00:00A conversa agora é com o especialista em guerra, Robson Farinasso, que vai explicar se há risco desses conflitos se
00:06estenderem, os efeitos regionais também.
00:08Robson, comandante já está aqui no telão ao vivo para conversar com a gente.
00:13Muito bom dia, se é que dá para a gente falar num bom dia com as notícias que estão chegando,
00:18né, comandante? Bem-vindo, obrigada pela participação.
00:21Bom dia, Natália, muito obrigado pelo convite.
00:24A gente que agradece e vou deixar aqui o convite também para o Renan Souza voltar para participar dessa conversa
00:31assim que ele puder, ele que está lá direto de Abu Dhabi acompanhando tudo isso.
00:36Comandante, do ponto de vista militar, estritamente militar, eu queria saber da leitura do senhor, o que esse desenho inicial
00:44de operação revela sobre o objetivo central, o que está em jogo, qual que é o objetivo de Washington e
00:51de Tel Aviv?
00:52É uma campanha de punição limitada, é dar o start para que a população assuma esse controle, uma revolução, ou
01:01é o primeiro movimento de uma guerra que pode ser mais longa contra o regime iraniano?
01:08Natália, o objetivo a gente consegue delinear até porque é uma exigência do Donald Trump, né, no caso dele, ele
01:14quer o fim do programa nuclear iraniano, o fim do programa de mísseis do Irã, que é a grande força
01:20deles, o programa de mísseis aí de longo alcance,
01:24e também o apoio, o fim do apoio a milícias como o Hasbolá no Líbano, o Qatai Hasbolá no Iraque,
01:32né, o Ansarulá no Iêmen, isso são os objetivos dos Estados Unidos e de Israel.
01:39O objetivo do Irã, lógico, é se manter, né, manter o regime.
01:43Então, assim, isso é bastante claro, o que é claro são os danos, né, o que foi que aconteceu em
01:49cada ataque aí, porque os ataques foram mútuos, né, o Irã também respondeu.
01:57Certo. E poucas horas, professor, depois dos primeiros ataques, ó, o Renan se juntou a gente aqui, então antes de
02:03eu emendar minha pergunta, já quero saber se o Renan tem mais alguma atualização e que ponto ele quer trazer
02:08para a nossa conversa, Renan.
02:11Nath, eu queria aproveitar o Robinson aqui com a gente para pensar em qual pode ser a resposta coletiva da
02:18região, né, porque o Irã, nessa primeira resposta, atacou aqui os Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Qatar também.
02:26Quais alternativas sobram para os países do Golfo também que podem se sentir pressionados, né, já que essas nações são
02:34ricas em petróleo, exploram petróleo daqui,
02:36e essa é uma fonte dessa região que não pode conviver com uma instabilidade de um conflito.
02:43Então, qual é a sua análise sobre os países da região que estão sofrendo essas retaliações?
02:50Bom, a Jordânia a gente sabe que é um aliado tradicional dos Estados Unidos, né, o reino depende dos americanos
02:58e israelenses para sobrevivência, então a gente já sabe qual vai ser o alinhamento.
03:01A país que a gente tem dúvidas, como por exemplo o caso da Arábia Saudita, que ela já tem problemas
03:06grandes para enfrentar.
03:08O caso do Qatar é mais complexo ainda, as bases americanas do Qatar foram atacadas.
03:13Muito bem, o Qatar vai retaliar?
03:16Aí vai ficar a pergunta na sociedade, por que nós estamos retaliando contra os iranianos e não retaliamos quando os
03:22israelenses atacaram alguns meses atrás?
03:24Essa é uma dúvida. Um país que certamente vai se alinhar com os Estados Unidos, a possibilidade é muito grande
03:30ali naquela região,
03:31são os Emirados Árabes Unidos, que têm forças armadas bastante expressivas, alguma experiência internacional em operações no Iêmen e na
03:40África,
03:41e podem aí, lógico, causar danos significativos ao Irã.
03:46Esse é um painel geral, né, tem outros países aí que a gente não sabe para que lado vão, como
03:50o Iraque, Turquia, etc.
03:55Professor Robson, queria entender melhor as vias desses ataques, né, porque por parte do Irã, essas retaliações acontecem com o
04:04lançamento de mísseis, né,
04:06e ativação também de defesas aéreas. Estados Unidos operando por via aérea, via marítima, ajuda a gente a entender o
04:13que já sabemos, né, da forma como isso está acontecendo.
04:17Pois é, Natália, olha só, os Estados Unidos reuniu uma força aí, uma força armada significativa, mais ou menos um
04:23terço da marinha americana se encontra mobilizada naquela região, né,
04:27um grande efetivo da força aérea dos Estados Unidos, principalmente reabastecedores, que são aeronaves que garantem um longo alcance à
04:35força aérea americana,
04:37mas provavelmente alguns dos ataques serão feitos de submarinos, por quê? Porque você tem, assim, uma garantia muito grande que
04:45não vai ser retalhada,
04:47você não consegue achar um submarino no mar, daí ele faz o lançamento dos seus mísseis de cruzeiro e em
04:52seguida ele desaparece, ele sai da posição.
04:55Então, o ataque inicial americano pode ser nisso. O que eles devem estar procurando?
04:59Até onde a gente sabe, houve uma tentativa de decapitação das lideranças do regime ontem, nós não sabemos o resultado,
05:08né,
05:08mas o lógico, em termos militares, seria destruir, em primeiro momento, as defesas aéreas do Irã.
05:16Destruir as bases de lançamentos de mísseis é uma coisa mais difícil, vou te explicar por quê.
05:21O Irã é um país de 1 milhão e 500 mil quilômetros quadrados, mais ou menos, o tamanho da nossa
05:25Amazônia.
05:25A maior parte dessas bases de lançamentos de mísseis do Irã são móveis, são móveis, são em cima de caminhões,
05:32etc.
05:32Então, é muito difícil você garantir que você conseguiu neutralizar todas as bases.
05:37Então, acho que o primeiro momento, parece que falhou aí as tentativas de decapitação,
05:42eles devem investir aí na destruição das defesas aéreas do Irã.
05:46Só que, nesse tempo, o Irã pode reagir, como parece que tem acontecido, né?
05:52Renan, mais um ponto seu, por favor.
05:56Sim, Robinson, na sua avaliação, a gente está falando dessa operação dos Estados Unidos em relação ao Irã.
06:03Obviamente, não é igual ao que aconteceu na Venezuela.
06:05O Irã tem uma capacidade militar muito maior e de resposta maior.
06:10Os Estados Unidos disseram que, na quinta-feira, o vice-presidente dos Estados Unidos, J.D. Vance,
06:15disse que não quer se arrastar em guerras longas, que vai durar ali semanas.
06:19Mas qual é o fôlego do Irã para continuar com essa guerra e também dos Estados Unidos?
06:25A gente tem que pensar que o presidente Donald Trump possivelmente não pediu a autorização do Congresso
06:30para realizar esse ataque.
06:31Ele pode sofrer pressões internas, ano eleitoral nos Estados Unidos.
06:35Então, qual é o fôlego que você analisa num conflito como esse, dos dois lados?
06:41Olha, vamos falar primeiro pelo lado do Irã e depois vou falar pelos Estados Unidos.
06:46Nós não sabemos quantos mísseis o Irã tem.
06:49Ninguém sabe.
06:50Há muita especulação a respeito disso.
06:52Provavelmente, há uma suspeita muito grande de que a China teria fornecido ao Irã
06:59centenas, talvez milhares de toneladas de perclorato de sódio.
07:04Por que perclorato de sódio?
07:06Porque é a base para perclorato de amônia, que o Irã não consegue comprar no mercado internacional
07:13porque está sob sanções, mas com o perclorato de sódio.
07:17Eles fazem perclorato de amônia e daí tem combustível para fulhetes.
07:20E o resto é semântica.
07:22A China teria fornecido também sistemas giroscópicos para o Irã, que são sistemas de guiagem alternativa.
07:29A guiagem primária de um míssil normalmente é satelital, mas ele tem um sistema de GPS
07:35que dá redundância à guiagem.
07:38Se você perde o sinal do satélite, você continua com a guiagem do inercial e você consegue atingir o seu
07:45alto.
07:46A China teria fornecido uma grande quantidade de sistemas giroscópicos para o Irã.
07:50A China também está dando apoio do sistema satelital Beidu para o Irã.
07:55O Irã substituiu o GPS americano pelo Beidu chinês e GLONASS russo.
08:00Então, assim, o Irã de hoje é um tanto quanto diferente daquele Irã da Guerra dos Doze Dias.
08:07Ele tem uma capacidade de resposta tecnologicamente mais aprimorada do que aquela de alguns meses atrás.
08:13Mas nós não sabemos qual é a extensão dessa capacidade.
08:17Se eles receberam mísseis da China, podem ter recebido também, além dos insumos, ter recebido os mísseis prontos.
08:23Essa é a questão do Irã.
08:26A questão americana é um pouco mais complexa.
08:29Por quê?
08:31Há preocupações, inclusive o secretário da junta de chefes de Estado maior foi demitido esses dias.
08:38Era um almirante de três estrelas.
08:40Ele foi demitido porque parece que ele tinha discordâncias com relação a Donald Trump.
08:44E por que essas discordâncias?
08:46Porque o arsenal americano já está bastante depalperado em virtude da guerra da Ucrânia, da guerra contra o Ansarulá no
08:55Iêmen.
08:56E os americanos precisam ter uma reserva de contingência caso tenha um problema em Taiwan, por exemplo, ou em algum
09:03outro ponto do mundo.
09:04Por outro lado também, vocês viram o caso do navio Gerald Ford.
09:09O Ford está há meses no mar.
09:10Teve um problema sério esses dias aí com o seu sistema sanitário aí e que a gente tenha suspeito que
09:17pode ter sido uma sabotagem da própria tripulação porque eles estão há muito tempo no mar.
09:21Esses portaviões, toda essa mobilização da esquadra, ela mexeu muito com os estaleiros nos Estados Unidos.
09:26Por quê?
09:27Há uma fila, há uma fila, toda marinha sempre tem uma fila de manutenção para os seus navios.
09:33Como toda marinha está sendo, um terço da marinha está sendo empregada no Oriente Médio, essa fila se tumultou.
09:39Então a marinha americana, ela não está muito segura aí da sua capacidade logística e sim, estendida no tempo.
09:45O primeiro ataque eles fazem e ninguém tem dúvida disso.
09:48Uma semana de ataque pode até fazer também, é bastante possível.
09:52Mas a gente não sabe se essa guerra vai se estender.
09:54O problema todo é esse.
09:56Se o Irã souber trabalhar a sua estratégia, ele coloca o tempo a seu favor.
10:00Em resumo, é isso daí.
10:03Professor Robson e Renan, uma informação que a gente recebe aqui é de que teria havido um ataque a uma
10:10base italiana também.
10:12E a primeira-ministra, Giorgia Meloni, dizendo que eles não foram avisados previamente também sobre a ação de Israel e
10:20Estados Unidos.
10:20Então gostaria de saber se o Renan também tem informações sobre isso aí.
10:25E do comandante Robson, qual que é a dimensão, análise que o senhor faz desse ataque, incluindo então uma base
10:32italiana no Kuwait?
10:36Eu respondo primeiro, Renan?
10:40Professor, eu respondo primeiro.
10:42Olha só, o que pode acontecer é o seguinte.
10:44Se você está colocando Itália nessa equação, você está chamando a OTAN.
10:49Então pode ser que se queira atrair a OTAN para esse conflito.
10:54Mas a gente não pode esquecer uma coisa, né, Natália e Renan?
10:58A OTAN já está envolvida até o limite na guerra da Ucrânia.
11:02É uma verdade.
11:03Todos os arsenais da OTAN estão comprometidos, principalmente aqueles de defesas aéreas, estão comprometidos na guerra da Ucrânia.
11:10Então é uma coisa meio complicada.
11:13O que a gente não sabe, o que é mais difícil avaliar nesse momento, é o apetite dessas nações.
11:19Sejam as monarquias do Golfo, sejam os países da OTAN, o apetite para se envolver em mais um conflito.
11:25Nós já temos um conflito avassalador, que é a Ucrânia, que mexe com toda a economia do mundo.
11:30Agora, nós vamos querer mais U agora?
11:31E se o Estreito de Hormuz fechar?
11:33Como é que fica, por exemplo, a economia do Japão, que é totalmente dependente da importação de óleo no Oriente
11:39Médio?
11:39Então, assim, eu não sei se os países europeus vão ter apetite para entrar nessa guerra, ou se vão olhar
11:46para o lado, né?
11:48Passar a palavra, muito obrigada, professor, pela ponderação até agora.
11:53E passar a palavra aqui para o Renan, que eu sei que está ouvindo a gente, apurando.
11:57Quero saber das atualizações, Renan.
12:01Tudo ao mesmo tempo aqui, Nath.
12:03Checando o fonte, tudo ao mesmo tempo.
12:04Pois é, o que o professor falou faz muito sentido.
12:07Porque quando a gente já olha a resposta da Europa, essa é uma resposta mista, né?
12:12O presidente da França, por exemplo, ele adotou um tom mais de cautela, né?
12:17Não mostrando um apoio muito claro, né?
12:19E pedindo que esse conflito desescale, né?
12:23E pediu para que pare também.
12:25O primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez, se mostrou totalmente contrário a essa ação dos Estados Unidos.
12:32Lembrando que a Espanha também faz parte da OTAN.
12:35Agora, quando a gente olha para o Canadá, Mark Carney, o primeiro-ministro canadense, se colocou a favor dessa ação
12:42dos Estados Unidos.
12:43Há uma certa divisão, como a gente pode perceber, entre alguns líderes globais, né?
12:49Sobre se essa ação deveria acontecer ou não.
12:52Mas acho que esse é o grande risco, né?
12:54De que uma ação como essa leve outros países para uma guerra muito maior.
12:59Essa resposta inicial do Irã já deixou isso muito claro, né?
13:04Atacando o Bahrein, Arábia Saudita, aqui a Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos.
13:09Então, países da região já estão sendo alvo e podem também responder a esse ataque iraniano, né?
13:17E essa é a primeira onda de resposta do Irã.
13:20A gente precisa entender ainda nas próximas horas como o Irã vai continuar essa resposta, né?
13:25Então, acho que há esse ponto de interrogação muito grande neste momento sobre entender os próximos passos
13:33e quem está de qual lado.
13:35E só uma informação importante aqui.
13:37Eu falava agora há pouco sobre explosões em Dubai.
13:40Em Dubai foram ouvidas cinco explosões agora há pouco em Dubai.
13:44Não está claro, como eu falava há pouco, se isso é um míssel,
13:49mas muito provavelmente é o sistema de interceptação de mísseis
13:53que causa esse barulho, né?
13:55Esse estrondo muito forte.
13:57Então, é importante essa informação que chegou agora há pouco, Nath.
14:02Muito obrigada pela atualização e trago mais uma, né?
14:05Que é a manifestação aqui do Brasil, através do Ministério das Relações Exteriores,
14:11condenando e expressando grave preocupação com os ataques realizados hoje por Estados Unidos e Israel contra Alvos no Irã.
14:17E dizendo que o Brasil apela a todas as partes que respeitem o direito internacional
14:22e exerçam máxima contenção de maneira a evitar a escalada de hostilidades
14:27e assegurar a proteção de civis e da infraestrutura civil.
14:31Professor Robson Farinaz, é de fato o tipo de resposta que a gente esperava do governo brasileiro, né?
14:38Da manifestação brasileira, até porque a gente tem um encontro previsto para março agora com o presidente Donald Trump, né?
14:48Exatamente, Natália.
14:49Assim, a posição do Brasil é sempre uma posição muito equilibrada com relação a toda essa situação de conflitos internacionais.
14:55Eu preciso lembrar uma coisa importante.
14:57Vocês estavam falando dos ataques às bases italianas aí,
15:01que eu acredito que tenham sido no Iraque,
15:05mas uma coisa interessante que a gente tem que notar.
15:08Como houve esse ataque aos Emirados,
15:11provavelmente toda a malha aeronáutica do Oriente Médio vai ser comprometida e vai virar o caos.
15:17Por quê?
15:17Porque Dubai é um hub internacional importantíssimo para quem vai para a China,
15:21para quem vai para a Rússia, para quem vai para a Índia, para quem vai para o Japão, etc.
15:24Então, nós podemos esperar um caos aeronáutico.
15:27Isso pode, além das consequências econômicas,
15:30nós podemos esperar um caos aeronáutico em virtude, se houver o fechamento de Dubai.
15:37Além do que a economia dos Emirados vão sofrer bastante,
15:40porque eles têm um turismo muito forte ali.
15:43Quer dizer, você vê como é que o Dominó, as peças vão caindo no Dominó, né?
15:49Exatamente.
15:50Vamos acompanhando, então.
15:52E eu quero agradecer demais, Robson Marinasso, especialista em guerra,
15:56pela participação ao vivo com a gente nesta manhã.
15:58Muito obrigada e bom dia por aí, comandante.
16:02Bom dia, um grande abraço para vocês.
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