00:00Vamos agora falar de arte, vamos falar de arte. Sabe quem tá aqui com a gente? O André Sturme,
00:07cineasta, pra falar de um thriller político que está sendo lançado, A Conspiração com Dor,
00:15que estreia amanhã nos cinemas. O Duda já viu, é isso, Duda? Não vi ainda. André Sturme,
00:21boa noite pra você, tudo bem? Oi, boa noite, pessoal, tudo bem? Tô aqui num quarto de hotel,
00:28então essa luz meio estranha. Bom, André, vamos ver aqui um trailer, um trechinho do trailer juntos,
00:36na tela. Você tava no ônibus que fechou o carro do JK, é verdade? O que é que eu sei
00:42de carro,
00:43né? Sem é nada. Agora, tão falando na TV que o ônibus bateu no carro, bateu nada. Nossa,
00:50você contou isso pra polícia? Eu gostaria de ter informações sobre o inquérito do acidente que
00:55matou o JK? Mas então, foi aqui mesmo que o caso foi registrado. Sim.
01:17Morreu uma pessoa importante. Quem? João Goulart. O Jango, ex-presidente.
01:27Claramente pegou gosto pelos rumos da polícia. Dois ex-presidentes que articulavam uma frente
01:32ampla, mortos no intervalo de 100 dias. Um não teve nem autópsia. Tem mais. Ano que vem,
01:38as eleições. Imagina os três liderando uma oposição. Um morreu num acidente de carro,
01:43um acidente. O outro morreu num infarto, sendo que já tinha problema do coração.
01:47cada vez mais. Acho que não foi bem assim, não.
01:51Ó, eu tô ansiosa aqui. Falei que estreia amanhã. Estreia quinta, que é famoso depois de amanhã, tá,
01:56gente? Não é amanhã. André, qual é a história, o enredo desse filme? É um filme que retrata a
02:05realidade? Não é um documentário, obviamente. Mas ele retrata a realidade? Ele é uma ficção em cima
02:10da realidade? O que é esse filme? É uma ficção em cima da realidade. Todo mundo sabe que o Juscelino
02:18morreu num acidente de carro esquisito, todo mundo sabe que o Jango morreu num infarto esquisito,
02:23mas as pessoas, em geral, não se dão conta que isso aconteceu com quatro meses de diferença. E
02:28depois de quatro meses, o Carlos Lacerda, que era o outro líder do Brasil, não tinha sido presidente,
02:33também morreu de maneira estranha. Ou seja, em nove meses, os três principais líderes do parque,
02:38civis do Brasil morreram em mortes estranhas. Então eu criei essa conspiração de que as mortes
02:44realmente não foram acidentais, foram planejadas, e essa jornalista começa a descobrir pistas e começa
02:51a descobrir informações, vai juntando e a gente vai acompanhando essa investigação. Como na época
02:57existia a Operação Condor, que foi uma articulação organizada pela CIA com as forças policiais aqui do
03:04Cone Sul, para prender diversas pessoas, enfim, que faziam oposição às ditaduras aqui, Brasil, Argentina e Uruguai,
03:12eu cruzei esses fatos históricos todos e construí esse filme, que é uma ficção com fatos reais.
03:22Mas André, o seu objetivo foi trazer uma nova versão da história ou fazer meio que uma brincadeira em cima
03:32da história? Eu te pergunto isso porque vários filmes de conspiração, por exemplo, aquele sobre o assassinato
03:38do Kennedy que o Oliver Stone fez, acho que era JFK o título, ele mudou a percepção que os americanos
03:48tinham sobre o assassinato do Kennedy. E aí fica difícil depois consertar, porque as pessoas passam a acreditar
03:59na conspiração. Como é que você tomou esse cuidado na hora de contar essa ficção? Ou as pessoas vão acreditar
04:08na conspiração
04:10e esquecer da história?
04:15Veja, as três mortes têm informações que foram colocadas, especialmente de Juscelino, teve CPI, foram levantadas muitas informações,
04:25que sugerem que pode ter sido um assassinato e não um acidente. O que eu fiz foi pegar essas informações,
04:33as que favorecem a tese do assassinato, e usar no filme. Então, eu não proponho uma revisão da história,
04:42mas proponho fazer um filme divertido, um thriller, que usa fatos históricos e escolhe alguns deles
04:50para que a narrativa fique verossímil. Eu espero que as pessoas saiam do cinema, não com a convicção
04:58de que foi um assassinato, mas com a dúvida sobre que tipo de informação elas recebem e de como muitas
05:04vezes
05:04elas são manipuladas pelas informações que são divulgadas.
05:08Agora, isso que vocês falam dos acidentes, André, eu adoro teoria da conspiração, adoro.
05:17Isso que você fala dos acidentes, toda vez que o Brasil chega num ponto crítico, acontece um acidente esquisito.
05:27Cai entre nós. É avião que cai, é carro que bate. Avião que cai, então...
05:35Tem um pouco disso. Esse filme, ele tem uma coisa que está no espírito do brasileiro comentar, né?
05:43É verdade. A gente tem várias outras histórias, até mais recentes, que também oficialmente foram acidentes,
05:51mas existem várias suspeitas e várias evidências. Nenhuma delas dá para dizer com convicção.
05:57O que eu quis foi... é isso. E eu me inspirei muito nos filmes dos anos 70, especialmente dos Estados
06:02Unidos, da França,
06:04que foi quando começaram a ter esses filmes em que a gente fala de um poder que vai além das
06:10pessoas,
06:11vai além do presidente da República, vai além do ministro, mas tem aí forças que movem a política,
06:17que movem a economia e que, portanto, geram essas teorias da conspiração.
06:23E eu, enfim, quis fazer uma homenagem a esse cinema dos anos 70.
06:26O filme se passa nos anos 70, em 76 e 77.
06:29Incidentemente, fará 50 anos, esse ano, que morreram os dois ex-presidentes.
06:35Mas é isso. É um trailer político, é um filme que vocês assistam e fiquem 1h50 ligados na tela.
06:42Tem várias se vira-voltas.
06:44Mas é o que eu quis usar, justamente. Informações reais, as informações que estão no filme,
06:49que não são, evidentemente, ficção, como a personagem da jornalista da Bela Lisboa,
06:54são informações reais.
06:56Claro que eu escolhi as informações que eu quis colocar no filme.
07:01André, vamos lá. Também tem o outro lado da história.
07:04Eu acho importante você comentar o outro lado.
07:08Por exemplo, a Comissão da Verdade Nacional chegou à conclusão que não foi um assassinato,
07:15não tinha nada de complô por trás da morte do Juscelino.
07:19O Jango foi desenterrado, foi exumado, para fazer um estudo ali no corpo dele.
07:27Disseram que não era possível descartar a hipótese de envenenamento por causa do tempo passado.
07:33Mas também não existia indício nenhum de envenenamento.
07:38E o Carlos Lacerda estava doente já, quando ele foi.
07:42Foi uma infecção no coração, cardíaca,
07:46que seria uma coisa muito difícil de se obter por meio de envenenamento.
07:51Então, assim, nos três casos, embora exista a teoria dos assassinatos,
07:56as versões dominantes são de que foram mortes normais, vamos dizer assim.
08:07Você não acha importante também trazer à tona esse aspecto histórico?
08:17Não para desmontar o seu filme, porque, como você diz, ele tem uma ambição mais ficcional,
08:22mas para ajudar no debate sobre essas coisas, porque a política está tão complicada
08:28e tão dada a crer em conspirações.
08:32É importante a gente trazer o dado que também é visto meio que consensualmente como o mais sólido.
08:44Eu volto, veja, eu posso também rebater aqui só
08:49TPI na Câmara Municipal de São Paulo, que concluiu que o JK foi assassinado.
08:55Então, o que eu volto a dizer é, essas três mortes podem ter sido um acidente de carro
09:02que deu muito azar, um infarte de uma pessoa que já tinha problemas no coração
09:06e uma infecção que matou o Lacerda. Claro que pode.
09:09No filme, enfim, espero que vocês vejam, eu não vou ficar dando spoiler,
09:14eu não faço uma conclusão explícita.
09:19Eu não conto que nem o Tarantino, por exemplo, fez já em dois filmes
09:24em que ele realmente muda a história e apresenta explicações.
09:27O que eu faço é usar informações que existem, suspeitas que existem.
09:31Por exemplo, não foi feita autópsia no Jango quando ele morreu.
09:34Isso é um fato histórico.
09:36Então, eu uso essa informação para dizer, está vendo, não fizeram autópsia
09:39porque queriam esconder alguma coisa.
09:41Eu não estou mentindo, eu só estou usando uma informação
09:44de uma maneira a construir uma narrativa, não engraçada,
09:48mas divertida no sentido de construir um filme de trama,
09:51de um filme de suspense.
09:53Pense, se as três mortes fossem claramente, comprovadamente, crimes,
10:01aí não tinha o filme porque não precisava fazer a teoria da conspiração
10:05de que elas foram não acidentais ou não mortes de doença.
10:09Então, volto a dizer, eu não quis colocar informações e dizer para o espectador,
10:16foi tudo desse jeito.
10:18Eu usei as informações que existem, as informações de suspeição,
10:23por exemplo, essa informação que apareceu no trailer de que o carro não bateu no ônibus
10:27ou que o ônibus não bateu no carro,
10:29e isso foi mesmo isso.
10:30Eu usei esses depoimentos.
10:32Enfim, eu usei informações, eu acho que a sua preocupação, eu compartilho dela,
10:38eu não quis fazer um filme para torcer a verdade
10:41ou para levar as pessoas a saírem do cinema indignadas e frugosas.
10:45A minha vontade, o que eu quis foi que as pessoas saíssem do cinema pensando que
10:49nem sempre o que elas leem no jornal é o que aconteceu.
10:53Muitas vezes existe manipulação, existem jornalistas que fazem um trabalho incrível
10:57e até tem um dado que eu faço questão, porque hoje é dia do jornalista,
11:00então parabéns aí para vocês, coincidentemente.
11:05A jornalista vai enfrentar uma série de dificuldades e que hoje,
11:09por incrível que pareça, a gente vê jornalista querendo contar a verdade
11:12e tendo problema.
11:13Então eu acho que esse é um tema também,
11:15por isso que a personagem é uma jornalista,
11:17é uma pessoa que resolve, que fica indignada mais do que tudo
11:20de que estão mentindo para ela.
11:23André Sturme com Operação Condor aqui estreando.
11:28Em vez de Operação Condor, é a Conspiração Condor
11:32a partir da próxima quinta-feira em todos os cinemas.
11:36Muitíssimo obrigada, André.
11:38Boa noite, boa estreia para você.
11:43Boa noite, boa noite.
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