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O documentário faz uma viagem através das músicas e da história de Clementina de Jesus. Os sambas mais poéticos, o batuque cheio de balanço, os cantos religiosos que revelam uma comunicação forte com o mundo sagrado, vão nos levando para o profundo mundo de Quelé. Marcada na história da MPB pela sua voz excepcional e repertório de música afro brasileira, essa neta de escravos trouxe com o seu canto a alegria, a potência e o drama da condição do negro no Brasil. Considerada por muitos o elo perdido entre a cultura brasileira e as raízes africanas.
Categoria
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AprendizadoTranscrição
00:00:28Transcrição e Legendas Pedro Negri
00:00:31Você está fazendo uma música muito influenciada das raízes africanos.
00:00:37Negócio africano? Ah, um momento assim.
00:00:41Não.
00:00:42Ah, o Akiko?
00:00:43Sim, se quer.
00:00:44Akiko no terreiro, a pelua de é, faz inveja a esta gente que não tem mulher.
00:00:49Akiko no terreiro, a pelua de é, faz inveja a esta gente que não tem mulher.
00:00:54É, o Jako está de preto velho, há uma festa de aô.
00:01:00O Jako está de preto velho, há uma festa de aô.
00:01:05Negócio africano?
00:01:06E Oxalá?
00:01:08E Emanjá?
00:01:08Mucamba de Oxó, se é caçador.
00:01:11Hora de bananá, naná, burucu.
00:01:13Ô, Mucamba de Oxó, se é caçador.
00:01:15Hora de bananá, naná, burucu.
00:01:17Tio, iô, iô, iô, iô.
00:01:28No terreiro de preto velho.
00:01:31Tio, meu pai.
00:01:35Tio, meu tru has.
00:01:37O terreiro de preto velho.
00:01:40Mucamba de Oxó, se é caçador.
00:01:42Tio, meu truho has.
00:01:43Tio, meu truho has.
00:02:06Música
00:02:07Como o camba de oxo até cansado
00:02:09Ora viva, na-na-na-na doce
00:02:15Iô, iô, iô, iô
00:02:21Do terreiro de preto velho
00:02:24Como o sarapa, aquele eu faço
00:02:28Chegou, do terreiro de preto velho
00:02:34Como o sarapa, aquele eu faço
00:02:37Tchango! Tchango! Tchango! Tchango!
00:03:00Minha avó chamava-se Teresa Mina.
00:03:04Tia Teresa Mina, conhecida por Tia Teresa Mina.
00:03:07E meu avô era Abraão.
00:03:09E eles eram escravos?
00:03:11Foram escravos, os seus avós?
00:03:13Por parte da minha mãe, sim.
00:03:16Não eram bem... era assim...
00:03:19Como tratavam assim... como cambas, né?
00:03:21Tratavam da... das filhas da senha, aquelas coisas, né?
00:03:26Isso minha avó contava, né?
00:03:27Ela era pequenininha quando ela contava lá pra mim.
00:03:46E aí...
00:04:02Aống걸看a o lixo, colocandoivedúcio comveiro.
00:04:06Como é que você aprendeu a cantar? O que você fazia assim?
00:04:08Como é que ela ensinava você?
00:04:09Ela estava, por exemplo, lavando roupa, né?
00:04:12Eu ficava ali perto, escutava.
00:04:15Ela estava lavando roupa e cantando.
00:04:16E eu ficava ali perto.
00:04:18A polícia, de vez em quando, estava assim.
00:04:20Dina, a senhora, vai acender esse cachimbo.
00:04:23E eu ia acender o cachimbo para ela.
00:04:25Botava fundo no cachimbo,
00:04:27encendia e trazia para ela.
00:04:28E ela estava cantando.
00:04:30Sabe como é?
00:04:31Assim que eu aprendi umas coisinhas gostosas que ela cantava.
00:04:34Ela cantava muito, era isso.
00:04:36Eu quero ser capaca, minha irmã
00:04:41Na tria que passa com o tia
00:04:46Cachorro que engolioso, ora vejam só
00:04:49É porque sabem que ele fia
00:04:59Cachorro que engolioso, ora vejam só
00:05:02É porque sabem que ele fia
00:05:19Que aqui meus pais, tios e muita gente fugiu do cativeiro.
00:05:27Meu avô foi comprado em São Paulo.
00:05:32E meu pai ia vir para o tia na companhia.
00:05:37Meu pai era baiano e minha avó era africana.
00:05:48Eles compravam e revendiam os negros.
00:05:53Aí o capata lá, esqueceu o portão ali.
00:06:00Aí fugiu tudo.
00:06:02Aí fugiu, aqui era tudo mal.
00:06:06Tinha um fazendeiro aqui, né?
00:06:10Que era o santiopro.
00:06:11Disse que aí, recebeu isso e ficaram aí.
00:06:16Cabocatiba e eles continuaram aqui.
00:06:21Eu nasci no estado do Rio, em Valência.
00:06:23Sou valenciana do estado do Rio.
00:06:28Aliás, nasci...
00:06:29Estou com 70 anos, meu filho.
00:06:31Calcula aí, faz o cálculo.
00:06:32Mete o aí, vê lá quanto é que tá o negócio lá.
00:06:36No fim dá certo.
00:06:37Deixa pra lá.
00:06:37Deixa pra lá.
00:06:54Valença foi o maior município escravocrata
00:06:56que a gente teve durante o Ciclo do Café.
00:06:58Então, a escravidão, ela tá entranhada na história de Valência
00:07:02de uma forma muito intensa.
00:07:04Agora, é o tal negócio.
00:07:05A tragédia da história de Valência
00:07:07é a tragédia, a catástrofe da escravidão.
00:07:09Mas, ao mesmo tempo, você tem uma cultura potente
00:07:12do Vale do Paraíba que faz isso.
00:07:17O Rio Paraíba do Sul, ele representa pro Rio de Janeiro
00:07:20o que o Mississipi representa pros Estados Unidos.
00:07:23O que o Mississipi representa como o berço do jazz,
00:07:27como o berço do blues,
00:07:29o Paraíba representa em relação à música carioca.
00:07:33E Clementina é do Vale do Paraíba.
00:07:35E os sons do Vale do Paraíba são sons
00:07:38que trazem essa memória ancestral da escravidão.
00:07:41Então, muito obrigado.
00:07:42Então, ela traz essa memória ancestral de uma maneira muito vigorosa
00:07:46e ela vira uma portadora dessa memória ancestral.
00:07:49Naquele sentido de ancestralidade entre os povos bantos.
00:07:53Aquele sentido em que você ouve dos mais velhos
00:07:55contra os mais novos
00:07:57pra que os mais novos um dia contem a sua história.
00:07:59E aí você permanece.
00:08:01O que que você tá sonhando hoje? O que que você tá querendo?
00:08:05Hoje eu tô querendo a liberdade.
00:08:08A liberdade que é.
00:08:11Nós precisamos muito da liberdade.
00:08:15Salve a princesa Isabel
00:08:20Deu liberdade a cor
00:08:25Foi no dia 13 de maio
00:08:31Preto não é mais lacaio
00:08:36Preto não tem mais senhor
00:08:42Foi no dia 13 de maio
00:08:48Preto não é mais lacaio
00:08:53Preto não tem mais senhor
00:08:56E é aí que você redefine todo o legado, toda a tradição, toda a carga cultural espantosa, maravilhosa
00:09:04que traz Clementina de Jesus.
00:09:06É entender realmente a pessoa escravizada como sujeita de sua própria história
00:09:11e não como uma ferramenta mercantil a serviço da economia colonial.
00:09:15Tava dormindo
00:09:18Cangoma me chamou
00:09:22Eu tava dormindo
00:09:24Cangoma me chamou
00:09:26E disse levanta povo
00:09:28Cativeiro já acabou
00:09:30Disse levanta povo
00:09:32Cativeiro já acabou
00:09:51E disse levanta povo
00:09:55Cativeiro já acabou
00:09:57E disse levanta povo
00:09:59Cativeiro já acabou
00:10:00E disse levanta povo
00:10:10Cativeiro já acabou
00:10:11E disse levanta povo
00:10:13Cativeiro já acabou
00:10:15E disse levanta povo
00:10:28Cativeiro já acabou
00:10:30E disse levanta povo
00:10:31Cativeiro já acabou
00:10:33Cativeiro já acabou
00:10:34Cativeiro já acabou
00:10:36Cativeiro já acabou
00:11:19Tchau, tchau.
00:11:31Tchau, tchau.
00:12:23Tchau, tchau.
00:12:28Tchau, tchau.
00:13:24Tchau, tchau.
00:13:53Tchau, tchau.
00:14:04Tchau.
00:14:19Tchau, tchau.
00:14:46Tchau, tchau.
00:15:10Tchau.
00:15:35Tchau.
00:15:42Tchau.
00:15:43Tchau, tchau.
00:15:45Tchau, tchau.
00:16:04Tchau, tchau.
00:16:34Tchau, tchau.
00:17:03Tchau, tchau.
00:17:33Tchau, tchau.
00:17:41Tchau, tchau.
00:17:55Tchau, tchau.
00:17:59Tchau, tchau.
00:18:10Tchau, tchau.
00:18:18Tchau, tchau.
00:18:37Tchau, tchau.
00:18:49Tchau, tchau.
00:18:50Tchau, tchau.
00:18:53Tchau, tchau.
00:19:14Tchau, tchau, tchau.
00:19:26A Rupala era um criolinho espigadinho, alto, sempre muito chique, muito bem arrumado, muito falante, muito educado, de uma educação
00:19:35sem limite.
00:19:38A Portela, justamente, foi um dos fundadores da Portela, justamente, era o garoto naquele tempo.
00:19:46Era muito bom mesmo, muito bom mesmo.
00:19:49Tinha diversos pagodes dele, bonitos, que eu falo.
00:19:54Lembra, peraí.
00:19:57Não é isso?
00:19:58Vai, vai, vai.
00:19:59Uma hipocrisia, a vaidade, nada mais.
00:20:04São três coisas que menos de um segundo se desfazem.
00:20:10O mundo é mesmo assim, cheio de ilusão.
00:20:14Ai, de te convencer, meu coração.
00:20:19A vida mal vivida é ilusão.
00:20:24Vaidade nunca se envenha a ninguém.
00:20:29É tipo hipocrisia, orgulho e nada mais.
00:20:34Isso é que passou, não volta mais.
00:20:38Orgulho, hipocrisia, vaidade, nada mais.
00:20:42São três coisas que menos de um segundo se desfazem.
00:20:49O mundo é mesmo assim, cheio de ilusão.
00:20:54Ai, de te convencer, meu coração.
00:20:58Ai, de te convencer, meu coração.
00:21:03Ai, de te convencer, meu coração.
00:21:30Vovó Clementina, a senhora sente muita saudade do vovó pé grande?
00:21:34Sinto, minha filha.
00:21:36Como eu não sinto, então não tenho saudade do teu avô?
00:21:41E muito até, minha filha.
00:21:45Você se casaria novamente?
00:21:48Não, não, minha filha.
00:21:50Que isso?
00:21:51De jeito nenhum.
00:21:53Sou a viúva, que ela é o meu digníssimo marido até o fim.
00:22:02Eu cansei de ver um moleque, minha avó e minha avô,
00:22:05vindo ele de calça verde, blusa rosa.
00:22:09Ela acaba aendo os dois, um segurando o outro.
00:22:13Os dois adoravam uma cerveja.
00:22:14Ai, vinha um apoiando o outro.
00:22:17E nunca tiveram confusão, eu nunca presenciei uma discussão entre meu avô e minha avó.
00:22:22Uma briga, nada, nada.
00:22:25E vinha os dois, assim, abraçados, um com o outro, tipo apoiando mesmo, tipo uma pilastra.
00:22:30Que funcionava, se um saísse dali, o outro cairia.
00:22:35E vinha, chegava no carro tranquilo, tomava o seu banho, deitava, dormia.
00:22:38E a dona Clementina era mais velha do que ele, acho que uns 10, 12 anos, por aí.
00:22:44E eles eram apaixonadíssimos mesmo, mesmo.
00:22:49Maior amigo que eu tive na minha vida.
00:22:52Não me entendeu?
00:22:54Adorava demais.
00:22:56E ele gostava muito de mim, era muito meu amigo mesmo.
00:22:59Eu desde que me casei, nunca mais eu fui senhora de...
00:23:05Desde que conheci ele como um senhor levantado de manhã, assim, para fazer um café.
00:23:11Meu café era levadinho na cama, era bombão demais mesmo.
00:23:16Eu queria que todos os maridos agora fossem assim como foi, como era o meu.
00:23:21Meu perigante.
00:23:24Só tinha tamanho, valentia.
00:23:26Na rua eu não levava isso para casa.
00:23:28Não, era mesmo machão.
00:23:32Mas agora, com o marido dentro de casa, meu filho é um boboca.
00:23:35Aí ela ficava sentada ali e nós ficávamos brincando aqui dentro, correndo para um lado e para o outro.
00:23:40Ela tinha também esse lado.
00:23:41Ela não era só a patrocinadora nossa.
00:23:46Ela não era só artista.
00:23:47Ela também tinha esse lado.
00:23:49Vamos embora passear.
00:23:50A gente vinha para cá, passeava, ficava.
00:23:54Mas antes disso tudo, ainda a gente vinha para cá.
00:23:56Todos os dias.
00:23:56Quando a gente vinha para cá, ou às vezes quando eles iam sair,
00:24:00ela esquentava toda a comida da janta.
00:24:04Aí o Albino Pé Grande botava aquela comida toda numa panela.
00:24:09Ele no meio com a panela, a vela do lado esquerdo, a do lado direito, ou vice-versa.
00:24:13Ele botava duas colheres na boca dele, uma na minha, outra na vela.
00:24:16A gente comia aquela comida toda da noite.
00:24:19Ele requentava aquela comida toda.
00:24:21O nosso café da manhã era esse.
00:24:23Não tinha café da manhã, pão, leite.
00:24:25Na maioria das vezes o café da manhã era esse.
00:24:28Era comida.
00:24:30Isso tudo aconteceu aqui nessa rua que nós vamos entrar agora.
00:24:33Que hoje aqui é onde ela morava.
00:24:35Na vila aqui hoje é uma oficina.
00:24:40Mas aqui isso tudo começou.
00:24:44Aqui eu nasci.
00:24:46Aqui eu fui criado.
00:24:49E aqui, aqui essas casas aqui antigas.
00:24:51Todas essas casas da época dela.
00:24:53Todas.
00:24:55Aqui era o número 41.
00:24:58Hoje está totalmente diferente.
00:24:59É uma oficina.
00:25:00A gente morava aqui do lado, aqui mesmo, aqui.
00:25:02Do lado esquerdo entrava na vila.
00:25:04Para a direita, para a esquerda.
00:25:06A casa...
00:25:07A gente salta um pouquinho, Bira?
00:25:08A casa dela é maior.
00:25:09Vocês que sabem, vamos lá.
00:25:12Marcão!
00:25:14Tem cachorro aí?
00:25:16Cachorro!
00:25:17Já morreu.
00:25:18Já morreu?
00:25:20Tem dois aqui.
00:25:22Marcão, ele está fazendo a filmagem aqui.
00:25:24Oi?
00:25:25Ele está fazendo a filmagem aqui sobre a minha avó, onde ela morava aqui.
00:25:28E pediu a permissão, né?
00:25:30Mas o Albino era boêmia.
00:25:32Albino era da noite.
00:25:34Albino não gostava de trabalhar.
00:25:36Para tu ver, nessa história toda, o Albino trabalhou três anos como estivador.
00:25:44Ele teve uma chance de se aposentar e se aposentou.
00:25:47Três anos de trabalho, ele se aposentou, mas descia todo dia para a própria Estiva.
00:25:52Não sei fazer o quê.
00:25:53Sei que ele saia todo dia, todo delegante, ia para a cidade, lá para a casa do Porto, lá.
00:25:58Como é que você conheceu o Albino?
00:26:00Albino?
00:26:01Ah, eu conheci na manga.
00:26:02Albino Pé Grande, né?
00:26:03Pé Grande, Albino Pé Grande.
00:26:05Não é Albino Pinheiro, não.
00:26:06Albino Pinheiro é chará.
00:26:07Albino Pé Grande.
00:26:08Conheci na Mangueira, na festa de São Pedro.
00:26:13Albino Pé Grande, que fui convidada e eu fui lá nessa festa.
00:26:17Cheguei lá, eles estavam todos de camisinhas iguais, cor de rosa.
00:26:21Tinha uma festa que eles fizeram, onde era a estação primeira, onde era a estação primeira antiga,
00:26:26ou seja, não conheceu, não conheceu, lá em cima, no buraco quente.
00:26:28Depois do buraco quente, depois do buraco quente, não, no buraco quente mesmo, lá em cima, perto da casa do
00:26:33Timbui.
00:26:34É, perto da casa do Timbui.
00:26:36E lá é que eu conheci.
00:26:40Camisinha rosa.
00:26:41Camisinha rosa, cantadinha aqui, estavam todos numa mesa, tomando lá umas coisas, e fez, né?
00:26:46Aí, os olhos trocaram-se.
00:26:54Ela vivia aqui, só vivia na casa da Nilma.
00:26:57Viva na casa da Nilma, ela era portelã, mas vivia na casa da Nilma.
00:27:00E só cantava a música da Mangueira.
00:27:01Igual o Monarco, ela.
00:27:03Só cantava a música da Mangueira.
00:27:04Eu não sei não, ela falava, eu não sei, eu não vou me meter nisso, mas eu achava muito estranho.
00:27:11Igual o Natal, o Sr. Natal, apareceu o Natal, chamou o Monarco e falou,
00:27:14vem cá, qual é a tua escola?
00:27:15Quer a Mangueira ou é a Portela?
00:27:17O Monarco falou, não, eu sou a Portela, Sr. Natal.
00:27:19Porra, só para cima para a Mangueira.
00:27:22Falando em Mangueira, não sei o quê.
00:27:24Chamou o Paulinho da Viola.
00:27:26Chamou o Paulinho da Xixa, pô, que negócio é esse?
00:27:28Não, não foi nada demais, não.
00:27:30É o seguinte, eu fiz esse samba de parceria com o, sei lá, eu chamo o samba, sei lá, Mangueira.
00:27:35De parceria com o Hermínio Belo de Carvalho.
00:27:39Que foi, assim, para a gente, para mim, para a minha mãe, para eles,
00:27:44uma pessoa muito importante, assim, no começo do trabalho da gente e tudo.
00:27:49Porque foi praticamente ele que lançou a gente, assim, né?
00:27:52Ele que fez o Rosa de Ouro, dirigiu o Rosa de Ouro e nós trabalhamos o Rosa de Ouro com
00:27:59ele, né?
00:28:00E eu fiz esse samba com ele.
00:28:02Mas esse samba, ele não deveria ser gravado.
00:28:06Eu pensei que ele não fosse gravado.
00:28:08Esse samba foi feito, ele fez a letra, eu fiz a música.
00:28:12Era um show que ele ia montar chamado Fala Mangueira, que é ver uma homenagem a Mangueira, feita por nós,
00:28:18né?
00:28:19Que é esse samba, sei lá, Mangueira.
00:28:22Vista, assim, do alto, mas parece o céu no chão, sei lá.
00:28:34Em Mangueira, poesia, feito mar, se alastrou.
00:28:41E a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar
00:28:50Que a vida não é só isso que se vê, é, é um pouco mais
00:28:57Que os olhos não conseguem perceber
00:29:01As mãos não ousam tocar
00:29:05Os pés recusam pisar
00:29:09Sei lá, não sei, sei lá, não sei
00:29:14Não sei se toda beleza de que lhes falo
00:29:18Sai tão somente do meu coração
00:29:22Em Mangueira, poesia
00:29:26Não sobe e desce constante
00:29:29Anda descalça ensinando
00:29:33O modo novo da gente viver
00:29:37De pensar, de sonhar, de sofrer
00:29:41Sei lá, não sei
00:29:43Sei lá, não sei, não
00:29:46A Mangueira é tão grande
00:29:50Que nem cabe explicação
00:29:53Sei lá, não sei
00:29:55Sei lá, não sei
00:29:57Não sei se toda beleza de que lhes falo
00:30:02Sai tão somente do meu coração
00:30:08Em Mangueira, poesia
00:30:12Não sobe e desce constante
00:30:17Anda descalça ensinando
00:30:20O modo novo da gente viver
00:30:26Pensar, de sonhar, de sofrer
00:30:29Sei lá, não sei
00:30:31Sei lá, não sei
00:30:35A Mangueira é tão grande
00:30:39E que nem cabe explicação
00:30:43Sei lá, não sei
00:30:46Sei lá, não sei
00:30:48Ela era jovem, mas ela já era partideira
00:30:51E a voz dela, como era muito marcante
00:30:54Quando ela cantava assim
00:30:59Ali nos arredores
00:31:00Todo mundo ouvia
00:31:01Aí o pessoal falava assim
00:31:02Ih, a dona Clementina está cantando
00:31:05Não sei o que
00:31:05Todo mundo ouvia
00:31:06Porque nós chegamos até uma época
00:31:09Eu ainda peguei uma época
00:31:10Que não tinha nem microfone
00:31:11Era no gogó, cara
00:31:13Tinha que ter gogó
00:31:14Fui enganado, meu bem, por ela
00:31:18Maria Madalena da Portela
00:31:23Fui enganado, meu bem, por ela
00:31:28Maria Madalena da Portela
00:31:33Fui enganado, meu bem
00:31:36Enganado, meu bem, por ela
00:31:40Maria Madalena da Portela
00:31:45Fui enganado, meu bem, por ela
00:32:00Maria Madalena da Portela
00:32:04Fui enganado, meu bem, por ela
00:32:09Maria Madalena da Portela
00:32:11Enterminados partideiros
00:32:15Se acostumaram e tal
00:32:17A improvisar em quadras
00:32:20Lá em cima daquele morro
00:32:22Tem um pé de
00:32:23Um pé de abricó
00:32:26Não sei, vou pedir a tua avó
00:32:29Uma quadrinha
00:32:30Tem uma rítmica
00:32:34Uma rítmica previsível
00:32:36Agora, quando o partideiro rima
00:32:42Em cestilhas
00:32:44Estava falando em quadra
00:32:45Quando o rima em cestilha
00:32:48Seis linhas, seis versos
00:32:51Rimando por dentro
00:32:54O verso fica muito mais saltitante
00:32:59Mais balanceado
00:33:00A dona Clementina fazia esse jogo de encaixe
00:33:04De coisa, de letra com melodia
00:33:09Ela encaixava, nos versos dela não sobrava nem letra nem melodia
00:33:12Ela encaixava tudo direitinho
00:33:14Mas por quê?
00:33:15Ela cantava dedo e menina
00:33:16Porque ela cantava a partir do alto
00:33:18Aquele samba de roda
00:33:20Aquela coisa em que é tudo bolado na hora
00:33:23Então ela conseguia encaixar, por quê?
00:33:26Agora, era a dona Clementina
00:33:28Mas não tinha muita Clementina pra fazer isso, não
00:33:30Não me venha se enganar
00:33:32Não me venha dar o pago que a outra
00:33:35Veio me dar, mas fui enganar
00:33:38E fui enganado, meu bem, por ela
00:33:44Maria Madalena da Portela
00:33:48Fui enganado, meu bem, por ela
00:33:54Maria Madalena da Portela
00:33:57Fui enganado, meu bem, por ela
00:34:03Maria Madalena da Portela
00:34:06O Partido Alto, nada mais, nada menos, é que a chula, raiada
00:34:12Acontece, entretanto, que nos primórdios tempos do Partido Alto
00:34:16Era a chula, que não tinha letra
00:34:20Era somente o solo de instrumentações
00:34:23Bandeiro, sem batinelas
00:34:25Prato, na falta do reco-reco
00:34:28Palmas de mão
00:34:30Lauta
00:34:30Eram os instrumentos adequados para o caso
00:34:34Sapateado
00:34:35Agora, o Partido Alto é a chula raiada
00:34:39Então, eu apresento como exemplo o seguinte
00:34:43Sou o Partideiro Famoso
00:34:49Sou o Partideiro Famoso
00:34:52Inspiração
00:34:53Me irradia
00:34:55Busco temas variados
00:34:57Que não causem hipocondria
00:35:00Virgem Mãe do Senhor
00:35:01Maria
00:35:03O oposto à noite
00:35:04É o dia
00:35:06Hotel ou pensão
00:35:08Hospedaria
00:35:08Vejam bem o meu tema
00:35:09Provoca alegria
00:35:11Isto é o Partido Alto
00:35:13O Partido para mim era pequenininho
00:35:16Duas quadrinhas só
00:35:17A gente mandando lá o partido
00:35:19Numa roda de semana a gente chegava assim
00:35:21Oh, plano, bota aí um partido aí para a gente cantar
00:35:24E a gente mentia, oh
00:35:25Por exemplo, tinha um muito gostoso
00:35:27Que eu gostava muito de cantar
00:35:28Era
00:35:29Lapa
00:35:29E Lapa
00:35:32Lapa
00:35:33Lapa
00:35:34E Lapa
00:35:36Cacau é esse
00:35:37Outros mais
00:35:38Eu moro na roça
00:35:40E aí
00:35:40Ah, tinha esse
00:35:41Um de vários partidos
00:35:42Deixa amanhecer
00:35:44Para conhecer quem é
00:35:46Deixa o dia amanhecer
00:35:48Para conhecer quem é
00:35:51Apesar dela ter feito parte de
00:35:54Da banda do Cartolinha
00:35:56Ter feito parte da Portela
00:35:58Cantava em algumas coisas
00:36:00Mas ela era uma empregada doméstica
00:36:02Não desmerecendo ninguém
00:36:03Era um trabalho duro
00:36:05Pela idade que ela tinha
00:36:06Aos 62 anos
00:36:09Se descoberta
00:36:11Por um cara
00:36:11E mudar totalmente a sua vida
00:36:13Para você ver
00:36:13A Clementina cantora
00:36:15Poderia existir
00:36:17Sem a Clementina
00:36:18Dona de casa
00:36:19Lavadeira
00:36:19Arrumadeira
00:36:21Partideira
00:36:21Eu acho que não
00:36:22A Clementina não
00:36:24Outras foi
00:36:24Mas a Clementina
00:36:26É sempre a Clementina
00:36:27Ela tanto faz
00:36:28Trabalhando
00:36:29Cantando
00:36:30Lavando roupa
00:36:31Fazendo tudo
00:36:31É a Clementina
00:36:32Entendeu?
00:36:34Sou sempre a Clementina
00:36:35Clementina
00:36:35Quais são os momentos
00:36:36Mais felizes
00:36:37Da tua vida?
00:36:38Foi quando eu conheci
00:36:40Meu grande poeta
00:36:41Hermínio Bela de Carvalho
00:36:43Para mim foi
00:36:44O momento mais feliz
00:36:46Que eu tive na vida
00:36:47Por quê?
00:36:48Como é que foi
00:36:48Esse momento feliz?
00:36:49Porque foi
00:36:49Daí para cá
00:36:50Minha vida melhorou
00:36:51Ele fez tudo por mim
00:36:54Tem feito
00:36:54E é um amigo
00:36:55Que eu tenho, sabe?
00:36:56Você se transformou
00:36:57Numa cantora profissional
00:36:59É justamente
00:36:59Por que você demorou
00:37:01Tanto assim
00:37:02Para assumir
00:37:03Como cantora profissional?
00:37:05Eu tinha chegado
00:37:06A hora, né minha filha?
00:37:08Quando chega a hora
00:37:08Não adianta nada
00:37:09Eu tinha chegado a hora
00:37:11É isso aí
00:37:12Eu conheci a Clementina
00:37:14Quando eu já tinha 62
00:37:15E outra coisa
00:37:16Que é importante
00:37:16Esclarecer
00:37:17Eu não suporto
00:37:19Que me chamem
00:37:20Ele descobriu a Clementina
00:37:22Não suporto
00:37:23Não a descobri
00:37:24Tem nada descoberto ali
00:37:26Eu prestei atenção
00:37:27A pergunta é
00:37:28Por que você não prestaram antes
00:37:30Ela já com 62 anos de idade?
00:37:34Não prestar atenção
00:37:38Eu andava perambulando
00:37:42Sem ter nada pra comer
00:37:45Fui pedir às almas santas
00:37:47Para vir me socorrer
00:37:52Eu andava perambulando
00:37:54Sem ter nada pra comer
00:37:57Por pedir às almas santas
00:38:00Para vir me socorrer
00:38:02Todos os anos
00:38:04Eu não falto
00:38:05A festa da Nata Glória
00:38:06Nossa Senhora da Penha
00:38:08Não falto pra essa festa
00:38:10E Glorioso São Jorge
00:38:12E eu estava numa mesa
00:38:13Já tinha tomado um pouco
00:38:15De uns guaranás
00:38:17Guaranás
00:38:18Daqueles guaranazinhos
00:38:20E estava cantando
00:38:21Os pagodes lá
00:38:21Quando o Hermínio passou
00:38:22Que vinha de um banho de mar
00:38:24Aí parou pra me ouvir
00:38:25Naquele tempo que eu tinha
00:38:27Aquela grande voz
00:38:29Parou pra me ouvir
00:38:31Aí
00:38:34Estou vendo agora
00:38:35Eu passando pela taberna
00:38:38Aquela cantoria
00:38:43Ela cantando
00:38:45De repente ela se levanta
00:38:46E começou a cantar
00:38:49E a dançar
00:38:52Ali naquele momento
00:38:53Na taberna da Glória
00:38:56Eu já disse isso uma vez
00:38:58A sensação que eu tinha
00:38:59Que Nossa Senhora da Glória
00:39:00Estava incorporada
00:39:05Na Clementina
00:39:05Você se lembra
00:39:07Que música você estava cantando
00:39:09Quando conheceu
00:39:10Hermínio Belo de Carvalho?
00:39:15Moça bonita
00:39:16Moça namora
00:39:19Tá na janela
00:39:21Contando história
00:39:24Moça que cose na máquina
00:39:26Faz crochê
00:39:28E faz transilim
00:39:31Agulha com que ela cose
00:39:34Tem cá
00:39:34Rabo de marfim
00:39:38Manda fazer uma camisa
00:39:40Que é
00:39:41Rede embora daqui
00:39:46Adeus
00:39:47Rio das flores
00:39:50Ribeirão do bom jardim
00:40:01Essas músicas eu cantei lá
00:40:03Isso eu me levo pra ele
00:40:04Passou, foi embora
00:40:05Depois mandou
00:40:06O Nelson
00:40:07Que é um colega também
00:40:08Que agora é advogado
00:40:10Trazer umas flores pra mim
00:40:11E me convidar
00:40:13Se eu queria dar um pulinho
00:40:14Na casa dele
00:40:15Pra fazer uma gravação lá
00:40:16Foi assim que surgiu
00:40:18Você foi lá?
00:40:20E já não sabe?
00:40:21E como me encontrei?
00:40:23Eu já estava
00:40:25Meio pé
00:40:27Meio tijolo
00:40:29Fui pra lá
00:40:30Acabei de entornar o negócio
00:40:32Ela chegou e eu
00:40:33Liguei o gravador de cara
00:40:36Ela tinha um repertório incrível
00:40:38Mas sobretudo nessa área
00:40:39Da música negra
00:40:41Nas currimas
00:40:42Que ela gravou
00:40:43Ela trouxe um cancioneiro
00:40:45É questão da oralidade mesmo
00:40:48Ela aprendeu com a mãe
00:40:50Aprendeu com a avó
00:40:51Com a bisavó
00:40:52Eram cantilhas centenárias
00:40:54Coisas que
00:40:55Sabe que
00:40:58Nunca foi mapeado
00:40:59Entendeu?
00:41:01Foi sugerido
00:41:03Algumas vezes assim
00:41:04Pelo Mário Andrade
00:41:05Com muita
00:41:05Muita justez
00:41:07E pelo
00:41:07Ari Vasconcelos
00:41:09Que ele dizia assim
00:41:09Que a
00:41:11Que a clementina
00:41:14Corresponderia
00:41:15Na área de antropologia
00:41:17Como o elo perdido
00:41:19Entre o Brasil
00:41:21E a África
00:41:23Eu acho isso genial
00:41:24Eu acho isso genial
00:41:26Isso define bem a clementina
00:41:27Ela era
00:41:29Ela era
00:41:31Uma urna
00:41:33De prata
00:41:34De ouro
00:41:36De pedras preciosas
00:41:37Que ela trazia aqui
00:41:38Aqui
00:41:44Então esse tipo de trabalho
00:41:46Que me encantava também
00:41:47Eu joguei no gravador
00:41:49Com a clementina
00:41:50Deixando ela gravar
00:41:51Mas conta uma história
00:41:52Mãe
00:41:53Conta uma história
00:41:54Existe alguma coisa
00:41:56Assim que ela ensinou
00:41:57A você na época
00:42:00Alegria do carreiro
00:42:03É de ver o carro cantar
00:42:07Ai duas juntas
00:42:08De boi preto
00:42:11E boa vara de tocar
00:42:14E duas juntas
00:42:16De boi preto
00:42:17E boa vara de tocar
00:42:25Gementino
00:42:26O que que representou
00:42:27O Rosa de Ouro?
00:42:28A Rosa de Ouro
00:42:29Para mim
00:42:30Foi tudo
00:42:31Foi o que me fez
00:42:33Eu virar público
00:42:34Que o Hermínio
00:42:35Belo e Travá
00:42:35Idealizaram
00:42:36Aquele show
00:42:37Ele e o Cléber Santos
00:42:40Idealizaram aquele show
00:42:44No teatro jovem
00:42:45E daí
00:42:46Percebiou
00:42:48A minha
00:42:49A minha linda carreira
00:42:52No Rosa de Ouro
00:42:53Quando eu
00:42:55Primeira vez
00:42:56Que
00:42:57Fomos
00:42:59Faço a primeira apresentação
00:43:01Eu disse
00:43:02Eu não vou
00:43:02E não tenho
00:43:03Cara
00:43:03Coragem
00:43:04De enfiar num palco
00:43:05Não posso
00:43:05Não aguento
00:43:07Não está em mim
00:43:08Olha
00:43:09Antes de eu entrar
00:43:09Para cantar
00:43:10Tomei um litro
00:43:11De cinzano
00:43:12Sozinho
00:43:13Para ter coragem
00:43:14Eu espiava na pela coxia
00:43:15Olhava para lá
00:43:16Eu dizia
00:43:16Ah não vou não
00:43:17O litro
00:43:21Até que eu estou
00:43:22Só agora
00:43:23Estou em pé de braza
00:43:24Mas agora eu vou
00:43:24Vou
00:43:25Ainda na última hora
00:43:26Esse chegou
00:43:26Falou assim
00:43:27Tomar mais um golinho
00:43:28Não vai mais nada
00:43:28Agora vai
00:43:29Agora tem que sair
00:43:29De qualquer maneira
00:43:30Me desculpa
00:43:31Que eu não bebo
00:43:31Mais nada
00:43:31Entrei
00:43:32Entrei
00:43:34Cheguei lá
00:43:34Puxado
00:43:36E o Rosa de Ouro
00:43:38Modéstia Apática
00:43:39Foi um grande espetáculo
00:43:41Com duas
00:43:43Duas
00:43:44Duas pessoas
00:43:45Que
00:43:47Enchiam os olhos
00:43:48Todo mundo
00:43:49Aracir Cortes
00:43:50E Clementina
00:43:51De Jesus
00:43:51Eram as estrelas
00:43:53Do espetáculo
00:43:54Todas passando
00:43:56Dos 60 anos
00:43:58Eu e Paulinho
00:44:00Violão
00:44:00O Jair
00:44:02Cavaquinho
00:44:03O Elto
00:44:04Caixa de Fósforo
00:44:05E Pandeiro
00:44:07E o Anescar
00:44:08Tamborim
00:44:09O Hermínio
00:44:10Quando pensou
00:44:11Em fazer o Rosa
00:44:12Eu fui uma das primeiras
00:44:14Pessoas que ele procurou
00:44:16Não só
00:44:18Para orientar
00:44:22Na
00:44:25Como dizer
00:44:27Na construção
00:44:28Do Rosa
00:44:29Como também
00:44:32Participar
00:44:33Do Rosa
00:44:33A convivência
00:44:36Dela
00:44:37Com Paulinho
00:44:38Da Viola
00:44:39Com Elton
00:44:40Medeiros
00:44:40Foi decisiva
00:44:42Porque
00:44:44O Elton
00:44:45Conhecia
00:44:45Muito bem
00:44:46Essa área
00:44:47Da música
00:44:50Esse elo
00:44:50Com a África
00:44:53E
00:44:53O que eu fui fazendo
00:44:55É ter o cuidado
00:44:56De levar pessoas
00:44:58Que tivessem
00:45:00Contato com essa cultura
00:45:02Com o Elton
00:45:03O Hermínio
00:45:03Subiu lá no Morro
00:45:05Da Bagueira
00:45:05Para na minha casa
00:45:06Mas eu não estava
00:45:08De sério
00:45:09Para mim
00:45:09Olha
00:45:09Deixa um recado
00:45:10Para mim
00:45:11No Teatro Jovem
00:45:14Quando a minha mulher
00:45:16Falou
00:45:16Isso
00:45:17Digo
00:45:17Olha
00:45:17Seu Hermínio
00:45:18Seu
00:45:18Esteve aqui
00:45:19Disse isso
00:45:20Para você
00:45:20No Teatro
00:45:22Mas eu
00:45:23Mas eu estava trabalhando
00:45:25Eu digo
00:45:25Eu não vou não
00:45:26Eu vou no Teatro
00:45:27Eu estou trabalhando
00:45:29Mas eles realmente
00:45:30Me queriam
00:45:31Porque
00:45:31Eu fui lá
00:45:32Mais
00:45:32Duas vezes
00:45:35E eu não fui
00:45:36Na quarta vez
00:45:37Olha
00:45:37Se não for amanhã
00:45:39Não precisa ir mais
00:45:40Aí eu digo
00:45:41Não vou perder
00:45:42Não vou perder
00:45:43Esse trabalho
00:45:44E quando eu cheguei
00:45:45No Teatro
00:45:47Já estava o Elton
00:45:49O Angelou
00:45:51E o
00:45:52Já ele
00:45:53Os três estavam lá
00:45:56Aí eu digo
00:45:57Assim
00:45:57Eu cheguei
00:45:58Com o meu senhor
00:45:59Onde é que vai
00:46:00Onde é que vai pintar
00:46:01É que eu era pintor
00:46:03Na época
00:46:04Trabalhava em construção civil
00:46:06Mas o trabalho
00:46:08Não era pintar
00:46:09Era cantar samba
00:46:11Isso caiu
00:46:12Caiu na risada
00:46:13Não é para pintar não
00:46:15Rapaz
00:46:18Você sabe cantar samba?
00:46:20Você sabe cantar samba?
00:46:20Eu digo
00:46:20Sei
00:46:20Então
00:46:22Você foi
00:46:23Chamada
00:46:24Para cantar samba
00:46:25Aqui é um conjunto
00:46:26Que nós estamos fazendo
00:46:27E você vai fazer parte
00:46:29Pai
00:46:29Olha um
00:46:32Dizem que
00:46:32Má para
00:46:33Má para
00:46:34Má para
00:46:35Outro
00:46:35Dizem que
00:46:35Má para
00:46:36É
00:46:37O
00:46:38Mucoito
00:46:38Que chora
00:46:39Mutimba
00:46:39O
00:46:40Mitambaru
00:46:40Anda de
00:46:41Guará
00:46:41O
00:46:42Curima
00:46:43Tchô
00:46:43Tchô
00:46:44Tchô
00:46:44Curima
00:46:46Amaco
00:46:47Eter
00:46:48O
00:46:49Curima
00:46:49Tchô
00:46:50Tchô
00:46:51Ô
00:46:51Mitambaru
00:46:52Anda
00:46:52De
00:46:52Guará
00:46:53Ô
00:46:53Mitambaru
00:46:54Anda
00:46:54De
00:46:54Guará
00:46:55Ô
00:46:55Mitambaru
00:46:56Anda
00:46:56De
00:46:56Guará
00:46:58Eu senti uma coisa, depois do Rosa de Ouro, aquela coisa que eu sentia dentro de mim, sabe?
00:47:03Depois, os amigos muito bons, todos os acompanhantes muito bons e aquela...
00:47:08Eu sentia uma coisa, a coisa que eu tava numa coisa que era meu.
00:47:12Sabe como é?
00:47:13Ela conhecia os sambas, mas embora ela tinha o repertório dela,
00:47:17foi o que o Remílio exigiu dela, o repertório africano dela.
00:47:23Então, tem o Benguelê, tem o Santa Bárbara.
00:47:31E isso, na época, chocou as pessoas, mas foi uma mensagem da música, da música negra.
00:47:41Na época, não se falava muito.
00:47:45A Clementina deu a partida nesse tipo de música, nesse tipo de ritmo.
00:47:51da música negra.
00:47:54Uma tela branca, um lençol, talvez.
00:47:57Ela surge de contra-luz, né?
00:48:01Num efeito, ela por trás da iluminação,
00:48:04aparecendo só o perfil dela.
00:48:07O Elton Medeiro, depois eu vim saber,
00:48:09ruflando um atabaquezinho.
00:48:13E ela mandou aquele Benguelê, né?
00:48:17E o Benguelê é uma invocação, é uma localidade chamada Benguela, né?
00:48:21Que é uma região de Angola muito importante.
00:48:25Então, o Benguelê é como se fosse um Ê Benguela, né?
00:48:29Como tem Luandaê,
00:48:32Congoê, Conguê.
00:48:33Quando eu botei o Benguelê lá,
00:48:36e as outras curimas, aquelas outras músicas todas,
00:48:39aí me veio vontade até de chorar.
00:48:47Benguelê,
00:48:48Benguelê,
00:48:51Benguelê,
00:48:52Benguelê,
00:48:52o mamãozinho,
00:48:54a Benguelê,
00:48:55Benguelê,
00:48:58Benguelê,
00:48:59o mamãozinho,
00:49:02a Benguelê,
00:49:04cã eiments,
00:49:10que é o ringuelê.
00:49:12Tepa, tepa,
00:49:13te tupa,
00:49:14Tepa,
00:49:14vamos simpar,
00:49:15quem tá no reino,
00:49:16vamos simpar.
00:49:17Vamos simpar,
00:49:19vamos simpar,
00:49:21vamos simpar,
00:49:23vamos simpar.
00:49:24Vamos simpar,
00:49:25mamãe de Ides Einabiio,
00:49:26ta no reino.
00:49:27Mãe de Ides Ein guru,
00:49:28vamos simpar,
00:49:30vamos simpar,
00:49:31vamos simpar.
00:49:32Vamos simpar
00:49:33Oh, Meghene!
00:49:41E aí?
00:49:42Tudo certo?
00:49:43Tá preparando os quitutes?
00:49:45Preparando os quitutes da feira, né?
00:49:48Tá aí tudo saboroso, fresquinho.
00:49:51Bão a beça.
00:49:52Serem bem-vindos.
00:49:56Eu, que garinha de Jesus me acumado.
00:50:01Tudo bom? Entra, gente. Fique à vontade.
00:50:05Quando ela tava em casa, ela cozinhava.
00:50:08Adorava cozinhar.
00:50:09Aí ela fazia o almoço e fazia os doces.
00:50:12Aí falava assim, ah, agora tá fazendo o quê?
00:50:14Ah, tô fazendo um doce de abóbora.
00:50:16Falei, mas boa, tá pronta?
00:50:17Ela, não, tem que cachimbar.
00:50:19Cachimbar porque ela queria dizer que tinha que pegar o ponto, né?
00:50:21É, pegar o ponto.
00:50:22É, pegar o ponto.
00:50:23Deixa eu botar a panela.
00:50:25Às vezes mexer ao contrário.
00:50:27Pra poder dar certo.
00:50:28Pra dar certo, dar o brilho nele.
00:50:31Entendeu?
00:50:32Eu gosto muito de cozinhar.
00:50:34E gosto muito de fazer comida gostosa.
00:50:38Qualquer comida que me dê pra fazer, eu faço.
00:50:40Mas o que eu gosto de fazer mesmo, bem feito, mais gostoso.
00:50:42Tem aquele prazer de fazer, mas...
00:50:44E sou conhecida por isto.
00:50:48É...
00:50:49Uma feijoada.
00:50:51Mas uma feijoada, a minha moda...
00:50:56Por exemplo...
00:50:57Eu vejo fazerem feijoada, em todo lugar fazem, muito bom.
00:51:01Mas, olha, o meu feijão é...
00:51:03Tem segredo especial.
00:51:04Sabe como é?
00:51:07Um bom tocinho de fumiro.
00:51:09Uma boa linguiça especial, daquela boa de porco.
00:51:12Um bom lombo.
00:51:13Carne seca especial.
00:51:14Tudo isso...
00:51:15A gente prepara...
00:51:16Deixa de molho...
00:51:18Direitinho...
00:51:18Amanhã...
00:51:20Primeiro...
00:51:20Tem coisas que as pessoas que não sabem...
00:51:22Fazem, mas não sabem.
00:51:23Primeiro, bota o feijão no fogo.
00:51:25Primeira coisa que se bota no feijão é o pezinho de porco.
00:51:27Que já ficou de molho, já foi bem raspadinho, tudo preparadinho.
00:51:30Bota logo o pezinho de porco e a carne seca.
00:51:32São as coisas mais duras.
00:51:33Me compreendem?
00:51:34E a tripa?
00:51:35Bota uma rodela ou duas de cebola.
00:51:37Soca um dente de alhozinho bem socadinho.
00:51:39Tira aquela pele fora.
00:51:40Bota lá dentro.
00:51:41Duas folhas de louro e deixa o menino cheirar por aí.
00:51:48Aí depois, quando ele já está cozidinho aqui, tudo cozido, não deixar de se machar.
00:51:53O feijão bem grosso, aquilo tudo direitinho, bonitinho dentro.
00:51:57Aí você passa numa colher de azeite doce especial, bota ali dentro.
00:52:00Aí que está o segredo.
00:52:01E deixa o menino ferver, o menino apurar em fogo brando até chegar lá na medida.
00:52:06Fogo?
00:52:08Fogo mesmo.
00:52:42Fogo!
00:52:44Fogo mesmo.
00:52:49Fogo.
00:52:50Fogo.
00:52:55Fogo.
00:52:59Fogo.
00:53:00Vou-me embora desse mundo de ilusão
00:53:05Quem me vê sorrir, não há de me ver chorar
00:53:10Flechas sorrateiras, cheias de venenos
00:53:15Querem atingir o meu coração
00:53:19Mas o meu amor, sempre tão sereno
00:53:24Serve de escudo pra qualquer ingratidão
00:53:27Galo cantou, galo cantou às quatro da manhã
00:53:33Seu azulou na linha do mar
00:53:38Laiá, láiá
00:53:40Vou-me embora desse mundo de ilusão
00:53:43Quem me vê sorrir, não há de me ver chorar
00:53:47Laiá, láiá
00:53:49Vou-me embora desse mundo de ilusão
00:53:53Quem me vê sorrir, não há de me ver chorar
00:54:00Vou-me embora desse mundo de ilusão
00:54:03Quem me vê sorrir, não há de me ver chorar
00:54:32A Clementina era do elenco da Juntada de Samba, né?
00:54:36A Clementina era do elenco da Juntada de Samba, né?
00:54:57A Noitada de Samba está com seis anos e é marca registrada todas as segundas-feiras no Teatro Opinião Rio,
00:55:05Zona Sul
00:55:06Todo mundo curte o final de semana, mas deixa sempre um pedacinho, um pouquinho, pra segunda no Teatro Opinião
00:55:14É absolutamente certa a presença dos bambas, as cobras criadas das escolas de samba e morros cariocas
00:55:21As noitadas de samba que acontecem aqui no Teatro Opinião todas as segundas-feiras há exatamente seis anos
00:55:30Elas têm uma importância muito grande porque ainda conservam uma certa espontaneidade
00:55:37E uma relação entre os sambistas que aqui mostram suas músicas, seus trabalhos e o público
00:55:45Uma relação assim muito forte, muito grande
00:55:47E a gente tem a impressão assim que é até uma família, todo mundo já se conhece
00:55:52E isso cria condições realmente pra que a coisa se torne viva
00:55:57E que todo mundo participe assim com a maior espontaneidade e a maior alegria
00:56:11Olha a Clementina, Cartola, Nelson Gavain, Dona Ivone, Baianinho
00:56:16Mas a estrela mesmo nesse time formado era a Clementina
00:56:21E todo mundo tinha muito respeito assim pela Clementina
00:56:26Eu gravei um disco com o Aniceto, com o mestre Aniceto
00:56:32E o Aniceto implica com todo mundo, né?
00:56:35Implica, todo mundo tem medo dele, acha que ele é feiticeiro
00:56:38Era feiticeiro, uma coisa dessas
00:56:40E quando eu fui gravar o disco, eu digo
00:56:43Bom, Aniceto brigou com o Martim, Aniceto brigou com todo mundo
00:56:46Com a Clementina e depois não, madame
00:56:49Chegou a sua região, vamos gravar
00:56:51Eu digo, Aniceto não brigava com a Clementina
00:56:54Eu me lembro que as pessoas chegavam e a gente convidava as pessoas
00:56:58Claro, quer ir lá cantar no teatro, opinião
00:57:00Eu vou sim, mas eu só vou cantar
00:57:02Eu não vou cantar depois da Clementina não, né?
00:57:05Eu digo, não
00:57:05Tem um intervalozinho, aí para
00:57:07Porque ela deixava o teatro lá em cima, né?
00:57:11Clementina e o Xangô, né?
00:57:13O negócio terminava, o público todo de pé
00:57:15Uma tal zoa e tal
00:57:19Olha, esse sapato aqui
00:57:21Ele é da bela Clementina de Jesus
00:57:25O João das Neves, que foi um dos diretores do teatro
00:57:29O autor do Último Trem
00:57:32Ele ficou com o outro e eu peguei esse, ó
00:57:35Mas aqui dentro tinha um roteiro da Clementina
00:57:38Ela com a letrinha dela era que fazia o roteiro
00:57:41Ninguém fazia o roteiro da Clementina
00:57:43Vinha, o que ela queria cantar, ela cantava
00:57:45Não tinha esse negócio de Clementina, não
00:57:47Ela cantava o que ela quisera
00:57:49Eu quero cantar isso, canta
00:57:50E aí voltou, aí eu botei aqui junto com a Sandália
00:57:53Mas eu emprestei e dancei
00:57:56Sumiu o roteiro da Clementina, a letrinha da Clementina
00:58:00Mas o sapatinho tá aqui, ó
00:58:02Meio acabadinho
00:58:04A sandália, a sandália é de bamba
00:58:10Você recebeu o convite do Itamaraty para ir para a África?
00:58:12Foi
00:58:12Ele disse, peraí que esse filho me telefonou e disse
00:58:15Minha mãe, senta para não cair
00:58:17Você foi escolhida pelo Itamaraty
00:58:19Para ir representar a arte negra ainda cá
00:58:20Aí eu perguntei para ele
00:58:21Como é que eu vou, vou de ônibus?
00:58:23De ônibus ou de navio?
00:58:24Ele falou assim, navio o que, minha mãe?
00:58:26Você não vai de avião?
00:58:27Ai, não, não faça isso que eu não vou
00:58:29Tinha, mas não tive, perdi o medo quando fui para Dakar
00:58:40Música
00:58:41Música
00:58:43Taratá, crioula de taratá
00:58:46Ou de taratá, crioula de taratá
00:58:50Ou de taratá, crioula de taratá
00:58:53Olha a terra que tem minhoca e eu gostar de cavucá
00:58:57Ou de cavucá, crioula de cavucá
00:59:13Nós fizemos o festival de arte negra, festival de arte negra foi em Dakar, Senegal, eu Paulinho, Paulinho de Rui,
00:59:26eu de Rumbi e a Clementina cantando.
00:59:29E o Albino batendo palma, fazendo palma, ritmo na mão, você imagina, por exemplo, um festival só de música de
00:59:46negros, uma coisa fantástica.
00:59:52Eu fui chamada três vezes em cena, duas eu cantei, essa terceira vez o professor Mozart de Araújo disse, agora
01:00:00você não canta mais, vai lá apenas agradecer, já estava a plateia toda de pé, eu fui lá apenas agradecer
01:00:06e não cantei mais, só sapatinho um bocadinhozinho assim e saí de novo.
01:00:10Houve dois espetáculos, espetáculo no teatro e espetáculo no estádio, o espetáculo popular, foi um sucesso incrível, foi realmente o
01:00:18maior sucesso de todo o festival,
01:00:19tanto que o público saltou da arquibancada e entrou no estádio para agarrar a Clementina, sabe, segurar a Clementina.
01:00:26E a Clementina, assim, vindo, aquelas pessoas, sabe, eram nigerianos, franceses, senegaleses, uma gente de todas as raças e tal,
01:00:36de todas as línguas, falando tudo,
01:00:38falando as línguas mais incríveis, aquele dialeto mais incrível e a Clementina agradecendo assim, muito obrigado meus filhinhos, muito obrigado,
01:00:44e eu gostar de caratá, hoje taratá, crioula de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá,
01:01:14rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de
01:01:24caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola
01:01:35de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá,
01:01:44rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de
01:01:44caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de caratá, rola de car
01:01:44Hoje cavucá, criou lá de cavucá
01:01:47Hoje cavucá, criou lá de cavucá
01:01:51Hoje cavucá, criou lá de cavucá
01:01:54Rola a trape que não tem dono e eu vou estar, taratá
01:01:58Oi, taratá, criou lá de cavucá
01:02:02Oi, taratá, criou lá de cavucá
01:02:12Os meus avôs, os tataravôs vieram quase tudo da África
01:02:17Os visavôs da minha mãe não falavam português
01:02:22Vem da África, aqui ficou lá em casa
01:02:25Que a mamãe tomou conta, era da África, cheisina
01:02:29O meu visavô, parte de pai, veio da África
01:02:33É isso tudo, agora a Umbanda como nasceu aqui
01:02:37Eu mesmo não sei explicar
01:02:40Tô aí que formou o terreno
01:02:42Então é uma coisa que a gente não sabe
01:02:45Se nasceu aqui ou se veio da África
01:02:48Mas mais pra gente nasceu aqui
01:02:56Eu gosto muito da Umbanda
01:02:58Gosto muito do povo da Encantaria
01:03:02Comecei o Tupinambá
01:03:10Eu que sou neta e bisneta de escravo
01:03:14A gente tem um conversar de muito antes, não é?
01:03:20Dona Clementina, eu via nela essas pessoas, não é?
01:03:23Como vovó Marcelo, meu vovô Barnabé
01:03:34Ela gostava de conversar comigo, ela gostava
01:03:37Sempre gostou, porque ela me tinha como uma pessoa dela
01:03:40Eu lembro da minha família
01:03:42Dos meus avós, bisavós
01:03:44É um povo parecido com ela
01:03:46A força dela estava nela
01:03:49Quando ela falava, a gente tinha força
01:03:51A presença de Dona Clementina
01:03:54A presença era uma força
01:03:56Quando ela chegava
01:03:58Parecia que ela sentia uma luz no lugar
01:04:02É assim que eu meço a força das pessoas
01:04:05Ela era assim
01:04:07Tinha essa força
01:04:08E a de estar com essa força até hoje
01:04:10Feliz agora que a gente está falando dela
01:04:12Você não viu que o beija-flor ficou acima da sua cabeça?
01:04:16É assim
01:04:17Olha o vento
01:04:26E a de estar com essa força
01:04:29E a de estar com essa força
01:04:35E a de estar com essa força
01:04:35E a de estar com essa força
01:04:36E a de estar com essa força
01:04:36E a de estar com essa força
01:04:36E a de estar com essa força
01:04:37E a de estar com essa força
01:04:38E a de estar com essa força
01:04:39E a de estar com essa força
01:04:39E a de estar com essa força
01:04:40E a de estar com essa força
01:04:43E a de estar com essa força
01:04:46Camaverou, iaô, camaverou, iaô, iaô, iaô, iaô, camaverou, iaô, camaverou.
01:05:17Tchau, tchau.
01:05:54A Clementina bizia, ela dava passe, entendeu?
01:05:59Ela rezava umas orações que eram vindas da igreja católica, mas era uma mistura de catolicismo com umbanda.
01:06:16Aí a Clementina, quando disse, tia Maria Rebolo, uê, oi, tia Maria Rebolo, tia Maria Rebolo, não me fecha a
01:06:26porta com chão, me fecha com taramela, uê, tia Maria Rebolo, não me fecha a porta com chão, me fecha
01:06:32com taramela.
01:06:35Eu rufei, o Paulinho respondeu, e a Clementina disse, se a Maria Rebolo, uê, se a Maria Rebolo, não se
01:06:47mexa, não se mexa com taramela, uê.
01:06:51E, pô, a mulher que tava sentada na cadeira de fronte, o lugar onde eu estava, ela recebeu lá um
01:07:03santo, pô.
01:07:04A pessoa recebeu o Espírito, não me lembro se foi uma moça, foi uma moça, foi uma senhora, uma senhora,
01:07:12que naturalmente mexeu com os anjos dela, e ela, e foi lá, recebeu lá o seu caboclo.
01:07:24Em quem que você acredita, Clementina?
01:07:27Meu pai, cunhador.
01:07:29Qual é a tua religião?
01:07:30Sou católica, misseira.
01:07:35E a Umbanda?
01:07:37Não, a Umbanda, cada um cuida da Umbanda, eu respeito muito, mas não frequento.
01:07:42Respeito muito mesmo.
01:07:43Talvez quem é de lado do negócio não respeite tanto quanto eu respeito.
01:07:48Mas agora não creio.
01:07:50A avó era católica apostólica romana.
01:07:52É assim que ela dizia.
01:07:54Católica apostólica romana.
01:07:56É, eu sou católica apostólica romana.
01:07:59Entendeu?
01:08:02Eu acho que os descendentes lá atrás, né, que todo mundo, né, foi escravo, aí eu buchando aquilo lá de
01:08:09trás, né?
01:08:11É porque ela foi feita na linha das almas.
01:08:13Então, essa questão do centro foi essa, ela começou nisso, né, Janaela?
01:08:17Na linha das almas, inclusive, ela tinha uma, não era uma tatuagem, mas era uma figa, um desenho de uma
01:08:22mão com uma figa no meio do centro.
01:08:23É tipo que foi feito a ferro-quente.
01:08:26A ferro-quente, entendeu?
01:08:27Porque...
01:08:28Então o corpo dela era fechado.
01:08:30É.
01:08:31O corpo dela era fechado, ela dizia que era fechado.
01:08:33Tanto que a gente via, assim, no meio do seio dela.
01:08:36Era uma mão, assim, fechada no meio do seio dela.
01:08:38Ela foi queimada a ferro-quente, assim, no meio dos seios dela.
01:08:43Isto é porque onde eu fui morar, era perto de uma, de um terreiro.
01:08:50E esta senhora deste terreiro gostava muito de mim.
01:08:55E então ela batizou a minha filha Mazélia.
01:08:59Então, eu já sabe, quando cantava aquelas músicas, eu gostava muito e eu ajudava.
01:09:03Sabe como é?
01:09:04Ajudava aquelas coisas bonitas, cantar.
01:09:06Ela pedia, ajuda, então eu ajudava, ela disse Maria, Maria do Neném, Oswaldo Cruz.
01:09:10Mas nunca, nunca, nunca acreditei.
01:09:13Interessante, gostava, mas não acreditava naquilo.
01:09:14É.
01:09:15Achava que era uma, por uma questão de uma coisa insignificante.
01:09:19Que eu via naquele meio.
01:09:21Quer dizer, não pode ser uma coisa direita.
01:09:23E aí eu cantava, porque eu gostava de cantar, porque eu gosto de cantar.
01:09:26Porque era prazer de cantar, mas não que eu acreditasse naquilo.
01:09:29Não acredito até hoje.
01:09:31Não desfaço.
01:09:31Cada um tem a sua linha, suas coisas, segue o que quer, o que gosta.
01:09:35E eu, se posso estar aqui, a pessoa está aqui, até receber um som está aqui perto de mim.
01:09:39Que se eu puder fazer alguma coisa, segurar ou amparar qualquer coisa, eu faço.
01:09:42Mas não estou acreditando naquilo.
01:09:43Não aguenta aqui na minha cabeça, não está.
01:09:47No fenômeno da encantaria, a morte física não ocorre.
01:09:50Porque você trabalha com a ideia que numa situação limite, ao invés de morrer, de perder o corpo físico,
01:09:59aquela pessoa se encantou.
01:10:01Então tem muita gente que está viva, convive com a gente o tempo todo,
01:10:04mas que a rigor está aniquilada, morreu.
01:10:06E tem muito morto que está baixando nos seus cavalos de santa aí,
01:10:09dando consulta, interagindo, falando, dançando, bebendo, conversando.
01:10:13E estão vivos pra caramba, né?
01:10:15Então, nesse sentido, se a gente está falando de Clementina de Jesus
01:10:18num bar, num mutiquinho de Oswaldo Cruz,
01:10:22nessa concepção, é porque Clementina de Jesus está viva.
01:10:30Eu vi Santa Bárbara no céu
01:10:34A trovoada roncou lá no mar
01:11:05A trovoada roncou lá no céu
01:11:12Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no mar.
01:11:41Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu, a trovoada roncou lá no céu, a trovoada
01:11:43roncou lá no céu.
01:12:10Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu.
01:12:40Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu.
01:13:10Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu.
01:13:40Eu vi Santa Bárbara no céu.
01:13:41Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu.
01:13:47Eu vi Santa Bárbara no céu, a trovoada roncou lá no céu.
01:14:18Legenda Adriana Zanotto
01:14:36Legenda Adriana Zanotto
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