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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um ponto de vista. No programa de hoje a pauta é o
00:14autismo.
00:15Na última quinta-feira, dia 2, foi celebrado o dia mundial de conscientização do autismo.
00:22E durante todo esse mês de abril, ocorrem vários eventos para despertar a sociedade para essa questão.
00:30São caminhadas, palestras, debates, tudo para que as pessoas tenham a oportunidade de falar sobre o transtorno do espectro autista.
00:39Para falar sobre o assunto, eu recebo aqui no estúdio Thaisa Noronha, advogada, mãe de cinco filhos e entre esses
00:48filhos, uma filha autista.
00:51Thaisa, seja muito bem-vinda e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
00:56Eu que agradeço. É um prazer, uma honra estar aqui, né?
01:00O senhor falou cinco filhos. Eu perdi um bebê quando eu tinha cinco meses e eu tenho agora quatro filhos.
01:07Belly, de 16 anos, Thiago, de 13, Pedro, de 11 e Lorena, de 5 aninhos.
01:13E mesmo assim, tendo perdido esse filho aos cinco meses, você faz questão de dizer que é mãe de cinco
01:18filhos, claro.
01:19É, porque representou muito para a minha vida.
01:22É importante, Thaisa, para o Brasil e para o mundo, esse Dia Mundial de Conscientização do Autismo, por quê?
01:30É essencial, né? Porque quando a gente fala sobre o autismo, a gente dá visibilidade a ele.
01:36E dá visibilidade ao autismo, a gente dá visibilidade às pessoas autistas.
01:42O mês de concentração pelo autismo, o mês de abril, foi implantado em 2007 pela ONU.
01:49Ou seja, tem apenas 19 anos.
01:52Então, há 19 anos, a gente começa a falar mais sobre assunto, começa a explicar mais.
01:58Cada vez que os anos vão passando, a gente vai trazendo mais consciência social, mais visibilidade, mais inclusão.
02:09Novas leis são apresentadas, elas começam a existir.
02:14E hoje, a gente não só pede por mais existências de leis que garantam a participação social da pessoa autista,
02:24como a gente quer esses cumprimentos também da lei.
02:27Apesar de o assunto estar sendo mais discutido, se a gente comparar com a sociedade toda,
02:34ainda precisa falar muito mais, né?
02:36Tem muita gente que não faz a mínima ideia do que seja uma pessoa autista, de como ele se manifesta.
02:43Então, assim, quanto mais se falar sobre o assunto, melhor.
02:46Exatamente.
02:47A gente precisa falar sobre o diagnóstico precoce, sobre a importância desse diagnóstico, desde o começo.
02:52Porque quando a gente tem esse diagnóstico, várias pessoas começam a ter direito a tratamento.
02:59A rede de apoio se forma.
03:02E existe aí uma grande... as condições melhoram quando existe esse diagnóstico precoce.
03:09A gente precisa falar sobre inclusão escolar.
03:10Porque a pessoa autista, ela tem direito a estar dentro da escola e direito não só de ser matriculada.
03:18Direito de ter suas atividades adaptadas com acompanhante, quando é necessário.
03:24Adaptações de prova.
03:26A gente vai falar mais um pouco sobre escola.
03:28Você está meio que adiantando o assunto.
03:31Eu vou entrar na questão das escolas, tanto a escola da rede particular quanto da rede pública, né?
03:37Mas você falou uma coisa que eu não tinha ainda feito uma pergunta aqui.
03:41É a questão do diagnóstico precoce.
03:43Por que ele é importante?
03:46Porque quando você observa aquele atraso do desenvolvimento, ou seja, a criança, ela precisa atingir aqueles marcos do desenvolvimento.
03:55E aqueles marcos não atingem.
03:57E aí você começa a fazer intervenção precoce, começa a falar...
04:01A criança não está conseguindo falar, então encaminha para um afono.
04:05A criança está com questões sensoriais, não consegue tocar em tinta, não consegue colocar uma meia.
04:11Você encaminha para um terapeuta.
04:13Quando você consegue esses terapeutas, esse tratamento de forma rápida,
04:20A gente consegue ter um ganho muito melhor do desenvolvimento dessa pessoa.
04:26Certo.
04:27A gente falou que você tem cinco filhos.
04:29E desses cinco filhos, uma é uma menina autista que hoje está com 16 anos.
04:34Você falou, né?
04:35Isso, 16 anos.
04:35A gente conversou um pouquinho antes da entrevista.
04:38Você me dizia que ela tem 16 anos.
04:40Para você, o que foi que significou a chegada dela na sua vida?
04:44Quando você percebeu que ela tinha o autismo?
04:48Como é que foi diagnosticado o caso dela, por exemplo?
04:52Primeiro, quando a gente tem um filho, uma filha, você começa a fazer...
04:56Foi sua primeira filha, né?
04:57É importante a gente dizer.
04:59Você tem vários sonhos.
05:01Você imagina como é que vai ser a maternidade, aquele encanto.
05:06Você dá asas à sua imaginação.
05:11E aí você espera que algumas coisas aconteçam e às vezes não acontecem.
05:16Algumas coisas que deveriam acontecer não estão ali chegando.
05:20E aí você começa a se perguntar, mas por quê?
05:22E há 16 anos atrás, 16 anos e 11 meses atrás, não se falava tanto em diagnóstico,
05:30não se falava tanto em neurodivergência, atipicidades.
05:33Então, era muito ainda a culpa da mãe.
05:36Ah, minha filha não consegue ir para a escola com a meia vestida.
05:39Não se falava, ah, é uma questão sensorial.
05:41Não, a mãe não dá disciplina o suficiente para essa menina não chegar na escola de meia e sapato.
05:49A meia incomodava, é?
05:51A meia incomodava muito.
05:52Então, assim, era muito desesperador, às vezes, fazer algumas atividades
05:56que para outras pessoas não têm dificuldade, né?
05:59Que é uma coisa do cotidiano.
06:03Então, eu começava a dizer, meu Deus, eu estou fazendo tudo errado.
06:06Então, a culpa, há vários anos atrás, sempre era da mãe.
06:11Inclusive, nesses anos atrás, se falava muito em mãe geladeira.
06:17Dizia que a culpa de uma criança ser autista ou ter alguma neurodivergência
06:23era porque a mãe não dava, às vezes, amor suficiente, não dava carinho suficiente.
06:28Então...
06:28Ou seja, geladeira porque seria uma mãe fria.
06:30Exatamente.
06:31Então, a gente vem de anos atrás de uma culpabilização ainda maior do que é hoje.
06:39Porque se hoje a mulher exerce ainda esse papel de cuidador maior,
06:46a gente tinha um papel de cuidador e ainda um papel de culpa mesmo.
06:51A sociedade culpava sempre muito a mulher por qualquer coisa que não fosse
06:57seguindo o que deveria, o que se espera.
07:01E aí, então, a gente não falava sobre transtorno sensorial,
07:06a gente não falava sobre esses diagnósticos para a gente entender que diagnóstico era aquele.
07:12Para chegar ao diagnóstico, a gente passava, às vezes, por longos anos, longos caminhos
07:17e, às vezes, a gente tinha pequenos subdiagnósticos para chegar no diagnóstico principal,
07:22que seria as características do TEA.
07:28No caso da sua filha, Isabelle, né?
07:3016 anos hoje.
07:32Com que idade ela foi diagnosticada?
07:34Ela foi diagnóstica de TEA na adolescência.
07:36Ela teve outros diagnósticos na infância e, na adolescência, veio o diagnóstico de TEA.
07:41E esse diagnóstico de TEA, quando chegou na adolescência,
07:46encaixou com o que você...
07:47Pela experiência que você já tinha na vida com a Isabelle.
07:51É uma experiência de uma vida inteira, né?
07:53E aí, encaixou perfeitamente.
07:56Tudo sem explicação.
07:58Existe uma estatística, Thaisa, que diz que cada 5 casos de autismo, 4 são em meninos e apenas 1 em
08:07menina.
08:07A ciência, eu sei que você não é neurocientista, mas por ter uma filha já com 17 anos vai fazer,
08:13né?
08:13Você deve conversar com profissionais de saúde e tudo.
08:17A ciência já suspeita, já tem algum indicativo de por que a frequência do autismo é muito maior entre os
08:24meninos?
08:24Eu não sei responder essa pergunta.
08:27Eu sei que realmente isso é um fato, né?
08:29Meninos têm uma...
08:31São 4 meninos para uma menina diagnosticada de TEA, mas o porquê eu realmente não sei responder.
08:38Tranquilo.
08:39Para você, como foi se descobrir, de repente, uma mãe atípica, né?
08:44Você, lógico, sonhou durante a gestação, sonhou em ser mãe, sonhou como é que seria a chegada dessa filha
08:53e, de repente, a filha, à medida que foi crescendo, começou a apresentar algumas características que você, como mãe, deve
09:02ter ficado preocupada, né?
09:04E você, de repente, se enquadrou como mãe atípica, né?
09:08A gente explica que mãe atípica é a mãe que tem crianças com algum problema, né?
09:14Às vezes, neurodivergente, STDH ou transtorno do espectro autista.
09:20Uma mãe com um filho com síndrome de Down também é uma mãe atípica, né?
09:24Ter esse problema associado à característica da mãe faz com que a mãe seja considerada uma mãe atípica.
09:33Para você se descobrir como uma mãe atípica, como foi?
09:40Ninguém quer ser mãe atípica, né?
09:42Claro.
09:43Então, ver aquelas dificuldades na maternidade, além do que a gente imagina, são bem desafiadoras.
09:52Então, traz muita dor no início, muita dificuldade.
09:57Mas é um luto que, às vezes, algumas mães vivem e outras não conseguem viver por causa das demandas que
10:06tem.
10:07Então, às vezes, você tem aquele diagnóstico e diz, se eu parar, eu não tenho mais tempo para parar.
10:12Eu tenho que correr contra o tempo.
10:14Eu preciso é lutar.
10:15Eu preciso é incluir.
10:17Eu preciso é reviver.
10:19Eu preciso ser voz.
10:22Então, é difícil.
10:25Ninguém quer passar por isso, né?
10:29Mas era a minha filha posta.
10:32E era a filha que eu amo, que eu sou completamente apaixonada pela minha filha.
10:38E eu não queria trocar de outra filha.
10:40Eu queria ela.
10:41Eu queria exatamente ela.
10:43Então, apesar de ter um diagnóstico, é a minha filha.
10:49As mães atípicas, elas precisam de um apoio maior da família e da sociedade como um todo?
10:56Pois é, isso é um tema muito importante.
10:59Porque, às vezes, a mãe atípica, ela não é só mãe.
11:03Não que mãe seja só.
11:05Mas, assim, ela precisa ser e além da maternidade.
11:09Então, muitas mães atípicas, como a demanda é muito grande, né?
11:14Elas precisam sair dos seus empregos, deixar de frequentar seu contexto social, seu convívio, por causa das demandas do seu
11:22filho.
11:22Então, às vezes, ela deixa de exercer a maternidade para exercer a função de maternidade e cuidadora.
11:30Que cuidadora deveria ser uma profissão para as mães atípicas que deixam sua profissão para exercer o papel apenas de
11:38cuidador.
11:39Então, é uma sobrecarga.
11:43É necessário que existam políticas públicas que dêem respaldo a essas mulheres.
11:48E se essa mulher adoecer, qual é o benefício que ela vai ter?
11:52Sabe?
11:52A gente precisa pensar nessa mãe cuidadora como uma profissão mesmo.
11:57Porque ela está ali 24 horas, sem férias, sem direito à refeição.
12:02Porque, às vezes, eu tenho um instituto, o Instituto Casa Mosaico, que hoje a gente tem 60 mães em situação
12:10de vulnerabilidade associadas.
12:12E tem uma das mães que o filho tem síndrome de West, que a criança tem várias crises epiléticas.
12:18Então, às vezes, ela está num banho, para o banho para socorrer a criança.
12:23Ela vive em estado de alerta 24 horas por dia.
12:26O tempo inteiro, né?
12:27O tempo inteiro.
12:28E essa mãe não tem condições de trabalhar, essa mãe não tem condições de fazer nada, além de cuidar do
12:33filho.
12:34E a gente precisa pensar nisso como um contexto público, social, uma demanda social.
12:39Essa experiência com sua filha, você falou aí de ter voz, né?
12:43De dar voz.
12:45Essa experiência com sua filha fez com que você até escrevesse um livro, né?
12:48Eu estou com o livro aqui, Quando a Dor Vira Propósito.
12:52Está aqui a capa.
12:54E por que você sentiu a necessidade, Thaisa, de escrever esse livro?
12:59De levar essa experiência para outras pessoas?
13:02Primeiro porque, quando uma mãe luta por um filho, ela precisa lutar por ela também.
13:08Porque a gente precisa estar bem para que o nosso filho esteja ali bem.
13:12Para que a gente tenha força para lutar pelos direitos dele, para a voz dele, para a inclusão social de
13:18um filho.
13:19E, além disso, porque a mãe atípica, ela precisa ter voz.
13:23A gente precisa entender que, na nossa sociedade, às vezes um filho não tem a voz, mas a mãe está
13:30ali exercendo o papel de ser voz para ele.
13:33E a gente precisa validar essa mãe, porque é essa mãe que entende.
13:38Ela sabe, quando o filho vai, às vezes, assim, quando você consegue entender, meu filho vai ter crise se acontecer
13:44isso.
13:44Meu filho precisa dessa adaptação.
13:47Às vezes, a mãe atípica, hoje em dia, ela está entendendo de direito para saber a lei que respalda seu
13:54filho.
13:55Ela sabe das medicações.
13:57O que é que acontece quando o filho toma uma medicação?
14:00Se dá sono, se não dá sono, se fica mais agitado, se não fica.
14:04Então, ela está ali, 100%, entendendo de tudo um pouco por aquele filho.
14:10A gente sabe que muitas das mães atípicas, muitas vezes, acabam também virando mães solo.
14:16Porque é quase uma estatística também, você vai me falar o percentual,
14:21mas é quase uma estatística das mães atípicas, que quando elas se tornam mães atípicas,
14:28muitos companheiros, muitos pais, acabam pegando outro rumo, né?
14:33E não aguentam, não enfrentam aquela situação.
14:37É isso mesmo, assim?
14:38É difícil para essa mãe atípica?
14:41É uma dificuldade a mais.
14:43A gente já sabe que só o fato de ter o filho autista já vai dar um trabalho enorme para
14:50a criação, né?
14:52Ainda mais se ela ficar sozinha.
14:54Pois é.
14:56O percentual hoje no Brasil é de 72% de mães solos,
15:01de que exercem a maternidade atípica de forma sozinha.
15:04Mas lá no Instituto, para 60 pessoas, uma pequena amostra,
15:08a gente tem mais de 80%.
15:10Por quê?
15:11Porque, como o senhor mesmo falou, já é uma vida...
15:15Pode chamar de você.
15:17Já é uma vida com mais necessidades, com mais dificuldades.
15:25A gente ali não tem só uma criança que precisa de uma escola,
15:28a gente precisa de uma criança que tenha escola,
15:30que às vezes precisa de um acompanhante pedagógico,
15:33que precisa de adaptação escolar.
15:35Ou seja, não é só deixar a criança de manhã e pegar no horário.
15:39É estar ali, o tempo todo, ativamente, lutando para o pertencimento dela
15:44dentro do ambiente escolar.
15:46E aí tem as crises dentro de casa, tem a luta por médico,
15:49tem a luta por medicação.
15:51São tantas lutas, são tantas coisas que a criança precisa,
15:56o adolescente, a pessoa, o filho precisa,
15:58que a gente também está numa sociedade extremamente machista e preconceituosa.
16:03E esse papel de cuidador, se a gente for olhando de geração por geração,
16:10sempre foi exercido pela mulher.
16:12A mulher é o papel de cuidar.
16:14É quando uma mãe ficava doente, era a filha que tinha essa responsabilidade.
16:19Hoje a gente está conseguindo conversar mais sobre isso,
16:22mas nós ainda estamos numa sociedade onde o papel central de cuidado fica com a mulher.
16:27E aí esses homens vão embora e deixam essa mãe sozinha.
16:32Muito bem, Thais, a gente vai fazer uma breve pausa.
16:35Você que está com a gente, não saia daí.
16:37A gente volta já, já.
16:50O Ponto de Vista está de volta.
16:52Hoje estamos falando sobre autismo.
16:55E eu recebo aqui Thaisa Noronha, advogada e mãe de uma filha autista.
17:01Thaisa, eu queria continuar falando do preconceito.
17:04O preconceito hoje ainda é muito grande?
17:07Muito grande, principalmente aquele preconceito velado e invisível, né?
17:11Porque a gente tem as barreiras, as barreiras estruturais arquitetônicas,
17:16que são aquelas que dão acesso fisicamente.
17:19Mas a gente tem as barreiras atitudinais.
17:22E essas são aquelas das ações de falta de atitudes
17:28para que aquela pessoa com deficiência esteja inserida no meio social.
17:34Quando a gente fala de pessoa com deficiência,
17:37é porque o autismo, na Lei Berenice Piana,
17:39ele foi colocado como pessoa com deficiência.
17:42Para a frente de saúde, educação,
17:44as pessoas autistas têm os mesmos direitos das pessoas com deficiência.
17:50Ou seja, você fala de barreiras atitudinais,
17:53seriam quase que barreiras sociais também, né?
17:55Exatamente.
17:56São aquelas barreiras que existem ali,
18:00mas que você, com uma ação, você poderia reduzi-la.
18:05Bastava você fazer algo, tomar uma atitude,
18:09falar de outra forma, deixar de olhar de outro jeito, né?
18:12Aquela criança tendo uma crise,
18:14um adolescente tendo uma crise,
18:16você está ali, ó, julgando,
18:18dizendo, ai, foi falta de educação, sabe?
18:20Essas barreiras são tão graves quanto todas as outras barreiras
18:25e situações preconceituosas.
18:27A gente falou no primeiro bloco, rapidinho,
18:29sobre a questão das escolas.
18:31Você começou a falar, eu até interrompi.
18:33Eu queria saber, com relação às escolas,
18:35a maior parte das escolas hoje ainda não está preparada, né,
18:40para receber a criança autista.
18:42É verdade isso?
18:44É uma prática?
18:45Você, com o Instituto Casa Mosaico,
18:48com a experiência com outras mães.
18:50É uma coisa que vocês constatam sempre?
18:54Diariamente e diversas vezes por dia,
18:56a gente escuta a mesma coisa.
18:58Antigamente, a gente tinha muita dificuldade
19:01na matrícula dessa criança autista,
19:03desse adolescente autista.
19:05Hoje, continua tendo a dificuldade de matrícula,
19:08mas a gente tem a dificuldade de adaptação escolar.
19:12O psicopedagogo, por exemplo,
19:13observa que aquela criança ou adolescente autista
19:17necessita de uma adaptação na prova,
19:20necessita de uma adaptação de um ambiente,
19:23necessita de adaptação de conteúdo.
19:25E aí, a gente, às vezes,
19:28a gente ainda sente muita dificuldade
19:30na prática, na execução.
19:32O neuro dá um laudo,
19:34os terapeutas dão um laudo.
19:35Às vezes, o próprio professor observa,
19:38mas quando chega na hora de executar
19:40para que a pessoa autista tenha inclusão,
19:45não acontece.
19:48Como é na rede pública?
19:49É diferente da rede particular?
19:51É pior?
19:52É melhor?
19:54Qual a avaliação?
19:55Existem diferenças entre escolas
19:56da rede particular e da rede pública?
19:59Veja, a dificuldade, ela é em todos, né?
20:04Mas, claro, que em graus e proporções diferentes.
20:08A gente tem muita dificuldade na rede pública
20:11de conseguir esse apoio.
20:13Na verdade, as pessoas que estão dependendo do SUS,
20:16às vezes, passam dois anos
20:18para conseguir marcar um neurologista.
20:20Tem ali o seu filho
20:22que você já tem consciência
20:24de que ele é autista,
20:26mas, às vezes, para conseguir o laudo
20:28com esse médico,
20:29às vezes, dura dois, três anos.
20:31Tem gente que está na fila aí há anos.
20:33Então, consegue esse laudo,
20:35leva para a escola,
20:36preciso de um apoio.
20:38Ah, está faltando apoio.
20:40Tem várias denúncias, né,
20:41no Ministério Público,
20:42Secretaria de Educação de Mães,
20:44que estão solicitando
20:45esse apoio pedagógico
20:47para que a criança esteja ali
20:48apoiada por uma pessoa
20:49de forma individual
20:50e, às vezes, esse apoio
20:52está com cinco crianças,
20:53quando, na verdade,
20:54deveria ser um para cada pessoa autista.
20:57Então, a gente tem essa dificuldade.
21:00Campanhas de conscientização
21:01como essas que ocorrem agora
21:03no mês de abril,
21:04elas são importantes,
21:05ajudam a combater o desconhecimento,
21:08por exemplo?
21:09Elas são essenciais,
21:10porque fazem com que a sociedade
21:12fale sobre esse tema,
21:15discuta sobre esse tema,
21:16escute mais pessoas
21:18que vivenciam, né,
21:20essas dificuldades diariamente.
21:22faz com que exista
21:24dentro da escola
21:26palestras,
21:27debates,
21:28as mães atípicas,
21:29elas são mais ouvidas.
21:31Então,
21:32é essencial
21:33que tenha esse mês
21:35de conscientização
21:36para que seja um mês
21:37focado,
21:38realmente,
21:39da gente entender
21:40quais são as demandas,
21:41o que a gente pode fazer
21:42para melhorar.
21:43Porque, veja,
21:43o objetivo da conscientização
21:45não é a gente mudar
21:47a pessoa autista.
21:49É um transtorno
21:50do neurodesenvolvimento
21:51e o que a sociedade
21:53precisa entender?
21:54Que o diagnóstico dele
21:55não está sentenciando ele
21:57a uma vida de exclusão,
21:59uma vida diferente.
22:01O diagnóstico
22:02serve para ele
22:03entender
22:04essa condição,
22:07o transtorno
22:07do neurodesenvolvimento,
22:09mas serve
22:09para que a gente
22:10consiga adaptar
22:11a sociedade,
22:12para que ele seja
22:13incluído
22:14com funcionalidade,
22:15autonomia,
22:16respeito,
22:17empatia
22:17e com os direitos
22:18que ele tem.
22:20Eu queria voltar
22:21um pouquinho
22:21na sua família
22:22que você falou
22:23que tem
22:23quatro filhos
22:25hoje, né?
22:26Além da Isabelle,
22:27você tem dois meninos
22:29de 13 e 11 anos
22:31e uma menina
22:32ou menina de 5?
22:33Uma menina de 5.
22:34E uma menina de 5.
22:35Sobretudo
22:36esses adolescentes,
22:37o pré-adolescente
22:38de 11
22:39e o adolescente
22:40de 13,
22:41como é a relação
22:42deles
22:42com a irmã autista?
22:45Meus filhos amam
22:46a irmã
22:47é algo tão lindo.
22:49E eles já têm
22:50consciência
22:50sempre tiveram consciência
22:51de que ela é
22:52uma menina diferente.
22:53Sempre tiveram consciência
22:54porque família
22:55lá é um lugar
22:57de amor,
22:58é um lugar
22:58de aceitação,
22:59é o primeiro ambiente
23:00em que você está
23:01inserido
23:02uma pequena amostra
23:04da sociedade.
23:05Só que ali
23:06tem pessoas
23:06que têm que lutar
23:07por você,
23:08amar você,
23:09entender você.
23:10Então,
23:11eles entendem
23:13sempre,
23:14amam a irmã,
23:15ajudam a irmã,
23:16é lindo.
23:18E esse apoio
23:18da família
23:19é muito importante
23:20também, né?
23:20É essencial,
23:21porque a família
23:22pode ser tanto
23:23disfuncional
23:23como funcional, né?
23:25Ela pode também
23:26ser um lugar
23:27de preconceito.
23:30E, graças a Deus,
23:31eu sou muito feliz
23:32com isso,
23:33pela relação
23:33que os meus filhos
23:34têm com a irmã.
23:36Agora, Thais,
23:36o espectro autista
23:38é uma coisa
23:38muito ampla, né?
23:39Ele é muito vasto,
23:41digamos assim.
23:42Você tem
23:42aquele autista
23:43que tem dificuldade
23:45de aprendizagem,
23:46por exemplo,
23:47e tem aquele
23:48que se destaca
23:49nos estudos
23:50e, sei lá,
23:51faz até uma carreira
23:52profissional
23:52de sucesso, né?
23:54Como classificar,
23:56como é que,
23:57por que essas duas pessoas
23:58tão diferentes
23:59são classificadas
24:00como autistas?
24:02O que é que
24:02diferencia elas
24:04a ponto de,
24:05tão diferentes,
24:06serem classificadas
24:07da mesma forma?
24:08Apesar de eu não ser
24:09uma especialista,
24:11eu vou falar
24:12baseado na minha
24:13experiência,
24:14nos meus estudos.
24:15O autismo,
24:16ele é um espectro.
24:18Então,
24:18tem o autismo
24:19nível 1 de suporte,
24:20nível 2 de suporte,
24:21nível 3 de suporte,
24:22baseado na autonomia,
24:25na comunicação,
24:26na funcionalidade
24:27dessa pessoa.
24:29Então,
24:29por ele ser um espectro,
24:31todas as pessoas
24:33autistas
24:33estão ali,
24:35dentro do autismo,
24:36dentro desse diagnóstico.
24:39Mas cada uma
24:40vai ser de um jeito,
24:42agir de uma forma,
24:44tem uma condição
24:44individual,
24:46peculiar.
24:47Algum autista,
24:48acontece, por exemplo,
24:50dele nem saber
24:50que ele é autista?
24:53Existem as pessoas
24:54com vários diagnósticos
24:57dentro do autismo.
24:59Do espectro.
25:00Do espectro do autista.
25:01Então,
25:02tem a deficiência intelectual,
25:04tem a dificuldade
25:05de comunicação,
25:06a dificuldade de fala.
25:07Então, assim,
25:08tem várias coisas
25:09dentro do autismo
25:11que pode fazer
25:12com que a pessoa
25:13tenha dificuldade
25:14dessa percepção
25:15e outros que não
25:16tenham dificuldade
25:16nenhuma na percepção.
25:18No caso,
25:18você,
25:19como mãe
25:19de um adolescente
25:20autista,
25:21ela percebe
25:22que ela é diferente
25:23ou não?
25:24Total.
25:24Ela sabe os diagnósticos,
25:26ela engaja
25:27com o terapeuta,
25:30entende todas
25:31as demandas
25:32e a gente consegue
25:33fazer essa parceria
25:35assim,
25:35de forma maravilhosa.
25:38Ainda sobre essa amplitude
25:40do espectro,
25:41tem gente já adulta
25:43que nunca foi diagnosticada
25:44como autista
25:45e agora está descobrindo
25:47que tem algum tipo
25:48de autismo.
25:49Você pode falar sobre isso?
25:51Está acontecendo mesmo
25:53de pessoas adultas,
25:54já adultas,
25:56e se descobrirem
25:57de alguma forma
25:57com autismo?
25:59Pois é,
26:00muitas pessoas
26:01se achavam diferentes,
26:02se achavam
26:03não pertencentes
26:04no ambiente,
26:05se achavam estranhas
26:08e diziam assim,
26:09mas por quê?
26:10Por que eu era assim?
26:12A gente não tinha
26:12diagnóstico
26:13há muitos anos atrás,
26:14alguns diagnósticos,
26:16né?
26:17A gente
26:18tinha,
26:19davam até diagnósticos
26:20que não eram
26:20o autismo.
26:22Então,
26:22essas pessoas hoje,
26:24com a sociedade
26:24conversando,
26:26com a sociedade
26:26falando,
26:28explicando,
26:29que é o autismo
26:29nível 1 de suporte,
26:31essas pessoas
26:31começam a dizer,
26:32meu Deus,
26:32eu tinha isso aí,
26:34então eu era assim,
26:35eu sofri tanto
26:36na minha vida,
26:37eu não conseguia
26:37me enturmar,
26:38eu não entendia
26:39aquelas brincadeiras,
26:41né?
26:42Abstratas.
26:43Então,
26:43eu era assim,
26:44e aí começa
26:45a entender,
26:46ah,
26:47eu não era diferente,
26:48eu sou autista.
26:50E isso dá
26:51um afago na alma,
26:54porque você buscava
26:55tantas respostas
26:56durante a vida inteira
26:58e de repente
26:58encontra essa resposta,
27:01por isso que muitos adultos
27:03vão atrás desse diagnóstico,
27:04porque para eles
27:05é importante,
27:06é uma resposta
27:07para eles.
27:08Muito bem,
27:09Thais,
27:09o nosso tempo acabou,
27:10eu agradeço demais
27:11a entrevista,
27:12parabéns pelo livro,
27:14parabéns pelo Instituto
27:15Casa Mosaico,
27:17e que você continue
27:18nessa jornada aí,
27:19excelente,
27:20e de muito sucesso,
27:22que está sendo
27:24dividir
27:24essa sabedoria
27:26e essa experiência
27:28que você está tendo
27:29com outras mães.
27:30Obrigada por estar aqui,
27:31por essa oportunidade.
27:33Obrigado a você.
27:34E a você que acompanhou
27:35até aqui,
27:36obrigado pela audiência
27:37e companhia.
27:38A gente volta
27:39na semana que vem.
27:43Transcrição e Legendas por Quintena Coelho