00:00A gente ainda segue no tema falando desse mundo agro, porque a definição das cotas chinesas para a carne provocou
00:06uma corrida de importadores e pressionou os preços no Brasil, evidenciando a forte dependência do setor em relação à demanda
00:14de Pequim.
00:15Quando a China acelera as compras, a rouba sobe com força. Quando reduz o ritmo, o mercado reage de imediato.
00:23Sobre esse assunto, sobre esse tema, converso agora com o pesquisador do FGV Agro, Felipe Serigatti. Felipe, muito bom dia.
00:31Seja bem-vindo aqui ao Prémarket.
00:35Bom dia, Soraya. Bom dia, Mariana. Muito obrigado pelo convite.
00:38Bom, Felipe, só para a gente situar aqui a nossa audiência, o governo chinês colocou uma cota de 1,1
00:48milhão de toneladas fixada no governo do gigante asiático,
00:53que pode, inclusive, segundo alguns analistas, ser superada antes mesmo do terceiro trimestre agora desse ano.
01:01E a gente lembra que a salvaguarda chinesa, ela tem e demonstra uma certa proteção, um zelo pelo produtor interno,
01:10mas essas condições de implementação dessas salvaguardas podem levar, inclusive, a uma ausência da carne brasileira em território chinês.
01:20Queria que você trouxesse um pouco da visão, da tua visão, dentro desse processo, sua avaliação,
01:26e se entender que o Brasil precisa negociar essas salvaguardas com os chineses.
01:33Maravilha, então. Com certeza precisa negociar.
01:36Então, qual que é o contexto?
01:37Se a gente for pegar os números do ano passado como referência,
01:40o Brasil exportou 1,747 milhão de toneladas de carne bovina para a China.
01:49A cota que a China estabeleceu para o Brasil no final do ano passado de 1,1 milhão de toneladas,
01:57se for comparar com o ano passado, a gente atingiria essa cota em agosto.
02:01Então, se agora em 26, o mesmo ritmo de embarque que nós fizemos ano passado,
02:07o Brasil atingiria a cota em agosto.
02:10E aí, para atingir essa cota, qualquer container, qualquer tonelada de carne adicional
02:17vai sofrer uma tributação bem maior, o que tiraria bastante a competitividade da carne brasileira
02:24junto às demais proteínas da China.
02:28E esse ponto é importante.
02:29A cota, a China estabeleceu cotas não contra o Brasil.
02:35Todos os demais exportadores de carne bovina da China, para a China,
02:42ficaram ali e receberam uma cota.
02:45Então, a China está fazendo isso justamente para tentar proteger o setor de proteína animal local.
02:52Só para vocês terem como uma referência,
02:55há preços de 31 de dezembro do ano passado, ou seja, no dia em que a cota foi estabelecida.
03:00Em dólares, a rouba brasileira era alguma coisa entre 54 e 56 dólares a rouba.
03:08A mesma rouba lá na China era mais de 140 dólares.
03:12Então, realmente é difícil competir num cenário como esse.
03:16O que nós temos visto no mercado?
03:19Dado que os agentes estão percebendo, olha, tem uma cota lá na frente.
03:24Quem embarcar, colocar a carne no seu container, depois daquela data, vai pagar mais caro?
03:31Você está tendo uma corrida.
03:33Todo mundo tentando antecipar o máximo possível desses embarques.
03:37Resultado disso?
03:39As exportações de carne bovina para a China.
03:42China, mas Hong Kong sempre, né?
03:44Agora, em janeiro desse ano, foi 28% superior a janeiro do ano passado.
03:51Então, com essa demanda mais aquecida, naturalmente os preços responderam para cima.
03:59A gente viu uma alta no preço do boi gordo.
04:02Então, nos últimos dias o boi gordo ultrapassou aquela barreira ali, 350 reais a rouba.
04:09Mas também tem puxado os outros preços da pecuária.
04:13O bezerro também teve valorização, operando acima de 3.200 reais a cabeça do bezerro.
04:20Então, o que a gente está enxergando?
04:23Justamente uma antecipação desses embarques por parte do mercado,
04:27porque ninguém quer chegar tarde nessa fila e ter que pagar a tarifa mais cara
04:34quando essa cota for atingida.
04:36Felipe, como é que a gente pode contornar essa cota?
04:40Essa é uma decisão das autoridades chinesas.
04:42Chinesas, o que resta aqui é o Brasil, seja Itamaraty, seja o governo, seja as entidades de classe,
04:48seja os grandes portadores, é justamente negociar.
04:52Quer ver um exemplo de um ponto que está em negociação?
04:54É o Brasil argumentando com a China.
04:57Olha, outros países têm cota.
04:59Se esses países não fizerem uso da cota deles, transfere para mim.
05:04Pode deixar?
05:04Que eu consigo atender, cumprir ali a cota deles e ir colocando uma carne com preços mais competitivos.
05:13Felipe, interessante porque esse efeito agora inicial é um efeito conjuntural de aceleração
05:19para tentar fugir da cota.
05:21E aí o difícil é depois a parte seguinte, quer dizer, considerando exatamente o que você estava falando no final.
05:26Tem algumas possibilidades, alguns cenários aí na mesa em termos de para onde vai depois a condição de exportação passar
05:33da cota, né?
05:34E a partir da negociação que acontecer.
05:36Então, eu te pergunto, como que isso vai impactar a tomada de decisão dos produtores nessa dimensão?
05:41Quer dizer, o abate da carne que vai para a China é diferente da carne, por exemplo, que a gente
05:45tem aqui.
05:46Tem decisões aí que impactam e que são sendo antecipadas de alguma maneira.
05:50Você acha que vai ter um efeito sobre a mudança também na composição aí da produção da carne aqui no
05:55Brasil?
05:56Então, perfeito. Ótimos pontos, Mariana.
05:59Então, em primeiro lugar, se a gente estivesse conversando lá no início de janeiro, qual que seria o argumento, né?
06:05Será que o mercado vai conseguir sualizar esse processo?
06:09Parece que não.
06:10Parece que em termos de preço a gente está vendo ali uma antecipação de demanda agora,
06:15que tende a subir esse preço.
06:17E lá na frente, quando essa cota for atingida, se nenhuma novidade surgir,
06:23a gente vai ver um movimento reverso, porque vai ter ali um grande comprador no mercado internacional
06:28com a sua porta de entrada encarecida.
06:32Quando a gente olha agora para os abates,
06:35provavelmente quem está vendo,
06:38daqueles frigoríficos habilitados para exportar para a China
06:42e daqueles pecuaristas que têm os animais atendendo os atributos exigidos pelo mercado chinês,
06:49o que dentro do mercado da pecuária de corte a gente chama de boi-china,
06:54eles estão naturalmente tentando antecipar isso.
06:56Então, tem uma demanda mais aquecida naturalmente por esses animais.
07:00Só que esses mercados são todos conectados, né?
07:03Então, um boi ali que tivesse ali menos atributos para o mercado chinês,
07:09mas se não tivesse demanda aquecida,
07:11o boi não morre de velho.
07:13Ele seria encaminhado para algum outro mercado,
07:15inclusive para o próprio mercado doméstico.
07:18Então, esses mercados estão conectados.
07:21Então, o que a gente está vendo é um aumento no valor da rouba,
07:24um aumento nos preços da pecuária de forma generalizada.
07:27Óbvio que naqueles animais que atendem os atributos do mercado chinês,
07:31esse aumento está sendo mais intenso,
07:33mas não está restrito a esses animais.
07:37Em outras palavras, se não houver nenhuma novidade,
07:42aquele ajuste mais abrupto que pode acontecer
07:45quando essa cota for atingida,
07:48pode valer para o setor como um todo.
07:50No entanto, no momento em que a gente conversa,
07:54a pecuária de corte brasileira já está bem atrasada
07:59num movimento de reversão de ciclo pecuário,
08:03ou seja, num movimento de retenção de fêmeas.
08:06Talvez, justamente esse movimento mais abrupto
08:10consolide justamente essa reversão.
08:13É situação que mostra a necessidade de ampliar os mercados
08:20e não ficar somente na mão de um único só produtor.
08:24Conversamos com o Felipe Serigatti, pesquisador do FGV Agro,
08:28a quem eu agradeço mais uma vez a participação.
08:30Felipe, um bom dia e até uma próxima.
08:33Eu que agradeço o convite e uma ótima quinta a todos.
08:35Obrigada.
08:36Obrigada.
08:36Obrigada.
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