Pular para o playerIr para o conteúdo principal
Em entrevista ao Direto ao Ponto, o ex-presidente da Petrobras Jean Paul Prates afirma que a era do petróleo já acabou e defende que a estatal acelere sua transformação em uma grande empresa de energia. Ele fala sobre transição energética, exploração no mar, biocombustíveis e os desafios do setor no Brasil.

▶️ Assista à íntegra no canal da Jovem Pan News no YouTube: https://youtube.com/live/4Jiu6-K_y8M
#DiretoAoPonto

Baixe o app Panflix: https://www.panflix.com.br/

Inscreva-se no nosso canal:
https://www.youtube.com/@jovempannews/

Entre no nosso site:
http://jovempan.com.br/

Facebook:
https://www.facebook.com/jovempannews

Siga no Twitter:
https://twitter.com/JovemPanNews

Instagram:
https://www.instagram.com/jovempannews/

Kwai:
https://www.kwai.com/@jovempannews

#JovemPan
#DiretoAoPonto

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00Agora, senador, o senhor falou da eficiência em relação à gestão das estatais de um modo geral.
00:06No caso da Petrobras, qual o senhor acha que deveriam ser as prioridades hoje para se garantir essa segurança do
00:12país?
00:12E a Petrobras tem essas implicações, o senhor citou logo de início, de distribuição de dividendos,
00:17de dar uma resposta para os acionistas, ela contribui muito para as contas do governo também,
00:22pelo que ela gera para o caixa do governo, diferente de outras estatais.
00:26Então, qual seria o direcionamento? Porque ela é responsável pela matriz energética do país,
00:31as várias opções e também por esse lado financeiro. Qual seria o melhor rumo para se dar hoje a estatal?
00:37Veja, ela herda uma situação onde ela não é necessariamente responsável por todas as fontes, né, Denise?
00:44Ela é a empresa de petróleo. Nós tínhamos a Eletrobras, que se encarregava, digamos,
00:48da geração de energia e da transmissão, propriamente dito.
00:52Mas tinha energia limpa também, né?
00:53Tinha e tem. E é exatamente aí que eu quero chegar.
00:57Veja, a Eletrobras, infelizmente, a meu ver, foi vendido o controle dela.
01:01Eu acho que foi um erro, não pelo fato de ser contra a privatização, apenas por ser contra.
01:07É porque naquele caso ali, muitos outros países hoje estão sofrendo,
01:10inclusive os Estados Unidos, Canadá, pelo fato de não ter controle sobre a malha,
01:16principalmente a malha de transmissão e os investimentos necessários
01:19para estruturar o sistema de capilarizar a energia para todos os lugares.
01:23energia, pessoal, vai ser o sangue da economia, de fato, da nova economia.
01:30A era do petróleo acabou. Ela não está acabando, não. Ela já acabou.
01:35É que como transição energética se faz substituindo coisas gradualmente,
01:40isso tem que se dar em diferentes países, diferentes regiões do mundo,
01:43diferentes climas, diferentes populações, culturas, regimes políticos, etc.
01:48Então isso não acontece em 10 anos, isso vai acontecer em 50.
01:51Mas está claro que o ocaso do petróleo está aí para quem quiser ver.
01:56Ah, mas isso quer dizer que amanhã você tem que parar de produzir petróleo e a Petrobras deixa de existir?
01:59Não.
02:00Quer dizer que ela, como um grande transatlântico que é,
02:03uma das 10 maiores empresas do mundo e a maior do Hemisfério Sul,
02:06precisa já começar a se apontar e já está atrasada nisso,
02:10eu já dizia quando assumi, já estamos atrasados nisso,
02:12assumir vários outros olhos para cenários novos,
02:17para que daqui os outros 70 anos que ela vai viver à frente, pelo menos,
02:21no cenário daqui a 70 anos, ela se torne uma grande empresa de energia do Brasil.
02:25E com controle ainda do Estado brasileiro,
02:29mas para justamente prover coisas que o mercado não dará.
02:32O controle é fundamental, porque não quer dizer que ele retire o mercado do processo,
02:37nem retire o mercado da mesa,
02:39mas porque ele vai dar o direcionamento unificado
02:41e vai permitir essa integração de fontes que é muito complexa.
02:45Então, para onde que a Petrobras deveria estar olhando?
02:47Está olhando, mas de alguma forma os ritmos diferenciam-se, né?
02:51De uma administração para outra.
02:53Nós temos que nos preparar, por exemplo, na exploração e produção,
02:56que é a nossa habilidade principal, produzir petróleo no mar.
02:59Então, a Petrobras é uma grande vaca leiteira do Estado brasileiro.
03:03Ela joga dinheiro todos os dias no Estado brasileiro, né?
03:08Grande produtora de petróleo aos borbotões.
03:12Grandes reservas de petróleo.
03:13Essas reservas são finitas.
03:15Então, em algum momento, em 30, 40 anos, elas vão acabar.
03:19Então, ela tem que repor reservas,
03:20por isso o debate da margem equatorial ainda é válido.
03:23Talvez a última fronteira que a gente tenha para explorar.
03:25Talvez alguma coisa na área internacional,
03:27para ensinar aos outros como é que se produz direito o petróleo no mar.
03:31Mas, se você produz no mar,
03:33você pode estar também produzindo energia no mar.
03:35Porque as estruturas são bem mais simples do que a estrutura de petróleo,
03:38que tem gente morando em plataforma,
03:41produto inflamável passando.
03:42Um aerogerador no mar é uma coisa muito mais simples.
03:44Eu dizia até, brincava que era um Playmobil para a Petrobras, né?
03:47Depois você tem refinarias.
03:49Você tem mega refinarias, estruturas complexíssimas,
03:53estruturas bilionárias, estão construídas e amortizadas.
03:55O que é que você faz com isso?
03:57Se você não vai mais transportar petróleo para dentro delas,
04:00para se transformar em produtos variados.
04:02Se você está eletrificando a frota toda do Brasil,
04:04está todo mundo comprando carro elétrico por aí,
04:06ao longo de 50 anos, o que é que você faz com os combustíveis?
04:09Então, você começa a colocar óleo vegetal, por exemplo,
04:13nas refinarias.
04:13Começa a fazer parte da transição,
04:15que é uma parte dela, dos biocombustíveis.
04:18E no gás natural, você começa a misturar com a economia do hidrogênio verde,
04:22que é a mesma logística.
04:23Um gás também, da mesma forma.
04:25Então, você tem aí pontos de inflexão importantes,
04:28fazendo o que você já sabe fazer, fazendo a transição energética.
04:32Onde está o maior atraso da Petrobras?
04:34Eu diria que hoje é uma certa relutância, por exemplo,
04:39em olhar para esse horizonte offshore de energia,
04:43que é uma coisa que, inexplicavelmente, eu não sei porquê não andou.
04:47Diz-se que é porque, as alegações são duas,
04:49ah, é muito cedo e é muito caro.
04:52Bom, não é muito cedo, porque se você começar agora,
04:55você só vai produzir em 8 anos ou 10 anos.
04:57Os projetos demoram a sair do papel.
04:59E não é muito caro, porque nós temos um ambiente de produção,
05:03uma plataforma continental rasa,
05:05ali na margem, justamente na margem equatorial,
05:08que é do Rio Grande do Norte ao Amapá,
05:09com muitos ventos.
05:10Ventos que não existem em lugar nenhum do mundo.
05:13Ali nós temos o melhor local do mundo
05:15para produzir energia a partir do vento no mar.
05:18Plataforma rasa, ambiente simples,
05:21muito mais baixo, portanto,
05:23do que os benchmarks que você encontra no Mar do Norte,
05:25na costa leste-americana, na Austrália, na costa da França.
05:29Os lugares que você tem hoje preços de referência
05:31para essas operações são lugares caríssimos,
05:34são lugares onde batem ondas de 20 metros o tempo todo.
05:38Lugares frios, lugares com mar revolto,
05:41clima hostil, frio.
05:44Ali você pega a costa do Ceará e do Rio Grande do Norte
05:46e é completamente diferente.
05:47Basta, visualmente, você consegue enxergar
05:50que ali vai custar metade do preço do que no Mar do Norte.
05:52Então, nisso, a gente está um pouco atrasado.
05:55Na questão do biocombustível,
05:57eu não acredito que a gente tenha que necessariamente
05:59entrar na cadeia do etanol ou do biodiesel diretamente,
06:03porque, como eu digo,
06:04eu acho que esses combustíveis vão aí durar 30, 40 anos.
06:07Eles são parte da transição, junto com o gás.
06:09Mas eles não vão ser o combustível do futuro, como se diz.
06:12O combustível do futuro é a eletricidade,
06:15de qualquer forma que ela pudesse ser gerada.
06:18Então, nós poderíamos, por exemplo,
06:21atacar um pouco mais a patente única que a Petrobras tem,
06:24que é de produzir derivados de petróleo a partir de óleo vegetal.
06:28Isso é uma coisa que só a Petrobras tem.
06:29A Petrobras tem uma patente exclusiva desenvolvida pelo SEMPS.
06:32Seus 800 cientistas, o maior centro de pesquisa da América Latina,
06:36desenvolveram uma patente para colocar óleo vegetal,
06:38óleo vegetal cru, no lugar de óleo, nas refinarias,
06:42misturando aquilo, produzir diesel, que é diesel, não é biodiesel.
06:46É diesel saindo da refinaria com óleo vegetal na origem.
06:49Então, tem várias coisas que a Petrobras tem que dar mais atenção nesse caso.
06:54E está dando, de uma certa forma, a gente está continuando esse processo.
06:58Agora, a pergunta da Nexa, da Folha de São Paulo.
07:00Vou aproveitar que o senhor já entrou nessa discussão.
07:03e o senhor tem dito que o país já vive uma crise energética,
07:07uma crise na área de energia,
07:09e que as pessoas estão se recusando a enfrentar essa discussão.
07:12O que seria exatamente essa crise?
07:14É uma crise de risco de desabastecimento?
07:17É uma crise de colapso do sistema?
07:19De aumento da conta de luz?
07:21A dificuldade de virar a chavinha para a transição?
07:25O que seria essa crise e qual a dimensão dela?
07:27Alexa, essa é uma crise sui generis, né?
07:29Primeira vez que a gente está enfrentando, provavelmente, isso.
07:32Mas é uma crise um pouco silenciosa, né?
07:35Ela não aparece tanto quanto um apagão,
07:38porque ela não é uma crise de falta de energia.
07:41Exatamente esse é o ponto.
07:42Nós nos acostumamos a, infelizmente, nos acostumamos a ver lá no passado, né?
07:47Crises de abastecimento.
07:49Tanto pontuais, em momentos, em alguns lugares do país,
07:52quanto algumas até bem traumáticas e nacionais.
07:56Nesse caso, não é isso.
07:57Nós tivemos a entrada de muita energia renovável,
08:01fonte renovável gerando energia, eólica e solar principalmente,
08:05mas tivemos, basicamente, uma, entre aspas, surpresa,
08:08que não deveria ser surpresa, mas acabou sendo.
08:1243 gigawatts, 3 ou 4 Itaipus,
08:15nos telhados das casas das pessoas,
08:18graças, inclusive, isso positivamente,
08:21à chamada geração distribuída, a GD.
08:24Isso que a gente está vendo, esse movimento que a gente acha que é pequeno,
08:27cada um colocando seu painel na sua casa,
08:29hoje, representa 43 gigawatts,
08:31que não estavam na previsão de nenhum órgão de energia lá de trás,
08:36porque eram considerados apenas diminuição de demanda,
08:41e não geração.
08:43Portanto, não era colocado como mais geração,
08:46era colocado apenas como redução de demanda.
08:48Isso nos surpreendeu em algum momento,
08:50lá atrás, em 2000, já começou em 20, 21, 22,
08:55mas começou a se agudizar em 23 e em diante.
08:58Então, há pelo menos três anos,
09:00nós vivemos uma crise contrária,
09:02é uma crise de oferta sobressalente,
09:04que não consegue encontrar escoamento nos devidos horários,
09:08e aí tem o problema também,
09:10que a energia solar, obviamente, é produzida quando tem sol,
09:13e energia eólica, embora seja um mito que ela é tão intermitente assim,
09:19ela é produzida mais numa região e em determinadas estações do ano.
09:22Então, você tem mudanças do dia para a noite,
09:26e tem mudanças que você tem que calibrar também o sistema entre estações.
09:30Então, janeiro e agosto muda bastante.
09:33Isso tudo é administrável, perfeitamente administrável,
09:37porque nós estamos no século XXI,
09:38nós temos redes digitalizadas,
09:40nós temos sistemas que conseguem administrar isso de forma inteligente,
09:44em breve, inclusive, através de inteligência artificial automaticamente.
09:47E temos que ter mais criatividade também na forma de cobrar do consumidor.
09:51Então, por exemplo, já há formas que dizem o seguinte,
09:54olha, consumidor de tal região,
09:57entre tal dia e tal dia,
09:59quando eu sei que eu vou ter oferta demais,
10:02a conta de vocês vai estar pela metade, cortada pela metade.
10:06Em alguns lugares já chega até a zero.
10:08O cara diz assim, olha, dia tal, no horário tal, a energia vai custar zero.
10:12Então, o camarada se programa para ligar tudo que consome energia,
10:16máquina de lavar roupa, etc. e tal,
10:18naquele horário, naquele dia, porque ali ele vai pagar zero.
10:20Porque para o sistema é melhor dar aquela energia para aquele cidadão
10:24naquele horário programado,
10:25do que parar um aerogerador, um parque inteiro eólico,
10:28para depois voltar a arrancar com ele.
10:30Então, essa inteligência nós não temos ainda.
10:33Temos quem faz, mas não investimos, digamos assim,
10:37Então, nossas autoridades, elas trabalham ainda
10:39com uma tarifa elétrica nacional.
10:42Então, eu estou lá no Rio Grande do Norte, por exemplo,
10:44gerando montoeiras de energia renovável
10:47para o parque eólico, quase 80% do tempo,
10:50em algumas vezes, parados.
10:53E ainda sou obrigado a pagar a bandeira vermelha,
10:56porque o cara está ligando uma termoelétrica no sul
10:58a gás, comprando gás, custando 10 vezes mais caro
11:03do que a energia eólica que está parada.
11:0510 vezes mais caro, essa é a proporção.
11:08Porque tem que atender o sistema de que o cara
11:10que é produtor de gás tem que ter negócio.
11:13Então, você tem que...
11:15Todo mundo...
11:16É legítimo que todo mundo lute pelo seu negócio.
11:19Mas, se você tiver um navio num processo...
11:23Estou evitando usar o termo Titanic ou coisa assim,
11:26porque não é um navio que está afundando absolutamente.
11:28É o contrário.
11:29É um navio que está andando bem.
11:31Mas, se ele vive um determinado problema operacional
11:34e cada sujeito, cada engenheiro,
11:36cada capitão ou cozinheiro,
11:38cada um começa a defender o seu,
11:40diz, ah, o meu é que está...
11:40Minha tese é que está certa.
11:42Vamos fazer o que eu estou dizendo que é certo.
11:43Porque, para mim, é melhor.
11:45O negócio não vai a lugar nenhum.
11:46Então, a chefia desse processo,
11:48o capitão do navio,
11:50que, no caso, é o ministro de Minas e Energia,
11:53o ministério, as autoridades energéticas,
11:56elas têm que poder pegar todo esse processo,
11:59colocar numa mesa e fazer o ótimo para o país.
12:02Não para um grupo ou para o outro.
12:03O que hoje está sendo feito,
12:05atendendo só um grupo, na visão do senhor?
12:06Em alguns momentos, você vê que alguns grupos
12:08se sobressaem em relação a outros.
12:10Então, você acaba tomando decisões...
12:12Exemplo qual, senador?
12:13Enviesadas em relação ao gás natural,
12:15em relação a alguns biocombustíveis,
12:17em alguns momentos.
12:18Por exemplo, vou dar outro exemplo.
12:20Por que é que a cota de biocombustível,
12:22por que é que a mistura do etanol e do biodiesel,
12:25que é obrigatória, vocês sabem, né?
12:27Então, 30% de etanol na gasolina
12:28e 15% de biodiesel no diesel,
12:31por que é que ela é nacional?
12:32Por que é que ela tem que ser nacional?
12:34Sabe o que isso provoca?
12:35Que, de novo, no Rio Grande do Norte
12:37ou no Amapá,
12:38o camarada tem diesel no seu posto,
12:41ele é obrigado, a distribuidora,
12:43a comprar biodiesel lá no Centro-Oeste,
12:46lá no seu Mato Grosso,
12:48levar de caminhão a diesel pra lá,
12:51pra misturar, porque é obrigatória a cota.
12:53Se a cota fosse regionalizada,
12:55o trator do seu agricultor no Mato Grosso
12:58poderia usar 50% de biodiesel,
13:01já que dizem que ele não faz mais borra,
13:02que não tem mais problema nenhum operacional.
13:04Então, eu coloco 50% no Mato Grosso
13:07ou no Mato Grosso do Sul,
13:08ou em Tocantins,
13:09em todas as máquinas agrícolas,
13:11caminhões, carros, etc.,
13:12todos movidos a diesel,
13:13e deixo o Amapá ou o Rio Grande do Norte,
13:16esses extremos que não produzem
13:18uma gota de biodiesel,
13:20venderam um diesel com mais percentual
13:23de diesel do que de biodiesel.
13:25O etanol é a mesma coisa.
13:26As regiões que não produzem cana.
13:28As regiões que produzirem cana
13:30aumentam a sua cota.
13:31As regiões que não produzem cana
13:33poderiam ter uma gasolina
13:35com mais gasolina do que etanol.
13:36Então, essa coisa da tarifa elétrica nacional,
13:40essa coisa da mistura,
13:41da reserva de mercado do biocombustível nacional,
13:45é onde você vê claramente
13:47que existem interesses
13:48que, às vezes, se sobressaem
13:50em detrimento do interesse do consumidor final.
Comentários

Recomendado