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00:08Olá, bem-vindas e bem-vindos a mais um Ponto de Vista.
00:13E hoje a nossa convidada é uma produtora cultural muito ligada a nossas raízes pernambucanas,
00:20Natália Reis, que todos os anos, entre outras coisas, promove a caminhada do forró.
00:26Natália, seja muito bem-vinda e obrigado por estar aqui hoje com a gente.
00:31Eu que quero agradecer, Fernanda, o seu convite.
00:34Acompanho o seu trabalho, sou fã. Para mim é uma honra estar aqui hoje com você.
00:38Vamos começar, então, falando da caminhada do forró, né?
00:41Você faz essa caminhada já há muitos anos, né?
00:44Como foi que surgiu a ideia de promover essa caminhada do forró pelas ruas ali do centro do Recife Antigo?
00:51Então, estamos no 21º ano da caminhada do forró, chegamos à maioridade.
00:56E essa caminhada surgiu numa conversa do meu irmão, Bruno Reis, com o amigo Petrúcio Amorim.
01:03São amigos e meu irmão é um apaixonado pelo carnaval, pela nossa cultura pernambucana em geral.
01:10Mas ele sempre trabalhou em outras coisas, trabalhou em banco, trabalhou em governo.
01:15E teve, por amar tanto o carnaval e tanto o São João, sentia muita falta de, na época, em 2005,
01:22não existia no Recife um lugar onde você tivesse um São João autêntico como tinha no interior.
01:28Então, nessa época, tudo que você queria de forró, você tinha que se destinar para garanhuns, para gravatar.
01:36E ele sentia muita falta de viver.
01:37Carnaval a gente tem no Recife, mas o São João...
01:40Exatamente, isso.
01:40E ele era um fulião muito grande do carnaval e amava o São João.
01:45Mas, às vezes, a gente dizia, mas não queria ir para o interior.
01:47E aí ele pensou, por que o Recife Antigo é tão grande no carnaval?
01:51Essas ruas se enchem de pessoas, inclusive dele próprio.
01:54E no São João, a gente tem que ir para tão longe.
01:57Poderia existir um São João baseado no que acontece no carnaval.
02:03E ele pensou, será que se a gente botasse um São João na rua?
02:06E aí foi pensando em que modelos poderia ser.
02:09Nessa conversa com o Petrúcio, que é um sanfoneiro, um dos nossos maiores poetas,
02:14Petrúcio, a princípio, falou, acho que isso não vai dar certo.
02:16Porque os instrumentos do carnaval já têm, por si só, uma sonoridade grande.
02:21A sanfona, para alcançar isso, seria difícil.
02:24Não tem tanta potência.
02:25Achava que as pessoas não teriam a mesma animação, de seguir as ruas.
02:30Ficou aquela discussão, mas Bruno não tirou isso da cabeça.
02:35E assim, nessa época eu ainda não era produtora cultural,
02:39mas eu recebia muito na minha casa.
02:42E eu sempre amei muito música, sempre em nossas raízes.
02:44E assim, minha casa sempre era uma festa.
02:47E as pessoas elogiavam muito as festas que eu produzia em casa.
02:52Eu já era produtora...
02:53Já era produtora nata.
02:55E aí meu irmão falou, você toparia fazer isso?
02:59Eu disse, meu Deus, eu nunca fiz um evento desse porte.
03:02Ele fez, mas vamos tentar.
03:04E aí me deu a ideia, eu fui para pensar, procurar as pessoas que precisavam ter comigo para isso.
03:11Então, uma das primeiras pessoas que eu procurei foi Terezinha do Acordeon.
03:16Porque a ideia era colocar sanfoneiros na rua.
03:18E aí me disseram, Terezinha do Acordeon é quem vai lhe ajudar.
03:21Porque o marido dela conserta sanfonas.
03:23Ela é uma mulher, uma das sanfoneiras, uma das primeiras mulheres a tocar sanfona.
03:28Hoje é patrimônio, né?
03:30Vivo.
03:31E aí ele falou, você vai na casa dela, porque como ele conserta sanfona, ela deve ter muitos contatos.
03:36E foi o meu primeiro passo.
03:39Ela achou uma loucura também.
03:41Natália, isso vai dar certo.
03:42Eu disse, você consegue os sanfoneiros para a gente ir para a rua?
03:45Consigo.
03:46Então pronto, o primeiro passo está dado.
03:48E aí pronto, fui conversando com um, com o outro, chamando os artistas, vendo quem topava.
03:52Seria uma aventura, né?
03:53A primeira caminhada.
03:54E agora chegamos na vigésima primeira.
03:57O que está sendo planejado para esse ano?
03:59A gente vai ter novidades?
04:01Vamos.
04:02Vamos ter novidades.
04:03Eu já vou dizer, assim, pelo primeiro ano, é uma coisa que já deveria ter sido pensada,
04:08e até nem entendo porque não foi pensada anteriormente, de trazer a dança, o ritmo da dança junto com a
04:15música, né?
04:15Então esse ano a gente vai apresentar junto ao shot, o bailarino fazendo shot, junto ao forró, o forró sendo
04:23apresentado também.
04:24O chachado.
04:25O chachado, tudo.
04:26Vamos apresentar todos os ritmos junto com toda a coreografia.
04:30Então, quem for a caminhada do forró esse ano já vai ter essa novidade aí para ver.
04:35A caminhada percorre ali o Recife Antigo, né?
04:38Ela vai sair de onde?
04:40Onde é a concentração?
04:41Então, a concentração há 21 anos é tradicional.
04:44Na quinta-feira, ela acontece dia 11 de junho, e ela fica entre a Marise Barros e a Rua da
04:50Moeda,
04:51exatamente no cruzamento dessas duas ruas, que é aquela parte mais aberta, onde tem aquele passeio, né?
04:57Tipo duas praças, naquela área ali.
04:59O que é que caracteriza a caminhada do forró?
05:05As pessoas são atraídas mais pelo quê?
05:07O que é que está trazendo, o que a gente vê nas imagens de vários anos, muita gente acompanhando os
05:13sanfoneiros, né?
05:14O que é que representa essa caminhada para essas pessoas que fazem questão de estar presentes nesse evento?
05:20Então, eu acho que representa exatamente o que a caminhada traz, que é a valorização da nossa cultura,
05:25é manter o forró, é botar os sanfoneiros no chão, tocando, é manter a cultura viva junto do povo, né?
05:33É um evento gratuito que todo mundo pode chegar.
05:36Então, a gente tem de criança a idosos, e todo mundo com liberdade de caminhar, de ir, voltar, e cantar,
05:43e se aproximar do artista, se aproximar das sanfonas.
05:52Você tem a preocupação de trazer sanfoneiros de todas as regiões do Estado, do Sertão, do Agreste, da Zona da
05:59Mata,
06:00como é que você faz para convidar esses sanfoneiros que participam do evento?
06:05Então, esse convite continua nas mãos de Terezinha, ela é a minha coordenadora de sanfoneiros,
06:12e ela faz exatamente isso. Aliás, ela fica louca, porque a quantidade de sanfoneiros que ligam durante o ano inteiro
06:18se propõe de querendo estar na caminhada do forró, né?
06:22Ano passado, a gente conseguiu botar 85 sanfonas e mais 20 instrumentos de triângulo e pandeiro, né?
06:31Porque a gente leva todos. A sanfona é o principal, então é o instrumento que a gente tem em maior
06:36quantidade.
06:36E esse ano eu estou pedindo a ela que traga 100 sanfoneiros. E assim, é fácil porque a gente tem
06:42uma quantidade de sanfoneiros muito grande no Estado.
06:44E eu li que você tem a preocupação também de juntar os antigos sanfoneiros com quem está quase que começando
06:51a experiência com a sanfona, né?
06:53É isso mesmo?
06:54Isso mesmo, isso mesmo. A gente, inclusive, desde o ano passado, começamos a dar uma oficina de sanfona,
06:59que é feita por Terezinha do Acordeon, para que novos sanfoneiros que estejam aprendendo já possam estar conosco na caminhada
07:06do forró.
07:07Esse ano a gente vai ter oficina, vai ser no final de maio, ainda não tem uma data exata.
07:12E a gente já traz esses novos alunos e várias, até criança, que vem acompanhada do pai, né?
07:18Que está ali com o pai, mas já tocando sanfona.
07:21Pela experiência que você tem, Natália, os sanfoneiros antigos gostam de passar essa experiência para as novas gerações?
07:28Gostam, gostam muito.
07:29Eu acho que, assim, você vê nele, no sorriso deles, de ver que a nova geração está querendo aprender, né?
07:35Porque isso é um grande medo, de que nossa cultura se acabe, de que a tradição deixe de existir,
07:39porque novas pessoas não dêem continuidade.
07:43Mas a gente vê que tem uma renovação muito boa.
07:45Pernambuco está tendo uma renovação grande do forró.
07:47Eu imagino que a sanfona deve ser um instrumento difícil, né?
07:50De aprender, de...
07:52O sanfoneiro antigo, ele tem paciência para transmitir essa experiência para os mais jovens?
07:57Tem, tem.
07:58Eu acho que quem toca sanfona já é uma pessoa que tem uma paciência grande,
08:01porque, como você mesmo diz, não é um instrumento fácil.
08:04Pois é.
08:04Mas é um instrumento que tem...
08:06É como se você estivesse acariciando alguém, né?
08:09É um instrumento de muito amor, eu acho.
08:11Então, eu acho que é uma coisa que quem toca já traz isso dentro de si, esse dom de repassar.
08:16Já são 21 anos fazendo essa caminhada.
08:19Qual o maior desafio de um ano para o outro?
08:22Olha, todos os anos o maior desafio é conseguir apoios, né?
08:27A caminhada para sair às ruas precisa de um apoio financeiro, de um apoio de estrutura,
08:32do apoio dos próprios artistas, da união dessas pessoas para que o evento aconteça.
08:39Então, a gente tem como apoio institucional, desde o primeiro ano, a Prefeitura do Recife
08:44e o Governo do Estado, mas que sozinhos não conseguem dar a dimensão que esse evento precisa.
08:49Então, assim, a gente tem muita dificuldade em conseguir apoios privados.
08:55Talvez por se tratar de um evento gratuito e de um evento de rua mesmo,
08:59onde a gente não tenha áreas, como chamam VIPs, a oferecer.
09:05Mas é isso.
09:06É porque é todo mundo misturado na rua, né?
09:08Todo mundo junto misturado.
09:10Eu estou no meio, assim, inclusive os políticos que...
09:13Uma coisa que me deixa muito feliz é que a caminhada está acima de partidos.
09:17Ela está há 21 anos sendo apoiada por todo o governo, tanto municipal quanto estadual,
09:22que passaram nesses 21 anos.
09:24Eu nunca tive uma recusa de tipo, não, nasceu naquele...
09:28Não, pelo contrário.
09:30O forró está acima disso, né?
09:32Então, esses próprios políticos, eles vão no chão.
09:35Muitos deles, nem todos.
09:36Mas alguns vão no chão, dançando junto com o povo.
09:39E eu acho que a caminhada é isso.
09:40Tem que ser dessa forma.
09:41Você falou desse apoio da Prefeitura, do Governo do Estado.
09:45É possível conseguir eu ir buscar algum apoio federal também, tipo Lei Rouanet, alguma coisa desse tipo?
09:52Sim, sim.
09:53A caminhada está inscrita na Lei Rouanet desde o ano passado.
09:56O ano passado, eu já consegui apoios pela Lei Rouanet, que foi muito bom, do Banco do Nordeste e da
10:02Copergás.
10:03Esse ano, estou junto deles também.
10:05Ainda não tenho o positivo, mas eu acredito que eles estejam de novo conosco.
10:09É possível, sim, através da Lei Rouanet.
10:12Mesmo a gente já estando no mês, há um mês somente da caminhada, quem já confirmou presença?
10:18Já dá para dizer alguns nomes que vão estar na caminhada nesse 11 de junho aí que você falou?
10:23Sim, sim.
10:24É um orgulho muito grande para a gente que faz a caminhada do forró ter há 21 anos alguns artistas
10:31que estão conosco desde 2005.
10:34Desde o início.
10:34Desde o início.
10:35Nunca faltaram nenhum ano.
10:37Entre eles está Ira Caldeira, Nádia Maia, Cristina Amaral, todas já confirmadas.
10:43Rogério Rangel, Roberto Cruz, Josildo Sá.
10:48Esses que eu citei agora, fora Roberto Cruz, estão desde 2005.
10:52Roberto, acho que veio um pouco depois.
10:54A gente já tem confirmado.
10:57E mais, meu Deus?
10:58Já tem...
10:59Larissa Lisboa, da Nova Geração, está confirmada.
11:02Petrúcio ainda não está confirmado.
11:04Petrúcio e Maciel ainda não estão confirmados, porque tem talvez um evento no mesmo dia e não consigam fazer os
11:09dois.
11:11O ano passado a gente trouxe Chico César, que foi bem importante.
11:15Esse ano eu também estou querendo trazer um nome que tenha também uma repercussão nacional,
11:19para que isso também traga olhares para o forró mesmo.
11:23Porque infelizmente, às vezes, a gente só consegue uma mídia maior quando tem um nome.
11:28Você falou que a concentração é na Rua da Moeda, a partir já das 5 horas da tarde, né?
11:335 horas, 17 horas.
11:34E quem chegar logo no início, na concentração ainda, tem com o que se divertir?
11:38Vai se divertir?
11:39Com certeza.
11:41Já no início lá, a gente já está com os sanfoneiros posicionados.
11:44Eles já começam a fazer grupos e tocando.
11:46Mas não vai ter um palco lá, né?
11:47Como é que é?
11:48Na verdade, eu já começo a chamar de palco.
11:50A gente tem um mini trio, que tem uma banda que se chama Chinelo Rasgado,
11:54que são sanfoneiros maravilhosos, né?
11:56Um grupo bem tradicional do Forró Pé de Serra.
11:59E nesse trio, no palco, em cima do trio, o Chinelo Rasgado já recebe alguns artistas.
12:05Inclusive, uma curiosidade, Ira Caldeiro, ano passado, eu convidei para ir para a concentração.
12:11E esse ano, ela pediu, Nath, deixa eu ir para a concentração de novo, porque eu adorei.
12:16A energia da concentração foi muito, muito linda.
12:18Eu quero estar lá de novo.
12:20Então, esse ano, eu vou encontrar de novo, Ira Caldeira, lá, na Imã dos Fulions,
12:23com mais, pelo menos, uns oito artistas junto com ela.
12:27Quando a caminhada sai ali da concentração, qual o percurso que ela vai fazer?
12:32Então, ela vai continuar na Maris de Barros, e aí a Marquês de Olinda e Bom Jesus.
12:39Na Bom Jesus, a gente chega na Praça do Arsenal, onde provavelmente está montado o palco, né?
12:44Que esse palco é já montado lá para receber a banda e os sanfoneiros.
12:48A concentração só começa quando os sanfoneiros chegam no palco do Arsenal.
12:55Então, chegando no palco do Arsenal, os sanfoneiros e esses forrozeiros que a gente falou aí, todos se apresentam?
13:03Como é a estrutura?
13:04Então, eles são recebidos por Terezinha, que está no palco, depois de andar um pouco com eles pela rua,
13:11ela e mais sanfoneiros da Nova e da Antiga Geração.
13:16A gente junta no palco Cezinha do Acordeon, Beto Ortiz, Genaro, Terezinha,
13:23aí tem Carol Maciel, que é uma menina nova, maravilhosa da sanfona.
13:27Meu Deus, esqueci agora o nome dele.
13:29A Nova e a Antiga Geração se juntam e elas fazem tipo uma sanfônica
13:33para receber os sanfoneiros que vêm na caminhada.
13:37Se faz uma referência a eles e a partir dali eles já estão livres para também curtir já o que
13:44vai acontecer no palco.
13:45Você falou que são 21 anos já de caminhada do forró.
13:48Como é para uma produtora cultural chegar a 21 anos fazendo um evento?
13:53Olha, é um orgulho muito grande.
13:55Eu pensei em desistir há alguns anos.
13:58Teve um ano que foi muito difícil.
14:00E é por isso, assim, para mim, a gratidão que eu tenho pelos artistas e pelos produtores
14:04que me acompanham nesses anos todos é muito, muito grande.
14:07Porque teve anos que a gente trabalhou sem se remunerar.
14:13Mas não deixamos o evento deixar de acontecer.
14:15E nesses 21 anos a gente teve no meio aí uma pandemia, né?
14:18Como foi fazer uma caminhada do forró, vocês não puderam fazer.
14:23Mas mesmo assim você me dizia antes da gente vir aqui para o estúdio
14:26que mesmo assim vocês fizeram um evento que chamaram de caminhada do forró.
14:31Conta isso para a gente, como foi.
14:32Em 2020 a gente fez o evento, né?
14:35Foi o início da pandemia.
14:36A gente fez o evento na casa de Ivan Júnior, que também é um sanfoneiro.
14:40Ele é um jornalista, mas que também já participou muito do forró.
14:44E a gente fez como uma live.
14:45Os artistas foram para lá e a gente falou da caminhada, se apresentou com sanfona.
14:49Quer dizer, quem quisesse acompanhar tinha que fazer online.
14:53E para o YouTube, exatamente.
14:54Está lá ainda, até hoje no YouTube, quem quiser ver essa caminhada de 2020.
14:57Foi a décima sexta caminhada.
15:00Deve ter sido uma experiência bem atípica, bem diferente.
15:04Muito, muito atípica.
15:05A caminhada acabou que passou pela pandemia.
15:08Acabamos passando por duas experiências atípicas.
15:10Uma foi essa e a outra foi quando voltamos.
15:13Ainda a pandemia estava muito forte e a prefeitura não fez esse ano o evento no centro do Recife.
15:19E ela só fez o sítio da Trindade.
15:21E pela primeira vez a gente saiu pelas ruas de Casa Amarela.
15:25Foi muito diferente.
15:27Foi muito estranho, mas foi maravilhoso no final.
15:30Muito bem.
15:31A gente vai fazer uma breve pausa.
15:33Você que está acompanhando, não saia daí.
15:35A gente volta já, já.
15:50O Ponto de Vista está de volta.
15:52Hoje eu recebo aqui a produtora cultural Natália Reis.
15:56Natália, eu queria agora falar, falamos já da caminhada do forró.
16:00Eu queria falar de uma outra atividade sua, que é a parceria com o cantor Alceu Valença,
16:06na Casa Estação da Luz, em Olinda.
16:09Como foi que surgiu a ideia dessa parceria de transformar aquela casa, que já era de Alceu,
16:15num espaço cultural dentro do sítio histórico de Olinda?
16:19Bom, essa ideia de ter aquela casa como centro cultural, acho que é uma ideia antiga de Alceu e Anê
16:26Valença,
16:26que é a esposa dele, produtora dele, minha sócia, na Casa Estação da Luz.
16:30Eles já tinham essa ideia, tentaram em alguns momentos levar adiante e não tinham conseguido ainda.
16:36A partir, assim, antes da Casa Estação da Luz, eu tive um outro negócio com eles,
16:40que chama Tudo a V, que era uma loja, Tudo a V de Alceu Valença.
16:46Era uma loja de desenvolvimento de todos os artigos, com as imagens e as referências de Alceu.
16:52Eles já me conheciam, nessa época eles já sabiam que eu trabalhava com produção,
16:56e me convidaram para, se eu gostaria de fazer a Estação da Luz,
17:00esse centro de cultura e fazer a gestão junto com eles.
17:03E aí eu topei esse desafio.
17:05E qual é a ideia principal da casa?
17:08O que é que vocês querem que a Casa Estação da Luz seja?
17:12Então, a casa é um centro de artes, de cultura, de pensamento.
17:15Na verdade, a gente chama muito que é uma celebração da arte do Nordeste e do Brasil.
17:22A casa, a gente apresenta todas as artes, desde a arte visual,
17:27a gente tem uma exposição permanente do artista na Casa de Alceu Valença.
17:31Além dessa exposição de Alceu Valença, a gente traz muitas exposições para a casa,
17:37como a gente teve Jeff Allen, Diogun, artistas que fizeram a primeira exposição lá,
17:42e hoje estão, assim, com um nome bem grande já no mercado de artes visuais.
17:47A gente traz eventos de gastronomia, de música, de dança, de teatro.
17:54Lançamentos de livros.
17:55Lançamentos de livros, literatura, feiras, moda.
17:59A casa é um abraço a todas as artes que a gente possa inserir lá,
18:05sempre dentro desse universo que é o nosso universo, a nossa cultura e as nossas raízes.
18:11Você falou rapidinho dessa exposição permanente de Alceu.
18:14Quem for lá na casa vai ver o que nessa exposição?
18:17Então, essa exposição, o nome dela é uma geografia visceral.
18:21Ela tem um recorte da vida de Alceu, mas que mostra...
18:23É uma obra muito grande, impossível que a gente colocasse tudo ali.
18:27É uma exposição só fotográfica ou tem objetos também?
18:31Não, é uma exposição visual, fotográfica, e também tem objetos,
18:35porque tem obras de arte nas quais ele se inspirou para fazer algumas músicas.
18:39Tem muita coisa de vídeo audiovisual, muito audiovisual para ser ouvido e lido.
18:45Tem todas as referências de disco.
18:47É uma exposição muito interessante.
18:49Ela está aberta de segunda a segunda.
18:51Quando foi que surgiu a ideia de transformar a casa, que já era de Alceu,
18:56num espaço cultural?
18:58Em 2019.
18:59Em 2019, eu voltei para Recife.
19:02Eu morei alguns anos fora de Recife, em São Paulo, durante 10 anos.
19:06Voltei em 2017, foi quando comecei essa primeira parceria com Alceu e Anê.
19:12Em 2019, começamos a pensar na possibilidade de transformar a casa na Estação da Luz.
19:18E ela foi inaugurada, se não me engano, em 2021, não é isso?
19:22Em setembro de 2021.
19:23Em setembro de 2021, em plena pandemia, né?
19:25Como foi que vocês fizeram para inaugurar um espaço cultural que chama as pessoas para estarem ali, né?
19:32Em plena pandemia.
19:33Eu vi umas fotos aí na internet, as pessoas de máscara, né?
19:36Como é que foi essa experiência de ter um espaço dedicado à cultura em plena pandemia?
19:42Isso foi tudo, né?
19:44Assim, o início da casa, a ideia surgiu em 2019, em 2020, e inicia a pandemia.
19:50Então, isso já foi um susto muito grande.
19:52A gente estava montando um negócio que dependia das pessoas, que dependia de público e como,
19:56se não ia ter mais ninguém.
19:58A gente passou 2020 fazendo lives dentro da casa, né?
20:02Início da pandemia, em 2020.
20:03Em 2021, a casa, a gente começou a abrir ao público com muito poucas pessoas, não podia aglomerar.
20:11Foi uma experiência, assim, inacreditável.
20:13Acho que a pandemia foi para todo mundo uma experiência muito difícil,
20:17mas para a área de cultura e de produção, acho que foi a pior, né?
20:21Porque a gente precisa de pessoas, de público.
20:24Para abrir o espaço, vocês também reformaram a casa, né?
20:27Como é reformar uma casa antiga, né?
20:29No sítio histórico, onde tudo é tombado, você não pode mexer em nada.
20:33Foi um desafio também?
20:35Esse foi um desafio grande.
20:36Eu brinco com o Alceu.
20:37Alceu adora comprar imóveis e adora comprar imóveis em sítio histórico.
20:41Ele gosta de imóveis com história.
20:43Sim.
20:44E eu brinco com ele, não compre mais imóvel em lugar tombado,
20:47porque o imóvel não é seu, é dos outros.
20:50Eu estou aqui sem conseguir fazer nada.
20:51Tudo você precisa de autorização, né?
20:53Tudo, tudo.
20:53Para pintar uma porta, precisa de autorização.
20:56Eu acho correto.
20:57Eu acho que essa burocracia é necessária.
20:59Senão, assim, a gente já tem tanta coisa destruída, mesmo com todo esse rigor.
21:04Eu acho que é necessário, né?
21:05Mas quando você está no front, tentando que as coisas andem com rapidez,
21:10a gente sente um pouquinho de dificuldade com a burocracia.
21:12Para ter um espaço cultural ali no sítio histórico de Olinda,
21:16vocês também têm que seguir algumas regras, né?
21:18Não é...
21:19Vocês, por exemplo, não podem fazer uma festa até tarde da noite,
21:23entrar pela madrugada.
21:24Como é que é fazer um espaço cultural tendo que seguir todas essas limitações
21:31e todas essas quase que proibições?
21:34Veja, para a Estação da Luz, né?
21:36Para a minha gestão lá, isso é muito bom.
21:39Eu sempre vi a casa e também Olinda como um lugar de dia.
21:43Eu vejo como a casa é solar, a casa é aberta, os eventos são ar livre.
21:47Então, Olinda é um espaço que é para você vivenciar o dia, né?
21:50Olinda é uma cidade dormitória, o sítio histórico é um lugar de dormida.
21:54A gente está com muitos vizinhos.
21:56Então, tudo que eu crio na Estação da Luz, eu começo às 15 horas,
22:00para que às 22 eu encerre totalmente.
22:03Então, a gente cumpre isso com muita tranquilidade.
22:05Eu não vejo nisso um desafio.
22:07Pelo contrário, a gente tem conseguido mudar o conceito do público que frequenta a casa.
22:13A casa na Rua Prudente de Moraes, né?
22:15Só para as pessoas que conhecem Olinda no sítio histórico,
22:20na Rua Prudente de Moraes, ali o bairro é Carmo, né?
22:23É Carmo.
22:23No bairro do Carmo.
22:25E imagino que ali na rua tenha várias casas residenciais ainda, né?
22:32Existe uma relação sua com esses moradores também ali da região?
22:36Existe.
22:37Existe uma relação, uma relação boa.
22:39Eu me comunico sempre com os vizinhos,
22:40sempre tenho a preocupação de saber o quanto a gente está incomodando,
22:43não só em relação a barulho, né?
22:45A gente tem uma quantidade de lixo que a gente recicla,
22:48que hoje tem um trabalho muito forte em relação a isso,
22:51mas no início não tivemos.
22:52Então, é uma preocupação geral com tudo, com carga, com descarga, quando tem evento.
22:57E assim, eu sempre tento ouvir os vizinhos, não vou dizer que não houve reclamações
23:01e que a gente, de alguma forma, não importunou-los em algum momento.
23:04Mas essa é uma preocupação minha o tempo inteiro.
23:07Então, você consegue estabelecer uma boa convivência,
23:10inclusive fazendo com que eles, imaginam, de certa forma, participem também, né?
23:15Sim, sim.
23:15Eles participam da casa, a maioria dos vizinhos frequentam a casa
23:19e assim, tem total liberdade, sempre é o que eu peço, falem comigo.
23:23Porque às vezes você está trazendo um transtorno que você nem sabe que está levando.
23:27Então, esse diálogo é muito importante, eu tento manter e até hoje a gente tem mantido bem.
23:32Agora, alguém me falou que naquela casa da Rua Prudente de Moraes
23:37existem algumas coisas assim, meio mal-assombradas.
23:41Que história é essa?
23:43Eu acho que o mal-assombrado deve estar em todo o sítio histórico, né?
23:46Pelos anos.
23:47Mas assim, na casa realmente houveram alguns episódios, né?
23:50Acontece até hoje.
23:52Teve um vigia que pernoitou, né?
23:55Normalmente, no carnaval, os vigias pernoitam.
23:58E ele saiu fugido de madrugada porque relatou que ouviu
24:02várias pessoas conversando, que estavam lá conversando,
24:06e isso se espalhou, todo mundo ficou com medo.
24:08E a casa estava vazia, mas ele ouviu essas conversas.
24:11Ele ouviu as conversas.
24:12E aí, todo mundo que trabalha, né?
24:14Todos os colaboradores ficaram com medo.
24:16E acabou que surgiu, ficaram surgindo essas histórias
24:19com os outros colaboradores que precisaram pernoitar na casa também.
24:23Contaram a mesma história, disseram que ouvem realmente vozes,
24:26e até hoje as vozes continuam lá nos acompanhando.
24:29Então, para ter um vigilante, você precisa primeiro saber se ele é corajoso
24:32e enfrenta vozes.
24:34Vozes.
24:36Você é produtora cultural já há muitos anos, né?
24:40E por muito tempo foi produtora de outro grande nome da cultura brasileira,
24:44que foi a cantora Fafá de Belém, né?
24:47Eu queria que você falasse um pouquinho dessa experiência, como é que foi,
24:50por quanto tempo você foi produtora dela.
24:53Essa foi uma experiência muito enriquecedora.
24:56Acho que com o Fafá eu aprendi muito, né?
24:58Viajei o mundo inteiro.
25:00Na verdade, a nossa relação começa por uma amizade.
25:02Éramos muito amigas.
25:05Sou comadre dela.
25:06A partir dessa relação de amizade, surgiu numa época a necessidade
25:10de uma pessoa que ela estivesse mais próxima dela.
25:13E eu comecei como produtora, cheguei a empresariá-la
25:17e viajar com ela pelo mundo inteiro, né?
25:20Tem uma história curiosa.
25:21A gente foi até o Cazaquistão.
25:23Nunca me imaginei no Cazaquistão o show de Fafá de Belém.
25:26E foi incrível, né?
25:28Foi incrível.
25:29Passamos alguns perrengues lá.
25:31Estranhos.
25:32No Cazaquistão?
25:33Conta um desses perrengues para a gente.
25:35Ai, gente, esse perrengue é...
25:36É uma honra lá servirem para uma pessoa que está sendo recebida,
25:44que no caso seria ela, eu como empresária,
25:47as pessoas que acompanhavam, os produtores e todo mundo,
25:50a cabeça do bode.
25:53Cabeça do bode.
25:54Do bode inteira.
25:56E o anfitrião vai escolhendo quem vai comer o quê.
26:02Certo.
26:03E você não pode negar, porque assim, é uma ofensa muito grande.
26:07E aí?
26:08Fafá foi dado a ela o cérebro.
26:11O cérebro do bode.
26:12Ela teve que degustar.
26:16Foi horrível.
26:18Para mim foi a orelha.
26:19Eu confesso que não foi agradável, mas preferi.
26:24E essa experiência foi no Cazaquistão.
26:26No Brasil, você também passou por algumas experiências com o Fafá de Belém,
26:32que merecem ser destacadas, assim, como coisas curiosas.
26:36Olha, a gente sempre passa, né?
26:37São muitas coisas que a gente passa com o artista, vivendo.
26:41Eu viajei o Brasil inteiro com o Fafá.
26:44Teve um que a gente foi passar o vestido dela e o vestido queimou.
26:48E eu tive que me virar, né?
26:50Todo mundo teve que virar para achar uma roupa nova de última hora.
26:54Já chegamos para chegar num camarim e praticamente não existia o camarim.
26:58Tem uma cadeira e não tem nada.
27:00E você não tem o que fazer, porque é num lugar que você nem conhece ninguém,
27:04nem tem como se movimentar.
27:09Passamos várias coisas.
27:10Foi um período bem interessante.
27:12Foram quase dez anos.
27:13Na hora que está acontecendo, isso é muito ruim.
27:15Mas depois até dá para dar umas risadas, né?
27:17Dá, depois dá para dar risada.
27:19Na hora é bem estressante.
27:21Natália, para concluir a nossa entrevista,
27:23eu queria perguntar para você,
27:25que já tem essa experiência toda como produtora cultural,
27:28que conselho você daria para quem está querendo começar
27:32nessa área de produção cultural?
27:35O que é que a pessoa deve se concentrar em fazer melhor?
27:39Então, eu acho que o que você tem que fazer melhor realmente é
27:43saber o que é que você quer entregar.
27:46Que entrega você quer fazer?
27:48E para mim, sempre a entrega é para o público.
27:51Sabe, assim, tem dois lugares que você precisa entregar bem.
27:54É o público e se é um produto que tem um patrocinador.
27:59Você precisa fazer essas entregas muito bem.
28:01Entender um com o outro.
28:03Porque não adianta você ter um patrocinador que não combina com o seu público,
28:06porque você não vai entregar nenhum nem outro bem.
28:09Então, a entrega do que você está se propondo é muito importante.
28:12Porque isso traz a credibilidade para que você consiga renovar esse projeto
28:18ou criar projetos novos e as pessoas lhe verem.
28:21Não, ela faz, porque ela entregou isso bem.
28:24Então, acho que esse é o ponto principal de quem faz produção cultural.
28:27Muito bem, Natália.
28:28Foi uma conversa muito legal.
28:29Obrigado por essa entrevista.
28:31E para você que acompanhou até aqui,
28:33obrigado também pela companhia e audiência.
28:35A gente volta na semana que vem.