Pular para o playerIr para o conteúdo principal
  • há 12 horas
Nesta entrevista, conversamos com Arlei Romeiro, presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais (APER), sobre o atual cenário do crédito rural na safra 2025/26. Ele analisa a evolução das contratações do Plano Safra e das CPRs, o impacto dos juros elevados, o uso de linhas do BNDES para pagamento de dívidas e o avanço das recuperações judiciais no campo. Arlei também comenta as investigações do Tribunal de Contas da União e do Ministério da Agricultura e Pecuária sobre possíveis irregularidades no crédito rural e o papel da APER nesse processo.

Categoria

🗞
Notícias
Transcrição
00:00E continuaremos falando, então, de crédito rural.
00:03No primeiro bloco, nós trouxemos aqui um diagnóstico
00:05sobre o atual momento de crédito nessa safra 25-26,
00:10entre custeio, investimento, contratação aí
00:14para pagamento de dívidas, inclusive.
00:16E agora, para ouvir a perspectiva do campo,
00:19nós vamos falar com Arley Romero.
00:21Ele é presidente da Associação dos Produtores e Empresários Rurais,
00:26a APER, que está acompanhando de perto, inclusive,
00:31a investigação no Tribunal de Contas da União, do TCU,
00:34e do Ministério da Agricultura,
00:35sobre o descumprimento das regras do manual de crédito rural,
00:40algo que, pelo que conversamos, Arley, já vem acontecendo há algum tempo,
00:45mas parece que agora é um momento, então,
00:47de unir forças do setor aí para falar sobre este problema.
00:51Então, obrigada pela disponibilidade, por topar conversar aqui com a gente.
00:55Primeiro, eu gostaria, então, de saber como a APER,
00:59como você está avaliando o cenário de crédito rural no Brasil,
01:04neste momento, de uma forma um pouco mais ampla,
01:07inclusive, essa redução do repasse de crédito por parte dos bancos.
01:15Existe ali um montante, um volume do plano safra,
01:19mas os bancos estão colocando o pé no freio.
01:23Prazer falar contigo, Mariana.
01:25Muito obrigado pela oportunidade, pelo espaço.
01:27De fato, na verdade, essa dificuldade,
01:30essa dificuldade de acesso,
01:32essa redução da disponibilidade de crédito para o produtor rural,
01:36não é de agora, já vem de longa data.
01:38A gente tem o costume de acompanhar a divulgação
01:43dos planos safras a cada ano,
01:46sempre com a informação de plano recorde,
01:49mas na ponta nunca chega aquilo que é anunciado.
01:52E por diversos motivos, né?
01:54A própria dificuldade mesmo de acesso ao produtor,
01:57e também por essas práticas que hoje estão sendo investigadas,
02:02tanto pelo TCU quanto o Ministério da Agricultura,
02:05que acaba dificultando por demais o acesso ao produtor rural,
02:08as linhas que estão disponíveis.
02:11E acaba que esse crédito, de fato,
02:13fica se encurtando a cada ano,
02:16a cada novo plano.
02:17Ele é anunciado como um recorde,
02:19mas ao fim e ao cabo,
02:21quando chega no final das contas ali,
02:23o valor disponibilizado sempre é menor do que o ano anterior.
02:28E aí, queria entender, então, contigo também,
02:31dentro desse contexto, né?
02:34A gente está falando, então,
02:34de contratações que estão aumentando, né?
02:38O produtor está indo mais atrás das contratações,
02:40mas o desembolso, ele, né, é isso,
02:44não está acompanhando a mesma velocidade.
02:49Queria entender como que vocês estão olhando isso do campo também,
02:53principalmente se é uma boa notícia
02:57o governo liberar mais crédito,
02:59então aqueles volumes anunciados do Plano Safra 2526,
03:02ou se vocês estão enxergando que isso, na verdade,
03:05é uma cortina de fumaça,
03:06porque os juros estão mais altos
03:08e, como a gente está falando aqui também,
03:10existe esse cenário de RJs aí
03:12que está assombrando o agro e já não é de hoje, né?
03:17Não, na verdade, o que a gente acompanha é o anúncio, né?
03:21O anúncio, ele acontece.
03:22Eu repito, ele é anunciado como um pano recorde,
03:26mas o acesso do produtor,
03:28a cada ano ele fica mais difícil,
03:30especialmente aqui no estado do Rio Grande do Sul,
03:32que atravessa esse período constante de frustrações de safra,
03:37a gente vê com extrema dificuldade
03:42essa disponibilidade de crédito,
03:44porque o produtor, de fato,
03:45ele não consegue acessar por diversos fatores,
03:48dificuldade de cadastro,
03:51os níveis de exigência
03:53e também a forma como as instituições financeiras
03:57que operam a política pública de crédito rural
04:00estabelece as condições do produtor,
04:03na maioria das vezes,
04:05não observando o que está na legislação.
04:07Isso acaba impactando diretamente no desenvolvimento da atividade agropecuária,
04:13não só no Rio Grande do Sul,
04:14mas no Brasil como um todo.
04:17Arley, agora falando dessa questão mais voltada aí
04:20para as investigações do TCU,
04:23tanto sobre fraudes do crédito rural,
04:25mas também aí o descumprimento do manual,
04:29olhando para a venda casada,
04:30esse assunto,
04:31esse contexto a gente já trouxe no primeiro bloco.
04:34Então, queria perguntar de forma mais específica para você.
04:38Qual que é o tamanho do problema?
04:40Queria entender como que a APER está acompanhando essas investigações
04:44e que você pudesse dar para a gente o tamanho da dimensão
04:48que isso pode tomar no Brasil.
04:51Olha, a gente, na verdade, o tamanho pode ser realmente muito grande,
04:57porque a gente faz a seguinte análise.
05:02A política agrícola é uma política nacional de crédito
05:06operada por diversas instituições financeiras
05:10e que atinge milhões de produtores rurais no Brasil todo.
05:14Ou seja, não é uma situação que afeta só o estado do Rio Grande do Sul
05:20com todas essas dificuldades que a gente tem enfrentado,
05:22da venda casada que tu mencionou,
05:24mas principalmente o desvirtuamento de crédito.
05:28O que é o desvirtuamento de crédito?
05:29Quando o produtor rural tem uma frustração de safra,
05:33por estiagem, por eventos climáticos
05:35ou por dificuldade de comercialização,
05:38ele vai lá e busca a sua instituição financeira
05:40para fazer o alongamento daquele custeio do seu investimento
05:45e ele não é mantido no crédito rural.
05:48As instituições financeiras acabam induzindo ele
05:50a tomar outros títulos de crédito
05:53com taxas de juros muito mais onerosas,
05:56que acaba fabricando uma dívida
05:58que se torna, ao longo do tempo, impagável.
06:01E é o que a gente está buscando agora
06:04através dessa investigação, dessa auditoria
06:07que está ocorrendo através do TCU
06:09e do Ministério da Agricultura também.
06:11A gente espera que ao final desse processo
06:15a gente consiga identificar e confirmar
06:17esses problemas que a Aper vem denunciando já
06:20de longa data
06:21e que aquelas pessoas que porventura
06:24tenham participação
06:26ou tenham se omitido em relação a isso
06:28sejam responsabilizadas.
06:30Porque só que no Rio Grande do Sul
06:32a dívida no sistema financeiro,
06:34unicamente no sistema financeiro,
06:37está acima de R$ 72 bilhões.
06:40E grande parte desse endividamento
06:43a gente não tem dúvida
06:44que é por desvirtuamento de crédito,
06:46é por venda casada,
06:48é por descumprimento do manual de crédito rural
06:50que dá direito ao produtor rural
06:52de fazer o alongamento da dívida
06:54em caso de frustração de safra.
06:57E só para a gente encerrar então,
06:59trazendo ainda mais um dado para esse contexto,
07:02porque os produtores também estão recorrendo
07:04mais às linhas do BNDES para pagar dívidas.
07:06Então não só indo atrás de crédito para custeio,
07:09mas agora linhas do BNDES também para pagar dívida.
07:12Como que você está avaliando essa situação
07:15do ponto de vista de RJs para a safra 25, 26,
07:19diria até 26, 27?
07:21Vocês aí dentro da Aper acreditam que isso pode se agravar?
07:25A tendência é que se agrave,
07:27mas isso é uma irregularidade,
07:30que a gente acompanha e também faz parte dessa denúncia,
07:33que todo e qualquer crédito rural
07:36tem que ser empregado na atividade rural.
07:39Portanto, a instituição financeira
07:40não pode induzir o produtor rural
07:42a pegar uma linha de crédito rural
07:44para quitar uma outra dívida de crédito rural.
07:47A dívida de crédito rural tem que ser paga
07:50com produção rural
07:51e não é o produtor se desfazendo do seu patrimônio,
07:55vendendo a sua máquina,
07:56vendendo um pedaço de terra
07:57ou muitas vezes endividando outro ente familiar
08:00para pegar uma outra linha de crédito rural
08:02e pagar aquela que está vencida.
08:04Isso tem um nome popular que se chama de mata-mata.
08:07Isso não existe, é irregular,
08:09mas acontece diariamente nas instituições financeiras.
08:13E é uma das denúncias que a gente está encaminhando
08:16através do TCU e do Ministério da Agricultura também.
08:20E a gente que espera que isso seja resolvido,
08:23porque a gente tem que definir uma questão, né, Mariana?
08:27O Brasil tem que definir de uma vez por todas
08:30se a atividade de produção rural
08:32é de interesse da União ou não.
08:34A gente não tem dúvida que é.
08:36E a gente tem que dar atenção e o cuidado
08:39para esta política,
08:40para justamente um setor que é tão importante
08:44e estratégico para a economia do país como um todo
08:47se manter e ter atenção devida,
08:50ter o investimento necessário
08:51para a gente poder gerar esses números
08:53que são fantásticos.
08:55E com toda essa dificuldade,
08:57o Brasil apresenta os números que apresenta anualmente,
09:00mantém o superávit da balança comercial,
09:03gera muito emprego, muita renda, tributos.
09:07Ou seja, agora imagina se a gente tiver atenção devida
09:10do poder público executivo federal e legislativo federal.
09:17Porque nós temos dois projetos lá no Congresso Nacional
09:19que podem auxiliar muito o produtor rural,
09:22que é o PL 5122 e o projeto de securitização também,
09:26o 320, que estão no Senado,
09:28estão lá parados.
09:29E a gente precisa que esses projetos andem
09:32e sejam aprovados para definitivamente
09:34o produtor poder ter condições de se concentrar
09:38naquilo que ele sabe fazer e faz muito bem,
09:41que é produzir e colocar alimento na mesa
09:43de todo brasileiro e de grande parte da população mundial.
Comentários

Recomendado