00:00Nesta semana, nós também conversamos a respeito do crédito rural com José Ângelo Masilo Júnior,
00:06ex-secretário de Política Agrícola do Mapa.
00:08Ele indica que o estoque de CPRs aumentou significativamente em cinco anos,
00:15passando de R$ 17 bilhões em 2020 para R$ 560 bilhões em 2025.
00:23Ainda assim, no momento atual, o crédito concedido está reduzido, como a gente viu aí na reportagem,
00:31ao mesmo tempo em que o Brasil vive ampliação de área plantada e também projeção de aumento de safra.
00:39Esse contexto faz com que produtores e mercado financeiro encarem uma DR do agro, como o Masilo chama.
00:47Vamos conferir.
00:48Por mais que tivesse CPRs engavetadas, a gente sabe que esse valor é mercado novo, é crédito novo pro agro.
00:56E o produtor agora, com uma relação de casamento com o seu credor da Faria Lima,
01:03está tendo que rediscutir a relação e é o que está acontecendo nesses últimos tempos.
01:08Então, basicamente, o panorama é esse.
01:09Eu tenho certeza que esse casal vai se entender, o relacionamento é duradouro, próspero e mais filhos virão por aí.
01:18Mas nós estamos passando num problema, como se diz no popular, de DR do agro e seus credores privados.
01:25O ex-secretário de Política Agrícola também esclarece que, embora o Plano Safra 2025-26 tenha recorde de volume subsidiado,
01:35isso não necessariamente se reflete nos valores concedidos pelos bancos.
01:41Apesar do crédito ser subvencionado pelo governo, equalizado o nome que você queira dar,
01:47quem vai arcar com risco de crédito é o banco, é o agente financeiro.
01:52Então, ele não é obrigado a emprestar.
01:55Só porque um produtor quer, ele vai fazer análise de crédito daquele produtor.
02:00Ele vai cobrar garantia.
02:02Então, o modus operandi de contratação do crédito rural é semelhante à contratação do crédito 100% privado.
02:09Passa pelo mesmo tipo de esteira.
02:11Porque se o produtor não pagar, quem vai arcar com prejuízo é o banco, é o seu acionista.
02:18Entende?
02:19Então, é isso.
02:20Acho que eu te respondo a pergunta.
02:22O governo pode querer subvencionar, dizer que, olha, eu tenho subvenção aqui,
02:27eu tenho orçamento para subvencionar um trilhão de reais de crédito.
02:31E chegar na hora o banco não contratar um trilhão, contratar 20% disso.
02:36Porque vai depender da análise de risco de crédito que o banco vai fazer
02:39para o seu potencial tomador, produtor rural.
02:41Se o banco achar que tem muito risco, ele não contrata, mesmo tendo a subvenção.
02:45O pé no freio das instituições financeiras está ligado aos altos juros
02:51e o risco de produtores não arcarem com os compromissos,
02:55levando ao cenário de recuperações judiciais crescente no campo.
02:59Sobre isso, José Ângelo Masilo é enfático e afirma que o judiciário brasileiro
03:05está conduzindo de forma errada as RJs.
03:09O ponto de controle aí é o judiciário.
03:12O produtor vai pedir.
03:15Quem regula o legislador
03:18pensa na RJ como um mecanismo de solução de crise empresarial.
03:23Porque toda empresa que está em crise, e quanto maior o porte dela for, ela tiver,
03:29mais perturbação ela vai, a crise dela vai acarretar no meio onde ela está inserida.
03:37Então, o mecanismo de resolução empresarial, como é uma RJ, como é uma liquidação,
03:41uma falência, um processo de falência, visa a saída organizada ou a solução organizada
03:47de uma empresa em crise para evitar perturbação no mercado onde ela operara.
03:52Quando a gente vê uma RJ surtindo efeito contrário, aumentando a perturbação,
03:57é porque está errada.
03:58Ela está sendo aplicada errada.
04:00O judiciário não sabe para que serve uma RJ, da forma como ele está concedendo.
04:05Não é a atividade do agro, é a RJ em si.
04:09O agro, o produtor rural, ele sofre pelos mercados mal desenhados,
04:14a logística que não funciona, a armazenagem não funciona, o crédito não funciona direito,
04:18o RED não funciona direito, a mitigação de risco não funciona direito,
04:21o seguro rural não funciona direito, o vendedor de insumo, máquinas, equipamentos,
04:25pessoas de serviço quer beliscar a margem do produtor rural,
04:28até o governo quer beliscar a margem do produtor rural,
04:30às vezes querendo fazer com o produtor rural arque com políticas públicas.
04:34Olha, eu vou botar uma política pública aqui, mas você vai pagar um pedaço disso aí.
04:38Entende?
04:39Então, todo mundo quer a margem do produtor rural e ele acaba se estrangulando,
04:43porque o preço sobe, o preço diminui daquilo que ele produz.
04:48Mas o que a gente tem que resolver nesse caso,
04:51e o produtor está mesmo estrangulado com o seu fluxo de caixa estrangulada,
04:55a gente tem que ter política pública que resolve o problema na origem.
04:58Eu não posso compensar um problema de um determinado mercado
05:02que prejudica o produtor rural prejudicando o crédito,
05:06porque o produtor rural vai ter dois problemas,
05:08vai ter o original e vai ter mercado de crédito que vai passar a funcionar pior.
05:12E esse é o resultado prático que está acontecendo com essa concessão desarrasoada de RJ
05:17que é dada pelo judiciário.
05:19E o cenário do crédito rural atualmente também é composto por investigações
05:26do Tribunal de Contas da União sobre o descumprimento do manual de crédito rural.
05:31São investigadas fraudes ligadas à venda casada e ao impedimento de renegociação de dívidas
05:39em casos de intempéries climáticas.
05:42Vamos conferir a avaliação de José Ângelo Masilo sobre venda casada.
05:47Eu acho uma vergonha a venda casada.
05:49Venda casada é uma vergonha.
05:51Não há produtor rural que não diga que é coagido, ativo de reciprocidade,
05:57seja lá o que for, contratar o que ele não quer para poder levar o crédito rural.
06:01Então existem plataformas de denúncia anônima.
06:04Eu mesmo, quando era secretário de Junto na gestão passada,
06:07coloquei uma plataforma dessa no mapa de pé, juntamente com a CNA.
06:11A CNA também veio junto.
06:14O produtor tem que reclamar.
06:15Ele tem que fazer denúncia.
06:16E a denúncia é anônima.
06:18Isso é uma vergonha.
06:19Porque no final das contas, ao invés do crédito...
06:22Olha só, se o governo quer que o crédito chegue barato para o produtor rural
06:25e paga por isso, mas o crédito chega caro porque tem um penduricário,
06:29então essa subvenção do governo está pagando penduricário.
06:32Isso é desvio de finalidade.
06:34Isso deveria ser considerado crime com o Sistema Financeiro Nacional
06:38pela lei do Colarinho Branco.
06:40Desvio de finalidade.
06:41Comensão financeira, forçar, insinuar, condicionar a liberação do crédito,
06:46seja lá o que for, reciprocidade, para o produtor control,
06:49que não tem nada a ver com a atividade dele.
06:53Então, assim, só tem uma forma de se fazer isso.
06:58Deixar a lei mais gravosa do ponto de vista penal para o agente financeiro
07:03e para a pessoa que condiciona.
07:05Fazer o Banco Central ser mais efetivo no combate
07:09e o Ministério da Justiça o deperecer.
07:11Ser mais efetivo no combate dessa prática danosa.
07:15E o produtor rural reclamar.
07:18Ele também ressalta que é papel do governo
07:21interferir na questão do alongamento das dívidas.
07:25Objeto aí também de investigação do TCU.
07:28Eu não vejo forma de resolver esse problema
07:32que não envolva orçamento público destinado para tal fim.
07:37Você não pode exigir de uma insinção financeira,
07:40ela não tem nem como fazer,
07:42no caso de crédito subvencionado,
07:44que amplia as parcelas mantidas
07:47as condições originais com a mesma subvenção.
07:51Por quê?
07:52Se vamos imaginar,
07:55a operação original ia ser pago em quatro parcelas
07:58e o governo ia pagar um pedacinho dessas quatro parcelas,
08:01eu quero transformar isso em 20 parcelas.
08:04As outras 16 vão ter um pedacinho
08:06que precisa ser pago pela União.
08:07Não tem como o banco fazer isso.
08:09Como é que ele vai fazer?
08:09Eu vou pagar do meu bolso?
08:10Não tem menor condição.
08:12Então, todo esse crédito que é equalizado,
08:16apoiado pelo Estado, subvencionado,
08:18não, que se queira dar e que precisa de ser repactuado,
08:22e muitas dessas vezes, justamente,
08:25envolve dinheiro público.
08:26Então, o governo tem que chegar e dizer,
08:29abriu o crédito, abriu um pedaço do orçamento
08:31para o banco recalcular o pagamento dessas operações.
08:36O custo para o Tesouro,
08:38o custo de subvenção vai ficar mais caro
08:40e quem vai arcar é o Estado.
08:41Não tem jeito, isso é política pública.
08:43O Estado desiste para isso.
08:44Acontece uma calamidade monstruosa,
08:47que nem aconteceu no Rio Grande do Sul.
08:48Se o Estado não socorrer nessa hora,
08:49então, para que serve o Estado?
08:50Não tem jeito, não tem jeito, não tem jeito.
08:50Não tem jeito, não tem jeito.
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