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00:29Legenda por Sônia Ruberti
00:45Legenda por Sônia Ruberti
01:05Legenda por Sônia Ruberti
01:38Em fevereiro de 1922, a Semana de Arte Moderna aconteceu em três noites no Teatro Municipal.
01:49Foram muitos os que estudaram e se dedicaram a reconstituir o evento, mas ainda hoje restam dúvidas sobre o que
01:56realmente aconteceu naqueles dias.
01:58E foi somente ao longo das décadas seguintes que a Semana se tornou esse marco histórico que continua a inspirar
02:05e a dialogar com o presente.
02:12Meu nome é Frederico Coelho e sou professor de literatura na PUC do Rio de Janeiro.
02:17Dez anos depois de lançar meu livro Semana Sem Fim, Celebrações e Memórias da Semana de Arte Moderna de 1922,
02:25venho a São Paulo para continuar a investigação sobre este evento que construiu, ao longo das décadas, uma narrativa histórica.
02:34Nascimento, ascensão, queda e retorno permanente de um herói.
02:38A Semana Originária, aquela que inventa, aos poucos, uma ideia de Brasil.
02:49A fartura de câmeras e registros fotográficos não era comum há 100 anos.
02:54Nos faltam imagens do evento e temos raros depoimentos dos participantes.
02:59Mas no final dos anos 60, com alguns dos artistas ainda vivos, a historiadora e crítica de arte Aracia Amaral
03:06pôde entrevistá-los para escrever um livro que se tornou uma referência sobre o tema.
03:12Aracia, a primeira pergunta é relativa ao seu livro, Artes Pláticas, na Semana de 1922.
03:17Um livro que você escreveu, ainda muito próximo, em contato com alguns artistas que participaram da semana,
03:23pessoas que eram ligadas nesse momento.
03:25Onde é que veio a ideia do livro e como é que foi a sua experiência na relação com esses
03:29artistas e com esse tema na época?
03:32É interessante essa pergunta, porque é a primeira vez que me fazem essa pergunta.
03:36Como é que eu resolvi fazer um livro sobre a Semana de Arte Moderna de 1922?
03:40Então, eu devo dizer a vocês que talvez eu já estivesse começando a me interessar pelo modernismo em si,
03:50mas eu não tinha abordado nenhuma questão específica.
03:53E isso me ocorreu justamente quando eu li, justamente, você tem que conhecer primeiro a sua aldeia,
04:00eu acho que é do Chagall até essa frase, para depois conhecer o mundo.
04:03E daí eu falei assim, todo mundo fala da Semana de 1922, mas o que foi a Semana de 1922?
04:09Porque o meu trabalho de pesquisa sempre foi de imersão.
04:14Eu mergulhava naquele universo, eu mergulhava nos restaurantes, nos navios que eles viajavam,
04:20nas comidas que eles comiam, e daí eu vivenciava uma época.
04:25Eu ficava dentro da época da Semana de 1922, li todos os romances, todos os livros de poemas,
04:32a época que me eram possibilitados.
04:34A Semana foi pouco divulgada na época, foi pouca divulgação.
04:38E como se sabe, foi a partir justamente dos aniversários da Semana, em 1942, em 1952, em 1972,
04:48quando houve o 50º aniversário da Semana em particular, com grandes exposições aqui em São Paulo,
04:54é que então começaram a comemorar quase que de uma forma nacional,
04:58como se ela tivesse sido a única forma.
05:01E aí era sempre focalizando só São Paulo.
05:24Pensando na pouca divulgação que a Semana teve na época,
05:27fui ver o que havia sido publicado nos jornais.
05:37Então esse aqui é o material, né, que você solicitou.
05:40Ele tá meio sensível, porque antigamente acho que não tinha muita experiência ainda com manuseio de jornais,
05:47e aí foi guardado, alguns foram guardados até dobrados, né?
05:51Esse aqui é fevereiro, né? 1922.
05:55Isso.
05:55Estado de São Paulo, né?
05:57Uau.
05:57Aqui, Rá, Semana de Arte Moderna.
06:02Realizou-se ontem no Teatro Municipal o 2º Festival da Semana de Arte Moderna,
06:08uma boa concorrência para a qual certamente contribuiu em grande parte a inclusão no programa
06:14do nome do nosso ilustre pianista, Guilmar Navarro.
06:20Vamos ver aqui nessa parte cultural aqui.
06:23Vamos descobrir.
06:24Vamos descobrindo, exatamente.
06:26Isso, isso.
06:26Aqui, Teatro Municipal, Semana de Arte Moderna.
06:28Isso, isso.
06:29Programa do 1º Festival, segunda-feira, 13 do Corrente.
06:32Ah, que maravilha.
06:33Primeira parte, conferência de Graça Aranha, a emoção estética na arte moderna,
06:37ilustrada com música executada por Hernani Braga e poesia de Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho.
06:42Lindo, né?
06:43Um músico maravilhoso.
06:44Maravilhoso, sim.
06:45Rila Lobos tocou, ou pelo menos eram peças dele desse dia, né?
06:50Que talvez o Hernani Braga que tenha executado.
06:53Segunda parte, conferência de Ronald de Carvalho, a pintura e a escultura moderna no Brasil,
06:58solo de penão de Hernani Braga, valsa mística, camponesa cantadeira, a fiandeira.
07:06E aqui o Oteto, né?
07:07Três danças africanas, do Rila Lobos também.
07:29A intenção de se fazer na semana era uma intenção, certamente, provocar algum tipo de...
07:36não vou dizer de choque, né?
07:37De escândalo.
07:38Que era uma categoria ali que até circulava, né?
07:40Mas era uma forma de você tentar fazer um evento que chamasse a atenção para uma
07:46ação de novas gerações, digamos assim, né?
07:49De escritores, intelectuais, etc.
07:51Ser um artista moderno no Brasil na década de 20 era ser um artista que estava proclamando
07:56a instauração do novo, né?
07:58Mesmo que esse novo pudesse ser novo no Brasil, mas não fosse novo do ponto de vista de uma
08:03vanguarda mundial, europeia em geral.
08:21Uma das primeiras pessoas que encontrei para ouvir foi Gênesia Andrade, professora da FAAP e crítica literária.
08:27Ela é responsável pela publicação Modernismos 1922-2022, uma coletânea de ensaios em que ressalta o caráter inesgotável do tema.
08:39Para ela, o centenário é para festejar sem deixar de questionar, preencher lacunas, provocar novas reflexões com o mesmo vigor
08:49que moveu seus protagonistas.
08:51O grupo que organiza a semana, principalmente Mário Oswald, Menotti Del Pique, a Dica Valcante e o Neta Malfatti, vai
09:00conhecer Paulo Prado no fim de 21.
09:06O que se conta é que o Dica Valcante fez uma exposição na livraria O Livro, em outubro de 21.
09:15Por coincidência, a Graça Aranha veio a São Paulo para assistir uma palestra lá na livraria, viu a exposição, se
09:22aproximou do grupo.
09:24E o Dica Valcante comentou sobre uma ideia que eles tinham de fazer saraus, apresentações de música, leitura de textos
09:33e uma exposição naquele espaço da livraria.
09:36E eles dizem que o Graça Aranha se empolgou com a ideia, sugeriu que eles procurassem Paulo Prado.
09:42Então, essa elite se aproximou desse grupo de jovens artistas e acabaram pensando na possibilidade de fazer algo mais amplo,
09:51que acabou sendo no Teatro Municipal, pensavam que fosse alguns dias, acabou sendo uma semana de exposição e três dias
09:58de sarau.
09:59Então, o contato do grupo com a elite começa em torno de outubro de 21.
10:04O Oswald era da elite, pai do setor político, dono de vários terrenos.
10:11E se fala muito que a semana é elitista por isso, mas às vezes desconsideram que não eram todos esses
10:18artistas que eram da elite.
10:20Por exemplo, Dica Valcante era do Rio, estava em São Paulo e não era, ele era muito pobre.
10:25Anitta Malfatti era de uma família de classe média, perdeu o pai muito cedo, teve a ajuda da família para
10:30estudar.
10:31O próprio Mário de Andrade trabalhava para se sustentar, às vezes falava que não podia participar de todos os eventos,
10:37porque tinha que dar aula, tinha que escrever, tinha que publicar para ter dinheiro.
10:53O Mário, então, lê trechos de Pauliceia na semana, ainda não publicado.
10:58O Menotti leu trechos de O Homem à Morte, que também não havia sido publicado e vai ser editado em
11:0322 também.
11:04E nós temos controvérsias sobre o que foi lido exatamente.
11:09Não há especificações sobre o que foi lido e se fala das vaias, se fala da pateada durante as conferências.
11:17O que é certo mesmo é que foi lido o Sapos, que isso foi muito comentado na imprensa.
11:24O Sapos e o Manuel Bandeira. O Manuel Bandeira não veio, mas foi declamado pelo Ronald Carvalho.
11:28E a aproximação com o Graça Aranha, depois se diz que foi estratégica, porque o Graça Aranha já era da
11:34academia, já era reconhecido,
11:37tinha uma carreira no exterior, acabava de voltar. Então, de alguma maneira, ele legitimava a semana.
11:43No momento em que ocorre o evento, apenas Pauliceia desvairada, como uma obra realmente modernista, já concluída.
11:51O Mário conta que escreveu entre 20 e 21, foi enviado para o Monteiro Lobato, que era editor,
11:58e o Monteiro Lobato se recusa a publicar, devolve os manuscritos.
12:03E poucas coisas, como eu disse, foram feitas especificamente para a semana.
12:07As obras expostas da Anitta Malfatti, do Peixere, do Rico Monteiro, já haviam sido feitas antes, já haviam sido expostas
12:16antes.
12:16Então, não houve obras feitas especialmente para a semana, exceto as conferências preparadas.
12:22Então, isso mostra um pouco o que caracteriza o Brasil.
12:27Um pouco o improviso, um pouco o inesperado, e ao mesmo tempo, acaba dando certo.
12:37Se fala da ausência da cultura indígena na Semana de Arte Moderna.
12:42Na verdade, não houve essa ausência.
12:44O Rico Monteiro tinha estudado a cultura indígena, a cerâmica marajoara, na coleção do Museu Nacional.
12:54E isso aparece em aquarelas que ele fez.
12:57E aí, o que se fala é que os modernistas se apropriavam da cultura indígena, sem tê-la conhecido diretamente.
13:03Nenhum deles esteve com índios.
13:05E é como se eles quisessem usurpar o lugar dos indígenas e se apropriar dessa cultura que eles não conheciam
13:13profundamente.
13:14Eu acho que isso precisa ser pensado de outra maneira.
13:17Eles deram visibilidade à cultura e à arte indígena de uma maneira que até então não havia sido feita.
13:24É um outro olhar sobre o indígena que aparece já nesse momento.
13:27Aparece também em uma das músicas do Villa-Lobos, apresentada na Semana, que se chama Kanki Kis,
13:33que está relacionado com a cultura africana e com a cultura indígena, como eu mencionei.
13:50Uma das coisas incríveis de a gente ver os livros, as primeiras edições dos livros ligados à geração da Semana
13:55de Arte Moderna,
13:56são as capas, os formatos, os designs do livro, muitos deles feitos pelos próprios artistas ligados à Tarsila,
14:02fazendo as capas dos livros, obviamente, do Oswald, o Guilherme de Almeida, fazendo trabalhos ligados ao primeiro livro do Mário,
14:08o Paulo Sérgio de Vairada.
14:09O Paulo Sérgio de Vairada é o livro da Semana.
14:12Eu acho que é a grande obra, digamos assim, de inauguração, realmente, pelo menos do que perdurou daquela memória, daquele
14:19evento.
14:19E é a obra de um poeta que está, como ele dizia, colocando seu corpo pela primeira vez na arena,
14:25durante a semana.
14:28Se tinha um passadismo para você desmontar na literatura brasileira, era um passadismo ligado às ideias de poesia que circulavam
14:35no país,
14:36as ideias muito formais, muito tradicionais e muito eruditas, digamos assim, longe da língua popular, longe da fala do povo.
14:44Então, eu acho maravilhoso o que os poetas de 22 fizeram em relação a essa atualização do que era fazer
14:51poesia num país em transformação,
14:53como era o Brasil e como era uma cidade como São Paulo.
14:58Na casa de um dos participantes da semana, o poeta Guilherme de Almeida, conversei com Carlos Augusto Calil.
15:05Além de professor universitário e escritor, Calil é uma referência no audiovisual brasileiro.
15:12Especialista em modernismo, ele estudou personagens como Mário de Andrade e o cafeicultor e ensaísta Paulo Prado,
15:19o principal mecenas do evento no Teatro Municipal.
15:23Paulo Prado era um homem do mundo, um homem que vivia, viajando, que falava línguas,
15:29que praticava comércio internacional, quer dizer, que era justamente o antiprovinciano,
15:33morria de tédio em São Paulo, porque era uma coisa impossível.
15:37E ele viu que aqueles jovens eram muito promissores e bancou, junto com o Graça Aranha.
15:44E aí tem a Operação Rio-São Paulo.
15:46As pessoas se esquecem que o Graça Aranha e o grupo do Rio estavam juntos desde o início.
15:51Portanto, não foi uma iniciativa, foi inicialmente uma iniciativa paulista.
15:54Mas o Paulo Prado, ao introduzir o Graça Aranha, transformou numa operação nacional,
16:01porque o Rio era o Brasil.
16:16O Rio de Janeiro era uma cidade, como até hoje ainda é, muito alegre, muito viva, muito receptiva.
16:22Enfim, um porto, capital da república.
16:25Vivia muito distraída com as novidades trazidas de todo lugar.
16:30Mas São Paulo não. São Paulo era um lugar profundamente melancólico, conservador, sem brilho.
16:38E de repente aparece uma geração que repensa o papel primeiro de São Paulo e depois do Brasil, em relação
16:46ao mundo.
16:47Isso era uma novidade enorme.
16:48O Brasil era muito atrasado, ainda é muito atrasado, mas naquela época era mais atrasado ainda.
16:57E em termos de arte e de cultura, nós éramos, enfim, praticamente repetidores ou do modelo português ou do modelo
17:08francês.
17:10Não havia, digamos, estímulo a um pensamento próprio, um pensamento original.
17:15O Mário disse muito bem, eles atualizaram o pensamento artístico brasileiro.
17:20O Mário era um homem que tinha informação de tudo.
17:24Ele falava, ele lia francês, inglês e alemão, e italiano também.
17:29Então ele estava bem informado de tudo.
17:31Ele sabia.
17:33E ele tinha uma grande coragem de pensar por si.
17:38Ele acreditava na sua...
17:41A intuição dele é extraordinária.
17:42Até hoje o Mário ainda é um autor a ser descoberto.
17:45Com essa coragem extraordinária de apostar na sua acessibilidade, na sua intuição.
17:51E formular com muita...
17:54Muito vislumbre.
17:55O Mário de Andrani é um homem que vislumbra o Brasil.
18:00Em que eu percebi que foi o Osvaldo que montou o line-up.
18:05O Mário já tinha dado a dica.
18:06Quer dizer, ele ficava...
18:08Lá vai o Osvaldo de Andrade, mariscando gênios entre a multidão.
18:12Foi mariscando gênios que ele montou o programa da semana.
18:18O Di Cavalcante era um homem muito pobre, negro, carioca, perdido em São Paulo, vivendo
18:24de ilustração que ele vendia para o jornal.
18:27Precisava de ser conhecido.
18:30Ele precisava de promoção.
18:32O Di foi o primeiro, digamos, o motor inicial.
18:36De onde partiu a ideia e que tocou a coisa para frente, até que se consolidou.
18:42Foi uma operação de risco, na qual eles se divertiram muito.
18:46Os jovens não tinham nada a perder, tá certo?
18:48Eles estavam bancados.
18:50A montagem foi feita do outro lado do Rengabaú.
18:53Não sei se você tem clareza de que o Teatro Municipal está de um lado.
18:55Do outro lado estava o Automóvel Clube.
18:58Era um salão inglês, tipicamente inglês.
19:01Mulher não aparecia, não era convidada.
19:05E foi ali que eles, então, olhando para o Teatro Municipal,
19:08podiam perfeitamente prever tudo o que foi feito.
19:14Quem legitimava, quem tinha uma obra acabada
19:16e absolutamente moderna, modernizada e moderna e atualizada
19:20era Anitta Malfatti.
19:22Todo mundo estava em toda a bandeira de Malfatti.
19:23A bandeira da bandeira de Arte Moderna era o Oswaldo e o Mário
19:27defendendo Anitta Malfatti contra quem?
19:30Contra o Monteiro Lobato.
19:31E eles abriram o caminho.
19:49Olha aí, olha ele aí.
19:52Vamos lá?
19:53E daqui ela olhava o Municipal.
19:57O Teatro Municipal, como palco desse evento,
20:00ele era próximo da região que essa elite paulistana planejou o evento.
20:06Ateliers estavam ali perto.
20:08O Automóvel Clube, que era um espaço super exclusivo,
20:11masculino, que essa elite frequentava,
20:13estava ali perto.
20:14Bares, etc.
20:15Tudo funcionava ali.
20:24Agora, uma coisa bem instigante para a gente pensar sobre a semana
20:27é que apesar de a gente falar sempre dessas personalidades masculinas
20:30ligadas ao campo das letras, do ensaio, das polêmicas,
20:34talvez o que mais venha para a gente até hoje como memória da semana
20:37sejam os trabalhos de artes visuais,
20:39que eram majoritariamente feitos por mulheres.
20:43Por exemplo, se você fala da Semana de 22,
20:46você vai falar da Anitta vindo desde 17,
20:49com a sua famosa exposição,
20:51e dando matéria plástica, digamos assim,
20:54para todo aquele discurso que eles trabalhavam no campo das letras.
21:05Fui visitar o Instituto de Estudos Brasileiros da USP,
21:08cujo acervo traz grande quantidade de obras originais
21:12expostas na Semana de Arte Moderna,
21:14como é o caso de A Cabeça de Cristo,
21:17famosa escultura de Vitor Brecheret,
21:19comprada em 1920 por Mário de Andrade.
21:23Que maravilha, hein?
21:27Essa famosa obra que impactou o Mário
21:30quando ele chegou em casa para a sua família, mostrando, né?
21:35Anos depois, Mário narraria a ocasião da compra.
21:39Eu devia os olhos da cara,
21:42andava às vezes a pé por não ter 200 réis para bonde,
21:45fiz conchavos financeiros com o mano,
21:47e afinal, pude desembrulhar em casa
21:50a minha cabeça de Cristo sensualissimamente feliz.
21:55Aparentada, que morava apegado,
21:57invadiu a casa para ver e para brigar.
22:00Berravam.
22:01Aquilo era pecado mortal.
22:03Onde se viu Cristo de trancinha?
22:05Fiquei alucinado.
22:07Não sei o que me deu.
22:08Fui até a escrivania,
22:10abri um caderno,
22:11escrevi o título em que jamais pensara.
22:15Pauliceia desvairada.
22:17Eu acho isso muito incrível,
22:19que é um trabalho que traz um motivo religioso
22:22ter detonado algo que faz uma ruptura
22:24com uma ideia de tradição literária,
22:26cultural no Brasil.
22:28E está aí, 100 anos depois,
22:30essa obra ainda tem esse valor
22:31e vai ter para sempre,
22:32por conta do impacto que causou
22:34na vida do Mário de Andrade
22:35e na cultura brasileira em geral.
22:42Para saber mais sobre o que foi apresentado
22:44pelos artistas visuais na semana,
22:46me encontrei com Regina Teixeira de Barros,
22:49doutora em estética e história da arte pela USP
22:52e especialista em arte moderna no Brasil.
22:55Eu acho que na semana tem duas figuras fundamentais.
22:59A primeira é, não por ordem de importância,
23:03mas eu diria Anitta Malfatti de Cavalcante.
23:07Anitta Malfatti, pelo que ela já simbolizava em 1922,
23:11quer dizer, ela em 1917 tinha feito uma exposição
23:14extremamente interessante,
23:15porque Anitta mostra a produção dela,
23:19alguma coisa que ela fez na Alemanha,
23:21a maioria das pinturas que ela fez nos Estados Unidos,
23:26entre 1915 e 1916,
23:28mas ela mostra também uma pintura como tropical,
23:31que é uma pintura de retorno à ordem.
23:33Ela se torna uma porta estandarte,
23:36uma voz, digamos,
23:39que foi desenhada a posteriori
23:43como uma, vamos dizer assim,
23:44uma rebelde ou uma inovadora,
23:48uma pioneira,
23:48que se põe contra tudo o que estava acontecendo
23:52e, de fato, a pintura dela
23:54era a mais moderna,
23:56entre tudo,
23:57tudo o que estava exposto no teatro municipal.
24:00Então, me parece que, nesse sentido,
24:02Anitta é uma figura importantíssima.
24:05E o de Cavalcante,
24:06ele também foi fundamental
24:08para a união dos grupos,
24:12quer dizer, cariocas e paulistas,
24:15quer dizer, intelectuais de diferentes cidades,
24:18que tinham no dia um elo de ligação.
24:21Além dele desenhar o catálogo,
24:24o programa da semana e tudo mais,
24:27ele era um entusiasta
24:29da ideia da semana,
24:31da exposição da semana,
24:33e ele fez essa ligação,
24:35que me parece que,
24:36sem essa ação dele,
24:37tudo teria sido muito diferente.
24:42E tem alguns nomes também
24:43que acabaram ficando um pouco pelo caminho,
24:45desse mito do herói,
24:48digamos assim,
24:48que é a semana de arte moderna.
24:50Esses outros artistas,
24:52a gente pode pensar
24:53alguma relação deles
24:55com o ideário que estava ali,
24:58ou foram situações de ocasião?
25:00Eu acho que tem algumas coincidências
25:05que são bastante interessantes.
25:07Por exemplo,
25:08a Zina Aita,
25:09que é uma artista de Belo Horizonte,
25:12ela se formou na Itália,
25:14ela foi com a família para a Itália,
25:16ela chegou no Brasil em 1920,
25:19expõe em Belo Horizonte,
25:22faz uma exposição que é super mal recebida,
25:24por ser excessivamente impressionista,
25:28segundo a crítica local.
25:30Mas ela estava presente na semana,
25:33e a gente conhece pouco o trabalho dela.
25:35E depois ela foi embora do Brasil em 1924,
25:38mas a gente, como historiadores,
25:40a gente perde o fluxo do trabalho dela.
25:45Eu acho que a contribuição
25:47do Vicente do Rego Monteiro
25:49foi muito importante,
25:51que fez um estudo importante
25:53sobre lendas amazônicas
25:56e expõe algumas obras na semana
26:03que trazem essa temática indigenista,
26:07vamos dizer assim.
26:08E que é uma fonte de inspiração importante,
26:11porque quando se vai buscar
26:13a identidade nacional,
26:15que identidade é essa?
26:17Quais são as possibilidades?
26:18E o Vicente do Rego Monteiro
26:20vai atrás dessas lendas indígenas,
26:23como depois vai também o Mário de Andrade,
26:28enfim, vai fazer Macunaíma,
26:30enfim, são outras questões.
26:36O Brasil já era um país
26:38que tinha suas perspectivas
26:40do que era o ser moderno,
26:42das suas modernidades.
26:44Por exemplo, o Brasil é um dos primeiros países
26:46em que a fotografia é automaticamente incorporada
26:50como linguagem.
26:51O Brasil já tinha relação com o cinema.
26:54O Brasil, que eu digo,
26:55cidades grandes, como Rio de Janeiro,
26:56São Paulo, Recife,
26:58já tinha cinema,
26:59já tinha um teatro popular,
27:01como teatro de revista pulsante.
27:04Tinha já a canção popular,
27:05a música urbana,
27:06feito por tecnologia fonomecânica.
27:09Então, as tecnologias de ponta
27:11da cultura de massa
27:12já aconteciam no Brasil,
27:13quando o modernismo surge
27:15como uma proposta ligada
27:16a uma ideia de vanguarda.
27:17Então, ser artista moderno
27:19na década de 20
27:19poderia ser tanto você estar
27:21do ponto de vista
27:22de uma indústria cultural
27:23nascente de massas,
27:25por exemplo,
27:25o Donga,
27:26o Pixinguinha,
27:28esses caras que estavam ali
27:29já trabalhando com uma ideia
27:30de música popular
27:31para as massas,
27:32digamos assim,
27:33mesmo que as massas
27:34fossem muito menores do que hoje,
27:35ou ser esses artistas
27:37ligados à Semana de 22
27:39que atualizavam a pauta
27:42da arte brasileira,
27:43da literatura,
27:44da arquitetura,
27:45olhando para fora do Brasil
27:47e trazendo, digamos assim,
27:49as novidades que aconteciam
27:51no país.
28:15Conversei também
28:16com o compositor
28:17Livio Tratenberg,
28:18que lançou,
28:19às vésperas da comemoração
28:21dos 100 Anos da Semana,
28:22o livro
28:23O que se ouviu
28:24e o que não se ouviu
28:25na Semana de 22.
28:35A participação da música
28:36na semana
28:39pode parecer paradoxal,
28:40mas ela é carioca,
28:42majoritariamente,
28:43porque é a grande figura
28:44e a gente não pode,
28:45não adianta a gente
28:46tentar tangenciar,
28:48mas é o Villa-Lobos
28:49é a grande figura
28:50da Semana de Arte Moderna
28:52de São Paulo.
28:53Interessante que ele vem
28:54trazer para São Paulo
28:55composições que ele
28:56já tinha realizado anos.
28:58Quando o Villa-Lobos
29:00recebe o convite
29:01de vir à Semana de 22
29:03pelo Graça Aranha,
29:05ele já havia sido
29:06convidado pelo Mário
29:07e o Oswald,
29:08que era parceiro
29:09do Villa-Lobos,
29:10escreveu libretos
29:11para a ópera.
29:12Enfim, ele era um ponto
29:13de apoio importante
29:14para o Villa-Lobos
29:15do Rio de Janeiro,
29:16porque ele era
29:16um cara de fora,
29:18porque no Rio de Janeiro
29:19você tinha uma vida urbana,
29:20que a gente pode chamar
29:21de vida urbana.
29:23São Paulo ainda
29:24era uma cidade
29:25muito provinciana.
29:26Então, o que seria
29:28moderno,
29:29que a gente pode dizer,
29:29isso é moderno
29:30no começo do século XX,
29:31é essa convivência
29:33de diferentes
29:34na boemia carioca
29:36e vão aparecer figuras
29:39como Ernesto Nazaré,
29:40que tinha uma cultura musical
29:44razoavelmente refinada
29:45e erudita,
29:47misturada à ideia
29:48do piano aplicado
29:50ao café-conserto,
29:51aplicado ao cinema mudo.
29:53Figuras como ele,
29:54a gente pode dizer
29:55que são modernos.
29:56A própria Chiquinha Gonzaga,
29:57a gente pode dizer
29:58que ela é já um sinal
30:00de modernidade,
30:01em que havia-se
30:03essa mistura,
30:04esse híbrido
30:05dos modelos europeus
30:06com uma influência mundana
30:08da vida carioca.
30:09Nível,
30:10um dos grandes eventos
30:11ao redor do Villa-Lobos,
30:12na semana,
30:12quando ele entra no palco,
30:14aparece de sandália,
30:15com os pés de fora,
30:16e isso teria causado
30:17um grande escândalo na época,
30:18com comentários na imprensa,
30:20vaias do público.
30:21Você podia falar um pouco
30:22para a gente
30:22sobre esse momento?
30:23Sobre essa coisa
30:24do escândalo,
30:25isso era uma intenção
30:27do Oswaldo de Andrade,
30:28ele queria causar escândalo.
30:30Tanto que ele vai
30:31à Faculdade de Direito
30:32do Lago São Francisco,
30:33aqui da USP,
30:35e contrata estudantes
30:37para virem
30:39vaiar
30:39as apresentações,
30:41porque ele queria
30:42esse conflito.
30:44Eu acho que aí
30:45está o ponto mais importante
30:46da Semana de Arte Moderna
30:48de 1922.
30:49Pela primeira vez
30:50em São Paulo,
30:52a gente teve um conflito,
30:54um distanciamento
30:54entre plateia e palco.
30:56Esse episódio
30:57do Villa-Lobos
30:59de sandália
31:00com o pé de fora
31:01realmente aconteceu.
31:02Imagina esse 1922
31:03o que só mostra
31:05o quão provinciano
31:06era naquela época
31:08São Paulo,
31:09não estava preparada
31:10para alguma coisa
31:11que saísse
31:12daquele figurino
31:13montado
31:14das companhias europeias
31:16de concerto
31:17e tudo mais.
31:17As danças africanas
31:19que foram tocadas
31:20na Semana de Arte Moderna
31:22são peças
31:24de 1916
31:25e elas têm
31:26uma característica
31:27importante
31:28porque elas vão
31:31um pouco
31:32além
31:32da fantasia
31:34que ele tinha
31:36sobre
31:37o que seria
31:37a música
31:38dos índios
31:39no Brasil.
31:40Ali ele busca
31:41uma linguagem
31:42de piano própria.
31:43O pianismo
31:44do Villa-Lobos
31:45ficam mais evidentes.
31:47Então é muito importante
31:49esse grupo de peças,
31:50danças
31:52características
31:53africanas,
31:54que são três peças
31:56que determinaram
31:58na Semana de Arte Moderna
32:00essa dicção,
32:02o elemento
32:03da cultura indígena
32:04para dentro
32:05da semana.
32:06Liv, você pode
32:06mostrar para a gente
32:07as danças africanas,
32:08alguns trechos?
32:09Claro, com prazer.
32:17E assim,
32:19isso daqui
32:19está escrito
32:20de uma forma
32:21muito metrificada.
32:26Então o Villa-Lobos
32:28vai explorar isso,
32:29essa capacidade
32:31de transcrição
32:33da música
32:34para um código
32:36da chamada
32:37música erudita,
32:38ele vai explorar
32:39isso daí
32:40de uma forma
32:41mais brutal.
32:42Então ele vai fazer
32:43uma harmonização
32:44quase que brutal
32:45para isso.
33:08ele se apropria
33:09das coisas
33:10e reconfigura
33:11elas,
33:12e isso é um gesto
33:13que a gente
33:13vai reconhecer
33:15na arte moderna
33:17de uma forma
33:18muito forte
33:19em todas as artes,
33:20nas artes visuais,
33:21na literatura,
33:22na música,
33:23na dança,
33:24no cinema.
33:26Então,
33:27essa apropriação
33:28e essa reconfiguração,
33:31essa coisa
33:32que o Oswald
33:32Andrade
33:33chamava de antropofagia,
33:35de engolir
33:36uma informação
33:37e devolver
33:38de uma forma
33:39diferente.
33:39porque isso
33:40era novo,
33:42isso era
33:42uma apropriação
33:45de um material
33:45que não fazia parte
33:47da cultura
33:48erudita,
33:49mas utilizando
33:51as ferramentas
33:52da música erudita.
34:34não pude entrar
34:36no Teatro Municipal
34:37na minha viagem
34:37em São Paulo,
34:38mas conseguimos
34:39ouvir
34:39a Verônica Stiger,
34:41escritora,
34:41professora universitária,
34:43crítica de arte curadora
34:44e seu companheiro
34:45Eduardo Sterzi,
34:47professor de teoria literária
34:48na Unicamp.
34:49Eu sou pesquisadora
34:50aqui do Núcleo de Acero
34:51e Pesquisa do Teatro Municipal
34:53e a gente se inspirou
34:54bastante no trabalho
34:55do livro
34:56do Frederico Coelho,
34:58A Semana Sem Fim,
34:59para a gente
35:00fazer as perguntas
35:01para o nosso acervo,
35:02do que a gente tinha
35:02aqui que registrava
35:05a passada
35:06da Semana de Arte Moderna
35:07no Teatro Municipal.
35:08Tenho me ocupado muito
35:10pensando...
35:10O trabalho principal
35:11da Verônica
35:11nos últimos meses
35:12tem sido esse.
35:13De como a exposição
35:14foi montada
35:15aqui nesse saguão,
35:16tentando imaginar.
35:17Porque ele é estreito.
35:18E as obras
35:19ficavam muito amontoadas.
35:20Elas não tinham
35:21essa disposição
35:22que a gente costuma ter
35:23hoje de exposição
35:24em que as obras
35:25ficam isoladas.
35:26Tem todo um trabalho,
35:27não.
35:27O modelo da época
35:28era você vai elevando
35:30até chegar uma hora
35:31que a pessoa
35:32nem enxerga
35:33mais direito.
35:34Ou seja,
35:35as coisas ficam
35:35três, quatro pilhas
35:37de obras.
35:38E tem até
35:38a caricatura.
35:39E tem exatamente.
35:40Tem uma caricatura
35:41da época do Pelo Monte
35:42em que mostra
35:44um pai e uma filha
35:45e ela,
35:46coitados,
35:47tão jovens.
35:48Mas atrás deles
35:49tem esse vasto tabique
35:51com um grande painel móvel.
35:53As investigações
35:54sobre a semana
35:54continuam
35:55e o casal
35:56está escrevendo
35:57um livro
35:57a quatro mãos
35:58para ser lançado
35:59em 2023.
36:01Não se sabe ainda
36:02ao certo
36:03o que aconteceu
36:04nessa semana.
36:05Imagina,
36:05passaram-se
36:06cem anos
36:07e a gente ainda
36:08não conseguiu
36:10reconstituir
36:10exatamente
36:11o que aconteceu.
36:12Acho que nós
36:12nunca vamos conseguir
36:13reconstituir
36:14o que aconteceu,
36:15mas o que nós
36:16temos feito
36:17é tentar fazer
36:18um esforço
36:18imaginativo
36:19para pensar
36:20o que pode ter
36:21ocorrido ali
36:22a partir de algumas
36:23evidências.
36:24Acho importante
36:24quando a gente fala
36:25da Semana de Arte Moderna
36:26a gente percebeu
36:27que na verdade
36:28era muito mais
36:29a manifestação
36:29de um desejo
36:30o desejo
36:31de ser moderno
36:32mas também
36:33de descobrir
36:33o que é ser moderno
36:35do que um momento
36:37de consagração
36:38não é algo
36:39que já está dado
36:39como uma conquista.
36:41Ou seja,
36:41não é assim
36:41nós já sabemos
36:42o que é o moderno
36:43então nós vamos
36:43expor o que é o moderno.
36:45Nós vamos lá
36:47descobrir o que é o moderno.
36:49Isso é incrível
36:49porque na verdade
36:50a gente pensa
36:51como um evento
36:52como nesse espaço
36:54monumental
36:54que a gente está aqui
36:55e é monumental
36:56ele é um monumento
36:57é um teatro monumento
37:00como uma instância
37:01de consagração
37:02mas não é só isso
37:03é na verdade
37:05um momento
37:06de aventura
37:06absoluta
37:07isso eu acho
37:08muito bonito
37:09e tinha essa força
37:11da juventude mesmo
37:12era um grupo
37:15de pessoas
37:16muito jovens
37:17que estavam
37:18tateando
37:19para descobrir
37:19o que era
37:20o moderno.
37:21o Oswald vai falar
37:22explicitamente isso
37:23nós não sabíamos
37:25o que era ser moderno
37:27nós não sabíamos
37:28o que era ser moderno
37:29eu acho isso muito bonito
37:30você partir do não saber
37:32e eu acho que o interessante
37:33que esse é o nosso esforço
37:35também
37:35o que a gente quer fazer
37:36é um pouco
37:38seguir o modelo deles
37:39em vez de fechar
37:40o que a gente quer
37:41é abrir
37:41a gente não quer fechar
37:42a gente quer fazer
37:43esse mesmo movimento
37:44que eles fizeram
37:45naquele momento
37:46de abertura
37:47que é dessa maneira
37:48que na verdade
37:49nós enxergamos
37:50a semana de arte moderna
38:14O Teatro Municipal de São Paulo
38:16foi uma escolha estratégica
38:17por ser um espaço imponente
38:19que consagrava
38:20e dava importância à semana
38:22sua atual diretora
38:23Andréa Caruso
38:24nos contou
38:25como foram as celebrações
38:27do centenário do evento
38:28a gente tinha
38:29o desejo
38:30de montar
38:32o café
38:32que é uma obra
38:33do Mário de Andrade
38:34e que não tinha
38:35estava com a música inacabada
38:47como ela é uma ópera coral
38:49quer dizer
38:49o Mário de Andrade
38:50com essa ópera
38:51ele estava tratando
38:53da crise do café
38:54e que é bastante
38:56também
38:57ao mesmo tempo simbólico
38:59para esse teatro
39:00que a gente sabe
39:00que ele foi construído
39:02com essa ascensão
39:03do dinheiro do café
39:04com a chegada
39:06dos cafeiros
39:08na cidade de São Paulo
39:09e querendo trazer
39:10São Paulo
39:11para esse lugar
39:12de cultura
39:13e querendo ter aqui
39:14essa casa
39:14esse teatro
39:15e depois vem
39:16por essa crise
39:17o Mário de Andrade
39:19escreve
39:19o café
39:20e é uma obra
39:22que ele coloca
39:23também em xeque
39:24ou questiona
39:25a própria ópera
39:26então ele traz
39:26o coro muito forte
39:28ao invés de trazer
39:29solistas
39:29grandes solistas
39:40em cena
39:40e na semana
39:41na programação
39:43da semana
39:43a gente tem
39:44um desses projetos
39:45que é a exposição
39:46da Cristigra
39:47aqui dentro
39:48do lado
39:48do Salão Nobre
39:49então ele fez parte
39:51e compôs
39:52o que foi
39:53aquela semana
39:54que foi fevereiro
39:55que a gente
39:56trouxe aí
39:57todos os corpos
39:58artísticos
39:59e convidados de fora
40:00e montamos
40:00uma programação
40:01que foi super intensa
40:02que teve
40:03concertos
40:04teve sarau
40:05teve o balé
40:06se apresentando
40:08esses encontros
40:09enfim
40:09show
40:10na praça
40:13a cidade
40:15festejou
40:15comemorou
40:16e inateceu
40:18esse momento
40:18tão especial
40:19mas a gente daqui
40:21viveu muito
40:23intensamente
40:24as comemorações
40:25para além do balé
40:26a casa esteve
40:26muito comemorativa
40:28muitas ações
40:29foram feitas
40:29então foi muito especial
40:31participar desse momento
40:33dentro do lugar
40:35que tudo aconteceu
40:36muito legal
40:51o balé da cidade
40:53de São Paulo
40:54encomendou
40:55uma peça
40:56para comemorar
40:56a semana de arte
40:57moderna
40:58com o subtítulo
41:00de Muraquitã
41:01que é reconhecivelmente
41:02o amuleto
41:03do Makunaíma
41:04nós convidamos
41:05um coreógrafo
41:06a Lafellieri
41:06para nos presentear
41:09com uma obra
41:10feita especialmente
41:11para essa temporada
41:12e a segunda parte
41:14é o
41:14Estudar um Baile
41:15que é uma coreografia
41:16que não foi feita
41:17para esse momento
41:17mas que se encaixa
41:18perfeitamente
41:19do coreógrafo
41:20Henrique Rodovalho
41:21que ao nosso ver
41:22traria a cultura
41:24da rua
41:25para dentro do teatro
41:26trazendo a maior diversidade
41:28de público
41:28de fazer
41:29para completar a noite
41:40eu coloco a importância
41:42da semana
41:43cem anos depois
41:44no campo
41:45novamente do mito
41:47eu acho que ela
41:48é uma mitologia
41:49no sentido
41:50não de que ela é inventada
41:51porque toda tradição
41:53é inventada
41:53ela é uma mitologia
41:54no sentido
41:54de que ela é uma história
41:55em aberto
41:55para ser recontada
41:57infinitamente
41:58então o que está em jogo
41:59hoje em dia no Brasil
42:00em vários sentidos
42:02precisa ainda
42:03da semana
42:04mesmo que seja
42:05para renegá-la
42:06mesmo que seja
42:07para dizer que aquilo
42:08não era o ideal
42:09de um Brasil
42:09que hoje é necessário
42:11cem anos depois
42:12me parece
42:13me parece fundamental
42:14retomar isso
42:15é
42:16com
42:17mas com uma perspectiva
42:19crítica
42:20ou seja
42:21não de entender
42:22a semana
42:22como divisor de águas
42:24mas de entender
42:26a semana
42:26como parte
42:27de um processo
42:28muito maior
42:29e que
42:30se tornou
42:32aquilo que a gente
42:33conhece
42:34hoje como a semana
42:35de arte moderna
42:36muito depois
42:37eu acho que o mais importante
42:39que a semana
42:40pode trazer
42:41de legado
42:42para a gente
42:42é
42:43o não conformismo
42:45hoje em dia
42:46eu acho mais importante
42:48a gente
42:50olhar a semana
42:52de 22
42:52como um
42:53feixe de possibilidades
42:55constantes
42:56quer dizer
42:57ali
42:57ali foram
42:59gestados
43:00algumas ideias
43:01profícuas
43:01nos anos
43:02seguintes
43:02foram muito
43:03desenvolvidas
43:04nos anos
43:05seguintes
43:05por que que deu certo
43:06porque tinha ali gente
43:07de muito boa qualidade
43:09o Oswaldo era de muito
43:10boa qualidade
43:11e isso a história
43:12provou
43:13o Mário de Andrade
43:13era extraordinário
43:14o Mário de Andrade
43:15era a maior figura
43:16da cultura brasileira
43:17da primeira metade
43:18do século XX
43:19simplesmente
43:20Vila Lobos
43:21Anitta Malfatti
43:23Tarcino da Manaus
43:24que é um time
43:25de primeira
43:26que por acaso
43:28de certa forma
43:29se juntava
43:30naquela geração
43:30é um acaso
43:31geracional
43:32e portanto
43:33a semana
43:34teve a importância
43:34que teve
43:36em função
43:37dessa ideia
43:38de sacudir
43:40o ambiente
43:42pasmado
43:42da cidade
43:43de São Paulo
43:44Eu acho legítima
43:46essa discussão
43:46eu acho que é
43:47super importante
43:48a gente pensar
43:49quais eram
43:50os lugares
43:51dessas questões
43:52nos anos 20
43:53e qual é o lugar
43:53delas hoje
43:54entender que a forma
43:56como eles abordavam
43:58esse tema
43:58estava de acordo
43:59com o seu tempo
44:00e hoje
44:01nenhum artista
44:03vai ignorar
44:04nem vai negar
44:05a importância
44:06de trazer
44:07essas questões
44:08no âmbito estético
44:10no âmbito social
44:11no âmbito político
44:12mas isso não
44:13invalida
44:14ao trabalho
44:14que foi feito
44:15Por que ainda
44:17estudar a semana
44:18de 22?
44:19Ele diz o seguinte
44:21o homem que está
44:22imerso
44:23no seu próprio tempo
44:24ele não conhece
44:26o seu tempo
44:26se ele não olhar
44:27para o passado
44:28porque é a luz
44:29que se lança
44:30sobre o passado
44:31que ajuda a iluminar
44:32não só o presente
44:33mas também o futuro
44:50A semana de arte moderna
44:52ainda pulsa
44:53em nosso imaginário
44:53justamente pelo
44:55caráter histórico
44:56de fundação
44:56ela define um pré
44:58e um pós
44:59demarca influências
45:00e deflagra dissidências
45:02um evento
45:03cujas dimensões
45:05transcendem
45:05os dias de espetáculo
45:07os nomes envolvidos
45:08as obras expostas
45:09ou até mesmo
45:10a ideia de moderno
45:12ali em jogo
45:18Ela ainda está
45:20viva e incomoda
45:21permanece em debate
45:22por ser um divisor
45:23de águas
45:23que permite ser criticado
45:25em sua própria
45:26noção de progresso
45:27Afinal
45:28que futuro brasileiro
45:30semearam
45:31os modernistas?
45:45e aí
45:48Tchau, tchau.
46:27Tchau, tchau.
46:57Tchau.
47:22Tchau.

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