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  • há 3 meses

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00:00Olá, bem-vindos e bem-vindas ao Ponto de Vista.
00:12O mês de outubro está chegando ao fim e é o mês da campanha Outubro Rosa,
00:16uma campanha de conscientização e combate ao câncer de mama.
00:20E para falar sobre esse assunto, nós convidamos a jornalista e escritora Camila Nunes.
00:26E por que a gente convidou a Camila? Porque ainda muito jovem, Camila recebeu o diagnóstico
00:32de que estava com um tumor na mama. Então vamos falar com ela sobre isso.
00:36Camila, seja muito bem-vinda e obrigado por ter aceitado o nosso convite.
00:41Eu que agradeço a oportunidade de estar aqui para fazer esse enfrentamento ao câncer de mama, Fernando.
00:45Agora, Camila, você foi diagnosticada, você tinha só 31 anos, né?
00:50Quando você foi diagnosticada, esse momento do diagnóstico, como é que foi para você?
00:55Como é que a pessoa recebe essa notícia?
00:59Olha, eu costumo dizer que o chão se abre nesses momentos de ponto de virada na nossa vida.
01:04E esse definitivamente, para mim, foi um.
01:07Eu estava na correria do dia a dia que a gente está sempre, de trabalho, de compromissos.
01:13E aí eu parei para observar, prestar atenção no que o rosto da médica queria me dizer.
01:19Ela estava preocupada com aquela alteração no exame.
01:22Eu lembro que eu fui fazer uma ultrassonografia, porque eu não tinha indicação de fazer mamografia ainda,
01:27por causa da idade.
01:29Era um nódulo palpável que ela via na imagem.
01:32Eu não tinha sentido, talvez, por causa desse corre-corre que a gente vive.
01:37E aí eu precisei dar atenção àquilo, né?
01:40E aí investiguei, fiz a biópsia.
01:43E quando eu tive o resultado, era sim um câncer de mama ainda inicial, né?
01:47O tumor tinha menos de dois centímetros, mas a partir dali eu percebi que minha vida ia mudar.
01:52E como foi a sua reação quando a médica disse, ó, é um tumor e a gente vai ter que fazer uma cirurgia para tirar esse tumor?
01:59Então, eu nunca tinha passado por cirurgia, né?
02:01É curioso.
02:03E eu tinha muita resistência, né?
02:05A gente tem, como mulher, a qualquer tipo de mudança.
02:08Principalmente nessa parte do corpo, né?
02:10Que faz a gente se sentir mais feminina.
02:14Mas, assim, eu decidi, sabe?
02:16Encarar o tratamento e aderir a ele com muita responsabilidade, né?
02:21Fui a mastologista e tudo, tudo, exatamente tudo que ela me falou que eu precisava fazer, eu fiz.
02:27Sabe?
02:28Porque eu acho que...
02:29Eu sempre fui uma determinada, né?
02:30Então, eu encarei com muita responsabilidade porque eu sabia que eu tinha chance de sobreviver.
02:35Sabe?
02:36Então, eu me agarrei nessas chances e decidi lutar por mim, né?
02:42Fazer por mim.
02:42Talvez, às vezes, essas novidades, né?
02:46Não tão agradáveis vêm para a nossa vida para a gente poder começar a fazer diferente.
02:51E foi o que eu decidi fazer.
02:53Agora, eu imagino, Camila, que quando a pessoa recebe um diagnóstico desse, né?
02:57Ela precisa ser muito forte, né?
02:59Para lidar com toda a situação.
03:01Que tipo de apoio você recebeu, seja da família, seja dos amigos,
03:05tanto para apoio para enfrentar a parte física, né?
03:09Quanto emocionalmente também, a parte psicológica.
03:12Verdade.
03:13Eu costumo dizer que a gente precisa, sim, de uma forte rede de apoio.
03:17E eu tive, né?
03:18Graças a Deus, eu tive apoio da minha família, da minha irmã, que é advogada,
03:23sempre esteve do meu lado, lutando pelos meus direitos.
03:26Minha mãe, minha avó, meu padrasto, todo mundo.
03:28Todos os meus amigos, né?
03:30Que fizeram, inclusive, cotinhas, né?
03:32Vaquinhas online para me ajudar, porque é um tratamento muito custoso.
03:36E ninguém faz nada sozinho, né?
03:38Ninguém faz nada sozinho.
03:39Disso eu tenho certeza.
03:41Eu precisei, inclusive, de apoio de, além de médicos,
03:45outros profissionais da equipe multidisciplinar, né?
03:48Como fisioterapia, nutrição.
03:52Tudo isso tem um custo, né?
03:53Então, assim, eu sempre tive, graças a Deus, a oportunidade de ter esse acesso.
03:59E por isso que eu procuro trazer, levantar essa bandeira, sabe?
04:02Trazer essas informações para as pessoas que, porventura, estão passando por isso também.
04:07Quais os desafios emocionais mais difíceis que você teve que enfrentar?
04:11Olha, na minha trajetória, eu conto que existe um top 3 do pavô, assim,
04:17do paciente e da paciente com câncer, especificamente.
04:20Que é, primeiro, morrer, né?
04:22Assim, você se encara, você encara a finitude, né?
04:27E aí, quando você tem a notícia de que tem 95% de chance de cura se descoberto de forma inicial,
04:34você se apega a esses números positivos.
04:37Depois, eu tinha medo do tratamento, né?
04:39Quem não tem, né?
04:41Medo de ficar careca, né?
04:42Como mulher.
04:43E medo de perder a mama, né?
04:46A gente tem muito medo de como é que a gente vai ficar depois desse processo.
04:50Mas aí, eu fui tentando superar, sabe?
04:52A gente vai conquistando pequenas vitórias.
04:54Para você ter uma ideia, eu tinha medo de agulha.
04:56Como faz um tratamento com medo de agulha, né?
04:59Eu fazia exame de sangue toda semana.
05:01E eu fui tentando, assim, passar por cima dessas barreiras.
05:05Porque eram esses enfrentamentos que me levavam mais próximo à cura, né?
05:12Ao diagnóstico de cura, que é o que todo mundo quer, né?
05:17No final das contas.
05:19Agora, Camila, de algum modo, a experiência do câncer de mama afetou a tua perspectiva de vida?
05:25A tua forma de encarar a vida, de ver a vida?
05:28Você passou a ver a vida de um modo diferente?
05:30Com certeza.
05:31Eu acho que talvez quem não tenha passado por nenhuma experiência ruim dessa, talvez não entenda, sabe?
05:38O que é você viver um dia depois do outro mesmo.
05:41Não ligar para raivinha, para besteira, para coisa do dia a dia.
05:47Eu aprendi muito a olhar, a me olhar com mais acolhimento, sabe?
05:53Primeiro, assim, entender que existe um dia ruim e um dia bom.
05:56Mas valorizar muito a minha saúde.
05:59Eu sempre fui uma pessoa que pratiquei atividade física, por exemplo.
06:02E durante o tratamento, o exercício me ajudava bastante.
06:07Então, isso é algo que eu quero levar para o resto da minha vida.
06:09Porque, assim, a gente fala, né?
06:12Que a gente tem que preparar o nosso corpo para receber, se for receber, uma doença, receber você forte.
06:18Então, assim, foi assim que eu me mantive.
06:21E é assim que eu quero me manter para o resto da vida.
06:23Aproveitando cada dia com saúde.
06:25Agora, em algum momento, você teve, certamente, todo mundo que passa por esse tipo de tratamento deve ter uns altos e baixos, né?
06:35Com certeza.
06:35Eu imagino que em algum momento você também pensou em desistir ou, sei lá, o que te ajudou a seguir em frente com o tratamento e com a recuperação, digamos?
06:47Sim.
06:48Desistir, na verdade, nunca foi uma opção, né?
06:50E quando a médica me disse, olha, você tem 95% de chance de cura, disso você não vai morrer.
06:55Você pode morrer atropelada na rua, como qualquer pessoa pode.
06:58Então, olhe para os dois lados.
07:00Mas disso você não morre.
07:01Então, assim, eu me apeguei muito a isso, sabe?
07:03Desistir realmente não era uma opção.
07:05Mas existem efeitos do tratamento que vão deixando você até fisiologicamente mais abalado, né?
07:11Assim, por exemplo, no segundo dia da quimioterapia, você tem uma fadiga.
07:14Isso é uma questão fisiológica, é do corpo.
07:18Então, ou eu fazia 30 minutinhos de atividade física para dar um gás, ou eu simplesmente me acolhia, sabe?
07:24E isso era uma coisa muito difícil para a Camila, de 30 e poucos anos, que queria se divertir, né?
07:29Então, assim, eu aprendi a acolher também esses sentimentos ruins, né?
07:32Que faz parte da vida.
07:33A vida não é algo linear.
07:35Você tem, sim, altos e baixos.
07:37Você tem, sim, que passar por certas coisas.
07:39Porque, infelizmente, a gente também aprende na dor, né?
07:42Então, eu decidi encarar essa minha missão, né?
07:46Que eu tinha como realmente uma lição, para mim e para os outros.
07:49Qual a experiência que você teve?
07:51O que é que você diria a uma pessoa que está recebendo agora o diagnóstico do que tem o câncer de mama?
07:56Ave Maria!
07:58Que dia ruim, né?
07:59Mas é só uma fase.
08:00Eu diria que eu...
08:02Uma das consultas que eu fui, eu estava muito preocupada em perder os cabelos.
08:07E aí, eu perguntava para o médico, em quanto tempo eu vou ficar careca?
08:11Me diga a verdade.
08:13Aí, ele dizia assim, ó, com 15 dias, você vai sentir, vai começar a sentir a perda, né?
08:19Dos cabelos.
08:20Vai começar a cair.
08:22E eu comecei, veja, perto do Natal.
08:2515 dias era ano novo.
08:26E aí, eu dizia, poxa, eu vou passar ano novo careca.
08:30E aí, ele fez, por que você está pensando nesse ano novo?
08:34Pense nas próximas celebrações, porque sua vida continua.
08:38E ele estava certo, né?
08:39Eu estava preocupada com o ano novo de 2021, que foi quando eu tive o diagnóstico.
08:45Mas eu já vivi o de 22, 23, 24.
08:48Estou partindo para o de 25.
08:49Então, assim, a perspectiva de futuro para o paciente com câncer.
08:53Essa é a mensagem.
08:54E o cabelo caiu com esses 15 dias mesmo?
08:57Demorou mais?
08:58Começou a cair dia 1º de janeiro.
09:00Parece que só esperou o Réveillon mesmo.
09:02O Réveillon.
09:02Só que eu usei uma tecnologia que eu acho até bom a gente comentar, que é a crioterapia,
09:08que é uma touca térmica, que não é indicada para todo mundo, nem para todo tipo de tratamento.
09:13Porque, infelizmente, o tratamento de câncer, que atinge mais as mulheres, faz o cabelo cair, né?
09:19Enfim, a gente perde a moldura do rosto, é bem danoso para a gente.
09:24Mas tem essa tecnologia que resfria o couro cabeludo e retarda um pouco a queda.
09:28Então, eu usei, eu não precisei raspar a máquina zero, nem nada.
09:32Não usei lenço.
09:34Mas isso também é um dos meus propósitos, assim, ir tirando os estereótipos da doença.
09:39Não vai acontecer com você o que acontece com todo mundo.
09:43Cada história é única, sabe?
09:45Então, assim, começou a cair.
09:46Caiu bastante.
09:47Fiquei com o cabelo curtinho.
09:48Usei, durante um tempo, uma extensão de fios, né?
09:53Mega ré, como as pessoas chamam.
09:54E, depois de um tempo, o cabelo cresceu de novo.
09:57Pois é.
09:58Olha, recentemente, o Ministério da Saúde anunciou que vai garantir, pelo SUS,
10:04o acesso à mamografia a mulheres a partir dos 40 anos.
10:09Até então, só tinham direito a esse exame mulheres a partir dos 50 anos.
10:13Isso pelo SUS, tá?
10:14Sobre a importância dessa mudança no SUS, nós fomos ouvir a mastologista Alessandra Saraiva.
10:21Vamos ver o que ela disse.
10:23Após os 40 anos, nós já conseguimos visualizar alterações na mamografia,
10:28que faz com que diagnostiquemos o câncer de mama inicial.
10:32Isso chega até 95% de chance de cura.
10:35E as mulheres, entre 40 e 50 anos, precisam realmente também realizar esse exame,
10:41porque, nos últimos anos, a redução no diagnóstico de câncer de mama existiu.
10:47Inclusive, em torno de 37% desses diagnósticos de mulheres com câncer de mama no Brasil
10:52foram abaixo de 50 anos.
10:54Nos últimos anos, vem aumentando esse número de mulheres jovens com câncer de mama.
10:59Acreditamos que, principalmente devido ao estilo de vida,
11:02as mulheres estão muito sobrecarregadas de trabalho,
11:05consequentemente, não conseguindo se alimentar corretamente,
11:09uma qualidade ruim de sono, com poucas horas de sono,
11:13e, principalmente, não realizando atividade física.
11:16Então, esses três pontos é muito importante na prevenção do câncer de mama.
11:21Então, a importância da atividade física regular,
11:24uma qualidade de sono, uma alimentação mais saudável,
11:28pode reduzir de 30% a 40% o diagnóstico do câncer de mama.
11:32A idade limite também mudou, de 69 para 74 anos.
11:38A doutora Alessandra também falou sobre essa ampliação.
11:43É muito importante, porque cada vez mais vemos as mulheres envelhecer bem, saudáveis.
11:49A faixa etária das mulheres, a população em geral, vem aumentando.
11:53Inclusive, a qualidade de vida dessas pacientes, dessas mulheres.
11:57Vejo pacientes com 60, 70, 80 anos praticando atividade física.
12:02Então, sim, devemos cuidar dessas mulheres.
12:05Sim, elas devem fazer mamografia.
12:07Porque, caso tenha um câncer de mama,
12:10a gente descobri cedo, precocemente, e uma maior chance de cura.
12:14O que limita a realização da mamografia é muito mais a condição, o status da paciente.
12:19Aquela paciente que está acamada,
12:22não tem condições de se deslocar para realizar a mamografia,
12:26aí sim, é uma paciente que pode, não, não precisa realizar.
12:29Mas a paciente hígida, que tem condições de realizar a mamografia, sim, deve realizar.
12:35Importante isso, né?
12:36Frequentemente, o câncer de mama é associado a mulheres mais velhas.
12:40Você, Camila, sentiu que precisou lutar mais
12:43para que as suas preocupações fossem levadas a sério,
12:47seja pelos médicos, seja pelos familiares?
12:49Como foi a sua experiência, tendo sido diagnosticada tão jovem?
12:53Então, eu costumo dizer que eu não me via na sala de espera dos médicos.
12:58Eu não me encontrava ali naquelas histórias.
13:01Mas, como a doutora Alessandra está falando, o perfil da doença tem mudado, né?
13:05Então, assim, talvez naquele horário que eu estava não tinha ninguém com a minha idade.
13:10Mas, depois que eu fui na internet falar sobre isso, né?
13:14Conheci muita gente por causa dessa história e desse diagnóstico,
13:18eu fui entendendo que, infelizmente, todo mundo conhece alguém que ou teve ou vai ter, né?
13:26Ou no seu entorno, assim.
13:28Se você pensar em 10 mulheres da sua vida, da sua família, né?
13:34Do seu convívio, duas, três vão ter, né?
13:38Ou já tiveram.
13:39Então, assim, a doença, ela está muito próxima da gente.
13:43A gente não falar sobre isso não é uma opção, não vai fazer ela não chegar.
13:47Pelo contrário, a gente precisa ter informação.
13:50Como a doutora Alessandra bem falou aí, prevenção, né?
13:53É a chave.
13:54Você procurar um mastologista para saber qual é o momento exato de fazer o exame.
13:58Qual o exame ideal, né?
14:01Fazer exercício físico, se alimentar melhor.
14:03Ela fala muito sobre prevenção.
14:05Então, uma prevenção ao câncer de mama, imbatir vai ser feliz, né?
14:09Se você é feliz, se você não se deixa afetar por tantos problemas,
14:14você vai buscando uma tranquilidade, né?
14:18Um alinhamento, né?
14:21Corpo e mente.
14:22Mas também aconteceu de alguém achar, não, mas se preocupe não, Camila.
14:26Você tem 31 anos, vai passar por isso fácil.
14:29Meio que não dando tanta importância a você estar com câncer.
14:33Não dando tanta importância, mas é claro que, assim,
14:36quando você é mais jovem, né?
14:38O seu corpo tende a receber melhor medicação, né?
14:42Então, de fato, eu corri, assim, quilômetros.
14:45Eu continuei praticando dança, que é algo que está na minha vida há muito tempo.
14:49Continuei fazendo musculação.
14:50Então, realmente, parecia que eu não estava passando por nada, né?
14:53Mas, assim, cada história é uma, né?
14:56Como eu falei, cada história é única.
14:58Então, vai ter gente mais nova que vai sentir mais.
15:03E vai ter gente mais velha que também não vai parecer que está fazendo nada.
15:07Então, assim, é você respeitar também o seu próprio limite, né?
15:09Do seu corpo se respeitar.
15:11Muito bem.
15:12Camila, a gente vai fazer um rápido intervalo.
15:14Você que está aí, continue com a gente.
15:16A gente volta já, já.
15:17O Ponto de Vista está de volta.
15:31Hoje eu estou conversando com a jornalista e a escritora Camila Nunes.
15:36E o nosso assunto é o Outubro Rosa.
15:39Camila, de algum modo, a cirurgia e o tratamento
15:42afetaram a sua autoimagem, a sua feminilidade,
15:46em uma fase da vida em que muitas mulheres estão construindo, né?
15:51A sua identidade como mulher.
15:53Teve esse problema para você?
15:54Em algum momento você se sentiu abalada?
15:57Com certeza.
15:58Eu acho que a gente não espera, né?
16:00Que vá acontecer com a gente.
16:02A gente não acha que é algo que está perto, assim.
16:06Tão perto que vá nos atingir.
16:08E aí eu fui, de fato, bem flechada, né?
16:14Por essa doença.
16:15E aí, é claro, né?
16:17Que tive um pouco da autoestima abalada por causa da questão do cabelo,
16:21por causa das cicatrizes.
16:23Mas aí a gente vai ressignificando, né?
16:26É assim, eu tive que colocar um cateter.
16:27Não sei se todo mundo consegue entender o que é,
16:30mas é um dispositivo onde a gente vai aplicar a medicação da quimioterapia.
16:35Eu era muito resistente a isso.
16:37Porque o cateter, ele fica parecendo uma bolinha,
16:41como se fosse um nódulo dentro do seu corpo.
16:45Mas aí você vai entendendo, né?
16:47Que aquilo é um caminho, um meio para você chegar na cura.
16:51Então, hoje, eu já não estou mais com cateter, né?
16:55Foi uma vitória para mim ter passado esse tempo com ele.
17:00E ele ter me ajudado, porque imagina,
17:02você faz vários exames de sangue e você tem que contar com as suas veias.
17:06Com cateter, não.
17:07Eu tinha um dispositivo que me levava mais perto da cura, né?
17:11Que fazia com que eu recebesse o tratamento de uma forma mais ágil, né?
17:17De uma forma mais confortável até.
17:20Então, assim, toda e qualquer cicatrizinha que a gente ia recebendo,
17:24a gente entendia que era uma marca daquela guerra,
17:27mas também uma marca de vitória, sabe?
17:30E depois da cirurgia, como é que foi a recuperação?
17:34Você fez a retirada do tumor, né?
17:36Continuou, depois da retirada, continuou com o processo de químio, de rádio, né?
17:42Como foi essa recuperação da doença, né?
17:46Até o momento de dizerem que você está curada.
17:50Então, existem vários tipos de câncer de mama, né?
17:54É importante ser dito.
17:55E aí, dependendo do seu subtipo,
17:58aí eles vão traçar como vai ser o seu tratamento.
18:01O meu começou pela cirurgia, que foi a retirada do quadrante, né?
18:05Que eles chamam que é o tumor e as margens livres, né?
18:10É uma cirurgia conservadora, é uma cirurgia boa, né?
18:13Porque aí eu não precisei tirar a mama toda.
18:15Mas aí, eu precisei muito da quimioterapia, até pela idade.
18:20Quimioterapia é um tratamento sistêmico revolucionário,
18:22todo mundo conhece.
18:24Mas ela iria me proteger, né?
18:26Por algum possível foco da doença que estivesse em outro lugar.
18:29E aí, por ter feito também a cirurgia conservadora,
18:32eu precisei da radioterapia,
18:34que é ter uma radiação inserida ali naquele contexto
18:38de onde estava a lesão,
18:40para também proteger a mama.
18:43Todas as fases são difíceis, né?
18:45A cirurgia, claro, a minha foi conservadora,
18:48mas deixa você um pouco debilitada, né?
18:50A quimioterapia nem se fala,
18:52são meses, né?
18:53De infusão de medicamentos,
18:55corticoide, antialérgico,
18:57todo tipo de remédio, né?
18:59Que você possa imaginar.
19:02E a radioterapia, por último,
19:04mas não foi menos difícil, sabe?
19:06Porque eu já tinha passado por muita coisa.
19:09A radioterapia é um tratamento
19:11que quanto mais você toma essa radiação,
19:14mais você sente o efeito,
19:15sente efeitos horríveis na pele.
19:18Mas tudo isso dentro do propósito
19:22de buscar a cura,
19:23aqueles 95% de chances
19:25que a gente tinha lá no começo.
19:27E como foi que você recebeu a notícia
19:29de que estava curada?
19:30Bem, esse diagnóstico da cura,
19:33ele só vem com 5 anos, né?
19:35Quando você termina o tratamento,
19:37a partir dele...
19:38Então você ainda está em processo de cura.
19:41Sim, sim, sim.
19:41Remissão, né?
19:42Que a gente chama.
19:44Mas assim,
19:45eu digo que quando eu fiz a cirurgia
19:47já foi uma grande vitória,
19:48porque parece que aquilo realmente
19:50saiu de dentro de mim, né?
19:52Depois que eu fiz a quimioterapia,
19:53outra vitória,
19:54porque assim consegui passar
19:56por esse turbulento momento.
19:59Quando eu fiz a radioterapia,
20:00que foi um momento mais curto,
20:02mas bem agressivo também,
20:03outra vitória, sabe?
20:05E assim a gente vai comemorando, né?
20:07O tumor que eu tive,
20:08ele foi hormonal, né?
20:09Ele se alimentava de hormônios,
20:11então hoje eu tenho os hormônios suprimidos,
20:13o que é um prognóstico bom,
20:15porque de certa forma a gente controla, né?
20:18O organismo,
20:19não alimentando novos tumores.
20:22Então assim,
20:23eu tomo apenas um comprimidinho todo dia
20:25e me sinto muito bem.
20:27O que você mais aprendeu
20:29sobre você mesma, Camila Nunes,
20:32durante toda essa jornada?
20:34Olha, eu aprendi a dar valor,
20:37como a gente falou no começo,
20:38a pequenas coisas,
20:40a dar valor a quem está do nosso lado,
20:41dar valor à nossa saúde
20:43e também a me acolher.
20:45Porque, como a gente falou, né?
20:46A gente tinha dias ruins
20:47e eu não queria,
20:48eu queria ter todos os dias bons,
20:50só tenho notícias boas,
20:52mas assim,
20:52as notícias ruins,
20:53elas nos atravessam.
20:55Por isso que eu decidi
20:57contar a minha história
20:58para as pessoas,
20:59me expor mesmo,
21:00porque eu acho que a minha história
21:01é maior do que eu, né?
21:02Ela pode ajudar outras pessoas.
21:04Eu acho que quando você falou aí
21:06em pequenas coisas, né?
21:07Eu imaginei o acordar todo dia, né?
21:10Até isso, acho que a pessoa
21:11passa a valorizar mais.
21:13Sim, a gente precisa, inclusive,
21:15parar para observar isso, né?
21:17O que está no nosso entorno.
21:18A gente vive muito conectado, né?
21:20A gente vive o tempo todo
21:21respondendo a próxima mensagem
21:24que pode vir a chegar
21:25no nosso celular, né?
21:27Então, e a vida não é isso.
21:28A vida é essa troca
21:29que a gente tem todo dia.
21:31A vida é tocar um pouco
21:33a vida do outro, né?
21:34E poder fazer diferente.
21:36Foi isso que eu quis fazer
21:37junto com o meu ofício, né?
21:39De ser comunicadora também,
21:41de trazer essa história à tona.
21:43O que é que você diria
21:44sobre a importância
21:46de se falar mais abertamente
21:48sobre o câncer de mama?
21:50Olha, eu acho que ainda
21:51é um tabu, né?
21:53Tem muitos estereótipos
21:54da doença,
21:55mas a gente sabe que
21:56a história não é
21:58igual para todo mundo, né?
22:00Hoje, um diagnóstico de câncer
22:01não é sentença de morte.
22:03Então, por isso que eu decidi
22:05contar a minha história
22:06para o mundo
22:06e me mostrar como exemplo mesmo, assim.
22:09A gente tem perspectiva de futuro
22:11para o paciente com câncer.
22:14E somos e vivemos
22:15a maior geração
22:16de sobreviventes ao câncer, né?
22:18Então, e como essas pessoas
22:20estão sobrevivendo, né?
22:21Porque não é só sobreviver, né?
22:23É como é esse viver.
22:25Como é um viver bem
22:27para quem passou por isso tudo,
22:29foi atravessado
22:29e não é mais o mesmo,
22:30ou a mesma.
22:31Com essa experiência toda
22:33e como jornalista,
22:34você decidiu escrever um livro, né?
22:37Foi.
22:37E colocou o nome do livro
22:38Aquilo com C.
22:41Por que a escolha desse nome
22:42e por que você sentiu
22:44a necessidade de escrever
22:46esse livro aqui,
22:48Aquilo com C?
22:49Olha, Fernanda,
22:50esse livro, eu digo que é
22:52como se fosse um primeiro filho, né?
22:53O meu xodó.
22:55Eu decidi escrever
22:56porque é algo que já tinha
22:58muito forte dentro de mim.
23:00Eu sempre fui escritora
23:01sem saber, né?
23:02Escrevia cartinha
23:03para minha mãe.
23:04Mas, assim,
23:05eu sabia que eu ia escrever,
23:06mas eu não sabia sobre o quê, né?
23:08E eu acho que essa foi
23:09uma oportunidade
23:10de perder esse medo, né?
23:12De mostrar para o mundo
23:13que aquilo com C,
23:15aquela palavra
23:16que as pessoas
23:16não podem pronunciar, né?
23:19É sim um tabu
23:20a ser quebrado, sabe?
23:21Assim,
23:22eu lembro que o título
23:23desse livro
23:24me veio à mente, assim,
23:26no meu cotidiano, assim,
23:29fazendo dentro de casa
23:31e veio a inspiração,
23:33assim, sabe?
23:33E eu acho que aquilo com C
23:35é justamente
23:37para lembrar as pessoas
23:38de que,
23:39vamos pronunciar
23:40o nome da doença,
23:41é a primeira forma
23:42de enfrentamento, né?
23:43De combate.
23:44É a gente encarar
23:45mesmo o que está
23:46ao nosso redor, né?
23:48É a gente se informar
23:49sobre isso
23:50e não repetir
23:51aquilo que
23:53nossas gerações passadas
23:54repetiam,
23:55mas elas não tinham
23:56as mesmas informações, né?
23:57Então, vamos usar isso
23:58ao nosso favor, né?
24:00Vamos debater, né?
24:01Vamos colocar isso
24:02na roda, sem medo.
24:04Quando foi que você
24:05lançou o livro
24:06e como é que foi
24:07a recepção a ele?
24:08Então, o livro
24:09eu lancei em 2022, né?
24:11Logo depois que eu
24:12terminei o tratamento
24:13em outubro,
24:13no outubro rosa de 2022.
24:15E, assim,
24:16é uma aceitação
24:17maravilhosa, assim.
24:19Conheci mulheres incríveis
24:20por causa desse livro, sabe?
24:23Histórias que se entrelaçam,
24:24porque, assim,
24:25eu não tinha exemplo bom
24:26do que era
24:27um paciente com câncer.
24:29Porque, imagina,
24:30você está com uma dor de cabeça,
24:31você vai procurar na internet
24:32e pode ser câncer.
24:33Quando você está com câncer,
24:35quais são as perspectivas
24:37que a gente tinha?
24:38Quais são as histórias reais,
24:39boas, felizes?
24:41Então, assim,
24:41eu decidi colocar isso
24:42para o mundo
24:43para receber isso
24:44de volta também, sabe?
24:46Como uma corrente positiva, assim,
24:48de todo mundo segurando na mão
24:49porque, como a gente falava
24:51no começo,
24:52ninguém faz nada sozinho, né?
24:53Então, foi uma troca muito boa.
24:56E depois, Camila,
24:57você ainda escreveu
24:58o segundo livro, né?
24:59O Efeito C.
25:00Por que esse segundo livro?
25:02Então, eu acho que,
25:04justamente,
25:05a trajetória, né?
25:06A jornada do paciente
25:08não acaba com o fim do tratamento.
25:09Como a gente tem
25:10uma perspectiva de futuro,
25:12eu vim falar sobre
25:13os efeitos desse tratamento.
25:15Porque, assim,
25:15como eu descobri muito cedo
25:16o diagnóstico precoce,
25:17ótimo, né?
25:18Mas, eu era completamente
25:20assintomática,
25:21eu não sentia nada
25:22sobre a doença,
25:23mas eu senti sobre o tratamento.
25:25Principalmente sobre a radioterapia, né?
25:27Que fez com que minha pele
25:28cedesse a uma reconstrução.
25:31Eu precisei fazer
25:31uma reconstrução de mama
25:32e a pele da rádio,
25:34que foi ali degradada, né?
25:36Com aquela radiação pesada,
25:39não sustentou, né?
25:41Uma cirurgia que eu fiz.
25:42E aí, no efeito seu,
25:45conto justamente
25:45como foi conviver, né?
25:50Em uma situação
25:51em que eu me via
25:52com alguma coisa faltando, né?
25:54Porque a cirurgia
25:55não tinha dado certo.
25:56Mas aí, enfim...
25:58A cirurgia de reconstrução da mama.
26:00De reconstrução da mama.
26:01Mas aí, eu já refiz, né?
26:03Porque é isso,
26:03a gente precisa dizer
26:05para a paciente
26:06que depois que você descobre
26:09o câncer,
26:09a gente tem o tempo
26:11contra a gente, né?
26:13Porque a gente está ali
26:14lutando pela vida.
26:16Mas depois que você
26:17termina o tratamento,
26:18você tem todo o futuro
26:19pela frente.
26:20Então, às vezes,
26:21você vai fazer uma cirurgia
26:23e não vai ter
26:23um resultado satisfatório.
26:25Mas aí,
26:26você não pode desistir
26:27de você, sabe, Fernando?
26:28Eu acho que
26:29a partir do momento
26:30que você é protagonista mesmo
26:32da sua história,
26:32da sua vida,
26:33você tem que buscar
26:34um pouco do que você era antes,
26:36mas de uma forma melhorada, né?
26:38E aí, a cirurgia de reconstrução,
26:40ela vem muito
26:41para reconstruir mesmo
26:42sua autoestima.
26:43Você tem direito a isso.
26:45Você tem direito
26:45a ter sua mama de volta,
26:47sabe?
26:48A se sentir mulher de novo.
26:50Então, assim,
26:51é preciso encorajar as mulheres
26:52a procurar os seus direitos, sabe?
26:54Às vezes,
26:55a gente cuida muito
26:55dos outros
26:56e não cuida da gente, né?
26:58Já passou por um tratamento difícil,
27:00mas aí encaixa na tua agenda, né?
27:02Vê qual é o melhor momento
27:04para você fazer aquilo
27:05e aí você vai conseguir
27:08se sentir melhor
27:09e mulher de novo.
27:11E você achou pouco
27:12e ainda criou um site.
27:13Como esse site foi recebido?
27:15Então, eu decidi reunir
27:17todas essas informações
27:18que as pessoas me perguntavam.
27:19Onde é que eu compro o seu livro, né?
27:21Como é que eu te encontro
27:22para chamar,
27:22para fazer uma palestra?
27:24Reuni tudo no site
27:25que acaba virando
27:27o grande projeto
27:27Aquilo com C, né?
27:28É o www.aquilocomc.com
27:32Onde eu coloco
27:33todas essas informações, né?
27:35Da minha história,
27:36as matérias que eu participei,
27:38os podcasts.
27:40E agora, mais recentemente,
27:41o novo lançamento, né?
27:43De outubro de 2025.
27:44Ainda não é o terceiro livro,
27:46mas ele está vindo por aí, né?
27:47Já comecei a escrever.
27:49Mas eu lancei um podcast
27:51onde eu entrevisto justamente
27:53essas pessoas que rodeiam, né?
27:56Que estão na rede de apoio
27:57e na equipe multidisciplinar
27:59do paciente com câncer, sabe, Fernando?
28:01Eu tive a oportunidade
28:02de ter uma nutricionista
28:04e aí ela me ajudava, por exemplo,
28:06a saber o que eu tinha que comer
28:08para me nutrir
28:09e aguentar a próxima sessão
28:11de quimioterapia.
28:12Então, assim,
28:13e essa informação bem específica, assim,
28:16de trilhar mesmo
28:17o caminho do paciente com câncer
28:18que eu quis fazer com pó de rosa, né?
28:21Onde eu entrevistei
28:2210 pessoas maravilhosas,
28:2410 profissionais
28:25e tive um relato
28:26super importante
28:28de uma paciente
28:29que foi minha rede de apoio,
28:31trabalhou comigo
28:31e hoje está em remissão aí
28:348 anos já.
28:36Cabelo na cintura,
28:37uma coisa linda.
28:39Muito bem.
28:39Camila,
28:40muito obrigado pela entrevista.
28:42Eu acho que foi muito bom
28:43para as pessoas
28:44conhecerem um pouco mais
28:46esse tema,
28:46esse assunto.
28:48Muito obrigada.
28:48Eu que agradeço o espaço
28:49de fazer realmente
28:50esse enfrentamento
28:51ao câncer de mama
28:52porque a gente precisa
28:53em tempos de robô,
28:56de inteligência artificial,
28:58as pessoas estão buscando
28:59ajuda profissional
29:01onde não há
29:02um profissional de fato,
29:03é apenas um computador.
29:04Então,
29:05vamos buscar
29:05informação humana,
29:07informação de verdade.
29:09Muito obrigado,
29:10então.
29:11E para você que acompanhou
29:12até aqui,
29:12obrigado pela companhia
29:13e audiência.
29:14A gente volta
29:15na semana que vem.

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