00:00Não pode abrir mão hoje, a gente não é a Dinamarca ainda.
00:02Então a gente não pode sair, por exemplo, dizendo que a nossa política de segurança é simplesmente dar arma para
00:06os outros.
00:08Isso é terceirizar uma responsabilidade que é pública.
00:11Você não pode, por exemplo, imaginar que os Correios sejam obrigados a dar o mesmo lucro que uma empresa privada
00:17de pacotes.
00:19O Correio cumpre uma função de estatal brasileira de estar onde ninguém vai,
00:23e de entregar e fazer, prestar serviços que ninguém presta.
00:26Portanto, ele está, sim, sujeito a ter uma lucratividade menor e até anos de prejuízo.
00:32O Correio americano, por exemplo, tem prejuízo todos os anos, bilionários, e ele é estatal.
00:38Em alguns anos chegou a dar lucro.
00:40Hoje, no cenário atual, aqui o senhor coloca que levou a esse rombo dos Correios.
00:48O Correio deu uma digressão rápida, mas assim, os Correios deram um lucro espasmódico.
00:54Porque em dois anos da gestão presidencial anterior, houve uma preocupação em prepará-lo para ser vendido.
01:00Eu sei disso porque eu era líder da oposição no Senado.
01:03Então, eu escrutinei esse processo e foi o senador Jean, como senador,
01:08que retirou de pauta, juntamente com o presidente Otto Alencar, na Comissão Econômica,
01:13retirou de pauta a discussão dos Correios, porque ela estava rasa.
01:16Ela simplesmente estava ignorando o fato de que se você simplesmente vendesse,
01:20virasse a chave e vendesse os Correios no dia seguinte,
01:23que era o que muita gente queria, comprar os ativos dos Correios, a capilaridade dos Correios,
01:27imediatamente ele saía desses lugares onde ninguém chega.
01:30E você teria uma crise postal, uma crise de serviços, né?
01:34Para quem, por exemplo, faz artesanato e vende no mundo todo.
01:37Lá no Rio Grande do Norte nós temos as famosas bordadeiras de Tibaúba dos Batistas,
01:42que fizeram aqueles uniformes das Olimpíadas, vocês viram e tal?
01:45Fizeram o vestido da primeira-dama Janja e tal, ficaram conhecidos no mundo todo.
01:48Essas bordadeiras são uma centena só.
01:51Moram numa cidade e trabalham numa cidade interior do interior do Rio Grande do Norte.
01:56Elas hoje dispassam produtos delas pelos Correios para Paris,
02:00em função da fama que adquiriram.
02:02Quantos outros casos nós conhecemos, vocês devem estar se lembrando,
02:05de vários casos nos estados, de cada um de nós,
02:08onde é necessário esse tipo de serviço.
02:10E esse é um serviço que não é para dar lucro mesmo,
02:12porque é para servir situações que nenhum operador privado serviria.
02:18Então, preparar os Correios para a venda levou àquele lucro circunstancial,
02:22àquele espasmo, eventualmente, para dizer, olha, é uma empresa boa, comprem,
02:26venham para o processo que nós estamos fazendo.
02:28Nós mostramos, desnudamos aquele processo e mostramos que aquilo era simplesmente
02:32uma preparação efêmera para que, dois ou três anos depois,
02:36viesse a conta.
02:37E a conta veio.
02:38Então, aquilo foi uma maquiagem que foi feita.
02:41E, de fato, então, de fato, a gente hoje tem que pensar,
02:44cada vez que for vender ativos ou vender serviços públicos,
02:49imaginar como o cidadão que precisa daqueles serviços,
02:51não quem não precisa.
02:52Quem não precisa, não faz falta.
02:54Entendeu?
02:55Então, enfim.
02:56Mas você fez uma segunda parte da pergunta que eu deixei no ar.
02:58Se essa sua mudança representou uma derrota do projeto de transição energética
03:07para a ala desenvolvimentista do atual governo?
03:09Não, assim, eu diria que se eu fizesse parte de alguma ala dessas,
03:12eu estaria nesta mesma ala.
03:14Portanto, não é exatamente uma derrota disso.
03:16Há uma discrepância em algumas coisas pela vivência que eu tive desse setor
03:21em relação a pessoas que hoje, eventualmente, estão comandando
03:24que não têm essa vivência.
03:26E aí tem um momento que você tem que dizer, olha, não dá para mudar agora,
03:30não dá para exatamente fazer isso, porque há outros interesses que estão em pauta,
03:34vamos aguardar mais um tempo.
03:35Mas eu caminho junto com esse governo, eu ainda apoio a macro ideia
03:41de que o país precisa de serviços públicos de qualidade,
03:44que precisamos ter um Estado brasileiro eficiente,
03:48não corrupto, não ineficiente, não perdulário, porém presente.
03:52Aquele Estado que a gente chama de Estado necessário,
03:55o Estado que precisa chegar às pessoas que precisam dele.
03:58Aqueles que não precisam, como eu disse, se viram na vida do dia a dia.
04:01A economia toma parte, o mercado toma conta, de fato isso existe.
04:05Mas existe uma parte gigantesca desse país, que poucas pessoas conhecem,
04:09infelizmente, na opinião pública e dos formadores de opinião,
04:13que não está à frente de todo mundo, não está nas grandes telas,
04:17não está na grande mídia, mas que é, por exemplo, um país que eu passei a conhecer
04:21quando fui para o Rio Grande do Norte, quando fui para o Nordeste há 30 anos atrás.
04:25E é essa parte que nos preocupa, porque é um país muito grande
04:28para você elevar a condição de país desenvolvido de fato.
04:32É como a China, são países continentais com populações muito grandes,
04:36com muitos recursos naturais, com muitas coisas disponíveis,
04:40porém, se você não tiver um plano, é como um grande navio
04:44onde muitas pessoas tomam conta daquilo e o navio não sabe para onde ir.
04:48Então, a política energética hoje, eu comparo um pouco com esse grande navio
04:53que, de repente, se tiver uma emergência, se tiver um processo traumático qualquer,
04:58ele não saberia enfrentar com rapidez.
05:01O caso, por exemplo, do corte da geração de energias renováveis que está acontecendo hoje.
05:05É o caso, por exemplo, do adiamento sempre terno do leilão das baterias.
05:09Todo mundo sabe que a gente precisa estabilizar a nossa geração com o uso de baterias.
05:14Por que, Katso, já que estamos aqui em São Paulo, adiou-se tanto esse leilão de baterias?
05:20Por que se esperou tanto?
05:21E por que se enfiaram tantas termoelétricas a gás natural
05:24e tantas agora termoelétricas até a biocombustíveis na base da matriz
05:30quando, na verdade, você tem tanto recurso renovável, realmente renovável,
05:34que não implica em combustão, que não implica em deflorestamento, em competição com alimentos.
05:39Então, você balancear isso não é demonizar nenhuma frente nem outra frente.
05:47É usar isso tudo com habilidade.
05:49Porque o país, quando é muito rico, existe esse bom problema da seleção brasileira.
05:53Quem você escala em que posição?
05:55A gente sempre tem esse problema.
05:57Tem vários jogadores bons na Europa, aqui e ali.
06:00O que é que você escala?
06:01As fontes energéticas brasileiras são mais ou menos esse problema, esse bom problema.
06:06O que é que você escala para que área e para que coisa?
06:09E isso exige um entendimento e uma discussão muito aprofundada.
06:14Não dá para ficar sujeito a quem fala mais alto, a quem tem o lobby mais eficiente,
06:19a quem tem mais presença em Brasília versus outros que não têm.
06:23Então, isso você não pode deixar acontecer.
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