas
00:28:07aquelas pessoas
00:28:08que a cercavam.
00:28:10As damas
00:28:11que vieram com ela
00:28:12na sua corte pessoal
00:28:13vão desejar
00:28:14voltar para a Áustria,
00:28:16seja por conta
00:28:17de questões climáticas
00:28:19e até mesmo
00:28:19por conta
00:28:20dessas intrigas falacianas
00:28:22ou mesmo
00:28:22por falta de pagamento.
00:28:25Leopoldina,
00:28:25por exemplo,
00:28:26ela tinha direito
00:28:27a uma determinada
00:28:28quantia mensal
00:28:29e ela até escreve
00:28:30para o pai, né?
00:28:31Quando eu recebo,
00:28:33Dom Pedro ainda
00:28:33retém essa quantia
00:28:35e aí ela se vê
00:28:36isolada.
00:28:37Isolada
00:28:38é sofrendo
00:28:39várias formas
00:28:39de violência, né?
00:28:41Violência patrimonial
00:28:42também.
00:28:42Até o modo
00:28:43como ela se comunica
00:28:44com a Europa
00:28:45é complicado.
00:28:46Ela não pode usar
00:28:47os meios,
00:28:48ela vai usar
00:28:48os meios oficiais
00:28:49para,
00:28:50porque a gente chama
00:28:51de cartas de gabinete,
00:28:52que são cartas
00:28:52oficiais.
00:28:54As que pedem dinheiro,
00:28:55aquela conta,
00:28:57o verdadeiro caráter
00:28:58do marido
00:28:58e etc.,
00:28:59são por pessoas
00:29:00escolhidas a medo.
00:29:07em 1819,
00:29:08nasce a primeira filha deles,
00:29:10que é a Dona Maria da Glória,
00:29:11que vai ser mais tarde
00:29:12a Dona Maria I,
00:29:13a rainha de Portugal.
00:29:15Depois,
00:29:15acho que ela vai ter
00:29:16um filho atrás do outro.
00:29:17Acho que ela tem
00:29:18um filho por ano, quase.
00:29:20Ela passa nove anos
00:29:21no Brasil,
00:29:22nove anos,
00:29:23ela está grávida
00:29:24e a única coisa
00:29:26da qual ela se queixa
00:29:27é da qualidade
00:29:28dos médicos
00:29:31portugueses
00:29:31que atendiam
00:29:32e que foram
00:29:33de uma violência brutal,
00:29:35sobretudo
00:29:36nos primeiros partos dela.
00:29:37Januária,
00:29:38ela dá a luz
00:29:38agarrada,
00:29:40princesa Januária,
00:29:41no pescoço do marido,
00:29:42porque ela não quer
00:29:42ser tocada
00:29:43por esses médicos.
00:29:47São Cristóvão,
00:29:4828 de fevereiro de 1820.
00:29:51Carta Francisco I.
00:29:54Caríssimo papai,
00:29:56minha pequena
00:29:56se torna mais amável
00:29:58a cada dia que passa
00:29:59e gosta muito
00:30:00do seu retrato,
00:30:00querido papai,
00:30:01para o qual sempre aponta.
00:30:03Está começando a andar
00:30:04e falar
00:30:05e fazendo a meu esposo
00:30:06e a mim
00:30:06muito mais felizes.
00:30:08Posso lhe garantir,
00:30:10caríssimo papai,
00:30:11com toda a franqueza,
00:30:12que sou felicíssima,
00:30:14já que, graças a Deus,
00:30:16tenho um esposo
00:30:17que tem uma mente justa,
00:30:18aberta,
00:30:19séria
00:30:19e um bom coração.
00:30:24São Cristóvão,
00:30:267 de abril de 1820.
00:30:29Carta a Maria Luísa.
00:30:31Se ficasse livre hoje,
00:30:32não mais me casaria,
00:30:34pois,
00:30:34embora a lua de mel
00:30:35seja um período lindo,
00:30:37o sagrado estado
00:30:38do matrimônio
00:30:38traz consigo
00:30:39muita preocupação,
00:30:41aborrecimento
00:30:41e sacrifício.
00:30:42E suportar tudo isso
00:30:44com paciência
00:30:45já é o suficiente.
00:30:47Em meio às suas primeiras
00:30:48experiências
00:30:49como princesa
00:30:50do Reino Unido,
00:30:51Portugal,
00:30:51Brasil e Algarve,
00:30:52história em Portugal,
00:30:54em agosto de 1820,
00:30:55a Revolução Liberal do Porto.
00:30:57Essa revolução,
00:30:58ela tinha como
00:30:58principal objetivo
00:30:59promover algumas alterações
00:31:01na monarquia portuguesa.
00:31:03Uma dessas alterações
00:31:05era a produção
00:31:06de uma constituição.
00:31:07A partir daquele momento,
00:31:08o rei deveria
00:31:09seguir uma constituição.
00:31:11Só que Portugal
00:31:12e Áustria também
00:31:13eram reinos absolutistas.
00:31:15era um reino
00:31:16cuja estrutura cultural
00:31:18dizia que o reino
00:31:19é uma grande família
00:31:20e o rei é o pai.
00:31:22Essa questão
00:31:23de constituição
00:31:24com a participação
00:31:25de segmentos
00:31:26da sociedade
00:31:27não se enquadrava
00:31:29nessa lógica cultural.
00:31:30E quando esse movimento
00:31:32chega aqui no Brasil,
00:31:34esse movimento
00:31:35é muito bem acolhido,
00:31:37inclusive em algumas províncias.
00:31:38D. Pedro demonstra simpatia
00:31:40por essas ideias
00:31:41e Neopoldina
00:31:42ficou bem preocupada.
00:31:44Ela vai olhar
00:31:44para o D. Pedro
00:31:46e vai vê-lo
00:31:47mais próximo
00:31:48a essas mudanças liberais.
00:31:51As pessoas estão
00:31:52acostumadas a ver
00:31:52o D. Pedro
00:31:53como mais absolutista.
00:31:54E, na verdade,
00:31:55a leitura dela
00:31:56nesse momento
00:31:57é que
00:31:58isso tem que ser
00:31:59um pouco contido.
00:32:00Porque
00:32:01o temor
00:32:02de qualquer movimento
00:32:04social e sublevação
00:32:05é muito forte,
00:32:06é muito grande.
00:32:07Ainda mais
00:32:08para a D. Leopoldina,
00:32:09que vivia ali
00:32:11há três anos.
00:32:14infelizmente,
00:32:15o feio fantasma
00:32:16do espírito de liberdade
00:32:17se apossou
00:32:18por completo
00:32:18da alma
00:32:19de meu esposo.
00:32:20O bom
00:32:21excelente rei
00:32:22tem todos os antigos,
00:32:23nobres e autênticos
00:32:24princípios
00:32:25e eu também,
00:32:26pois me foram inculcados
00:32:27em minha tenra idade
00:32:28e eu mesma amo
00:32:29apenas a obediência
00:32:30para com a pátria,
00:32:31o soberano
00:32:31e a religião.
00:32:33O senhor percebe,
00:32:34querido pai,
00:32:35como é difícil
00:32:36minha situação
00:32:36entre os deveres
00:32:37de boa e amorosa esposa,
00:32:38súdita valente
00:32:40e filha obediente?
00:32:42Queria tanto unir ambos
00:32:43e obedecer estritamente,
00:32:45porém me vejo forçada
00:32:46a sacrificar um dos dois
00:32:47quando chegar
00:32:48à delegação de Lisboa.
00:32:51Tem movimentação
00:32:52lá em Portugal
00:32:55para que o rei volte
00:32:56e tem tensão grave
00:32:59política aqui no Rio
00:33:01com movimentação
00:33:02de tropa.
00:33:03Em fevereiro de 1821,
00:33:06o rei,
00:33:06D. João,
00:33:06teve que jurar
00:33:07obedecer
00:33:08à Constituição
00:33:09que estaria
00:33:10por ser elaborada
00:33:12em Portugal.
00:33:13Só que ele teve
00:33:14que jurar
00:33:15em meio
00:33:15de uma população
00:33:17bem agitada.
00:33:19O D. João,
00:33:20em 1821,
00:33:21ainda ele estava
00:33:22vô, não vô,
00:33:23vô para a Europa,
00:33:24como as cortes portuguesas,
00:33:27o pessoal lá
00:33:28que fez a Revolução
00:33:29do Porto
00:33:30está pedindo,
00:33:31ou continua no Brasil
00:33:32e manda o meu filho,
00:33:34ele enrola,
00:33:35ele enrola muito.
00:33:37Um grupo achava
00:33:39que D. João
00:33:40devia permanecer
00:33:41no Brasil
00:33:42e D. Pedro
00:33:43devia ir para Portugal.
00:33:44Devia se deixar
00:33:45Portugal de lado
00:33:46e manter o Brasil
00:33:47de acordo
00:33:48com uma política
00:33:49mais voltada
00:33:50para o antigo regime.
00:33:52E ela escreve
00:33:53muito feliz
00:33:54dizendo que ela
00:33:55vai voltar
00:33:56para a Europa,
00:33:58rever os seus parentes
00:33:59e poder educar
00:34:00os seus filhos
00:34:01na civilização.
00:34:03quer dizer,
00:34:04ela tem uma grande esperança,
00:34:05mas ela está grávida.
00:34:06Se D. Pedro fosse,
00:34:07ela ficaria
00:34:08por causa do estado dela
00:34:09que ela poderia.
00:34:10Ela diz,
00:34:11talvez eu dê a luz
00:34:13no meio do oceano,
00:34:15mas ela dizia
00:34:15que não deixaria
00:34:16D. Pedro viajar sozinha.
00:34:18Tem uma carta dela
00:34:19para o Schaeffer,
00:34:19que era o secretário dela,
00:34:22ela mandando ele
00:34:24alugar um navio,
00:34:25que ela ia
00:34:26atrás do marido,
00:34:28que ela ia fugir
00:34:28do palácio,
00:34:29ela não ia ficar aqui sozinha,
00:34:30que ela ia atrás
00:34:31do marido para a Europa.
00:34:32Por vários acontecimentos
00:34:34que ocorrem
00:34:35no próprio Rio de Janeiro,
00:34:37se decide
00:34:38que o príncipe
00:34:40ficaria
00:34:41no Brasil
00:34:42e o monarca
00:34:43voltaria,
00:34:44até como uma forma
00:34:45de também manter
00:34:47um representante
00:34:48ali que pudesse
00:34:49liderar
00:34:50as alternativas possíveis,
00:34:52também como uma forma
00:34:54de conter
00:34:55maiores
00:34:56arroubos
00:34:57e conturbações
00:34:59que possam existir
00:35:00nesse momento.
00:35:01esse processo
00:35:02todo vai unir
00:35:02o casal,
00:35:03sobretudo porque
00:35:04eles ficam
00:35:04juntos contra Portugal
00:35:06e contra as
00:35:07decisões de Portugal,
00:35:09mas eu diria que
00:35:10já nos primeiros anos
00:35:11de casada,
00:35:12ela é uma mulher só.
00:35:13Esse projeto
00:35:15de uma vida
00:35:17tremendamente religiosa,
00:35:19mas voltada
00:35:20para os filhos,
00:35:21não era para a família,
00:35:23porque na família
00:35:24esse pai estava ausente.
00:35:25vai passar a ser
00:35:26o critério
00:35:27de
00:35:28aspas
00:35:29felicidade
00:35:29da Leopoldina.
00:35:32Amada querida Luísa,
00:35:34começo a crer
00:35:36que se é muito mais feliz
00:35:37quando solteiro,
00:35:38pois agora
00:35:39só tenho
00:35:39preocupação
00:35:40e dissabores
00:35:41que engulo em segredo,
00:35:43pois reclamar
00:35:44é ainda pior.
00:35:46Infelizmente,
00:35:46vejo que não sou amada.
00:35:48Meu esposo
00:35:49e meu dever
00:35:49exigem que eu suporte
00:35:50até o último instante
00:35:52e meu coração
00:35:53busca um ser
00:35:54a quem comunicar
00:35:55seu amor e amizade.
00:35:58Estou bem de saúde,
00:35:59exceto
00:36:00por uma profunda
00:36:01melancolia
00:36:02que não surpreende
00:36:03face a todos
00:36:05os dissabores
00:36:05domésticos que tenho.
00:36:07Aqui,
00:36:08apenas a religião
00:36:09pode me confortar
00:36:10e também a consciência
00:36:11tranquila
00:36:11de ter cumprido
00:36:12meus deveres à regra.
00:36:17Se ela já não recebia
00:36:18com a corte aqui,
00:36:19com a corte fora
00:36:20vai receber menos ainda.
00:36:21ela fazia empréstimos
00:36:22em cima de empréstimos.
00:36:23Ela entrou numa pirâmide
00:36:26financeira.
00:36:27Ela pegava empréstimo
00:36:28para pagar
00:36:29o outro empréstimo.
00:36:30E aí,
00:36:30como ela já era
00:36:32mal pagadora,
00:36:33então os juros aumentavam.
00:36:38São Cristóvão,
00:36:3918 de setembro de 1820.
00:36:42Querido papai,
00:36:44é imensamente difícil
00:36:45para a minha mentalidade
00:36:47alemã, austríaca,
00:36:48pedir ao Senhor
00:36:49por ajuda paterna
00:36:50em um assunto
00:36:51de dinheiro.
00:36:52Mas em quem posso
00:36:53depositar plena confiança
00:36:54se não no Senhor,
00:36:56querido papai?
00:36:57Nunca ocultei o menor
00:36:59dos meus desejos.
00:37:00Gastos imprevistos,
00:37:02salários e pensões
00:37:03a famílias necessitadas
00:37:04e criadagem
00:37:05que infelizmente
00:37:06depositaram suas esperanças
00:37:07só em mim,
00:37:08me obrigaram a tomar
00:37:10emprestada a quantia
00:37:11de 24 mil florins.
00:37:17Dom João foi embora,
00:37:18Carlota foi embora,
00:37:20agora está só o casal
00:37:22e agora está o casal,
00:37:23ela escorada
00:37:24no José Bonifácio,
00:37:27ele passa a ter
00:37:28um núcleo duro
00:37:30de confiança,
00:37:31que é ela,
00:37:32que é uma pessoa pensante,
00:37:34que sabia o que ia
00:37:35pelo mundo.
00:37:36Ela se aproxima muito
00:37:37do próprio Bonifácio,
00:37:39isso é sabido,
00:37:39até porque o Bonifácio
00:37:41era, de fato,
00:37:42um homem naquela corte
00:37:44que tinha uma educação
00:37:45parecida em termos
00:37:47ilustrados com a dela.
00:37:48Eu acho que tem
00:37:49uma questão linguística,
00:37:51porque o José Bonifácio
00:37:52falava alemão,
00:37:54então ela passa a ter
00:37:56um interlocutor,
00:37:57ele era bonitão,
00:37:58ele era gatão,
00:37:59apesar de ser mais velho
00:38:00do que ela,
00:38:02cabeludo,
00:38:02falava várias línguas,
00:38:04devia ser um homem
00:38:05muito interessante.
00:38:07Esse ano,
00:38:07entre abril de 21,
00:38:09e janeiro de 22,
00:38:11é quando começa
00:38:12a se desenhar
00:38:13a possibilidade
00:38:14de existir
00:38:16um governo
00:38:18que não fosse independente,
00:38:20mas que tivesse
00:38:21uma autonomia
00:38:22na administração
00:38:23na América.
00:38:25Eles estão falando
00:38:26da possibilidade
00:38:27de você
00:38:29transformar a monarquia
00:38:30numa monarquia
00:38:31constitucional e liberal,
00:38:32como estava sendo discutido
00:38:33nas cortes de Lisboa.
00:38:34Mas aí você começa
00:38:36a ter, já mais no final
00:38:37de 21,
00:38:37uma intransigência
00:38:39das cortes
00:38:40para que você
00:38:41não tenha dois reinos.
00:38:43O Brasil já era um reino
00:38:44unido a Portugal
00:38:46desde 1815.
00:38:47A ideia era
00:38:47de que o Brasil
00:38:48se transformasse
00:38:49numa província
00:38:51de Portugal.
00:38:52Ficam aqui tropas portuguesas
00:38:54encarregadas
00:38:55de fazer
00:38:56Dom Pedro partir
00:38:58no momento
00:38:59que as cortes
00:39:00exigissem.
00:39:01E toda a correspondência
00:39:03começa a chegar
00:39:04de Portugal,
00:39:06fazendo Dom Pedro
00:39:07entender também
00:39:08que se ele aqui
00:39:10ficasse
00:39:11como regente,
00:39:13as suas funções
00:39:15se equiparariam
00:39:16a de um vice-rei,
00:39:18a de um comandante-geral
00:39:19de tropas,
00:39:20algo que amesquinharia
00:39:22muito o seu papel.
00:39:24Não é uma birra
00:39:25que ele tem que voltar,
00:39:26mas ele tem que voltar
00:39:27porque do ponto
00:39:28de vista
00:39:29de um governo
00:39:30constitucional,
00:39:31com separação
00:39:32de poderes,
00:39:34legislativo,
00:39:34executivo,
00:39:35judiciário,
00:39:37o príncipe
00:39:37era uma autoridade
00:39:39um pouco incontrolável,
00:39:40ele não tinha
00:39:41formas institucionais
00:39:42de você controlar.
00:39:44quando chegam
00:39:45as ordens
00:39:46das cortes
00:39:47para eles
00:39:48retornarem
00:39:48para a Europa,
00:39:49ela fala
00:39:50não,
00:39:50eu estou grávida,
00:39:51eu não vou.
00:39:53Só que ela também
00:39:54estava grávida
00:39:54quando ela fala
00:39:55que está indo
00:39:55de qualquer jeito
00:39:56atrás do Dom Pedro
00:39:58lá em 2021.
00:40:00Então você vê,
00:40:00ela está sempre jogando.
00:40:01E mesmo ela
00:40:02tendo sido orientada
00:40:03pelo pai,
00:40:04não se meta
00:40:06em aventura
00:40:07revolucionária,
00:40:09lembra o que aconteceu
00:40:10com a tiavó,
00:40:12perdeu a cabeça,
00:40:13não se mete.
00:40:16Ela lentamente,
00:40:17ela vai mudar
00:40:20de lado.
00:40:21Tem as cartas dela
00:40:22para o secretário dela
00:40:24onde mostra
00:40:25todo o movimento
00:40:26de bastidores
00:40:26que ela faz
00:40:27para que o Dom Pedro
00:40:29fique no Brasil.
00:40:30Então ela comenta,
00:40:31por exemplo,
00:40:32para o secretário
00:40:33avisar as pessoas
00:40:34que é para deixar
00:40:36o Dom Pedro
00:40:38nomear
00:40:39os próprios ministros
00:40:40que isso facilitaria
00:40:43a aceitação
00:40:44dele ficar no Brasil.
00:40:45Então ela está
00:40:46sempre antenada
00:40:48a esse movimento.
00:40:49Ela pede
00:40:51para ver
00:40:51o texto
00:40:53do que ainda
00:40:53vai ser
00:40:54afixado
00:40:55nas ruas
00:40:57do Rio de Janeiro
00:40:58contra os portugueses.
00:40:59Fiquei admiradíssima
00:41:01quando vi de repente
00:41:02aparecer meu esposo
00:41:03ontem à noite.
00:41:04Ele está bem mais disposto
00:41:05com relação
00:41:06aos brasileiros
00:41:06do que eu esperava,
00:41:07mas não tão positivamente
00:41:09decidido
00:41:10quanto eu desejaria.
00:41:11Dizem que as tropas
00:41:12portuguesas
00:41:13o obrigarão a partir.
00:41:14Tudo então
00:41:15estaria perdido
00:41:16e torna-se
00:41:17absolutamente necessário
00:41:18impedi-lo.
00:41:18Ela começa
00:41:20a despertar
00:41:21um sentimento
00:41:21de pertencimento
00:41:22que ela já tinha
00:41:23como princesa
00:41:24do reino,
00:41:25mas que nesse momento
00:41:27vai falar
00:41:28mais alto.
00:41:29Quando os revoltosos
00:41:31do porto
00:41:32começam a exigir
00:41:33que Dom Pedro
00:41:34também volte,
00:41:35essa visão
00:41:37de Leopoldino
00:41:38sobre o Brasil
00:41:38vai sendo otimizada.
00:41:40Ainda mais
00:41:42que acontecimentos
00:41:43vão desencadeando
00:41:44e promovendo
00:41:46nela
00:41:47uma verdadeira ira
00:41:48contra o exército
00:41:49português
00:41:50que ameaçava
00:41:50sua família.
00:41:53Aqui está
00:41:54uma verdadeira miséria.
00:41:57Todos os dias
00:41:58novas cenas
00:41:58de revolta.
00:41:59Os verdadeiros
00:42:00brasileiros
00:42:01são cabeças
00:42:01boas e tranquilas.
00:42:03as tropas portuguesas
00:42:04estão animadas
00:42:05pelo pior espírito
00:42:07e meu esposo
00:42:08infelizmente
00:42:09ama os novos princípios
00:42:10e não dá
00:42:11exemplo de firmeza
00:42:12como seria preciso,
00:42:13pois atemorizar
00:42:15é o único meio
00:42:15de pôr termo
00:42:16à rebelião.
00:42:18Receio que tome
00:42:19consciência
00:42:19tarde demais
00:42:20com seu próprio
00:42:21prejuízo.
00:42:22Deus sabe
00:42:23o que ainda
00:42:23acontecerá conosco.
00:42:25Nesse momento
00:42:26há um episódio
00:42:27muito importante
00:42:29que é o episódio
00:42:31da tentativa
00:42:33do general português
00:42:34levar
00:42:34Dom Pedro
00:42:35Leopoldina
00:42:36à força
00:42:37para Portugal.
00:42:40Ela, para variar,
00:42:41estava grávida
00:42:42e ela então
00:42:43sai do Rio de Janeiro
00:42:45e vai para a fazenda
00:42:46dos jesuítas
00:42:47com o pequeno
00:42:47João Carlos
00:42:48que dizem
00:42:50historiadores da medicina
00:42:51já não tinha
00:42:52muita saúde.
00:42:54E nesse
00:42:54treslado
00:42:55que se faz
00:42:56no verão
00:42:57com temperaturas
00:42:59altíssimas
00:43:00as roupas todas
00:43:00que se usava
00:43:01a viagem
00:43:02que era longa
00:43:03o menino
00:43:04não resiste
00:43:05lá
00:43:05adoece
00:43:06e morre.
00:43:07São Cristóvão
00:43:0912 de fevereiro
00:43:10de 1822
00:43:15Tive a infelicidade
00:43:16de perder
00:43:16meu filho
00:43:17muito amado
00:43:18no momento
00:43:18em que ele
00:43:19começava
00:43:19por suas graças
00:43:20infantis
00:43:21a fazer
00:43:21minha alegria
00:43:22sendo forçada
00:43:24cercada
00:43:25pela guerra civil
00:43:25e sentimentos
00:43:26de revolução
00:43:27e insubordinação
00:43:28a fugir
00:43:29com meus dois
00:43:30filhos
00:43:30para doze
00:43:31léguas daqui
00:43:31em um dos
00:43:32mais quentes
00:43:33e abrasados
00:43:34dias
00:43:34e o pobre
00:43:36pequeno
00:43:36que tinha
00:43:37uma constituição
00:43:37de sistema
00:43:38nervoso
00:43:39frágil
00:43:40apanhou
00:43:41uma espécie
00:43:42de inflamação
00:43:43de fígado
00:43:43que foi mal curada
00:43:45ou antes
00:43:46nunca conhecida
00:43:46e morreu
00:43:47em 15 dias
00:43:48de sofrimentos
00:43:48contínuos
00:43:49em ataques
00:43:50epilépticos
00:43:51de 28 horas
00:43:53eu lhe asseguro
00:43:54querida tia
00:43:55que não tive
00:43:56em minha vida
00:43:56uma dor
00:43:57mais profunda
00:43:58e que somente
00:43:59a religião
00:43:59e o tempo
00:44:00poderão me consolar
00:44:03isso transtorna
00:44:05Dom Pedro
00:44:07transtorna
00:44:07porque há
00:44:08uma tradição
00:44:09de que os filhos
00:44:11primogênitos
00:44:12da família
00:44:12Bragança
00:44:13não sobrevivem
00:44:14então
00:44:14a maldição
00:44:16se cumpre
00:44:17e ele
00:44:19muito justamente
00:44:21julga
00:44:21que foram
00:44:22as circunstâncias
00:44:23políticas
00:44:23que mataram
00:44:24o filho dele
00:44:25e ele escreve
00:44:25ao pai
00:44:26seus soldados
00:44:27mataram
00:44:27o meu filho
00:44:28e ali
00:44:29nesse momento
00:44:30esse casal
00:44:31que
00:44:34vivia
00:44:34já
00:44:35duas vidas
00:44:36ele com a vida
00:44:37dele
00:44:37ela com a vida
00:44:38dela
00:44:38em casa
00:44:39cuidando
00:44:39das crianças
00:44:40e tudo
00:44:41nesse momento
00:44:42eles se unem
00:44:43e ela então
00:44:44vai participar
00:44:45mais ativamente
00:44:46desse momento
00:44:47que se desenrola
00:44:49ao longo
00:44:50dos anos
00:44:5021
00:44:51final de 22
00:44:52aqui reina
00:44:54um verdadeiro
00:44:54caos
00:44:55de ideias
00:44:55e cenas
00:44:56tudo surgido
00:44:57do logro
00:44:58chamado
00:44:58espírito de liberdade
00:44:59e nas províncias
00:45:01do norte
00:45:01agora estão
00:45:02assassinando
00:45:02todos os europeus
00:45:03Deus
00:45:05que dispõe
00:45:06tudo para o bem
00:45:06do homem
00:45:07permita que a situação
00:45:08fique calma
00:45:09como quer me parecer
00:45:10meu esposo
00:45:12declarou
00:45:12que ficará aqui
00:45:14embora
00:45:15pensemos
00:45:15diferentemente
00:45:16em alguns aspectos
00:45:17é melhor
00:45:18que me calhe
00:45:19e observe
00:45:20silenciosamente
00:45:23a Leopoldina
00:45:25ela vai agir
00:45:26principalmente
00:45:27após
00:45:28o momento do fico
00:45:29aonde uma alternativa
00:45:31vai se construir
00:45:32ela vai ser
00:45:34uma pessoa
00:45:35importante
00:45:36ali
00:45:37na costura
00:45:38e ela começa
00:45:40a trabalhar
00:45:40para uma alternativa
00:45:42que pudesse ser
00:45:43moderada
00:45:45que pudesse
00:45:46representar
00:45:47a menor
00:45:47convulsão social
00:45:49e que pudesse
00:45:50resguardar
00:45:51um poder
00:45:52quase que
00:45:53sagrado
00:45:54entre aspas
00:45:55colocado
00:45:56nas próprias
00:45:57pessoas reais
00:46:00então isso
00:46:01é algo
00:46:02que para ela
00:46:02é inegociável
00:46:03ela tem
00:46:04uma perspicácia
00:46:06que
00:46:07essas ideias liberais
00:46:09são as ideias
00:46:09do momento
00:46:10que também
00:46:11você não vai poder
00:46:12ignorá-las
00:46:13manter uma monarquia
00:46:15ainda que constitucional
00:46:17era muito mais interessante
00:46:18que perder o Brasil
00:46:19por uma república
00:46:20essa mudança dela
00:46:22não só na questão
00:46:24do pensamento político
00:46:25mas ela percebe também
00:46:27que para estar
00:46:28ao lado
00:46:29de Dom Pedro
00:46:30ela também tem que
00:46:31no fundo
00:46:32adotar
00:46:33o reino do Brasil
00:46:35como a sua pátria
00:46:38e aí ela escreve
00:46:39como brasileira
00:46:40o Brasil é grande
00:46:42demais
00:46:42poderoso
00:46:43e conhecendo
00:46:44sua força política
00:46:45incapaz de ser colônia
00:46:47de uma corte pequena
00:46:48por isso custará
00:46:49ainda muitas lutas
00:46:50duras e sangrentas
00:46:51e como me parece
00:46:53pelo que meu
00:46:54humilde entendimento
00:46:55permite
00:46:55o ódio dos europeus
00:46:57contra o Brasil
00:46:58é tão grande
00:46:58que terminará
00:46:59com o extermínio
00:47:00dos primeiros
00:47:02quando você tem
00:47:03o fico
00:47:04lá
00:47:05no comecinho
00:47:06de 22
00:47:06você tem
00:47:07uma contra
00:47:08resposta
00:47:09dos portugueses
00:47:10no Rio de Janeiro
00:47:11então ele fala
00:47:12que vai ficar
00:47:13no Brasil
00:47:14os militares
00:47:15portugueses
00:47:17no Rio
00:47:17se levantam
00:47:18que é a chamada
00:47:19levante da divisão
00:47:20auxiliadora
00:47:20do general Avilés
00:47:21que quer levar
00:47:23eles presos
00:47:23para Lisboa
00:47:24de qualquer jeito
00:47:25o que que acontece
00:47:26ele consegue expulsar
00:47:27não há uma batalha
00:47:29no Rio de Janeiro
00:47:30até porque os portugueses
00:47:31tinham as armas
00:47:31mas quem tinha
00:47:32a pólvora
00:47:33e tal
00:47:33a bem guardada
00:47:34no Jardim Botânico
00:47:35eram os brasileiros
00:47:36então
00:47:37Dom Pedro expulsa
00:47:38eles do Brasil
00:47:39só que parte
00:47:40dessa divisão
00:47:40vai aportar na Bahia
00:47:42onde está tendo
00:47:44uma revolta
00:47:45desde janeiro
00:47:46janeiro e fevereiro
00:47:48de 22
00:47:48onde morre
00:47:49a Sororidão Angélica
00:47:51tem uma briga
00:47:52entre militares
00:47:52portugueses
00:47:53e brasileiros
00:47:54e essas tropas
00:47:56desembarcam
00:47:56na Bahia
00:47:57e em agosto
00:47:58é que fica se sabendo
00:47:59aqui no Rio de Janeiro
00:48:01e inclusive
00:48:02que outras tropas
00:48:04estão chegando
00:48:05aqueles momentos
00:48:06que antecedem
00:48:07ao 7 de setembro
00:48:09ela já está
00:48:10num patamar
00:48:12bem diferenciado
00:48:13e ele quando vai
00:48:14para a famosa
00:48:15viagem
00:48:16para São Paulo
00:48:17onde acontece
00:48:17o grito
00:48:18do Ipiranga
00:48:19ela é regente
00:48:21ou seja
00:48:21a primeira mulher
00:48:22regente
00:48:23das Américas
00:48:24a primeira mulher
00:48:25que teve
00:48:26comando
00:48:27nas Américas
00:48:28no novo mundo
00:48:30é ela
00:48:30São Cristóvão
00:48:3229 de agosto
00:48:33de 1822
00:48:34meu querido
00:48:36e muito amado esposo
00:48:37mando-lhe o Paulo
00:48:38é preciso que volte
00:48:40com a maior brevidade
00:48:41esteja persuadido
00:48:42que não é o amor
00:48:43amizade
00:48:44que me faz desejar
00:48:45mais que nunca
00:48:46sua pronta presença
00:48:47mas sim
00:48:48as críticas circunstâncias
00:48:49em que se acha
00:48:50o amado Brasil
00:48:51só a sua presença
00:48:52muita energia
00:48:53e rigor
00:48:54pode salvá-lo
00:48:55da ruína
00:48:55as notícias
00:48:57de Lisboa
00:48:57são péssimas
00:48:5814 batalhões
00:49:00vão embarcar
00:49:00nas suas naus
00:49:02lisboenses
00:49:02tem se permitido
00:49:03toda a qualidade
00:49:04de expressões
00:49:05indignas
00:49:05contra a sua pessoa
00:49:06na Bahia
00:49:07entraram os 600 homens
00:49:09e duas ou três
00:49:10embarcações de guerra
00:49:11e nossa traidora
00:49:12esquadra
00:49:12ficou de boca aberta
00:49:13olhando para eles
00:49:14na cidade do Rio
00:49:16tem produzido
00:49:17essas notícias
00:49:17o maior alvoroço
00:49:18os ministros
00:49:20de estado
00:49:20lhe escrevem
00:49:21essa carta
00:49:21aqui inclusa
00:49:22e assentou-se
00:49:23não mandar os navios
00:49:24para o sul
00:49:26todos aqui estão bem
00:49:27e Maria já saiu
00:49:28e o Manuel Bernardes
00:49:29a enviou muito bem
00:49:30receba mil abraços
00:49:32e saudades
00:49:32muito ternas
00:49:33da sua amante e esposa
00:49:34Leopoldina
00:49:37e ela
00:49:39presidindo o conselho
00:49:40de estado
00:49:41com o José Bonifácio
00:49:43eles receberam
00:49:44as cartas
00:49:45exigindo a volta
00:49:46imediata
00:49:47de Dom Pedro
00:49:48que os decretos
00:49:50que você teve
00:49:51no final
00:49:52de 1821
00:49:53que agora
00:49:54teriam que ser
00:49:54realmente
00:49:55implementados
00:49:56em face
00:49:57a essas notícias
00:49:58e outras notícias
00:49:59que estão chegando
00:50:00de Lisboa
00:50:02ela convoca
00:50:03uma reunião
00:50:04do conselho
00:50:05de estado
00:50:05ela preside
00:50:06essa reunião
00:50:06do conselho
00:50:07de estado
00:50:07do dia 2 de setembro
00:50:09de 1822
00:50:10aonde fica decidida
00:50:12a contratação
00:50:13de mercenários
00:50:14para o exército
00:50:15brasileiro
00:50:16contra os portugueses
00:50:17então existe
00:50:18já toda uma
00:50:19movimentação
00:50:20de salvação
00:50:21nacional
00:50:21de preservação
00:50:22da unidade
00:50:23nacional
00:50:24ela escreve
00:50:25para São Paulo
00:50:26José Bonifácio
00:50:27também escreve
00:50:27para São Paulo
00:50:28ele tem aquela carta
00:50:29o povo está maduro
00:50:30colheu já
00:50:30que ela escreve
00:50:31para ele
00:50:312 de setembro
00:50:33de 1822
00:50:35Pedro
00:50:36o Brasil está
00:50:37como um vulcão
00:50:38até no passo
00:50:39há revolucionários
00:50:40até oficiais
00:50:41das tropas
00:50:42são revolucionários
00:50:43as cortes portuguesas
00:50:45ordenam
00:50:45vossa partida
00:50:46imediata
00:50:46ameaçam-vos
00:50:47e humilham-vos
00:50:48meu coração
00:50:49de mulher
00:50:49e de esposa
00:50:50prevê desgraças
00:50:51se partirmos
00:50:52agora para Lisboa
00:50:54sabemos bem
00:50:55o que tem sofrido
00:50:55nossos pais
00:50:56o rei
00:50:57e a rainha
00:50:57de Portugal
00:50:58não são mais reis
00:50:59não governam mais
00:51:00são governados
00:51:01pelo despotismo
00:51:02das cortes
00:51:02que perseguem
00:51:03e humilham
00:51:04os soberanos
00:51:04a quem devem respeito
00:51:06o Brasil será
00:51:07em vossas mãos
00:51:08um grande país
00:51:09o Brasil vos quer
00:51:10para ser o monarca
00:51:11o pomo está maduro
00:51:13colheu já
00:51:13se não apodrece
00:51:15Pedro
00:51:15o momento
00:51:17é o mais importante
00:51:17de vossa vida
00:51:19já dissestes aqui
00:51:20o que ireis fazer
00:51:21em São Paulo
00:51:22fazei pois
00:51:24tereis o apoio
00:51:25do Brasil inteiro
00:51:26e os soldados
00:51:28portugueses
00:51:28que aqui estão
00:51:29contra a vontade
00:51:30do povo brasileiro
00:51:31nada podem fazer
00:51:34Leopoldinho
00:51:59A historiografia
00:52:01de um certa maneira
00:52:02coloca que
00:52:03Dom Pedro
00:52:04já estava a caminho
00:52:05de volta
00:52:06e ele teria recebido
00:52:07essa correspondência
00:52:09a carta
00:52:10da Leopoldina
00:52:11de José Bonifácio
00:52:12as cartas
00:52:13que vieram de Portugal
00:52:14justamente no
00:52:16Riacho Ipiranga
00:52:16que ali ele teria
00:52:18dado o grito
00:52:19de independência
00:52:20ou morte
00:52:21isso é uma questão
00:52:23muito discutida
00:52:24na historiografia
00:52:25na época
00:52:26essa data
00:52:28não teve
00:52:28nenhuma importância
00:52:29fundamental
00:52:30a independência
00:52:31foi um processo
00:52:33aliás não foram
00:52:34as independências
00:52:35e elas foram
00:52:36ocorrendo aos poucos
00:52:37e nesse momento
00:52:38ela escreve
00:52:39uma carta
00:52:40ao pai
00:52:40aonde ela
00:52:41ela quer
00:52:43ela tem
00:52:44como intenção
00:52:45que o pai
00:52:46reconheça
00:52:47esse projeto
00:52:49que está sendo
00:52:50gestado
00:52:51em meio
00:52:51a não adesão
00:52:52de muitas pessoas
00:52:54em meio
00:52:54ao cenário
00:52:55de guerras
00:52:56que existem
00:52:57inclusive
00:52:57na América
00:52:58Latina
00:52:59e o que ela
00:53:01diz para o pai
00:53:01ela diz
00:53:02olha
00:53:02esse projeto
00:53:03prevê
00:53:03que a monarquia
00:53:04continue
00:53:04que não vamos
00:53:06ter sublevação
00:53:06social
00:53:07que vamos
00:53:08instaurar
00:53:08uma assembleia
00:53:09constituinte
00:53:10mas pai
00:53:11fique tranquilo
00:53:12porque esse regime
00:53:13vai ser bicameral
00:53:14ou seja
00:53:15vai ter câmara
00:53:15de deputados
00:53:16e vai ter senado
00:53:18que era uma forma
00:53:19de você controlar
00:53:20na época
00:53:21os maiores
00:53:23arroubos
00:53:23de revolucionários
00:53:25populares
00:53:26e ela escreve
00:53:27para o pai
00:53:27olha
00:53:28o senhor
00:53:28fique tranquilo
00:53:29aqui
00:53:30as coisas
00:53:31estão acontecendo
00:53:32no entanto
00:53:33tem uma moderação
00:53:35e isso faz com que
00:53:36eu fique muito feliz
00:53:38que esse arranjo
00:53:40tenha sido possível
00:53:41aqui
00:53:42que vai permitir
00:53:44a continuidade
00:53:45da monarquia
00:53:45quando ela está escrevendo
00:53:46isso para o pai
00:53:47ela não está contando
00:53:48isso para o pai
00:53:48como uma intimidade
00:53:50apenas
00:53:51ela está pedindo
00:53:52reconhecimento
00:53:54da independência
00:53:55o que não é
00:53:57uma coisa
00:53:57qualquer
00:53:59a família real
00:54:00não apenas está segura
00:54:01como desfrutamos
00:54:02do amor e confiança
00:54:03do povo
00:54:03de quem temos
00:54:04as demonstrações
00:54:05mais comoventes
00:54:06e seguras
00:54:07a grandeza do Brasil
00:54:08é de supremo interesse
00:54:09para as potências europeias
00:54:11especialmente do ponto
00:54:12de vista comercial
00:54:12e o maior desejo
00:54:14e o maior desejo
00:54:14das cortes
00:54:14aqui reunidas
00:54:15é fechar
00:54:16contratos comerciais
00:54:17com as possessões
00:54:18austríacas
00:54:18na Itália
00:54:19e estabelecer
00:54:20seu monopólio comercial
00:54:21em seus portos
00:54:22o que seria
00:54:23extremamente vantajoso
00:54:24para minha querida pátria
00:54:25pela riqueza
00:54:26extraordinária
00:54:27do Brasil
00:54:27em madeiras
00:54:28corantes
00:54:28e mercadorias
00:54:29coloniais
00:54:30ao longo
00:54:31de 1922
00:54:32ela vai continuar
00:54:33participando
00:54:33de decisões
00:54:34e nenhum
00:54:35dos dois
00:54:36nem ele
00:54:36nem ela
00:54:37vira imperatriz
00:54:38automaticamente
00:54:38isso só vai
00:54:40mudar
00:54:40em 12 de outubro
00:54:42de 1822
00:54:43quando ele é
00:54:44aclamado
00:54:45imperador
00:54:45do Brasil
00:54:46então é tudo
00:54:48respeitado
00:54:48é tudo
00:54:49fechadinho
00:54:50sabe
00:54:50e aí
00:54:51dia 1º de dezembro
00:54:52ele é
00:54:53coroado
00:54:54na catedral
00:54:55do Rio de Janeiro
00:54:56atual
00:54:57igreja do Carmo
00:54:57da Antiga Sé
00:55:01ela acompanha
00:55:02Dom Pedro
00:55:03em tudo aquilo
00:55:04que diz respeito
00:55:05a concretizar
00:55:07o plano
00:55:08de fazer do Brasil
00:55:09um império
00:55:09de ter esse império
00:55:11reconhecido
00:55:12fora daqui
00:55:12e de ajudá-lo
00:55:14a constituir
00:55:14um exército
00:55:15e aí
00:55:16ela é fundamental
00:55:17e ao Lord Corcoran
00:55:18quem conta
00:55:19ela grávida
00:55:20de barrigão
00:55:20sempre no arsenal
00:55:22recebendo
00:55:23os soldados
00:55:24austríacos
00:55:25germânicos
00:55:25que vinham
00:55:26falando
00:55:27inglês
00:55:28e alemão
00:55:29que Dom Pedro
00:55:29mal falava
00:55:31se comunicando
00:55:32com esses estrangeiros
00:55:34escrevendo cartas
00:55:35para a Metternich
00:55:36que era o ministro
00:55:37de Francisco I
00:55:38e ao pai
00:55:39pedindo pelo amor de Deus
00:55:40para eles reconhecerem
00:55:41o império do Brasil
00:55:42o mesmo ela fazia
00:55:43com a sua irmã
00:55:44Luison
00:55:45então
00:55:45comprando cavalos
00:55:47se endividando
00:55:48ela vai cuidar
00:55:49das viúvas
00:55:50desses soldados
00:55:51que vão servir
00:55:52ao exército
00:55:52do imperador
00:55:53então
00:55:54o projeto
00:55:55político
00:55:56dela
00:55:57é consolidar
00:55:58o império
00:55:59do Brasil
00:56:00por quê?
00:56:01porque ela é boazinha?
00:56:02não
00:56:02porque ela tem filhos
00:56:04e ela quer que os filhos
00:56:05herdem
00:56:06uma coroa
00:56:07ela entende
00:56:08desde que Dom João
00:56:09é prisioneiro das cortes
00:56:11e que ele volta
00:56:12para Portugal
00:56:12que Portugal
00:56:13estava perdido
00:56:14e ela aposta
00:56:16em ficar
00:56:16no Brasil
00:56:17e ela vai apoiar
00:56:18o marido
00:56:19nesse momento
00:56:20porque ela quer
00:56:21uma coroa
00:56:21para os filhos dela
00:56:23querido pai
00:56:25assuma o papel
00:56:26de nosso verdadeiro
00:56:26amigo e aliado
00:56:28certamente será
00:56:29para meu esposo
00:56:29e para mim
00:56:30um dos nossos dias
00:56:31mais felizes
00:56:31quando tivermos
00:56:32essa certeza
00:56:34quanto a mim
00:56:35caríssimo pai
00:56:35pode estar convicto
00:56:37de que caso aconteça
00:56:38o contrário
00:56:38para nosso maior pesar
00:56:40sempre permanecerei
00:56:41brasileira de coração
00:56:43pois é o que
00:56:44determino minhas
00:56:44obrigações
00:56:45como esposa
00:56:46mãe
00:56:46e a gratidão
00:56:47a um povo honrado
00:56:48que se dispôs
00:56:49quando nos vimos
00:56:50abandonados
00:56:51por todas as potências
00:56:52a ser nosso esteio
00:56:53não temendo
00:56:54quaisquer sacrifícios
00:56:55ou perigos
00:56:56nesse exato momento
00:56:59que isso tudo
00:57:00está dando certo
00:57:02ele se apaixona
00:57:04pela Domitila de Castro
00:57:06nessa mesma viagem
00:57:07que a esposa
00:57:09está dando as cartas
00:57:10que esse casal
00:57:11de jovens
00:57:12estão tomando
00:57:13essas decisões
00:57:14que vão
00:57:15mexer
00:57:16com o império português
00:57:17vão construir
00:57:18um novo império
00:57:19ele se apaixona
00:57:21pela Domitila
00:57:22de Castro
00:57:24a independência
00:57:26é 7 de setembro
00:57:28e logo depois
00:57:29ela já está instalada
00:57:31aqui no Rio de Janeiro
00:57:33não tem nenhum problema
00:57:35um rei
00:57:36um imperador
00:57:37tem uma amante
00:57:38isso fazia parte
00:57:40do jogo
00:57:41ela não bate de frente
00:57:42ela se fecha
00:57:43por quê?
00:57:45porque ela não tinha
00:57:48o que fazer
00:57:49ela tinha
00:57:50uma ideia
00:57:51dessa sociedade
00:57:52de corte
00:57:53e do que representava
00:57:55a monarquia
00:57:56perante o povo
00:57:57que o Dom Pedro
00:57:58nunca atingiu
00:57:59muito bem
00:57:59então assim
00:58:01ela tinha que dar
00:58:02um ar de dignidade
00:58:04ao papel dela
00:58:05como imperatriz
00:58:07seria abaixo
00:58:08da dignidade
00:58:09dela
00:58:09como imperatriz
00:58:10no Brasil
00:58:12brigar
00:58:12por causa
00:58:13da mulher
00:58:13que está
00:58:14na cama
00:58:14com o do marido
00:58:16ela não ia se rebaixar
00:58:17a isso
00:58:18só que não é
00:58:18que ela não vai se rebaixar
00:58:19que ela não vai sentir
00:58:21ele já
00:58:22entende o contrário
00:58:23ela não liga
00:58:25então eu posso fazer
00:58:26o que eu quiser
00:58:27logo depois
00:58:29da proclamação
00:58:31digamos
00:58:31da independência
00:58:33em 22
00:58:33do projeto
00:58:34do Rio de Janeiro
00:58:36São Paulo
00:58:36e Minas Gerais
00:58:37eu gosto de dizer
00:58:38porque
00:58:38não é um projeto
00:58:40que tem a unanimidade
00:58:41em 1822
00:58:42o Dom Pedro
00:58:43o que ele faz?
00:58:44ele convoca
00:58:45uma assembleia constituinte
00:58:46que é a famosa
00:58:48constituinte de 23
00:58:50e essa constituinte
00:58:51se reúne
00:58:52e começa então
00:58:53a ser deliberada
00:58:54o problema é assim
00:58:55eles fazem uma constituição
00:58:56essa constituição
00:58:56é super aceitável
00:58:57só que a assembleia
00:59:00ela começa a se perder
00:59:01em discussões
00:59:03demagógicas
00:59:03e a constituição
00:59:06não é votada
00:59:07enquanto isso
00:59:08essa assembleia constituinte
00:59:09dentro dessa demagogia toda
00:59:11está jogando portugueses
00:59:12contra brasileiros
00:59:13dentro do Rio de Janeiro
00:59:14o Dom Pedro
00:59:15acaba com a festa
00:59:16fecha a constituição
00:59:17deporta meio mundo
00:59:18manda prender
00:59:19e exilar
00:59:20os irmãos Andrada
00:59:21e ele dá uma constituição
00:59:23em 24
00:59:24para o Brasil
00:59:27entre o fechamento
00:59:28da assembleia
00:59:28e a nova constituição
00:59:31de acordo com
00:59:32o conselheiro
00:59:33Vasconcelos de Drummond
00:59:34e nas suas memórias
00:59:35houve uma movimentação
00:59:37para tirar
00:59:38o Dom Pedro
00:59:39do poder
00:59:39e colocar a Leopoldina
00:59:41e que ela teria recusado
00:59:42e que ela seria
00:59:43fiel ao marido
00:59:44que de jeito nenhum
00:59:45José Bonifácio
00:59:46teve uma fala
00:59:47que entrou para a história
00:59:48ela deveria ser ele
00:59:50por conta dessa admiração
00:59:52que ele nutria
00:59:53pelo lado político
00:59:54de Leopoldina
00:59:55mas assim
00:59:56eu não vejo
00:59:57Leopoldina
00:59:58querendo ter
00:59:59o protagonismo
01:00:00ou melhor
01:00:00querendo tirar
01:00:01o protagonismo
01:00:02do esposo
01:00:03a coisa complicou
01:00:05depois com o caso
01:00:06com a Marquesa dos Santos
01:00:07especialmente
01:00:07quando nasce
01:00:09a filha
01:00:11com a Marquesa dos Santos
01:00:13e ele dá o título
01:00:14de Duquesa de Goiás
01:00:15porque Duquesa
01:00:16você só pode dar o título
01:00:17de Duque
01:00:18ou Duquesa
01:00:19a algum personagem
01:00:20muito importante
01:00:22ou então
01:00:23ao filho
01:00:23ou filha
01:00:24do soberano
01:00:26na Páscoa de 1825
01:00:28a Domitila
01:00:30já está tão segura
01:00:31que ela é uma pessoa
01:00:32diferenciada
01:00:33que na Missa de Páscoa
01:00:35ela vai
01:00:36na igreja
01:00:37e ela senta
01:00:38na parte
01:00:40que cabia
01:00:40as mulheres da corte
01:00:43e o que as mulheres
01:00:44da corte fazem?
01:00:46Todas saem
01:00:46e ela fica sozinha
01:00:48ela é rejeitada
01:00:50socialmente
01:00:51pela corte
01:00:52do Rio de Janeiro
01:00:53o Pedro tem
01:00:54um acesso
01:00:55de ódio
01:00:56e faz o que?
01:00:57Transforma ela
01:00:58em primeira dama
01:01:01da imperatriz
01:01:02A partir do momento
01:01:04que ela
01:01:05tem um cargo
01:01:07dentro da corte
01:01:08que coloca ela
01:01:10podendo entrar
01:01:12dentro dos aposentos privados
01:01:13dos imperadores
01:01:14ela vira
01:01:15uma pessoa política
01:01:16ela vira
01:01:17uma iminência política
01:01:18A partir desse momento
01:01:20todos oficiam
01:01:21todos os estrangeiros
01:01:23do Rio de Janeiro
01:01:24oficiam para os seus países
01:01:25falando dela
01:01:25Ele dá
01:01:26de presente
01:01:27para ela
01:01:28a casa
01:01:29que fica em frente
01:01:30à entrada
01:01:31da Quinta da Boa Vista
01:01:32Então as pessoas
01:01:34pediam favores
01:01:35ao imperador
01:01:36e ele dizia
01:01:38não sei se eu serei capaz
01:01:40de resolver
01:01:42fala com a marquesa
01:02:12Em dezembro
01:02:14então ela se sente
01:02:15ela diz que ela se sente
01:02:17humilhada
01:02:18e envergonhada
01:02:19Nessas cerimônias
01:02:20oficiais
01:02:21a presença
01:02:21da Marquesa dos Santos
01:02:22era alguma coisa
01:02:23que realmente
01:02:23devia ser muito humilhante
01:02:29Dom Pedro
01:02:31apresenta o seu filho
01:02:34no colo
01:02:35do pai de Domitila
01:02:37isso criou um rebuliço
01:02:39na sociedade
01:02:39ao ponto
01:02:41da intendência
01:02:42de polícia
01:02:42na época
01:02:43ficar em prontidão
01:02:44Dom Pedro
01:02:44a partir desse momento
01:02:46percebendo
01:02:47o quanto pegou mal
01:02:48a atitude dele
01:02:49ele começa a aparecer
01:02:50mais ao lado
01:02:50de Leopoldino
01:02:51para amenizar os ânimos
01:02:53Essa vida
01:02:55muito trêfega
01:02:57de Dom Pedro I
01:02:59acaba por colaborar
01:03:01terrivelmente
01:03:02para o fim político dele
01:03:04As populações modernas
01:03:07das monarquias modernas
01:03:08suportaram
01:03:10a vida luxuriosa
01:03:13dos seus reis
01:03:14até a Revolução Francesa
01:03:16A partir da Revolução Francesa
01:03:18isso passou a não ser
01:03:19mais admitido
01:03:20Isso passou a ser
01:03:22sinônimo de fraqueza
01:03:23Quer dizer
01:03:24um homem que tem
01:03:25muitas amantes
01:03:25não é absolutamente
01:03:26um homem viril
01:03:27não é um político
01:03:30capacitado para governar
01:03:31é um homem fraco
01:03:32que pode ser levado
01:03:33no cabresto
01:03:34por uma mulher
01:03:35O próprio imperador
01:03:37em 1925
01:03:37se desgasta muito
01:03:39com a guerra
01:03:40da cisplatina
01:03:42com as dificuldades
01:03:44que ele tem
01:03:45de criar um governo
01:03:47que ao mesmo tempo
01:03:49se diz em nome
01:03:50de todas as províncias
01:03:51mas que não é nem
01:03:52financiado pelas províncias
01:03:54onde você não tem
01:03:55nem como manter
01:03:57a corte
01:03:59financeiramente
01:04:00em um estado
01:04:01tão confortável
01:04:02e ela chega a falar
01:04:03de um certo
01:04:07descontentamento
01:04:07com que os rumos
01:04:09da política
01:04:09estariam tomando ali
01:04:10ela está vivendo
01:04:11na corte
01:04:12que depois de um momento
01:04:14de comoção
01:04:14aclamação
01:04:15a princípio
01:04:16uma adesão
01:04:17e o primeiro reconhecimento
01:04:19da independência
01:04:19que é feito pela Inglaterra
01:04:21em 1825
01:04:22ela também já percebe
01:04:24um momento difícil
01:04:26que ela está vivendo ali
01:04:28que ela se afasta um pouco
01:04:30é um momento em que
01:04:30ela própria
01:04:31se afasta
01:04:32agora
01:04:33até o final
01:04:34da vida
01:04:36ela se reconhece
01:04:37como imperatriz
01:04:38do Brasil
01:04:39ela reconhece
01:04:40o senso
01:04:41de dever
01:04:42que ela tinha
01:04:43eu chamo o nome
01:04:44de 1826
01:04:45o mal-estar
01:04:47pessoal
01:04:48para Leopoldina
01:04:49vai se agravando
01:04:52os empregados
01:04:53do palácio
01:04:54agora
01:04:54são todos eles
01:04:56simpáticos
01:04:57a morena brasileira
01:04:58agora nós estamos falando
01:05:00de uma
01:05:01branca
01:05:02alemoa
01:05:03cada dia mais gorda
01:05:05cada dia mais
01:05:06autoestima
01:05:08no chão
01:05:09sendo humilhada
01:05:11diariamente
01:05:12totalmente
01:05:13garroteada
01:05:14totalmente
01:05:15garroteada
01:05:16no palácio
01:05:17da quinta
01:05:17da boa vista
01:05:18e ela
01:05:20ensaia
01:05:21um movimento
01:05:23eu quero voltar
01:05:24eu quero ir embora
01:05:25eu não aguento
01:05:26mais ser humilhada
01:05:26ela começa
01:05:27também sabe
01:05:28a adoecer
01:05:29até psicologicamente
01:05:31ela começa
01:05:32a escrever cartas
01:05:33estou em grave
01:05:34melancolia
01:05:35em meio a tudo isso
01:05:37eu chamo a atenção
01:05:38que Leopoldina
01:05:39adquiriu uma grande amiga
01:05:40que foi Maria Granja
01:05:42que era governanta
01:05:43responsável pela educação
01:05:44da princesa Maria da Glória
01:05:46e até isso
01:05:47ele foi tirado
01:05:48por conta de intrigas
01:05:49falacianas
01:05:50quando tiram
01:05:52a Maria Granja
01:05:53ela perde aquela
01:05:55com quem ela podia conversar
01:05:56e aí eu acho que
01:05:58essa questão
01:05:59levou realmente
01:06:00a um certo
01:06:01vamos dizer
01:06:02desencantamento
01:06:03eu acho que não devia ser fácil
01:06:04para uma jovem
01:06:06que vem cheia de esperanças
01:06:09como ela coloca
01:06:10para uma nova terra
01:06:12uma terra que
01:06:13lhe foi hostil
01:06:15de uma certa maneira
01:06:16e que vai se sentir
01:06:18abandonada
01:06:19pelo próprio marido
01:06:20em 26
01:06:21ela vive um momento
01:06:23mais difícil
01:06:24politicamente
01:06:25pessoalmente
01:06:26também
01:06:27ela chega a escrever
01:06:28quando a filha dela
01:06:30vai para Portugal
01:06:31ela chega a escrever
01:06:32numa carta
01:06:33a Maria Graja
01:06:35onde ela escreve o seguinte
01:06:36dentre um pouco
01:06:38serei obrigada
01:06:39a fazer um novo sacrifício
01:06:41é o de me separar
01:06:43de uma filha
01:06:43que adoro
01:06:44e que o merece
01:06:45que revela
01:06:46a cada momento
01:06:47novas
01:06:48e excelentes qualidades
01:06:49o que deve consolar
01:06:51uma mãe afetuosa
01:06:52é a firme esperança
01:06:54e
01:06:54posso dizer
01:06:55a certeza
01:06:56de que ela fará
01:06:58a felicidade
01:06:59de uma nação fiel
01:07:00e brava
01:07:00e habitará
01:07:02em nossa querida Europa
01:07:03que ainda espero rever
01:07:22O Brasil estava perdendo
01:07:23a guerra
01:07:24da cisplatina
01:07:26e havia mais um mal-estar
01:07:27agora um mal-estar
01:07:29político
01:07:30ele não dorme mais
01:07:31em casa
01:07:32não governa
01:07:33e nós estamos perdendo
01:07:34uma guerra
01:07:34ele vai viajar
01:07:35para a cisplatina
01:07:36que é o atual Uruguai
01:07:37levando tropas
01:07:39e ele deixa ela
01:07:40como imperatriz regente
01:07:41então
01:07:42pela segunda vez
01:07:43ela assume
01:07:44o cargo
01:07:45de regente do Brasil
01:07:46falam que
01:07:47antes de partir
01:07:48ele teria
01:07:49chutado
01:07:50a barriga dela
01:07:51batido nela
01:07:52o que
01:07:53não se procede
01:07:54pelos boletins médicos
01:07:56os jornais
01:07:57fizeram
01:07:58boletins
01:07:59praticamente diários
01:08:00dizendo
01:08:01a evolução
01:08:02desse quadro clínico
01:08:03de Leopoldina
01:08:04da saúde
01:08:05dela
01:08:05Leopoldina
01:08:06apresentava
01:08:07diarreia
01:08:09febre
01:08:09por mais de 12 horas
01:08:11consecutivas
01:08:11ela sofreu
01:08:13um aborto
01:08:14por esses dias
01:08:14conforme
01:08:16essas notícias
01:08:17iam chegando
01:08:18na sociedade
01:08:19por meio da oralidade
01:08:20inclusive
01:08:21pessoas de diversas
01:08:22classes sociais
01:08:23se dirigiam
01:08:24à Quinta da Boa Vista
01:08:25ao Palácio
01:08:26de São Cristóvão
01:08:27para saber
01:08:27pessoalmente
01:08:28notícias
01:08:29sobre
01:08:29a dourada
01:08:31governante
01:08:31como os jornais
01:08:32colocam
01:08:33o Rio de Janeiro
01:08:34inteiro
01:08:35parou
01:08:36durante
01:08:37a doença
01:08:38dela
01:08:38realmente
01:08:39era uma coisa
01:08:39muito piedosa
01:08:41era um desejo
01:08:42de que a imperatriz
01:08:43melhorasse
01:08:44ela tinha uma fama
01:08:46no Rio de Janeiro
01:08:46muito boa
01:08:47essas dívidas
01:08:49que ela contrai
01:08:49não era
01:08:50para gastos
01:08:51pessoais
01:08:52de
01:08:53colares
01:08:54e diamantes
01:08:55era para ajudar
01:08:56as pessoas
01:08:56muitas vezes
01:08:58era para pagar
01:08:59de volta
01:08:59as passagens
01:09:01de imigrantes
01:09:02germânicos
01:09:03que não se adaptaram
01:09:04no Brasil
01:09:04ela era encontrada
01:09:06sempre na Igreja da Glória
01:09:08ou no Jardim de São Cristóvão
01:09:09por quem quisesse
01:09:11que ela pedia dinheiro
01:09:12pedia ajuda
01:09:13chorar as mágoas
01:09:14ela atendia todo mundo
01:09:15ela morre endividada
01:09:16para distribuir as molas
01:09:18né
01:09:19São Cristóvão
01:09:218 de dezembro
01:09:22de 1826
01:09:24às 4 da manhã
01:09:27minha adorada mana
01:09:31reduzida ao mais deplorável
01:09:32estado de saúde
01:09:33e tendo chegado
01:09:34ao último ponto
01:09:35de minha vida
01:09:36em meio dos maiores
01:09:37sofrimentos
01:09:38terei também a desgraça
01:09:39de não poder
01:09:40eu mesmo explicar
01:09:41de todos aqueles sentimentos
01:09:42que há tanto tempo
01:09:43existiam impressos
01:09:44na minha alma
01:09:44minha mana
01:09:46não tornarei a vê-la
01:09:48não poderei outra vez
01:09:49repetir que te amava
01:09:51que te adorava
01:09:54pois já que não posso
01:09:55ter essa tão inocente
01:09:56satisfação igual
01:09:57a outras muitas
01:09:58que não me são permitidas
01:10:00ouve o grito
01:10:01de uma vítima
01:10:01que de tu reclama
01:10:02não vingança
01:10:05mas piedade
01:10:08e socorro
01:10:09do fraternal afeto
01:10:10para meus inocentes filhos
01:10:11que órfãos vão ficar
01:10:13em poder de si mesmos
01:10:14ou das pessoas
01:10:15que foram autores
01:10:16das minhas desgraças
01:10:20há quase 4 anos
01:10:21minha adorada mana
01:10:23como a ti tenho escrito
01:10:24por amor de um monstro
01:10:26sedutor
01:10:26me vejo reduzida
01:10:27ao estado
01:10:28da maior escravidão
01:10:29e totalmente esquecida
01:10:31pelo meu adorado Pedro
01:10:35ultimamente acabou
01:10:35de dar-me a última prova
01:10:37de seu total esquecimento
01:10:39a meu respeito
01:10:41maltratando-me
01:10:42na presença
01:10:42daquela mesma
01:10:43que é a causa
01:10:44de todas as minhas desgraças
01:10:47muito e muito
01:10:48tinha a dizer-te
01:10:50mas faltam-me forças
01:10:52para me lembrar
01:10:54de tão horroroso
01:10:55atentado
01:10:56que será sem dúvida
01:10:57a causa da minha morte
01:11:14a triste notícia
01:11:16chega
01:11:16eu podia não ver
01:11:17a falecer no dia 11
01:11:18de dezembro
01:11:19de 1826
01:11:20e também
01:11:21a gente consegue ver
01:11:22nas notícias
01:11:24o quanto foi impactante
01:11:26essa reação
01:11:27que a sociedade
01:11:29brasileira tem
01:11:31por conta
01:11:32do enterro dela
01:11:33da morte
01:11:33do enterro
01:11:34eu acho
01:11:35que é o maior recibo
01:11:37e o maior reconhecimento
01:11:39que os brasileiros
01:11:41dão
01:11:41da importância dela
01:11:42o enterro
01:11:43é descrito
01:11:44de uma maneira
01:11:44muito emotiva
01:11:45com gente na rua
01:11:47com gente chorando
01:11:49principalmente
01:11:50a população
01:11:51mais pobre
01:11:52mas por que será
01:11:53que é a população
01:11:55mais pobre
01:11:56porque ela nunca falou
01:11:56em final da escravidão
01:11:58nunca ninguém
01:11:59tocou nesse assunto
01:12:00mas eu acho
01:12:02que de repente
01:12:03eles já reconheceram
01:12:05nela
01:12:05a situação da opressão
01:12:07são exéquias
01:12:09que são muito
01:12:11dramatizadas
01:12:12que tem toda
01:12:13uma carga
01:12:15do sofrimento
01:12:16de toda uma cidade
01:12:17e isso
01:12:19fica
01:12:19no imaginário
01:12:21da população
01:12:22a mulher
01:12:23que sofreu
01:12:25até a morte
01:12:26e que morre
01:12:28não é
01:12:29daquela infelicidade
01:12:30eu acho
01:12:31que a figura
01:12:31mais querida
01:12:32da independência
01:12:33com a qual
01:12:34as pessoas
01:12:34se identificam
01:12:35muito
01:12:35pelo seu sofrimento
01:12:37pela sua solidão
01:12:38o abandono
01:12:39da mulher
01:12:40essa violência
01:12:41psicológica
01:12:42que Dom Pedro
01:12:43exerceu
01:12:44sobre ela
01:12:45é alguma coisa
01:12:46que cala fundo
01:12:47você não precisa ser
01:12:48um grande intelectual
01:12:49para entender
01:12:49o que é
01:12:51ficar sozinho
01:12:51num país estrangeiro
01:12:52sem falar a língua
01:12:53tendo um filho
01:12:54atrás do outro
01:12:54feito um bicho
01:12:55que a narrativa
01:12:56da importância
01:12:59da Leopoldina
01:12:59da própria
01:13:01devoção
01:13:02que alguns
01:13:03tem a ela
01:13:03nesse momento
01:13:05vis-à-vis
01:13:06o desgaste
01:13:08da figura
01:13:08do seu marido
01:13:09passa um pouco
01:13:11para a imprensa
01:13:12da época
01:13:13elas vão estar
01:13:13colocadas na imprensa
01:13:14da época
01:13:15e o mais interessante
01:13:16passa um pouco
01:13:17para a posteridade
01:13:18a historiografia
01:13:19coloca que a morte
01:13:20da Leopoldina
01:13:21teria agravado
01:13:23a própria situação
01:13:24de Dom Pedro
01:13:25como imperador
01:13:26e a partir daí
01:13:28não esquecendo
01:13:29que 26
01:13:29é quando você
01:13:30começa a ter
01:13:31uma nova
01:13:31é convocada
01:13:33uma nova assembleia
01:13:34uma assembleia
01:13:35vamos dizer
01:13:36geral
01:13:36e você vai ter
01:13:37uma crítica
01:13:39muito grande
01:13:40dos deputados
01:13:42contra
01:13:43Dom Pedro
01:13:44e cinco anos
01:13:46depois
01:13:46ele vai acabar
01:13:48abdicando
01:13:58durante muito tempo
01:13:59quem escrevia
01:14:00a história do Brasil
01:14:01eram os homens
01:14:02isso foi nefasto
01:14:04e foi mortal
01:14:06para a imagem
01:14:07da Leopoldina
01:14:08então
01:14:09por exemplo
01:14:10o Pedro Calmon
01:14:11que é
01:14:12o biógrafo
01:14:13o primeiro biógrafo
01:14:14do Pedro I
01:14:16ele põe
01:14:17a morte
01:14:18da Leopoldina
01:14:18num pé de página
01:14:19dentro desse
01:14:21pensamento
01:14:21patriarcal
01:14:23você tem
01:14:24perto do centenário
01:14:25da independência
01:14:26duas iconografias
01:14:27importantes dela
01:14:28você tem
01:14:29um quadro
01:14:30onde a Leopoldina
01:14:31aparece
01:14:32sentada
01:14:33com o Dom Pedro II
01:14:35no colo
01:14:36e cercado
01:14:37dos filhos
01:14:38então
01:14:38é a mãe
01:14:39a mãe e a esposa
01:14:41é essa visão
01:14:42do homem
01:14:43em cima dela
01:14:43e
01:14:45um ano depois
01:14:46em 21
01:14:47esse quadro
01:14:47em 22
01:14:48você tem
01:14:48a Georgina
01:14:49de Albuquerque
01:14:50que é a primeira
01:14:51mulher a pintar
01:14:52um quadro
01:14:53de gênero histórico
01:14:55e esse gênero histórico
01:14:56mostra a Leopoldina
01:14:57no Conselho de Estado
01:14:59chefiando o Conselho de Estado
01:15:00ela está sentada
01:15:02e todo
01:15:02o gabinete
01:15:03está em volta dela
01:15:04é bem
01:15:05a cena
01:15:06do 2 de setembro
01:15:07então eu acho
01:15:07que a gente tem que ir
01:15:08mais para o lado
01:15:09da Georgina
01:15:09de pensar
01:15:11na Leopoldina
01:15:13ela foi mãe
01:15:14mas ela não foi só isso
01:15:15é, eu acho que a Leopoldina
01:15:17tem que ser lembrada
01:15:18não como
01:15:19uma vítima
01:15:21uma pobre coitada
01:15:23que foi traída
01:15:24pelo marido
01:15:24que sofreu
01:15:26que teria morrido
01:15:27por causa
01:15:27de um pontapé dele
01:15:29eu acho que você
01:15:30durante muito tempo
01:15:32buscou apenas
01:15:33na historiografia
01:15:34esse lado
01:15:35privado
01:15:36da Leopoldina
01:15:37e de uma pobre coitada
01:15:38a biografia
01:15:39das mulheres
01:15:40normalmente
01:15:41ela é vista
01:15:43sobre
01:15:43um aspecto
01:15:44da infância
01:15:45da casa
01:15:47da maternidade
01:15:48a memória
01:15:50do privado
01:15:50a biografia
01:15:51dos homens
01:15:52passa por isso
01:15:53muito rapidamente
01:15:54e ela começa
01:15:55a contar
01:15:56a história pública
01:15:57com a Leopoldina
01:15:58o que se dá
01:15:59é que a memória
01:16:00sobre a Leopoldina
01:16:01ela vai privilegiar
01:16:03uma Leopoldina
01:16:04mulher traída
01:16:05e isso acaba
01:16:06por
01:16:08silenciar
01:16:09a mulher política
01:16:11a mulher pública
01:16:12a mulher que fez
01:16:13muitas coisas
01:16:15fora da casa
01:16:16eu acho que
01:16:17a Leopoldina
01:16:17ela manda do passado
01:16:19diversas mensagens
01:16:21para todas nós mulheres
01:16:23uma dessas mensagens
01:16:24é que o machismo
01:16:26é histórico
01:16:27é estrutural
01:16:28mas ela foi uma mulher
01:16:29que mesmo diante
01:16:30de tudo isso
01:16:31ela tinha a convicção
01:16:32do que ela queria
01:16:33ela queria salvaguardar
01:16:35essa monarquia
01:16:35nos trópicos
01:16:36e ela conseguiu
01:16:40eu gosto muito
01:16:42de dizer
01:16:42que as mulheres
01:16:43sempre tiveram
01:16:43na história
01:16:44não é
01:16:45muitas vezes
01:16:46o que a gente
01:16:47não valoriza
01:16:48é aonde
01:16:48elas tiveram
01:16:49qual que
01:16:50era a ação
01:16:51e mais do que isso
01:16:52o que se
01:16:53se o ser mulher
01:16:57colocava
01:16:59agendas especiais
01:17:00ou formações
01:17:03aproximações
01:17:04específicas
01:17:05especiais
01:17:06que estão ligadas
01:17:07muito
01:17:07a sua questão
01:17:08de gênero
01:17:09quando
01:17:09essas narrativas
01:17:10tradicionais
01:17:11evocam
01:17:13a Leopoldina
01:17:14e a colocam
01:17:15como chefe
01:17:16de estado
01:17:17vão pensar
01:17:17como um chefe
01:17:19de estado
01:17:19tradicional
01:17:20masculino
01:17:21mas ela era
01:17:22uma mulher
01:17:23ela tinha
01:17:23outros papéis
01:17:24e que ela tem
01:17:25clareza
01:17:26que ela
01:17:27também desempenhava
01:17:28inclusive como mãe
01:17:29quando ela se despede
01:17:30da filha
01:17:31quando ela fala
01:17:32da importância
01:17:33dela como filha
01:17:34ela sabe disso
01:17:36e ao mesmo tempo
01:17:38ela atua
01:17:39politicamente
01:17:40então o que me parece
01:17:42que é o grande desafio
01:17:44hoje
01:17:45para entender
01:17:46a Leopoldina
01:17:47é recuperar
01:17:48ela também
01:17:48numa chave de mulher
01:17:49e aí sim
01:17:51recuperar
01:17:52juntar
01:17:53o que parece
01:17:54que está separado
01:17:55aquela que sofre
01:17:57porque o marido
01:17:58tem amante
01:17:58e aquela que atua
01:17:59politicamente
01:18:00na verdade
01:18:01é a mesma pessoa
01:18:02porque no fundo
01:18:03para ela
01:18:03essas coisas
01:18:04estavam muito ligadas
01:18:05estar à frente
01:18:07da política
01:18:07ou ser mãe
01:18:08é um papel político
01:18:10também para ela
01:18:11efetivamente
01:18:13ela sabia disso
01:18:15melhor
01:18:15talvez do que nós
01:18:17na sua
01:18:18clareza
01:18:21impressionante
01:18:21o que é
01:18:23o que é
01:18:50a
01:19:18A CIDADE NO BRASIL
01:19:48A CIDADE NO BRASIL
01:20:18A CIDADE NO BRASIL
01:20:37A CIDADE NO BRASIL
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