00:00Estamos de volta ao vivo nessa manhã de sábado, acompanhando os desdobramentos do conflito no Irã, Estados Unidos e Israel
00:09também, trazendo informações o tempo inteiro.
00:12E eu vou conversar ao vivo com a Ana Carolina Marçon, que é doutora em relações internacionais e já está
00:18aqui agora conectada com a gente.
00:21Muito obrigada, professora, pela disponibilidade, por estar aqui com a gente nessa manhã de sábado. Seja muito bem-vinda.
00:28Eu que agradeço o convite, Natália. Bom dia e é um prazer estar aqui.
00:35Professora, vamos lá. A gente, ao longo dessa última semana, estava acompanhando, olhos do mundo, ouvidos também atentos às conversas,
00:44às negociações que estavam acontecendo em Genebra.
00:48E, num tom de estamos dialogando, estamos, quem sabe, num caminho otimista para chegar a um acordo de paz.
00:57De quinta-feira para cá, o que mudou?
01:01Bom, o primeiro ponto que eu acho que nós precisamos ter em mente é que, mesmo acontecendo as negociações, as
01:08conversas em Genebra,
01:10o tom que estava por trás dessas conversas, ele já estava esquentando.
01:15Então, o Donald Trump já vinha fazendo uma série de ameaças, algumas veladas, outras mais abertas.
01:21Então, em determinado momento, ele, inclusive, falou que se o Irã não aceitasse os termos propostos pelos Estados Unidos,
01:30aconteceriam coisas mais sérias, nas próprias palavras do presidente, ele falou, coisas mais sérias iriam acontecer.
01:37E agora nós vemos que, na verdade, essa mudança não é bem uma mudança,
01:44é só o Donald Trump trazendo todas essas ameaças para o plano mais concreto.
01:50Então, inclusive, nós vemos aqui inúmeros líderes internacionais questionando se, de fato, o Donald Trump,
01:58ele queria mesmo a negociação, ou se, como você e o Renan trouxeram muito bem na entrevista com a professora
02:04Raquel,
02:05se ele, de fato, queria a negociação ou se foi só uma questão mais procedimental.
02:12Então, tentamos a negociação antes de, de fato, partir para a agressão.
02:16Então, eu não acredito que tenha acontecido nenhuma mudança.
02:20Na verdade, eu acho que é só a escalada dessa situação.
02:24Então, o presidente, ele já vinha dando esses indícios.
02:27No seu discurso, o Estado da União, o State of the Union, que aconteceu na terça-feira dessa semana,
02:33ele afirmou que iria se valer de ações mais duras contra o Irã.
02:38Então, na verdade, infelizmente, essa ação do Donald Trump não é nenhuma surpresa,
02:45justamente porque ele já vinha dando vários indícios de que faria isso.
02:50E outro ponto que nós não podemos esquecer, ele já atacou o Irã no ano passado.
02:54Então, ele já tinha mostrado, não só no Irã, mas também em outras ações que ele realizou durante o seu
03:01mandato,
03:01ele já vem demonstrando a sua vontade de fazer essas ações rápidas que forçam os outros países à mesa de
03:09negociação.
03:12Certo. Ana Carolina, eu vou incluir na conversa o Pablo Baller, que é meu parceiro aqui nesse plantão
03:19e também tem pontos para contribuir na conversa, Pablo.
03:22Bom dia, Ana. Inclusive, também a gente comentava, acho que dois blocos anteriores,
03:27isso que você acabou de falar, né, do tanto que muita gente estava apegada a informações oficiais
03:33de que iriam acontecer reuniões e que as tensões estavam diminuindo,
03:38só que aí Donald Trump surpreende, né?
03:41Então, por acaso, existiam até informações que vocês, né, que às vezes estão mais ligados mesmo
03:47nos bastidores, né, dessa geopolítica,
03:51de que ele poderia fazer o ataque, apesar de toda a calmaria que o governo americano
03:56queria passar para o mundo, né?
03:58E também de que forma que você vê que Trump está sendo verdadeiro, estrategista nos discursos dele.
04:07Eu sei que isso até demanda quase que uma análise nem psiquiátrica, psicológica sobre os discursos dele, né?
04:13Só que a gente também acaba reparando quando ele é mais franco ou não.
04:19Porque quando na Venezuela houve o ataque, ele chegou a dizer claramente que era sobre petróleo
04:25e que eles precisavam daquele petróleo.
04:27Agora, muita gente não fala sobre isso, né, de que eles querem, inclusive, impedir a China
04:32de comprar o petróleo do Irã.
04:34Mas, né, vocês têm informações também sobre isso, do interesse real dos Estados Unidos?
04:39Está por trás, Fábio, né?
04:41Bom, bom dia, Pablo.
04:43Vou começar, então, pela sua segunda pergunta.
04:48Nós vemos, analisando a retórica do presidente Trump, da própria porta-voz da Casa Branca,
04:54a Caroline Levitt, exatamente isso que você falou.
04:57Nós precisaríamos aqui fazer uma análise de discurso, olhar para como eles vêm manifestando esse interesse.
05:04Então, o primeiro ponto que eu acho que nós precisamos destacar é que não existe clareza
05:09em relação aos objetivos dos Estados Unidos no Irã.
05:12Isso fica muito claro nos discursos deles.
05:15Por quê?
05:15Eles afirmaram, após os ataques do ano passado, de junho do ano passado,
05:19que eles tinham obliterado o programa nuclear iraniano.
05:24E aí, agora, retomam essa retórica de que o Irã estaria construindo armas nucleares
05:31e que isso seria inaceitável.
05:32Então, nós já encontramos aqui uma contradição dentro da própria retórica deles.
05:38Já mostra que não necessariamente esse é o interesse.
05:42E aí, nós vimos que eles estenderam essa demanda de não ter armas nucleares aos mísseis balísticos.
05:50Então, que o Irã também não tivesse mísseis balísticos.
05:54Então, infelizmente, o que nós vemos é que, até mesmo dentro da própria administração Trump,
05:59não existe muita clareza em relação a esse interesse.
06:03O que eu acredito que seja o interesse?
06:06Eu acredito que os Estados Unidos...
06:08O Irã sempre foi um ponto problemático para os Estados Unidos no Oriente Médio.
06:13Então, os Estados Unidos têm interesse em impedir a criação de armas nucleares.
06:18Mas, eu também acredito que ele tenha sido bastante pressionado pelo seu principal aliado na região, o Israel.
06:25Então, nós vemos que Benjamin Netanyahu, ele, inclusive, fez uma reunião no início desse ano com o presidente Donald Trump,
06:31no qual ele pediu por mais dureza em relação ao Irã.
06:38Então, eu acredito que o Donald Trump, ele tenha se aproveitado desse ímpeto de Israel para trazer também essa agenda.
06:47A questão do petróleo, como você colocou, ela é essencial para os Estados Unidos.
06:52Então, nós temos agora uma administração que vai na contramão de todos os movimentos internacionais.
06:59Então, enquanto outros países buscam fontes de energia renováveis,
07:03o Donald Trump, ele retoma o uso massivo do petróleo.
07:07E nós sabemos que isso é preocupante, não por uma questão, além da questão ambiental, que é óbvia,
07:14nós temos a questão de que é um recurso escasso, é um recurso finito.
07:19Não é uma questão de ser, é uma questão de quando acabar, não tem como repor.
07:24Então, o Donald Trump, ele vai na contramão de tudo que está sendo feito.
07:27E como você trouxe aqui, o Irã, ele é um dos principais produtores e exportadores de petróleo.
07:34Então, existe sim essa vontade dos Estados Unidos de trazer mais petróleo para si,
07:41como nós vimos no caso da Venezuela.
07:43E a guerra comercial que ele enfrenta com a China.
07:47Então, a China já ascendeu como uma potência comercial internacional,
07:53já é uma das principais parceiras comerciais de boa parte dos países do mundo.
07:56Então, para os Estados Unidos, de alguma forma, tentar frear o avanço chinês, é muito importante.
08:03Mas, infelizmente, eu acredito que, e isso eu estava lendo agora, antes de entrar com vocês,
08:10um dos porta-vozes do Partido Democrata nos Estados Unidos,
08:14ele mesmo estava afirmando justamente nesse sentido que eles não têm muita certeza,
08:21muita clareza de o que a administração quer com isso.
08:25Então, ele, inclusive, falava que essa ação dos Estados Unidos está fadada ao fracasso.
08:33Por quê?
08:33Uma vez que eles não têm objetivos claros, eles não têm métricas claras de sucesso.
08:39Então, como que os Estados Unidos vão medir se foram bem-sucedidos ou não?
08:43Então, infelizmente, eu acredito que é preciso prestar atenção nessa retórica confusa do presidente Trump,
08:50mas, ao mesmo tempo, avaliar as suas ações.
08:54Então, o presidente, ele age de um jeito e ele traz uma outra fala.
09:00Então, precisamos prestar atenção nesses dois movimentos.
09:03E, professora, o que você acredita e aposta que vem a seguir?
09:09Uma guerra prolongada, que a gente está acompanhando o início,
09:14uma contenção rápida e o retorno ali à mesa de negociação.
09:20Queda do regime ainda é muito cedo para a gente considerar, né?
09:24Ah, certamente, Natália.
09:26Nós não podemos falar de uma queda de regime,
09:29porque, como a professora Raquel muito bem trouxe,
09:32não é só a queda do líder Ayatollah Khamenei,
09:36não é só a queda do presidente,
09:38mas tem toda uma estrutura bem estabelecida.
09:42E não foi estabelecida agora, já tem mais de 40 anos que está no poder.
09:46Então, afirmar da queda do regime é muito difícil.
09:50Mas também ressalto que o próprio presidente Trump,
09:56em algumas das suas postagens na rede True Social,
09:59ele chamou a população iraniana a retomar o poder.
10:03Então, nós vemos que existe também esse ímpeto,
10:07esse interesse da retirada dos líderes fundamentalistas do poder no Irã.
10:13E ele pede para a população tentar tomar o poder.
10:17Mas o que nós podemos esperar?
10:19Então, eu acredito que o primeiro ponto.
10:23É muito difícil, hoje, nós afirmarmos que será uma incursão longa
10:29ou vai ser mais curta, como aconteceu no caso da Ucrânia.
10:33Então, quando a guerra na Ucrânia eclodiu,
10:36muitos analistas afirmaram que seria uma guerra rápida
10:38e acabou de completar quatro anos de guerra.
10:41Mas o que, analisando esse histórico recente
10:45de intervenções dos Estados Unidos,
10:47do que eu acredito que aconteça, eu acredito que os Estados Unidos,
10:50ele fez esse ataque, foi uma demonstração de força,
10:55vai nessa linha de intervenções rápidas que o presidente Trump vem fazendo.
10:59Então, o presidente Trump, ele não tem interesse em uma guerra prolongada.
11:04Porque, inclusive, esse foi um dos pontos que ele mais bateu
11:08durante a sua campanha eleitoral.
11:10Então, quando estava concorrendo à presidência dos Estados Unidos,
11:14ele criticou bastante a ação dos Estados Unidos,
11:18na época do Joe Biden, no Afeganistão, no Iraque.
11:23Então, ações que duraram por um período prolongado.
11:26E nós vemos que, ano passado, no Irã, ele fez um ataque e se retirou.
11:31Depois, a guerra continuou por dez dias entre Israel e Irã,
11:34mas sem mais ações dos Estados Unidos.
11:37No caso da Venezuela, ficou um bom tempo realizando ataques
11:41nas águas internacionais e somente no dia 2 de janeiro desse ano
11:46que ele finalmente entrou, capturou o presidente Maduro,
11:50mas logo em seguida saiu e deixou para a população venezuelana,
11:54a estrutura governamental venezuelana se organizar.
11:59Então, analisando esse histórico recente,
12:01eu acredito que esse ataque tenha sido pontual.
12:04Os Estados Unidos, eles podem realizar outros ataques pontuais,
12:08mas eu não acredito que seja de interesse do presidente Trump
12:11fazer uma guerra de longa duração.
12:14E agora ele consegue fazer este discurso para a base dele,
12:20porque, inclusive, tinha sido cunhado a uma expressão nos Estados Unidos,
12:25taco, que é Trump always chickens out.
12:28Ou seja, o Donald Trump sempre dá para trás,
12:31ele nunca vai, nunca segue em frente com aquilo que ele se propõe.
12:35Então, nós vemos que o Donald Trump agora,
12:37ele tenta fazer esse, agradar a sua base,
12:41o discurso State of the Union deixou isso muito claro,
12:44mas eu acredito que ele não queira levar isso para um longo prazo.
12:50Outro ponto que eu acho importante nós termos em mente
12:52são os países no entorno afetados.
12:55Então, nós já vimos que teve o ataque no Bahrein,
12:59nós tivemos um ataque nos Emirados Árabes Unidos,
13:02tivemos ataque na 5ª Frota, que está localizada perto do Bahrein,
13:08a Oman também foi afetada.
13:10Então, bases militares dos Estados Unidos nesses países árabes
13:15estão sendo atacadas.
13:16Esses países, eles estão sentindo a sua soberania violada.
13:20Então, apesar de eu acreditar que os Estados Unidos
13:24não queiram prolongar a guerra,
13:27agora nós temos uma instabilidade regional muito grande,
13:31outros países envolvidos e que podem ser puxados
13:34para esse conflito com o Irã.
13:37Quero agradecer demais, Ana Carolina Marzon,
13:41pela participação ao vivo aqui,
13:43ela que é doutora em relações internacionais.
13:45Então, muito obrigada, sigamos em contato e até a próxima.
13:50Obrigado, Ana.
13:52Muito obrigada, um ótimo dia a todos.
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