00:00O governo brasileiro avaliou positivamente o encontro realizado na Casa Branca entre os presidentes Lula e Donald Trump.
00:07Pra falar sobre esse encontro, nós vamos receber aqui ao vivo o economista que traz justamente todo o repertório pra
00:14gente, Roberto Gianetti da Fonseca.
00:16Bom dia, obrigada por receber a gente nessa sexta-feira, Roberto.
00:21E já nos explica a sua avaliação, principalmente a respeito desse posicionamento, né?
00:26Como que o Brasil tem se portado nesses encontros, depois de um desgaste diplomático com os Estados Unidos,
00:33alcançando justamente espaço na agenda de Donald Trump, sobretudo por conta das nossas terras raras e minerais críticos.
00:43Bom dia, bom dia, Pia, bom dia, Evandro, bom dia, ouvintes. É um prazer estar aqui de volta na Jovem
00:48Pan.
00:48Bom, essa reunião de ontem, ela foi emblemática, porque pela primeira vez teve um encontro em Washington,
00:58nesse governo, nessa gestão, entre o presidente Trump e o presidente Lula.
01:05Reunião que deveria ter acontecido muito antes, na minha opinião, dois países de tal relevância,
01:11Estados Unidos e Brasil, deveriam ter com mais frequência esse tipo de encontro, entendimento e reunião.
01:17Mas o resultado foi positivo, aparentemente, né? A gente tem notícias ainda muito superficiais.
01:23Mas na questão comercial, houve uma, poderíamos chamar de trégua, um entendimento,
01:30para que houvesse uma negociação mais detalhada sobre a questão das tarifas,
01:35verificando uma a uma aquelas que têm fundamento ou não têm,
01:39no sentido de criar um melhor relacionamento bilateral.
01:43A tarifa média que as exportações brasileiras têm nos Estados Unidos,
01:50aliás, as importações dos produtos americanos para o Brasil, é de apenas 2,7%,
01:57mas tem discrepâncias, muitos com zero e alguns com 15 ou 20, 25.
02:02Então, os Estados Unidos querem olhar, dentro dessa lista, quais são os itens que poderiam ter algum tipo de ajuste.
02:11Do mesmo ponto de vista, o Brasil tem também reclamações dos Estados Unidos
02:15em produtos que são taxados pelos americanos, de forma indevida ou de forma até ilegal,
02:21diante da OMC, e que poderiam também ter a sua tarifa reduzida.
02:26Acho que cria um ambiente de negociação interessante, que pode ser bem aproveitado ou não,
02:32depende da competência dessa negociação.
02:35Eu tenho muita confiança na equipe do MIDIC, o Ministério de Desenvolvimento e Indústria e Comércio Exterior,
02:41que agora está nas mãos do competente Márcio Elias Rosa,
02:46um técnico de boa qualidade, que está fazendo esse trabalho agora em substituição ao vice-presidente Geraldo Alckmin,
02:52que saiu, e a equipe, que é muito técnica, muito bem preparada e tem condições de levar uma negociação eficiente
02:59adiante.
03:00Então, eu acho que foi bom para restabelecer a comunicação, o diálogo e criar uma agenda
03:06que possa trazer uma situação de benefícios bilaterais para os dois lados.
03:12Roberto, o Brasil reclama muito, atualmente, das políticas protecionistas dos Estados Unidos,
03:18implantadas por Donald Trump mais recentemente.
03:21Mas você entende que o Brasil também, digamos, não tenha muita moral para falar sobre protecionismo
03:26e que ele poderia, de alguma maneira, ampliar um pouco mais a sua abertura, digamos assim?
03:33Olha, a abertura é sempre desejável, Evandro.
03:36Eu acho que nós temos que caminhar para um lado de maior liberalização, maior simplificação do comércio.
03:42Eu fui secretário executivo da CAMEX no governo Fernando Henrique Cardoso
03:46e foi essa a tese que eu defendi e pratiquei ao longo da minha gestão.
03:51Procurar liberar o comércio, reduzir tarifas, fazer acordos comerciais.
03:55Naquela época, começamos o acordo comercial Mercosul-União Europeia,
03:59que demorou 25 anos para ser implantado.
04:02Imagina, que absurdo, né?
04:03Esperava que fosse um, dois, três anos.
04:05Demorou quase duas décadas, três décadas para ser concluído.
04:09Mas a liberalização, ela tem que ser de mão dupla.
04:13Você não pode liberar de forma unilateral,
04:18abrindo as suas, reduzindo as suas tarifas,
04:21sem ter em reciprocidade um movimento adequado e simultâneo dos outros.
04:28Então, essa negociação, quando faz um acordo,
04:31vamos baixar simultaneamente as tarifas,
04:33como é o caso da União Europeia e Mercosul,
04:35aí sim faz sentido.
04:36Agora, tem outro ponto também, que a gente olha as tarifas
04:40e esquece de ver o câmbio.
04:41O câmbio é um elemento fundamental da proteção efetiva.
04:45Hoje, no momento, por exemplo, nós estamos com um câmbio
04:49sobrevalorizado, na minha opinião.
04:51Quando ele vem abaixo de cinco, o que ele faz?
04:54Ele estimula as importações,
04:56que ganharam, assim, de forma espontânea,
05:0010%, 15% de redução de custo no último ano
05:03e prejudica as exportações, que ficam menos competitivas.
05:08Então, no momento em que você tem esse desalinhamento cambial,
05:11e eu poderia explorar essas razões, aí demoraria algum tempo a mais,
05:16mas você tem que olhar também se é o momento de fazer a liberalização.
05:20E o Brasil, infelizmente, tem sofrido de forma recorrente
05:26períodos de sobrevalorização cambial.
05:29E é uma questão que o Banco Central tem que atentar
05:32para reduzir a volatilidade e dar mais segurança
05:35no alinhamento do câmbio ao valor da paridade da moeda.
05:40Porque, senão, a gente tem efeitos no comércio exterior
05:44que prejudicam uma política comercial mais agressiva por parte do Brasil.
05:49Esses são pontos que vão além dos governos de momento, né?
05:53E, muitas vezes, o que a gente observa na realidade brasileira
05:57é que nós não temos planos que se concretizam
05:59para após períodos eleitorais.
06:01Muda o governo, muda tudo de novo,
06:04todo o discurso político, todas as alianças,
06:06elas, basicamente, precisam, muitas vezes,
06:08ser reconstruídas ou passam por desgastes
06:11simplesmente por conta de posições diferentes
06:15entre um país ou outro.
06:17Existe alguma forma, também,
06:19da gente entrar em uma solução, em um acordo sobre isso
06:22para garantir essa continuidade das negociações
06:25que o Brasil faz muito bem com vários países?
06:28Muito boa a sua ponderação.
06:30Porque eu também defendo muito
06:32que a política de comércio exterior
06:34não é uma política momentânea,
06:37não é uma política de curto prazo.
06:39É uma política que você tem que ter um plano
06:41e uma estratégia de médio e longo prazo.
06:44Isso é uma política de Estado.
06:45Porque você vai passar, eventualmente,
06:48transitar por vários governos
06:50e até de diferentes partidos
06:53e diferentes ideologias.
06:55Mas o sentido do interesse nacional
06:57tem que permanecer o mesmo.
06:59Por isso que a gente vê um encontro
07:01entre o Trump, que é um político da direita,
07:05com o Lula, que é um presidente do Brasil,
07:08que é da esquerda.
07:10E eles se entendem. Por quê?
07:11Porque o comércio exterior está acima
07:13das diferenças ideológicas.
07:14Todos querem ter um comércio exterior eficiente,
07:20robusto, equilibrado.
07:21Isso é um interesse nacional.
07:23É um interesse de toda a nação,
07:24de todas as empresas,
07:25gerando emprego, renda.
07:28De novo, acho que temos que ter um planejamento
07:30de longo prazo para o comércio exterior.
07:32O caso, por exemplo,
07:34dar um exemplo mais concreto
07:35de quem faz isso com eficiência.
07:37A China.
07:38Você vai hoje na China,
07:39eles sabem daqui a cinco, dez anos
07:41o que eles pretendem do comércio exterior.
07:43Quais são as indústrias que vão ser
07:46mais competitivas,
07:47onde eles vão investir mais recursos,
07:49ter melhor retorno,
07:50desenvolver inovação, tecnologia,
07:53abrir mercados.
07:54A Apex tem um papel fundamental também
07:57nesse aspecto
07:57de criar laços comerciais permanentes
08:00entre o Brasil e vários mercados do mundo.
08:03Então, é uma política de comércio exterior
08:05que tem que ter realmente
08:06uma estratégia de médio e longo prazo,
08:09senão ela fracassa
08:10se simplesmente ficar olhando
08:11para o umbigo e para o pé.
08:13Ela tropeça na própria sombra.
08:15Roberto Gianetti da Fonseca,
08:17secretário, então, portanto,
08:18executivo da Camex, economista.
08:21Muito obrigada por compartilhar
08:22sua experiência e avaliação
08:23com a nossa audiência aqui da Jovem Pan.
08:26Eu que agradeço.
08:27Muito obrigado pelo convite.
08:28Sempre bem-vindo.
08:29Até mais. Um abraço.
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