00:00E sobre o impacto no comércio, eu vou chamar agora ao vivo aqui o Roberto Abdenur, que é ex-embaixador
00:07na China, Alemanha e Estados Unidos.
00:11Tudo bem? Muito obrigada, boa tarde. Já está aqui conectado comigo no telão.
00:17Sim.
00:19Está me escutando bem, né?
00:21Sim, sim.
00:22Ah, que bom. Obrigada por atender a gente nessa tarde de sábado, um sábado bem movimentado, embaixador.
00:29Foi muito movimentado.
00:31E aí eu queria ouvir o senhor sobre o que se espera daqui para frente de retaliação por parte do
00:39Irã, ela já aconteceu em certa parte,
00:43tende a permanecer calibrada, tem um risco de uma escalada nas próximas horas?
00:51Você me permite fazer um breve histórico.
00:55A hostilidade recíproca entre Irã e Estados Unidos vem de muito longe.
01:01Nos anos 1950, o chá do Irã não tinha poderes, era apenas um chefe de Estado.
01:13E o governante, o primeiro-ministro, Mossadegh, em 1951, procedeu à nacionalização do petróleo,
01:22o que suscitou uma brutal reação dos Estados Unidos e da Inglaterra na época.
01:28Em 1953, americanos e ingleses se juntaram para fomentar um golpe que derrubou Mossadegh
01:36e passou a dar ao chá poderes absolutos, com os quais ele conduziu o Irã durante décadas,
01:45submisso aos Estados Unidos, um governo laico, portanto distante da maioria silenciosa
01:53e muito subserviente ao Ocidente, o que provocou uma reação muito forte,
01:59levando à Revolução Islâmica e terminou, em 1979, com a criação da atual República Islâmica do Irã,
02:09de que estamos falando.
02:12Esses fatos tiveram desdobramentos posteriores.
02:18E hoje, eu posso dizer a você que eu tive certo mal de contato com esses assuntos.
02:22Em 1979, o Brasil dependia em 85% do seu consumo de petróleo de importações
02:30que vinham, sobretudo, do Iraque, da Arábia Saudita, em menor escala do próprio Irã.
02:36Com o conflito, nessa segunda crise do petróleo, o Brasil ficou ameaçado de parar
02:45pela falta física de petróleo, pelo desabastecimento de petróleo.
02:50Eu cuidava de petróleo na assessoria do então chanceler,
02:54e um dia eu recebi um telefonema do então presidente da Petrobras,
02:58que se instiguiu aqui o EC, dizendo,
02:59Abdenou, precisamos ir à Venezuela e ao México com urgência.
03:04Eu digo, por quê? Porque não temos mais petróleo do Iraque,
03:09da Arábia Saudita, precisamos do petróleo dos nossos vizinhos.
03:12No dia seguinte, o EC embarcou num voo Rio, Brasília, Caracas.
03:19Eu entrei no voo em Brasília e desembarcamos em Caracas
03:23e conseguimos uma atitude muito generosa dos venezuelanos
03:29de darem 40, 50 mil barris por dia ao Brasil, sem maiores condições.
03:34Depois repetimos isso no México.
03:36Então, eu vivi naquele momento, por assim dizer, na pele,
03:40as dificuldades criadas pelas tensões entre Irã e Estados Unidos,
03:47entre Irã e países ocidentais.
03:48Muitos anos depois, em 2003, eu era embaixador em Viena
03:54e era o representante do Brasil perante a Agência Atômica Internacional.
03:59E foi quando surgiram, pela primeira vez, revelações
04:02de que o Irã tinha, até então, conduzido um programa nuclear secreto,
04:07clandestino, contra suas obrigações perante o Tratado de Não-Bodiferação,
04:13escamoteando isso da comunidade internacional.
04:16E foi muito interessante, porque eu era, na época, presidente do chamado Grupo dos 77,
04:22o Grupo de Países em Desenvolvimento, nos principais foros internacionais.
04:26E o simpático colega meu iraniano, chamado Ali Saler,
04:32veio me procurar para pedir ajuda do Brasil e dos 77,
04:37em apoio ao Irã.
04:39Eu disse, olha, não posso estar, esse é um assunto muito delicado,
04:42não é um assunto de ordem econômica, vai bater na porta dos não alinhados.
04:46E assim foi.
04:47Mas o Saler tinha estudado física nuclear nos Estados Unidos, na época do Shah.
04:54Então, o programa nuclear iraniano, que agora se tornou uma ameaça,
04:57começou a regar mais cedo no processo, décadas atrás,
05:01ainda na época do Shah, com apoio americano.
05:04Em suma, então, eu vivi em duas ocasiões muito diferentes,
05:07por assim dizer, na pele, o drama desses problemas
05:12que datam de décadas entre o Irã e os Estados Unidos,
05:17entre o Irã e Israel, entre o Irã e parte do mundo ocidental.
05:21Sr. Abdenur, muito obrigada, inclusive, por compartilhar essa experiência toda,
05:25trazer esse contexto para a gente.
05:28E aí, olhando para a situação agora, o senhor contou essa história
05:32de uma preocupação muito grande com a escassez do petróleo,
05:36que aconteceu nessa outra ocasião, ali no fim dos anos 1970,
05:41o fechamento do Estreito de Hormuz acontecendo agora,
05:45no mundo atual de 2026, tem o mesmo impacto?
05:49Porque a gente não tem uma escassez de petróleo,
05:53tem uma oferta para aguentar um tempo desse fechamento, não?
05:56Sim, há muito petróleo armazenado no mundo afora,
06:00mas o fechamento de Hormuz, por onde passa 20% do fluxo de petróleo
06:09comercializado no mundo, vai elevar brutalmente os preços,
06:13causando uma inflação global e uma possível recessão também global,
06:20pelo menos em muitos países.
06:22Então, o Brasil não será mais afetado pela falta de petróleo,
06:28mas poderá ser afetado econômica, financeiramente e comercialmente,
06:33pelo impacto brutal que uma alta de petróleo tem
06:37sobre toda a economia internacional e sobre a nossa própria.
06:40Não nos faltará petróleo, porque nós produzimos hoje 4 milhões e 300 mil
06:45e exportamos 1 milhão e 700, 1 milhão e 800 mil barris por dia.
06:52Então, o nosso problema antigamente era escassez de petróleo, agora não é isso.
06:57O nosso problema agora é uma elevação exponencial do preço do petróleo
07:03com impacto muito negativo sobre toda a economia internacional.
07:08E a experiência do senhor, e olhando, claro, para esse conflito,
07:12que tem muitos pontos ali imprevisíveis, como é que o senhor vê o andamento aí
07:18nas próximas horas e a abertura dos mercados globais na segunda-feira?
07:23Olha, pelo que eu tenho visto no noticiário internacional,
07:26os mercados de segunda-feira vão abrir muito nervosos.
07:29Agora, um dado importante é o seguinte, até onde o Irã será capaz de resistir,
07:37de contra-atacar? Ele tem sido eficaz agora, porque lançou mísseis
07:42com resultados ainda não totalmente conhecidos, contra abates americanas
07:46e instituições, entidades civis, em países vizinhos onde há abates americanas,
07:52Catar, Kuwait, Emirados, Arábia Saudita.
07:56Não se sabe ainda que danos os mísseis iranianos provocaram
08:00nas bases americanas nesses países ou nessas cidades como tal.
08:06Mas isso é coisa séria.
08:09Agora, se os mísseis iranianos forem silenciados em mais algumas horas,
08:18em mais de um dia, isso significa que a resistência ou a contra-ofensiva do Irã
08:24terá terminado e aí se aguardará os desdobramentos que podem ocorrer
08:31no plano interno do Irã.
08:33O Trump e os americanos estão exortando o povo iraniano a se erguer contra o regime.
08:40Eu não acredito numa mudança de regime, porque regimes muito autoritários,
08:46ditatoriais como esses, têm uma força de controle social, de repressão muito grande.
08:52E a guarda revolucionária, que é a maior força militar no Irã,
08:59é um sustentáculo do regime.
09:01E mesmo que tenham matado o Khamenei, o Larijani e outros,
09:08a guarda ainda estará de pé e possivelmente sobreviverá e assumirá o poder.
09:16E não será um governo disposto à conciliação.
09:21Então, temos que ver até que ponto vai a resistência contra a ofensiva iraniana
09:27e que impactos internos pode haver no Irã de toda essa luta.
09:33Voltar para a mesa de negociação em busca de um acordo,
09:37o senhor descartaria nesse momento com a situação que a gente está vendo, né?
09:39Totalmente. Depois disso, descarto totalmente, absolutamente.
09:43A melhor hipótese do ponto de vista dos americanos seria uma mudança de regime.
09:48Mas, como eu disse e reitero, acho isso muito difícil, muito improvável.
09:52Certo. E o senhor vê a possibilidade de o conflito escalar
09:58e de outros países do Golfo serem arrastados, puxados para dentro do conflito, embaixador?
10:05Não. Esses países estão sendo arrastados na medida em que o contra-ataque iraniano os está atingindo.
10:13Mas não são países que tenham dispositivos militares ofensivos capazes de agredir o Irã.
10:22A agressão ao Irã está e continuará nas mãos dos Estados Unidos e de Israel.
10:28Não nas mãos dos países que estão sendo alvejados pelos mísseis iranianos.
10:34Quero agradecer, senhor Roberto Abdenur, ex-embaixador na China, Alemanha e Estados Unidos,
10:40pela participação e pela riqueza de informações aqui que ele compartilhou com a gente ao vivo nessa tarde.
10:46Muito obrigada e boa semana.
10:48Obrigado a vocês.
10:49Tchau.
10:49Até a próxima.
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