00:00Estados Unidos e Irã devem realizar hoje a primeira rodada de negociações por um cessar-fogo.
00:05As delegações dos dois países já chegaram ao Paquistão, um dos principais mediadores do conflito.
00:11A guerra no Oriente Médio segue afetando a economia mundial, tirando impactos aqui para o nosso país também.
00:16E para entendermos o impacto, então, da inflação, do preço dos alimentos e de outros insumos, porque tudo é impactado,
00:23o Jornal da Manhã conversa agora com o economista e CEO da Corano Capital, Bruno Corano.
00:28Bruno, muito bom dia. De que forma, então, que você analisa essa reunião, essa primeira rodada de negociações
00:35e se você acredita também que eles vão chegar a um consenso ou devem ser várias rodadas para que realmente
00:41a gente veja um cessar-fogo?
00:44David, bom dia. Bom dia também a todos os assinantes.
00:48O mercado, o mundo inteiro está apreensivo porque, de um lado, as expectativas dos americanos já foram antecipadas
00:56pelos iranianos que elas não serão aceitas e vice-versa.
01:00O Ira também não abre mão do programa, de uma certa forma, do programa parcial militar.
01:08Então, a gente tem que olhar que já antes do conflito já tinham existido duas reuniões que não tinham sido
01:16produtivas.
01:18Ao mesmo tempo, o conflito e a dinâmica agora chegou numa situação que é muito incômoda para os americanos,
01:28porque a maior arma, do ponto de vista militar, os Estados Unidos, logicamente, já derrotaram o Irã.
01:35O problema é que a maior arma do Irã não é militar, é o controle do Estreito de Hormuz.
01:41E esse, sim, é o que gera o maior impacto.
01:45E daí a ansiedade de todo o mundo em resolver essa questão.
01:51Bruno, agora relacionado aos impactos, a gente tem visto um protagonismo muito significativo do petróleo
01:58por conta do fechamento do Estreito de Hormuz, a expectativa com a volta, a retomada da passagem de navios naquela
02:05região.
02:05Só que, para além dos combustíveis, quais outros impactos econômicos e insumos atingem o Brasil de forma mais significativa envolvendo
02:15esse conflito?
02:16Bom dia.
02:17Beatriz, bom dia.
02:19O Brasil, ele, por muitas vezes, comunica que ele é autossuficiente em petróleo.
02:25E, em tese, a nossa produção de petróleo aumentou muito nos últimos anos e segue aumentando.
02:33Entretanto, o Brasil é completamente ineficiente ou improdutivo na parte do refino.
02:39Ou seja, uma vez o petróleo extraído, ele não se torna combustível imediatamente e, muito menos, uma matéria-prima que
02:47pode ser utilizada para o plástico, para a tinta, para...
02:52Enfim, o petróleo está em tantas outras coisas.
02:55Então, nós temos que exportar quase que 100% desse petróleo para que ele seja refinado e volte.
03:00E aí, a nossa exposição a todo esse conflito.
03:04E, você comentou uma coisa importante, que, primeiro, que o petróleo é a matéria-prima mais inflacionária do mundo.
03:12Então, ele está no arroz, ele está na banana, ele está no alface, ele está em tudo, porque essas coisas
03:19dependem de transporte.
03:20Então, aí, a primeira preocupação.
03:22A segunda preocupação é que o Estreito de Hormuz é também por onde passa uma grande parcela da produção de
03:30fertilizantes que o Brasil importa.
03:33Não só o Brasil, mas também o Brasil.
03:36Então, esse é mais um potencial inflacionário.
03:40E é daí que vem essa insegurança de quais as consequências que vão ser geradas para a economia brasileira em
03:49razão do conflito,
03:50mesmo que ele chegue a uma resolução agora.
03:54Porque, ainda assim, já foram cinco semanas de aumento do petróleo e interrupção de fornecimento.
04:01É, em contrapartida, também, a gente não vê investimentos na infraestrutura para melhorar, por exemplo, as linhas férreas ou criar
04:10um outro modal.
04:11Então, realmente, a gente precisa se preparar para esses momentos que, infelizmente, não acontecem em relação à infraestrutura,
04:18já que o Brasil investe muito pouco em relação a isso ainda.
04:22Mas as projeções, pelo que você tem indicado, então, apesar de haver uma possibilidade de consenso do cessar-fogo,
04:29a gente vai ver reflexos ainda adiante que serão sentidos, principalmente no agronegócio, na agropecuária,
04:35que é um dos principais setores que elevou o PIB, conforme saiu o levantamento recente.
04:42Sem dúvida, David.
04:44Eu diria o seguinte, se esse conflito, como foi, por exemplo, faixa de Gaza, não envolvesse o estreito, ou seja,
04:50o petróleo,
04:52por mais triste que fosse, o mundo seguiria, em última análise, ignorando se um determinado país está sendo bombardeado ou
05:01não.
05:02Dado ao fato de que o Irã controla o estreito e o estreito gera esse impacto no petróleo,
05:09daí que a gente vê essa apreensão.
05:12E aí você me questiona o seguinte, qual vai ser o tamanho disso, do reflexo?
05:20A gente tem que fazer a seguinte análise, até então, o petróleo está alto por cinco semanas,
05:29porque o que vai determinar o tamanho do reflexo é quanto o petróleo vai subir e por quanto tempo ele
05:35vai ficar alto.
05:36Então, ele não chegou a explodir de preço, por exemplo, como nos anos 70, que ele subiu 2.000%,
05:43mas ele subiu significativamente e são cinco semanas já de aumento.
05:50O reflexo disso vai ser sentido justamente nos próximos quatro, cinco meses,
05:57porque inúmeras matérias-primas que precisam ser produzidas, fabricadas através do petróleo,
06:04por esse tempo, permaneceram consumindo essa matéria-prima por um preço mais alto.
06:09E isso vai gerar uma escada, uma cadeia produtiva que vai chegar no mercado e que vai chegar no bolso
06:15das famílias.
06:17Seja no transporte, seja através, por exemplo, dos fertilizantes,
06:22que o Brasil tem uma enorme dependência porque nós somos um país,
06:27majoritariamente, produtor de commodities e de alimentos.
06:31Então, os fertilizantes vão gerar um impacto.
06:36Não existe ainda um consenso de qual vai ser esse impacto,
06:40porque o fertilizante, pelo menos diferente do petróleo,
06:45uma vez o estreito aberto, o fornecimento imediato,
06:50ou quando se reestabeleceu o fornecimento de fertilizante,
06:56os preços se corrigem imediatamente e não causam um efeito, não vai reverberar.
07:03Falar em, até então, alguns analistas aqui, americanos,
07:08falam em 0,1 aumento de inflação a cada 15 dias que esse conflito se estenda.
07:16Nós conversamos com o Bruno Corano, CEO da Corano Capital,
07:20piloto de moto também, que eu me lembro muito bem,
07:22a que eu agradeço demais a presença aqui no Jornal da Manhã.
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