00:00Vou convidar a Raquel Gontijo, professora de Relações Internacionais da PUC de Minas,
00:05para se conectar com a gente nesta manhã.
00:07A professora Raquel tem amplo conhecimento em guerras e vai ajudar a gente a analisar os ataques de hoje,
00:12de um ponto de vista estratégico, para os interesses dos Estados Unidos, de Israel e do outro lado, do Irã.
00:19Então, professora Raquel, muito obrigada por estar aqui com a gente.
00:22Bom dia, seja bem-vinda.
00:25Bom dia, Natália. Bom dia a todos que nos assistem.
00:28Professora, qual é o cálculo estratégico por trás dessa escolha?
00:33Porque em algum momento houve uma escolha por uma ação militar direta,
00:36em vez de continuar a tentativa da diplomacia, das conversas, no sentido de um acordo.
00:44Bom, acho que eu devo começar a resposta para essa pergunta dizendo que analisar as decisões do presidente Trump
00:49é sempre um grande desafio.
00:52Em primeiro lugar, é muito difícil ter clareza sobre quais são os objetivos, de fato, do presidente,
00:58porque ao longo de todas as suas falas, seus discursos, nas últimas semanas,
01:02na verdade, ao longo de todo o seu mandato presidencial,
01:05não fica claro exatamente qual é o propósito nessa interação com o Irã.
01:09Então, se por um lado, como eu estava acompanhando a cobertura de vocês,
01:13vocês já trataram muito bem disso aqui no canal,
01:15se por um lado existe essa preocupação com o programa nuclear iraniano,
01:20se o objetivo era, de fato, desmantelar esse programa,
01:24reverter qualquer tipo de iniciativa e avanço do Irã para a produção de uma bomba nuclear,
01:31o melhor caminho para isso sempre foi a diplomacia.
01:34Então, a gente deve se recordar que lá em 2015,
01:37houve a negociação de um acordo muito bem sucedido envolvendo Estados Unidos e Irã e outros países,
01:42e foi um acordo muito bem sucedido para reverter várias ações nucleares do Irã
01:46no desenvolvimento da sua tecnologia nuclear.
01:49Em 2018, o presidente Trump, no seu primeiro mandato presidencial,
01:53decidiu sair desse acordo,
01:55e foi isso que deu um novo ímpeto para o programa nuclear iraniano
01:59para avançar novamente com mais finalidades militares.
02:03E o que a gente vê ao longo de toda a história nuclear
02:05é que sempre que a gente tem algum país com essa intenção militar,
02:09para a diplomacia é o melhor canal.
02:11Então, dar garantias, reduzir as sanções econômicas,
02:15são possibilidades de diálogo, de negociação,
02:18que realmente trazem bons resultados.
02:20Mas nesse momento, nesse ataque que a gente viu hoje,
02:24parece que a questão nuclear, apesar de estar no leque de motivações,
02:29talvez não tenha sido a única motivação, nem a principal motivação.
02:32Então, a gente viu hoje o presidente Trump já falando mais explicitamente
02:37sobre mudança de regime.
02:39Que é uma coisa que ele vinha falando já há algum tempo.
02:41Quando os protestos dentro do Irã se intensificaram,
02:44algumas semanas, o presidente Trump indicou
02:47podem continuar fazendo os protestos porque a ajuda vai chegar.
02:51E naquele momento ele recuou.
02:52Então, parece que agora essa ideia de mudança de regime
02:55vem mais forte.
02:57Mas, de novo, mudança de regime em um país como o Irã
03:00não é uma coisa simples.
03:01A gente não está falando só de retirar o Ayatollah.
03:04Existe uma estrutura muito grande ali das forças revolucionárias
03:08Então, não está claro nesse momento exatamente quais são as intenções,
03:13qual é o objetivo militar e o objetivo político
03:16que os Estados Unidos pretendem alcançar com essa operação militar.
03:21Renan Souza vai trazer o ponto dele para a conversa direto de Abu Dhabi.
03:27Professora, como você bem colocou,
03:30os motivos do presidente Donald Trump são difusos.
03:33Ele começou no mês passado dizendo que seria em apoio aos manifestantes
03:38que foram às ruas devido à situação econômica do Irã,
03:42que é justamente pressionada pelas sanções econômicas dos Estados Unidos.
03:47Ele foi mudando armas nucleares e chegou até o discurso de Estado da União
03:52essa semana dizendo que o Irã estaria desenvolvendo mísseis capazes
03:58de atingir os Estados Unidos, algo que a comunidade de inteligência
04:01diz que isso não seria possível, pelo menos nos próximos 10 anos.
04:04Agora, eu queria entender se, na visão da senhora,
04:07a diplomacia talvez teria uma chance.
04:10A gente sempre torce pela diplomacia,
04:12mas devido ao tamanho, à diferença entre os dois lados.
04:16Se a gente considerar o presidente Donald Trump
04:19se retirou do acordo nuclear com o Irã,
04:22que foi negociado pelo ex-presidente Barack Obama,
04:24o Irã foi bombardeado no ano passado pelos Estados Unidos.
04:28Então, havia um grau muito alto de desconfiança dos dois lados.
04:33Então, a diplomacia conseguiria florescer nesse campo
04:38ou o presidente Donald Trump talvez nunca quis diplomacia
04:41e sempre quis objetivos militares
04:43e só seguiu a diplomacia inicial para seguir um rito,
04:48por assim dizer, e não ir para o lado militar, professora.
04:53Que pergunta desafiadora, né?
04:55O que quer o presidente Trump?
04:56Vou começar pela parte mais fácil.
04:59A diplomacia teria uma chance de trazer bons resultados?
05:02Sim, se houver, de fato, demonstrações de boa vontade.
05:05O próprio governo iraniano já é um gato escaldado, por assim dizer, né?
05:11Então, a gente precisaria ver demonstrações de boa vontade,
05:14de comprometimento por parte dos Estados Unidos
05:16para a redução das sanções, por exemplo.
05:19Para que houvesse ali uma iniciativa, para que a coisa avançasse.
05:23Para o Irã, a solução diplomática, ela é também a mais interessante.
05:27O Irã sabe que existe uma simetria muito grande de poder
05:30e que se essa guerra se estender, para o Irã, a situação é muito ruim,
05:34inclusive porque eles já vêm fragilizados domesticamente,
05:38tanto do ponto de vista do apoio popular,
05:39que vem sendo muito tensionado nos últimos tempos,
05:43quanto pela situação econômica muito frágil.
05:46Então, para o Irã, a solução diplomática, ela é interessante.
05:50Seria possível?
05:51Sim, seria possível.
05:52Apesar de haver desconfiança,
05:54caso os Estados Unidos estivessem dispostos a ir reduzindo as sanções,
05:58e a gente poderia pensar em um calendário de redução de sanções,
06:02nós temos instrumentos internacionais,
06:05principalmente por meio da Agência Internacional de Energia Atômica,
06:08para fazer o acompanhamento técnico do programa nuclear iraniano
06:12e acompanhar para que, de fato, as instalações
06:14estejam sob vigilância e monitoramento internacional,
06:17sem desvio de material, sem avanços para a produção da bomba.
06:22Mas isso depende de uma boa vontade dos Estados Unidos.
06:25E o que a gente viu nos últimos dias foi,
06:27na quinta-feira, as negociações acontecendo,
06:30as negociações se encerraram na quinta-feira,
06:33com um indicativo de que elas seriam retomadas,
06:35e hoje a gente vê esse ataque militar.
06:38Então, para o Irã,
06:39agora a gente precisaria de uma demonstração de boa vontade dos Estados Unidos,
06:43muito mais intensa,
06:44porque os Estados Unidos romperam essa ponte de diálogo nesse momento.
06:50Raquel Gontijo,
06:51professora de Relações Internacionais da PUC Minas,
06:53quero agradecer demais sua participação ao vivo nessa manhã de sábado.
06:58Muito obrigada, até a próxima.
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