Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 2 dias

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Na Cozinha com Cecília Chaves. Oferecimento Senac. Você pronto para o mercado do presente e do futuro.
00:24Bom dia, minha gente! O programa de hoje está especial demais. Unindo história, cultura e muito sabor ainda no clima
00:34de feriado.
00:35Quando a gente desacelera um pouco e valoriza aquilo que realmente se importa.
00:40Hoje eu recebo Gilberto Freire Neto, gestor cultural, administrador, consultor e neto de um dos maiores nomes da história do
00:50nosso país.
00:50O sociólogo Gilberto Freire.
00:53Ao longo da sua trajetória, Gilberto tem se dedicado à preservação do patrimônio cultural,
00:58a valorização da nossa identidade e a construção de políticas que fortalecem a cultura pernambucana.
01:06Juntos, a gente vai mergulhar na relação entre cultura e gastronomia.
01:10Explorando sobremesas, doces, as heranças do açúcar e também as demais heranças do nosso estado.
01:20Então já se acomoda por aí, porque esse programa de hoje é para quem entende que comida não é só
01:26receita.
01:27Ele vai ser todo na sala, não vai ter parte de cozinha, porque, gente, foi rico demais e está imperdível.
01:35Porque é história, é cultura, é identidade.
01:38Então vem comigo, porque eu já tenho uma dica massa aqui para vocês.
01:42Tem sabor que vira memória e tem memória que vira tradição.
01:47O bolo de noiva Cecília Chaves carrega o sabor das nossas festas, das casas cheias e das histórias que passam
01:55de geração em geração.
01:57É receita com afeto, feita no tempo certo, com o cuidado de quem acredita que cozinhar é cuidar.
02:05A nova embalagem chega com elementos da bandeira de Pernambuco, porque esse bolo tem identidade, tem orgulho e tem a
02:13cara do nosso estado.
02:15É o presente que emociona antes mesmo da primeira mordida.
02:19É Pernambuco em forma de bolo.
02:22Bolo de noiva Cecília Chaves.
02:24O sabor que é tradição, afeto e celebração.
02:28Disponível nos principais cafés, padarias e delicatesses.
02:33Adquira já o seu.
02:35Gente, estou aqui com Gilberto Freire Neto.
02:40Bom dia, é um prazer enorme lhe receber aqui no meu programa.
02:44Cecília, o prazer é todo meu.
02:45Fico muito feliz de estar podendo contribuir com o seu programa.
02:48Seja muito bem-vindo.
02:49Eu disse a ele aqui, gente, que já fazia um tempão que eu queria trazê-lo aqui.
02:54Hoje tenho a honra de receber ele que carrega aí um legado forte vindo aí do seu avô Gilberto Freire.
03:03Com certeza os telespectadores conhecem um pouco ou muito desse legado.
03:10E eu queria que você contasse pra gente, assim, na sua visão, a importância da gastronomia na identidade do povo.
03:16Você veja, né, Cecília?
03:19Eu só vou conhecer, efetivamente, o Gilberto Freire como escritor, como um criador de conteúdo qualificadíssimo que foi.
03:28Depois de velho, depois de estar na faculdade, né?
03:31Antes era meu avô.
03:32E a casa do meu avô era a referência que a gente tinha.
03:36E a gente aprendia com ele sem essa pressão da sociedade ou da escola ou do modelo de ensino-aprendizado
03:46tradicional.
03:46Mas aquela casa, a casa de Gilberto, que é hoje sede da Fundação Gilberto Freire, era um espaço de receber
03:53pessoas, de se sentar à mesa, de se discutir à mesa.
03:59A família se reunia religiosamente todo sábado.
04:03Então, dona Madalena ia para a cozinha, preparava um belíssimo almoço.
04:06E, na minha memória afetiva, fica a referência muito forte desse almoço no sábado, na casa de meu avô, na
04:13casa de minha avó.
04:14E sempre na mesa.
04:17Era o espaço de discussão, de debate, de conversa entre a família.
04:22E íamos...
04:24Eu sou filho de Fernando.
04:26Iam, então, os filhos de Fernando e os filhos de Sônia.
04:29Então, estávamos todos ali compartilhando aquele momento.
04:32E era exatamente nessa mesa em que a gastronomia pernambucana se colocava.
04:37É onde a gente vai aprendendo, é onde a gente vai discutindo,
04:40e é onde Gilberto bota o dedo e conta uma história, explica alguma coisa.
04:44Então, era um ambiente em que eu, com 8, 10 anos de idade, Gilberto com seus 80, 82 anos,
04:52ele ainda tinha aquela paciência de avô, obviamente, se divertia também junto conosco,
04:56de passear com a gente naquele sítio.
04:58Um sítio que é o espaço verde de proteção à casa.
05:03Hoje, Casa Museu Madalena de Gilberto Freire, que está disponível para ser visitado.
05:07Que é lindo.
05:08Que é belíssimo.
05:08Uma casa de meados do século XVIII.
05:10Era nesse ambiente, nessa área verde, em que ele tirava uma pitanga do pé,
05:16colocava na boca dos netos e contava uma história da pitanga.
05:19Ele apontava para a jaqueira e contava a história da jaqueira, como é que chegou no Brasil.
05:24A manga é a mesma coisa.
05:25Então, as pessoas ainda têm dúvidas do que é nativo do Brasil, do que foi trazido pelos portugueses.
05:31E era naquele ambiente que Gilberto colocava essa informação para a gente.
05:35E ela entrava na cabeça da gente, no sentimento, no coração da gente.
05:41E aí, a pergunta que não quer calar, porque cozinha, ela é, acima de tudo, ela é afeto.
05:47Ela é lembrança.
05:48A gente, às vezes, chega num lugar e sente aquele cheirinho, aí remete à casa da avó.
05:54Lá em casa sempre tem assim, mãe sempre diz, então hoje é o dia do almoço dos netos.
05:58Porque na casa da minha avó tinha o almoço da família e tinha aquelas coisinhas que os netos gostavam,
06:05que era aquele franguinho assado, batatinha frita, farofinha com passa, o purêzinho bem feito.
06:12E aí era da mesa dos netos, porque era uma coisa que os netos amavam, essa comidinha mais simples.
06:17E aí, você, o que é que você traz aí de recordação, seja no salgado, no doce, que até hoje
06:25remete aí aos tempos?
06:27Eu tenho essa referência afetiva da casa de Dona Madalena.
06:32Dona Madalena, que era muito carinhosa com a gente, mas uma linha dura, linha dura.
06:37Controlarmos os netos para a gente não fazer bagunça na casa do avô.
06:40Mas no sábado ela se desdobrava e você tinha sempre uma costelinha de porco, que eu nunca comi igual.
06:49Eita, que delícia!
06:50Depois que ela partiu, deixou um vazio no coração da gente.
06:54Porque essa comida é a comida que alimenta o coração.
06:56É isso aí!
06:57E desde então, essa referência da costelinha de porco ao forno de Dona Madalena era perfeita.
07:04E hoje é uma ausência sentida.
07:06E ela, obviamente, fazia isso para os netos.
07:08Então, tinha assim uma batatinha frita do jeito que a gente gostava.
07:11Era um rol que não estava na mesa principal, não estava na mesa dos adultos, só estava na mesa das
07:17crianças.
07:19Então, esse carinho afetivo eu tenho, eu tenho essa memória.
07:22E talvez, a partir desse carinho, eu, meus irmãos, a gente, de vez por outra, está na cozinha fazendo,
07:28estou tentando, pelo menos, fazer uma brincadeira assim, para dividir na mesa com os amigos,
07:33um pratozinho carinhoso, para tentar fazer o mesmo efeito.
07:36Quem sabe alguém vai se lembrar de mim depois com essa referência.
07:40Ah, Gilberto cozinhava desse jeito, fazia não sei o quê.
07:42Isso é sempre uma tentativa.
07:43Mas a costelinha de porco da Dona Madalena ainda me faz falta.
07:47E o doce? Aquele docinho que não faltava.
07:49Veja, a Dona Madalena adorava uma mesa farta de doce.
07:53Então, doce de pitanga na casa sempre tinha.
07:56Pitanga em apipulcos.
07:59É uma fruta que também marcou muito a minha infância.
08:02Pitanga e carambola.
08:04Pronto.
08:04Porque eu frequentava muito engenho dos meus avós e eu sempre lembro que vinham os baldes na mala.
08:09Exatamente.
08:10Aí vinha um balde de pitanga, um balde de carambola, as flores na mala, os baldes de flor para decorar
08:16a casa durante a semana.
08:17Mas, Cecília, veja, Gilberto tinha uma paixão pela pitanga, uma paixão.
08:22Ele era apaixonado pela pitanga e ela é belíssima.
08:24É maravilhosa, é linda, é deliciosa.
08:25E passou para a gente isso, porque a gente também tem.
08:28E em apipulcos tinham várias plantações que ele, obviamente, preparava por duas razões.
08:33Uma para fazer os doces, obviamente, e a outra para fazer o chamado que ele chamava conhaque de pitanga.
08:39Que é uma bebida destilada em que ele colocava a pitanga dentro de garrafões e armazenava.
08:46Tinha outras misturas místicas por trás.
08:49E ele guardava isso durante dez anos e só depois ofertava para os amigos.
08:53E ficava uma bebida, um destilado muito forte.
08:56Era feito com cachaça.
08:57Na verdade, tecnicamente, nem podia ser chamado de licor.
09:00Ele era realmente, desculpe, nem podia ser chamado de conhaque.
09:03Ele era um licor, mas um licor forte.
09:08E durante essa produção do conhaque de pitanga, que ele ofertava aos amigos e os netos, evidentemente,
09:13estavam distantes até certo ponto.
09:15Depois, ficaram adultos e começaram a consumir.
09:18Era uma bebida que você tomava após refeição, na sua maioria das vezes, com docinho, com café.
09:24Então, o doce de pitanga e o conhaque de pitanga de Gilberto Freire dividiam essa mesa após refeição.
09:32Era muito tradicional.
09:33E a gente tinha essa dinâmica, assim, como os netos mais novos ficavam sempre esperando aquele momento.
09:40Um dia eu vou sentar ali, um dia eu vou beber aquilo ali, um dia eu vou comer aquilo.
09:43Então, tinha, assim, um ambiente pronto para isso.
09:46Está na memória afetiva do mesmo jeito.
09:47Pois é, como a gente.
09:49O vinho do porto, a sangria lembra demais, o alvo fazia demais.
09:54As frutas cortadinhas.
09:55Exatamente, exatamente.
09:57E veja, doce de jaca, nativo do sítio, doce de manga.
10:00O sítio que hoje protege, o sítio ecológico de Gilberto Freire, protege a fundação de Gilberto Freire, é uma plantação
10:09de frutas.
10:10Então, você tem a jaqueira, que não é nacional, vem da Índia.
10:15Jaqueira, fruta, pão.
10:16Você tem manga.
10:18Você tem, olha, uma quantidade de...
10:19Aí, tem os nossos, o cara já...
10:21Tem um bocado de coisa ali espalhada.
10:23E ele sempre fazia a sua coletazinha e isso virava um docinho.
10:27E aí, uma coisa, assim, bem importante.
10:29Você falou aí que ninguém nunca mais conseguiu reproduzir a costelinha da sua avó.
10:35É uma coisa que eu sempre bato nessa tecla.
10:38Gente, quem tem receita boa de família, anote.
10:42Exato.
10:43Anote, porque, às vezes, as pessoas chegam com esses relatos para mim.
10:46Ah, porque fulaninha fazia.
10:48Desde que ela faleceu, ninguém consegue mais fazer.
10:50Ela não anotou, eu não anotei.
10:52E as medidas, eu mesma pego muita receita de família para replicar.
10:56E é muito engraçado, né?
10:57Porque as medidas eram um pires de queijo.
11:00Exatamente.
11:00Uma coisa, assim, bem vaga.
11:02O pires mudou o tamanho.
11:04Uma colher de sopa cheia.
11:06Exatamente.
11:07Assim, os padrões de medidas eram meio complexos para a gente poder, ali, conseguir replicar
11:14exatamente idêntico como a gente consumia.
11:17Então, é bem importante a gente ter ainda esse cuidado com os livros de receita de família,
11:23porque depois o tempo passa, as pessoas se vão e a saudade daquela comidinha fica...
11:28E a gente perde a referência documental, que nunca existiu.
11:32Madalena tem cadernetas com receitas.
11:36A gente tem isso na Fundação Gilberto Freire.
11:38E isso já se transformou em livros publicados a partir das receitas dela.
11:42Em relação à costela, eu tenho um olhar que é um pouquinho mais complexo, que é,
11:49ainda que tenha receita...
11:51Não se faz igual.
11:52O carinho não vai vindo do mesmo jeito.
11:53Exatamente.
11:54É o tempero do amor, né?
11:55O tempero do amor que é colocado ali.
11:58Gente, esse papo está bom demais.
12:00A gente vai para um breve intervalo comercial e eu já volto aqui com Gilberto Freire e Neto.
12:05Essa dica é para quem quer desenvolver seu talento na cozinha.
12:10Com o curso de cozinheiro do Senac, o aluno aprende tudo sobre gastronomia regional e internacional,
12:18passando pelas cozinhas fria e quente, pastelaria e confeitaria.
12:23E no Senac, os alunos vivenciam o dia a dia de uma cozinha profissional,
12:28com aulas práticas no restaurante Mascate e na lanchonete Escola.
12:33Faça o mercado olhar para você.
12:35Faça o curso de cozinheiro no Senac.
12:38Acesse pe.senac.br ou ligue 81341366666 para saber mais.
12:51Gastronomia não foi a minha primeira escolha.
12:55Eu estava no último ano de publicidade,
12:57quando eu resolvi fazer o vestibular da Faculdade Senac para gastronomia.
13:01Foi a minha melhor decisão.
13:03Hoje só tenho a agradecer a minha alcalda de 17 anos atrás.
13:07Ensino inovador voltado para o mercado.
13:09Cursos com nota máxima no MEC.
13:11Nas áreas de gestão, tecnologia, gastronomia, moda e saúde.
13:14Professores, mestres e doutores.
13:16Tudo para levar você aonde você quer chegar.
13:18Faculdade Senac. Sua realização, nosso propósito.
13:25De volta aqui com esse papo delicioso.
13:29A gente falou das comidas que eram servidas na casa do seu avô, da sua avó.
13:35E aí eu queria saber quem eram as pessoas que frequentavam.
13:38Conta aí algum caos que aconteceu por lá.
13:41Gilberto era um homem de muitos amigos.
13:43E a casa dele recebeu, a gente brinca muito, reis e príncipes.
13:47Os amigos dele eram tratados como reis.
13:50E apesar da linha dura de Madalena para proteger Gilberto,
13:55a gente dizia o seguinte, Gilberto casou-se com 40 anos.
13:58Madalena tinha 20 anos de idade, 20 anos mais nova que ele.
14:01Mas quando casou, casou com uma pessoa que já tinha um reconhecimento internacional grande.
14:08Era quase que uma entidade.
14:10E os amigos, obviamente, ainda tratavam Gilberto como se solteiro fosse.
14:15E foi Madalena que foi trancando as portas.
14:19Dando o acolcho.
14:20Dando o acolcho.
14:21E nesse processo diminui esse assédio a Gilberto Freire.
14:27E ele se transforma, nos anos 40, logo depois do casamento,
14:31se transformam nos anos de maior produção intelectual de Gilberto.
14:35Ou seja, Madalena tem um componente importante na hora que ela casa com Gilberto
14:38e começa a regular a vida de Gilberto.
14:41Então Gilberto passou a receber muita gente em casa,
14:44mas sob o olhar de proteção de Madalena.
14:47Então o que era tirar Gilberto de casa para levar ele para fazer uma farra,
14:52aproveitando ele no Diário de Pernambuco,
14:54que trabalhou a vida toda, fazendo daquela efervescência do Recife o seu ambiente.
15:00E aí tem bares, restaurantes históricos na cidade.
15:03Não só o Leite, que ele tinha uma mesa cativa,
15:05mas também o Gambrinos, que era um bar de oportunidade,
15:10onde vários amigos se reuniam.
15:13Gilberto passava a receber as pessoas em casa.
15:16Talvez o maior amigo deles é Lindo Reio.
15:18Eu não cheguei a conhecer, faleceu antes de eu nascer,
15:21mas, sem dúvida, um dos grandes amigos de Gilberto.
15:24Mas tem uma passagem muito interessante nos anos 80,
15:28que essa eu presenciei, eu estava lá, era o Molecote.
15:31E que depois a gente vai vendo...
15:33Isso era a filmagem de um vídeo
15:36em que Gilberto e Capiba
15:40estavam conversando sobre o conhaque de Pitanga.
15:43Estava sendo produzido para a época, para a TV Manchete,
15:48com a direção de Nelson Pereira dos Santos.
15:52Então, imagina, três grandes figuras,
15:55três amigos naquele momento.
15:57E Nelson Pereira dos Santos, depois,
15:59com grande obra da sua vida,
16:01produziu um documentário chamado Casa Grande Senzala,
16:03que é maravilhoso.
16:04Então, imagina esses três sentados com a câmera filmando
16:08e Gilberto apresentando o conhaque de Pitanga para Capiba.
16:12Capiba, como Gilberto, também gostava da cachaçinha.
16:15E Gilberto, todo polido,
16:18tentando fazer uma bela apresentação do conhaque de Pitanga
16:21e Capiba com uma tacinha de cristal na mão,
16:24com o conhaque,
16:26pousando para as câmeras
16:27e já com aquela intenção de provar.
16:30E, de repente, Gilberto fazia,
16:31mas Capiba, você tem que ver a cor.
16:33Aí Capiba olhava a cor.
16:35Aí depois voltava a tentar beber.
16:37Mas Capiba, você tem que sentir o cheiro.
16:40Aí ele...
16:40Pronto, já senti o cheiro.
16:42Aí, quando ia beber, ele...
16:43Não, mas você tem que ver o...
16:45Ô, Gilberto, deixa eu beber logo essa cachaça.
16:47Aí vira a cachaça aqui.
16:48E é aquela risadagem, né?
16:50Aquele compromisso entre todos ali.
16:52E era isso, né?
16:53Gilberto, por um lado, tentando fazer ali
16:55de forma mais prolixa, vamos dizer,
16:57mais apresentada o seu conhaque de Pitanga,
17:00que ele tinha como mais um das suas criações.
17:03E Capiba, doido para beber aquela cachaçinha,
17:06fazendo a sua brincadeira ali na frente.
17:09E isso ficou documentado.
17:10E anos depois, eu vi, por uma gravação da época,
17:14da TV Manchete,
17:15essa apresentação feita pelo grande Nelson Pereira de Santos,
17:19na época.
17:20Que massa.
17:21Devem ser muitas histórias, né?
17:23Porque a mesa tem muita história.
17:25Aí junta aquela bebida pós-almoço.
17:28Tem o antes, tem o durante.
17:29Tem o depois.
17:30Que eu digo que é sempre a melhor parte.
17:32Porque a gente fica ali, como diz, na conversinha, né?
17:34Na conversinha.
17:35E acabava sempre com um charutinho.
17:36Era um charutinho.
17:38Na época era um charutinho.
17:39E a gente gostava do seu cachimbo.
17:42Exatamente.
17:43Que hoje em dia a gente já não vê mais, né?
17:45O cachimbo quase não vê mais.
17:46Mas aí tinha a gente que gostava do seu cachimbo.
17:48E ali a conversa rolava solta e vinham os causos.
17:52Exatamente.
17:52E tudo centrado à mesa.
17:55Isso.
17:55Impressionante.
17:56Que é uma coisa, assim, que eu sinto muito, né?
17:59Nessa sociedade aí moderna.
18:02A gente não tem mais essa coisa da reunião à mesa, né?
18:06Poucas famílias mantêm essa tradição de pelo menos uma refeição junta.
18:10Exatamente.
18:11Do final de semana se encontrar.
18:13Hoje se valoriza muito a coisa do amigo.
18:15O amigo vai encontrar o amigo.
18:16Cada vez mais a gente...
18:18Em dia desse eu vi um vídeo que era justamente mostrando a pirâmide.
18:21Os valores da família, das pessoas.
18:25Com o passar dos anos, né?
18:27E aí a família começa no topo, vai descendo a religião.
18:31E assim, a internet que não existia, ela começa a aparecer.
18:36E ela vai subindo e tomando o tempo das pessoas.
18:40E se perdeu cada vez mais.
18:42Se perdem as receitas, se perdem os sabores.
18:45A rede social passa a ser muito mais tecnológica do que a humana.
18:48Aí o componente gastronomia começa a perder a sua eficácia
18:53enquanto ambiente para fazer com que as pessoas trocassem essas experiências.
18:57Se depender de mim, não.
18:58Eu vou continuar buscando os amigos para a parte da mesa.
19:02Aí às vezes as pessoas dizem,
19:03Ai, dá trabalho.
19:04Eu prefiro ir para um restaurante.
19:05Eu prefiro...
19:06Ai, eu sou o contrário.
19:07Eu adoro receber.
19:08Eu adoro ter trabalho.
19:10Eu adoro botar uma mesa bonita.
19:11Eu adoro reunir pessoas.
19:13Exatamente.
19:13As conversas.
19:15E assim, passo essa tradição também para os meus filhos.
19:17Isso é muito bom.
19:18Assim, aprendi com os meus pais.
19:19E assim, passo para os meus filhos.
19:22E eles adoram.
19:23Eu tenho um filho que hoje em dia mora no exterior.
19:25Faz faculdade fora.
19:27Mas ama cozinhar.
19:29E é daquele que diz assim,
19:31Ai, mãe, vou fazer um negocinho aqui para o almoço.
19:34Chama não sei quem.
19:34Chama aquela tia avó.
19:36Chama a tua amiga fulana.
19:37E sempre adora também reunir.
19:40E as minhas outras duas filhas, a do meia mais nova, também adoram.
19:43Eu digo, menina, criei uma família de farrista.
19:47Mas é muito bom isso.
19:47Eu também sou assim.
19:48Eu gosto da panela cheia.
19:49Eu sou dos que, quando vai para a cozinha, vai fazer panela cheia.
19:52Pois é, é bom demais.
19:53Recentemente, a primeira eucaristia da minha filha.
19:55Ainda fiquei, meu Deus.
19:56Porque você pensa, vai ter a missa e depois vou receber as pessoas.
20:00Não vou nem estar em casa.
20:01Mas aí, quando passa, você diz assim,
20:02Ainda bem que eu fiz.
20:04Ainda bem que eu tive trabalho.
20:05Porque é bom demais reunir pessoas.
20:08Ter as fotografias para lembrar depois daqueles momentos.
20:11Fazer aquela comida que você tem o cuidado na escolha do cardápio.
20:15Na maneira de servir.
20:16Que isso tudo está se perdendo, né?
20:18Exatamente.
20:19Essas referências.
20:20Está se plastificando dentro de uma rede social, né?
20:22Todo mundo tem horas e horas de relacionamento pelas redes sociais.
20:25E está se perdendo o social das redes.
20:28Que é o ambiente de troca entre os humanos.
20:30Sem interface no meio.
20:32Pois é, exatamente isso.
20:34A gente falou sobre O Açúcar, que é uma obra, assim, de largo conhecimento do público.
20:41Mas, para Gilberto Freire Neto, qual é a obra, assim, que faz o coração bater mais forte?
20:47Você veja, Gilberto, ele é um escritor de mais de 80 obras publicadas em vida, né?
20:53Pós-mortem já devemos ter umas oito obras, nove obras que estavam em linha de produção.
20:59E a Fundação Gilberto Freire, obviamente, finalizou com as últimas etapas e foram publicadas.
21:04Livros de memória, tem uma série de coisas.
21:07E Gilberto transitava em muitos temas.
21:10Então, não é, evidentemente, uma resposta simples para se dar.
21:13Mas a gente caracteriza as três obras de Gilberto mais importantes.
21:20Casa Grande Senzala, Sobrados Mucambos e Ordem Progresso.
21:22Como a coluna cervical da obra gilbertiana.
21:25E, a partir dali, você tem, nas costelas, vamos dizer assim, outras obras de apoio que apontam para esse caminho.
21:32O açúcar é um deles.
21:33Tem outras obras, como o Nordeste, que fala de meio ambiente.
21:37Tem outras obras, como Modos de Homem e Modos de Mulher, que é o Vestir.
21:43Ou seja, você vai ter uma série de obras sobre uma diversidade de temas...
21:47Que vão se desdobrando.
21:48Que vão se desdobrando a partir dessas três obras principais.
21:52Das três obras principais, a que eu mais gosto é Ordem e Progresso.
21:57E vou lhe dizer por quê.
21:59Casa Grande Senzala, obviamente, que é uma obra maravilhosa.
22:02Ela é uma identidade, uma fotografia do povo brasileiro.
22:06E, a partir dela, você vai se identificar e reagir a isso dentro do universo que Gilberto,
22:13pelas mesmas condições de conflito, colocou à disposição do bom leitor.
22:20Mas Sobrados e Mucambos tem uma maturidade a mais.
22:23Gilberto ganha maturidade no debate.
22:26E a temporalidade de Sobrados e Mucambos, por ser mais próxima da gente e por estar dentro
22:33de um período que é mais documentável do que Casa Grande Senzala, que é o início
22:39do Brasil, o Brasil Colônia.
22:41A gente está falando já do Brasil Império, em Sobrados e Mucambos.
22:44Ele é mais próximo da gente e, documentalmente, tem mais informação.
22:49A maturidade do escritor é maior.
22:51Então, é o livro que eu acho que é a grande referência de Gilberto.
22:55Mas não é tão famoso quanto o Casa Grande Senzala.
22:58Mas, evidentemente, é um livro que eu faço uma provocação ao brasileiro.
23:01Sobrados e Mucambos, que é a continuidade do que vem a ser essa história da evolução
23:07da sociedade patriarcal do Brasil, na região Nordeste, principalmente, vai se chegando
23:13a um cotidiano que é um cotidiano mais próximo da gente.
23:15Aí eu tenho certeza que o pernambucano, sem nenhuma dúvida, vai se identificar dentro
23:20dessa evolução social e o brasileiro vai ver o que era o Nordeste brasileiro naquela
23:26época, há 300 anos atrás.
23:29E isso eu acho que é delicioso.
23:31Com certeza.
23:31E tem muita gastronomia dentro do Sobrados e Mucambos.
23:33Pois é, que aí era outro ponto que eu queria tocar.
23:36Sobre as influências.
23:37As influências na nossa gastronomia portuguesa africana.
23:41Eu queria falar um pouco sobre isso.
23:42Claro.
23:43Veja, esses três livros de Gilberto, ele trata de uma diversidade de temas.
23:47Gastronomia não é um tema que só está em açúcar.
23:50Ele está transversal em todas as obras de Gilberto.
23:53Porque ele é um dos pilares da identidade cultural da gente.
23:56E Gilberto identifica isso.
23:58E dentro dessa identificação, ele projeta essas informações.
24:01E você se vê parte disso.
24:03Você se vê parte dessa miscigenação no momento que você vai comer uma comida
24:07que não estaria no Brasil se a miscigenação não tivesse se estabelecido.
24:12Ou você não quer comer tapioca porque você não acredita que ela estaria na sua mesa.
24:17Claro, ela vem de uma influência indígena forte, da ausência de um trigo para fazer um pão.
24:23O pão de queijo brasileiro é feito com mandioca e não com trigo.
24:28Imagina isso, você dentro do nosso ambiente.
24:31E eu estou falando já de uma outra região que não é a região nordestina.
24:34Está mais ao sudeste.
24:36Mas numa fronteira cultural de Minas Gerais com o que era Pernambuco há tempos atrás.
24:41Que faz com que essa cultura alimentar atravesse essa fronteira e se identifique.
24:46Então você tem uma diversidade de temas aí.
24:49Os bons cozidos portugueses.
24:51Era isso que eu ia falar, o cozido pernambucano.
24:53Nossa mãe, o nosso cozido pernambucano que tem uma referência primária de Portugal para cá
24:57e ganha uma identidade territorial nossa aqui.
25:00Fantástico.
25:01Até a nossa feijoada pela grande presença judaica aqui é diferente da grande feijoada
25:07que se consome no sul-sudeste do país.
25:10Então você tem identidades culturais, gastronômicas muito claras e isso está na obra de Gilberto.
25:16Você consegue, fazendo a leitura, identificar esses pontos de contato dessas civilizações que se encontraram aqui no Brasil
25:22e que transformaram a gente no que Gilberto dizia que o brasileiro era.
25:27Uma meta-raça.
25:28Ou seja, tem um componente cultural tão forte entre a gente que essa identidade se estabelece além da genética.
25:36Exato.
25:37E isso é o brasileiro hoje.
25:40E não é diferente de você fazer a fotografia do nosso momento cotidiano aqui
25:44e a gente identificar que nós somos a maior população alemã, fora da Alemanha,
25:49japonesa, fora do Japão,
25:52sírio-libanesa, fora da região da Síria e do Líbano.
25:56Então você tem africanos fora da África.
25:59Então imagina essa fotografia gigantesca de interações culturais
26:05e hoje são todos brasileiros.
26:08E aí faz uma riqueza, né?
26:10Nenhum desses.
26:11Tem tudo.
26:12A genética favorece tudo isso.
26:15Nós somos um povo miscigenado.
26:16E culturalmente, essa riqueza que a genética não explica mais,
26:22porque ela está além da explicação genética,
26:24mas está aqui, está na nossa mesa, está no nosso comportamento,
26:26está na nossa fé, está em uma série de outros compostos.
26:29E isso está em Casa Grande Senzala, Sobrados Rucanos,
26:32Ordem Progresso, Nordeste, Açúcar.
26:34Para a gente encerrar esse programa,
26:36eu queria que você contasse um pouco sobre a sua atuação aí,
26:39a importância do seu trabalho em trazer aí para o público esse conteúdo,
26:45trazer para o público a história através da casa, enfim.
26:49Eu passei muito tempo à frente da Fundação Gilberto Freire,
26:52junto com Sônia, a filha de Gilberto, minha tia,
26:54que era presidente até então.
26:57Hoje, eu trilhei um caminho dentro do campo político.
27:01Fui secretário de Cultura do Estado no governo Paulo Câmara.
27:05Meu irmão Fernando assume a presidência da Fundação Gilberto Freire.
27:08Hoje, eu apoio as iniciativas de Fernando.
27:11Eu já não tenho um vínculo direto com a Fundação,
27:13não estou dentro da estrutura de cargo,
27:15mas contribuí muito com essa referência,
27:18contribuí como secretário dentro desse olhar.
27:21E o meu trabalho hoje é muito voltado, por exemplo,
27:24para as atividades econômicas que culturalmente têm referência com o Brasil.
27:29Então, hoje, eu tenho, por exemplo, entre tantas atividades,
27:32um olhar para essa costa ocidental africana,
27:35tão perto da gente, a 3.500 quilômetros de distância,
27:39a 3, 4 horas de voo,
27:41e que a gente olha muito pouco.
27:42E tem uma potencialidade, uma identidade gigantesca.
27:45E hoje, eu tenho um trabalho com os consulados que se representam aqui,
27:50principalmente dessa costa ocidental,
27:54Senegal, Costa do Mafim e Cabo Verde.
27:56Então, a gente está fazendo um trabalho de levantamento de possibilidades
28:01para que essas trocas econômicas,
28:02que têm muito a ver com cultura,
28:04cultura alimentar,
28:06com a identidade cultural dos povos,
28:08que ela se estabeleça da melhor maneira,
28:10para que essa ponte atlântica favoreça Pernambuco.
28:14E Pernambuco tem tudo para se estabelecer
28:17como um bom ponto de contato
28:19com essa costa ocidental africana,
28:21que nos próximos 50 anos
28:22vai ser o grande espaço de desenvolvimento do mundo.
28:25É onde a população mais cresce,
28:27é onde o PIB mais cresce.
28:28E a gente está a 3 horas e meia,
28:317 dias de barco,
28:32atravessando o Atlântico,
28:33ou 3 horas e meia de voo.
28:35Muito perto, né?
28:35É muito perto.
28:36E a gente conhece muito pouco,
28:37a gente não faz esse caminho
28:40que seria natural para a gente.
28:41uma população em que 50% dos seus genes
28:44vêm da costa ocidental africana.
28:46Esse povo que foi trazido para cá
28:48durante o ciclo da escravidão,
28:50hoje pede que a gente retorne
28:52e leve para eles esse olhar do Brasil,
28:54essa forma do Brasil estar no mundo,
28:57compartilhando todas essas experiências.
28:58Esse é um desafio para os meus próximos 50 anos,
29:01se Deus quiser.
29:02Muito bom.
29:03Obrigadíssimo pela realização desse programa.
29:07Muito bom.
29:08Amei, acho que foi a aula, assim,
29:10para todo mundo que assistiu.
29:12Espero que vocês também tenham gostado.
29:13E para finalizar,
29:15bolinho de noiva Cecília Chaves.
29:17Maravilha.
29:17Para você aí se deliciar
29:19esse final de semana.
29:20Quem vai mais gostar disso aí
29:22é a dona Cristina,
29:23que já está de olho no seu programa,
29:25que vai comer esse bolo
29:26na hora que chegar em casa.
29:27Ok.
29:28Obrigada, gente,
29:29pela audiência
29:29e obrigada pela participação.
29:31Muito obrigado, Cecília.
29:32Foi um prazer muito grande
29:32e eu estou sempre à sua disposição.
29:34Obrigada.
29:34Obrigadíssimo.
29:35Gente, e no próximo programa
29:37a gente recebe a chefe Simone Farinha
29:40do Tasca,
29:41um restaurante que também tem
29:42muita história para contar
29:44e que vai trazer também
29:45suas tradições, conhecimento
29:47e receitas incríveis
29:48aqui para a gente.
29:50Até lá.
29:51Eu espero vocês no próximo sábado,
29:52às 10 da manhã,
29:53aqui na TV Tribuna.
29:57Na Cozinha com Cecília Chaves
30:00Oferecimento
30:01Senac
30:02Você pronto para o mercado
30:04do presente e do futuro.
30:05Música
30:07Música
30:09Música
30:12Música
30:16Música
30:17Legenda por Fábio Jr Laboratório Fantasma

Recomendado