Neste episódio do Protagonistas, conheça a história inspiradora de Heloisa Schurmann, velejadora, escritora e educadora que transformou o mar em sua casa e missão. Liderando a iniciativa Voz dos Oceanos, Heloisa defende há décadas que a preservação ambiental é uma urgência civilizatória. Primeira brasileira a completar quatro voltas ao mundo em um veleiro, ela compartilha como educou seus filhos em alto-mar e como utiliza sua voz para mobilizar o mundo em defesa dos ecossistemas marinhos. Confira o bate-papo na íntegra com Christiane Pelajo.
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NotíciasTranscrição
00:05A protagonista de hoje é Heloísa Schurman, velejadora, escritora, educadora e uma das
00:11principais vozes globais na defesa dos oceanos.
00:15Ela foi a primeira mulher brasileira a dar quatro voltas ao mundo a bordo de um veleiro,
00:22educou os filhos em alto mar, escreveu best-sellers, lidera a iniciativa Voz dos Oceanos e há
00:29mais de quatro décadas, defende que cuidar do planeta não é uma escolha ideológica,
00:35e sim uma urgência civilizatória.
00:39Heloísa transformou o oceano em sala de aula, em casa, em causa e em missão de vida.
00:46Heloísa, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite, é um prazer enorme ter você
00:51aqui com a gente nessa cadeira no Protagonistas.
00:54A minha primeira pergunta é sempre a mesma para todas vocês.
00:57Quem é Heloísa Schurman?
00:59Como é que você se define?
01:01Primeiro, quero te agradecer pelo convite, mas para dizer quem sou eu, eu sou primeiro
01:08uma mulher, mãe, avó e todas as outras funções que eu fui adquirindo com o tempo, como navegadora,
01:17educadora, escritora, assim, defensora dos oceanos.
01:23Então, eu me defino dentro desses parâmetros que eu acabei de te apresentar.
01:28Qual foi o momento em que você percebeu que a aventura virou propósito, ou sempre foi um propósito?
01:36Olha, primeiro, realmente, nós saímos para navegar em aventuras.
01:41A primeira, imagina, dez anos no mar, criando os meus filhos nos oceanos,
01:45vendo eles crescerem, se tornando de meninos, saíram com sete, dez e quinze anos, se tornando homens do mar, né?
01:54Na segunda viagem também com a Cat.
01:56A primeira viagem foi de 1984 a 1994.
02:01Então, eduquei as crianças aí nessa fase a bordo do veleiro.
02:07Depois, na segunda viagem, de 1997 a 2000, junto com a minha filha Cat, o nosso filho David,
02:14também vendo a minha filha de cinco a oito anos navegando conosco.
02:17Foram três anos.
02:18Na terceira viagem, foi aí o ponto da virada, na realidade,
02:23porque quando nós chegamos numa ilha de West Faiú, nós já vínhamos vendo, né?
02:29Com esses anos todos no mar, que estava um elemento estranho,
02:33que não eram as baleias, não eram os peixes,
02:36mas um elemento que não pertencia ao oceano, às praias, aos costões, que era o plástico, né?
02:43Então, ainda era muito incipiente, a gente via, né?
02:46Mas não tinha, assim, a noção da proporção que isso estava crescendo.
02:50E aí você está falando de que ano, exatamente?
02:52Olha, é de até 98, quando foi a primeira vez que nós nos deparamos
02:57na ilha mais isolada do mundo, em Henderson Island, que faz parte do grupo Nemo.
03:04A ilha mais isolada.
03:06Fica onde?
03:06Fica no Oceano Pacífico e faz um triângulo com a ilha de Páscoa e com a Polinésia.
03:12E o nosso próximo vizinho são as naves espaciais,
03:17porque é muito distante de qualquer continente.
03:20E aí nós chegamos num lugar desabitado e sentamos na praia e, de repente,
03:25a gente já viu a praia azul, laranjada.
03:29O que é isso?
03:30Era a primeira invasão, o primeiro contato com o plástico invadindo as praias.
03:35E nessa última viagem de 2016, chegamos na ilha de Westfayu e uma praia pequena.
03:41Sabe quando a gente sente Robinson Crusoeia?
03:44Vamos descer naquela prainha maravilhosa.
03:46Descemos e quando chegamos lá, o choque.
03:50Recolhemos mais de 10 lixos, assim, de 200 litros, só de garrafa pet.
03:57Nem levamos outro lixo.
03:59Nem microplástico, era plástico mesmo.
04:02Então, nós trouxemos a bordo, conseguimos lavar e tal,
04:07e nós já, o nosso veleiro que foi construído para esse fim,
04:11ele é autossuzentável, nós tínhamos uma compactemos,
04:15uma compactadora que ela compacta o lixo que nós produzimos,
04:19seja de papelão, de lata, de plástico.
04:22E aí, compactamos em pacotes, levamos a bordo e navegamos até a ilha de Guam,
04:29que fica a três dias de viagem, onde tem uma base militar,
04:33que aí, uma base naval, que aí conseguimos reciclar.
04:36Então, foi dali que foi feito um vídeo, que na época era Facebook, viralizou,
04:43e as pessoas perguntavam, o que é que vocês vão fazer?
04:45Vocês navegam, vocês nos mostram as coisas bonitas.
04:48E nós sentamos como família, trouxemos pessoas de mídia,
04:52professores e cientistas, o que é que nós podemos transformar, né,
04:57esse nosso oceano para melhor.
05:00E aí, então, nós criamos a Voz dos Oceanos.
05:03Foi a partir desse momento que virou uma missão coletiva,
05:06talvez o sonho pessoal tenha virado uma missão coletiva.
05:10Exatamente, virou uma missão coletiva, e para mim, assim,
05:14uma missão muito pessoal também, no sentido que,
05:17qual o futuro que eu quero deixar, o presente e o futuro.
05:21Eu tenho cinco netos, né, então, como é que eu vou deixar para eles
05:26esse mundo que eu vivi de poder nadar, mergulhar,
05:31sem ser atingido por esse horror dos plásticos chegando nas praias.
05:37Então, conta para a gente exatamente como é essa iniciativa,
05:40a Voz dos Oceanos, o que vocês fazem,
05:43há quanto tempo vocês estão atuando e qual é o objetivo de vocês.
05:47Tá, nós estamos atuando já nesses últimos cinco anos,
05:50então, nós temos o tripé da educação ambiental nas escolas,
05:54tanto públicas quanto particulares.
05:56E não é só nas escolas, mas também em outros programas que a gente faz.
06:00Todo mundo acha, por exemplo, que algum programa de fazer limpeza de praia
06:05é só a limpeza de praia.
06:06Não é, é uma mudança de hábito das pessoas.
06:09É uma educação ambiental para os adultos também.
06:12Então, a gente trabalha dentro desse âmbito de educação ambiental.
06:16Nós trabalhamos também com o lado científico apoiado pelas universidades,
06:20tanto da USP quanto a do Univale, em Santa Catarina,
06:24apoiando os projetos de pesquisas dele.
06:28Inclusive, lançamos, revelamos o estudo que foi feito na costa do Brasil
06:33sobre microplásticos nos bivalves.
06:36É um projeto bem científico da USP.
06:40E temos também a inovação, quais são as tecnologias que podem ser usadas,
06:45que nós podemos divulgar.
06:47E o projeto também de comunicação,
06:49porque todo mundo conhece a família Shima através da televisão,
06:52que a gente apareceu, e hoje com as mídias sociais mais ainda.
06:56Então, nós estamos usando esses tripés,
06:59e mais um tripé também, que é o tripé da arte.
07:02Através da arte, conscientizar as pessoas.
07:05Então, o nosso objetivo é fazer com que as pessoas entendam.
07:09Você conhece uma causa, você pode defender.
07:15E você conhecendo o estado que estão os nossos oceanos,
07:19você pode não só conhecer, mas transformar.
07:23Você pode mudar os seus hábitos.
07:25Então, assim, vários hábitos do nosso dia a dia que podem ser mudados.
07:30Então, nós estamos trabalhando.
07:32O nosso hábito do dia a dia, por exemplo,
07:35é do consumo que nós temos exagerado.
07:38Todo mundo compra como se não houvesse amanhã.
07:43Então, não vou dizer que você não compre,
07:45mas vamos reduzir esse consumo.
07:48E a maneira como você se relaciona o dia a dia
07:51com aquilo que você consome em casa.
07:54Todo mundo fala, eu não jogo lixo na cozinha da minha casa.
07:59Mas você vê vídeos imensos de ano novo,
08:04de todo esse pessoal que vai para a praia,
08:07e lá dá oferendas para ir manjar,
08:11e quando sai aquela quantidade de plástico.
08:15Então, são pequenos hábitos.
08:17Leve a sua sacola retornável quando você vai para o supermercado.
08:22É um... Gente, você não sabe a quantidade.
08:25Leve para a praia também.
08:26Leve para a praia e recolha o lixo.
08:29Traga o seu lixo de volta.
08:31Então, são pequenos hábitos.
08:33Então, assim, por exemplo, eu faço o meu iogurte em casa,
08:36que é uma coisa muito simples de fazer.
08:38Porque eu não posso pensar de que eu vou nadar
08:41e um copinho de iogurte vai bater no meu rosto.
08:44porque está boiando, porque não foi propriamente descartado.
08:49O que acontece é que todo mundo acredita na questão
08:53que a reciclagem vai resolver tudo.
08:58Gente, não vai.
08:59Então, nós temos que pensar que nós produzimos
09:01uma quantidade absurda de mais de 5 milhões de plásticos
09:05e somente 3% desse plástico é reciclado no Brasil.
09:113%?
09:123%?
09:123%.
09:13No mundo, são 9%.
09:15Então, você fica pensando e diz assim,
09:17mas o que mais que eu posso mudar?
09:19Por exemplo, eu brinco e eu digo assim,
09:21ah, eu tenho água mineral.
09:23Me dá uma garrafinha.
09:25Aí eu digo para as pessoas, eu sou alérgica a plástico.
09:28Eu levo a minha garrafinha.
09:30Eu reencho a minha garrafinha.
09:32Então, você, cada vez que você está comprando uma garrafa plástica,
09:36você não sabe onde vai parar essa garrafa.
09:39Há cidades como São Paulo, algumas cidades grandes,
09:43têm, assim, também os catadores que vão para a rua,
09:47que é realmente um exército de pessoas que está fazendo um bem muito grande.
09:52Os próprios serviços de limpeza urbana que recolhem no dia certo.
09:57Mas, muitos desses resíduos não são colocados de maneira que deve ser.
10:04Então, são colocados no lixão porque nós descartamos também incorretamente.
10:09Então, você tem que lavar, tem que estar seco, tem que separar.
10:13Muita gente não faz isso.
10:14E aí, acaba que dá uma chuva,
10:17todo esse lixo que está na beira da calçada,
10:21que está no meio fio e aí vai levado.
10:23E aí, como disse um aluno para mim,
10:26professora, o meu lixo, eu moro em São Paulo,
10:29o meu lixo não vai para o mar.
10:30Você sabe de geografia?
10:32Sei.
10:32Então, responde uma pergunta.
10:34Todos os rios deságuam no mar.
10:39Então, esse lixo vai sendo levado e acaba nos oceanos.
10:44Antigamente, eu costumo dizer, chegando perto da Indonésia,
10:47atravessamos, por exemplo, da Nova Zelândia para a Austrália.
10:51Perto da Indonésia, nós vínhamos navegando o mar lindo, maravilhoso.
10:55E aí, eu digo, antigamente, os grandes navegadores,
10:59o que é que eles viam quando se aproximavam de terra?
11:02Eles viam os pássaros, as folhas que estavam chegando.
11:06Hoje, eu sei que a gente está chegando perto de terra
11:09porque passam as garrafinhas, o lixo boiando.
11:14Então, é uma mudança que só depende de nós.
11:18Transformar depende de nós.
11:21Por isso, a nossa missão é assim,
11:25de fazer com que as pessoas se conheçam.
11:26Você conhecendo, você sabe que você pode cuidar.
11:31Tem que ter o diagnóstico para que você tenha o tratamento correto.
11:35Então, diagnosticar o que está acontecendo
11:37para a gente poder fazer o tratamento adequado, né?
11:41Não é?
11:41Sim, você tem toda a razão.
11:44Eloísa, são muitos e muitos anos em alto mar.
11:48O que essa experiência toda te ensinou sobre autonomia,
11:52sobre medo e sobre confiança?
11:55Vou começar com o do meio.
11:56Tá bom.
11:57Medo.
11:57O medo, eu tenho.
11:59Muita gente acha que eu não tenho medo.
12:01Ai, você é uma corajosa.
12:02Não, eu tenho medo.
12:04Só que a minha fé é maior do que o medo.
12:07E eu vou com medo mesmo.
12:09Eu sei que estar no mar oferece, assim, um desafio ao meu medo, né?
12:16As ondas grandes, o barco que balança,
12:19as tempestades que estão ficando mais fortes.
12:21Mas a minha fé em Deus, independente de qualquer religião, gente,
12:27é muito grande.
12:28Então, eu tenho muita fé.
12:30E sempre acredito que eu vou conseguir, que vai dar certo.
12:35E tem dado, né?
12:36Então, são 41 anos navegando com filhos pequenos.
12:40Então, a minha fé é muito grande.
12:43Autonomia também, porque eu soube tomar o leme nas minhas próprias mãos.
12:47Então, eu não sou uma turista dentro do próprio barco, né?
12:51Então, eu sei navegar o barco, eu sei fazer manobra,
12:54eu sei me virar na hora que precisa estar ali toda a tripulação.
12:59Tem que ter um preparo para isso tudo também, evidentemente.
13:02Exatamente.
13:03E também com o tempo, com a experiência.
13:05E a terceira que você perguntou?
13:07É autonomia, confiança.
13:09Confiança.
13:10Isso aí é uma confiança que é uma moeda de dois lados, vamos dizer assim.
13:17Eu tenho a autoconfiança de que eu sou capaz, né?
13:21Então, por exemplo, este ano de 2025, eu cruzei dois oceanos.
13:26Eu cruzei o Oceano Índico e cruzei o Oceano Atlântico.
13:30O Oceano Índico é o pior oceano que eu cruzei até agora.
13:35São quatro oceanos, o mais difícil.
13:37São quatro oceanos que eu já cruzei.
13:39Então, o Índico é a quarta vez que eu cruzei.
13:42E todas as vezes é assim, é como você estar numa máquina de lavar gigante.
13:48Porque ele não tem nenhuma ilha que amorteça o seu e nenhum lugar para parar.
13:54Então, assim, eu tenho que ter uma autoconfiança, uma capacidade também de não entrar em pânico se as ondas são
14:03grandes.
14:03A capacidade de ter o treinamento para estar me segurando, porque o barco chega a virar...
14:12Joga mesmo, você joga para a parede.
14:15Muito.
14:15Para você não se machucar.
14:17Porque eu não tenho nenhum lugar para parar.
14:20Eu não tenho uma ilha para parar e dizer que eu quero um médico.
14:24Não existe.
14:25Então, eu tenho que ter realmente uma confiança muito grande no meu capitão, que é a pessoa que está conduzindo
14:32o barco.
14:33No próprio barco, que é um barco guerreiro.
14:36O veleiro cat também é um barco guerreiro, um barco de aço.
14:39Então, eu tenho que ter essa confiança que eu possa estar navegando.
14:43E isso tudo, esses três elementos juntos, fazem com que eu me torne uma tripulante corajosa.
14:52O que esses 40 anos em alto mar te moldaram como mulher?
14:58Como mulher, como líder?
15:00O que você aprendeu durante todos esses anos em situação tão diferente do que a gente está acostumado?
15:08E que te moldou?
15:09Olha, para mim, a principal coisa é que nunca perder a minha essência.
15:15Eu, como essência de mulher, de ser a mãe, de ser a avó, de ser a pessoa que está no
15:22barco, a marinheira,
15:23nunca perder a minha essência de mulher.
15:26De eu ter os cuidados, os autocuidados comigo mesmo, a minha proteção de pele, os meus cuidados.
15:33Mesmo que eu esteja dias de vento, de chuva, de cuidar de mim, de o meu cabelo.
15:39E também, baseado em tudo isso, de ter, eu digo assim, eu me amo.
15:46Eu gosto muito de mim.
15:48Eu tenho a minha autoconfiança.
15:50Eu pratico meditação.
15:52Então, isso também é um elemento que me salva como mulher.
15:57Porque tem horas que você tem vontade de jogar todo mundo no mar, né?
16:01E vice-versa.
16:02Talvez eles tenham vontade de me jogar no mar.
16:04Mas você tem...
16:06Para mim, como mulher, eu tenho que estar no comando da minha vida.
16:11Para mim, assim, eu sei quem eu sou.
16:14Eu sei até onde eu posso chegar, né?
16:16E eu tenho...
16:17Não posso perder nunca porque eu sou essa pessoa.
16:21Ah, porque você pode mudar, porque você pode fazer isso.
16:23Posso, mas não quero.
16:24Eu sei quem eu sou, até onde vai o meu limite.
16:27Mas a minha essência como mulher é, para mim, fundamental nunca perder.
16:32Eu não posso deixar de perguntar qual foi o maior perrengue que você já passou.
16:36Foi numa dessas duas travessias pelo Oceano Índico?
16:39Olha, assim que você...
16:41Vou morrer agora, não tem jeito.
16:43Teve isso?
16:44Teve.
16:45Não, nem foi nenhuma dessas.
16:47Foi em 1992, quando nós saímos da Nova Zelândia.
16:52Saímos um pouco atrasados.
16:54Meu filho desembarcou, ficou em terra, o David.
16:57E nós saímos da Nova Zelândia.
16:59Levamos, inclusive, um amigo do meu filho mais novo, de 16 anos, para navegar conosco, né?
17:05E saímos com tempo bom, previsão de três dias, tempo bom.
17:09Era uma semana de navegada até Fiji.
17:12Tudo bem, tranquilo, barco forte.
17:14E chegou no terceiro dia, fomos avisados.
17:17Não tinha toda essa tecnologia de satélite, via rádio, de que vinha uma tempestade.
17:23E aí, preparamos, baixamos vê-la, fiz sopa, lógico, funcionei também de mãe cozinheira ali,
17:30fiz um monte de sopa para tomar, que era mais fácil.
17:33E me preparei, roupa de lã, etc.
17:35E a tempestade veio...
17:37Essas coisas só acontecem de noite, né?
17:40A tempestade sempre entra à noite.
17:41Que isso, né?
17:42A tempestade entrou e, com os ventos, que foram muito maiores do que o nosso rádio amador previu,
17:52o barco chegou uma hora que ele deitou, as velas encheram de água e os maços quebraram.
18:01Nós tínhamos feito uma revisão nos mastros e, talvez, nos 18 cabos,
18:07que é mais ou menos como essa mesa assim, né?
18:09Que seguram o mastro, um deles quebrou e, quando a força da onda e do vento,
18:16que estava a mais de 100 km por hora, bateu, quebrou.
18:20Então, quebrou, aquilo tudo caiu dentro d'água.
18:23E a última coisa que você pensa é que você vai perder a sua propulsão, que é o vento, né?
18:29Nós tínhamos um motor com autonomia.
18:31Nós estávamos há três dias da Nova Zelândia.
18:35Bom, então, sentamos e o que é que nós vamos fazer?
18:37Qual é a emergência que nós temos que fazer?
18:40Voltar para a Nova Zelândia, contra o vento e contra as ondas, né?
18:45Era meu aniversário, 22 de junho, eu nunca me esqueço,
18:48porque deu um dia mais tranquilo, até fiz um bolo de aniversário.
18:53E aí, nós resolvemos voltar.
18:55Nós fizemos esse trajeto em três dias.
18:57E nós demoramos 11 dias para voltar.
19:0111 dias?
19:02E o tempo inteiro com tempestade?
19:04Tivemos mais duas tempestades, né?
19:07Então, nesse momento, é aquela coisa.
19:09Eu estou com medo?
19:10Estou, mas vai ter que continuar, né?
19:12Tínhamos que...
19:13Temos que passar uma confiança, uma segurança para o teu filho, para o amigo dele.
19:18Exatamente.
19:18Para as crianças ali, imagino.
19:20É assim, você é aquele momento...
19:23E para mim também foi um momento muito assustador, porque eu estava com um filho que não era meu.
19:29Pois é, ainda tem isso.
19:30Ainda tem isso, né?
19:31Então, assim, e agora?
19:33Nós temos que ter...
19:34Aí vem o lado da confiança.
19:36O barco está bem, ninguém está machucado.
19:39Nós podemos voltar com nossos próprios meios.
19:42E aí voltamos no motor, até...
19:45Nós saímos para chegar numa ilha, chegamos na outra, mas tudo bem.
19:48Demoramos 11 dias para voltar.
19:51Então, para mim, aquela viagem ali foi a pior, assim, um momento pior que eu já passei.
19:57Nunca pensei que o barco ia afundar.
20:00Sinceramente, eu achava assim.
20:01Gente, vai demorar, mas vai chegar lá.
20:03A Nova Zelândia, depois que passou essa primeira tempestade, ofereceu até a Marinha para vir buscar.
20:09Mas nós dissemos, não, estamos bem, vamos voltar.
20:12Mas foi uma prova ali de confiança, de coragem e fé, né?
20:19Com certeza.
20:20Você sempre diz que os oceanos regulam o clima e que 50% ou mais de 50% do que
20:27a gente respira é produzido pelos oceanos.
20:30Por que ainda é uma questão tão invisível nos debates mais importantes do mundo, nos debates públicos, nos debates econômicos?
20:40Por que ainda não se chegou a um nível que, eu digo assim, a floresta amazônica, há muitos anos, vem
20:48se propagando como o pulmão do mundo, né?
20:51Há mais de 20 anos, agora que estão se voltando os olhares definitivos, assim, para descobrirem que, não descobrirem, mas
21:01conhecerem esse fato de que mais de 50% do nosso oxigênio vem dos oceanos.
21:07Então, ainda falta muito, é muito recente esse pensamento.
21:12As pessoas ainda estão com aquela ilusão que diz assim, são importantíssimas as florestas, sem elas também, né?
21:22Não se forma esse clima.
21:23Mas eu digo assim, o pulmão tem dois lados, um é verde e o outro é azul.
21:28Então, nós precisamos realmente conhecer esse lado, porque se o oceano para, recentemente, eu fui fazer um texto e eu
21:36digo, se o oceano para de respirar, nós também.
21:41Nós não podemos respirar só com a floresta.
21:43Então, nós somos interdependentes.
21:46Tem uma questão muito importante também, essa questão da mudança climática, tem tudo a ver.
21:51Está tudo ali...
21:52Conectado.
21:54Conectado, conectado, exatamente.
21:55O que realmente funciona quando a gente fala de mudança de comportamento em relação a isso?
22:02É culpa, é medo, é informação?
22:06O que funciona?
22:08Nenhum desses elementos que eu falo, não.
22:10Sobrevivência.
22:12Nós estamos caminhando para uma elevação de temperatura que vai chegar a um ponto que é uma questão de sobrevivência.
22:21Nós podemos ver isso nas grandes desastres climáticos, que não importa, não é Deus nem ninguém que está fazendo isso
22:30acontecer.
22:31Isso é tudo reação deste aquecimento global, né?
22:36Desses mudanças climáticas.
22:38E assim, a gente vê isso de perto e não precisa...
22:42Ah, mas agora você vem em Nova Iorque, a maior tempestade de neve do mundo, né?
22:48Mas isso faz parte dessa mudança, desse vórtex climático.
22:52Mas as pessoas acham que não.
22:53Então, eu tenho pessoas que perguntam, como você fala de mudanças de clima, se a gente vê que está um
22:59inverno mais rigoroso?
23:00E aqui em São Paulo, inclusive, quase não teve o verão que chegou tarde, né?
23:05Mas tudo isso faz parte de um processo que vai mudando, né?
23:10Então, a gente vê, eu vejo...
23:12Isso tudo faz parte da mudança climática também.
23:14Não era para estar com tanta neve assim lá, não era para não ter verão em São Paulo.
23:19A gente está vendo uma quantidade de chuva absurda também.
23:22Depois de um período longo de secas.
23:24De secas.
23:25Mas isso tudo são essas mudanças que estão acontecendo.
23:28Ah, já aconteceram isso há milhões de anos em que teve a idade, a era do gelo.
23:32Mas, gente, nós estamos acelerando, né?
23:36Encontrei um jovem numa ilha de Tuvalu, que a água está subindo, e que são os primeiros refugiados climáticos do
23:43mundo.
23:44A Austrália, muito boazinha, disse, eu vou receber esses refugiados num total de cento e não me lembro quantas pessoas
23:53por ano.
23:55As ilhas têm...
23:56Cento e tantas pessoas.
23:57Pessoas.
23:58Tem nove mil habitantes.
24:01Então, dentro de uns 20, 30 anos, a ilha vai estar debaixo d'água.
24:05Então, assim, mas aqueles que estão vindo estão se salvando.
24:09Mas, aí você se pergunta, não são só essas pessoas dessas ilhas?
24:16São milhares de ilhas.
24:19Países que estão ameaçados da uma subida de um metro, dois metros das águas em Bangladesh, das águas na própria
24:30Jakarta.
24:31Nós estivemos na Indonésia, passamos quatro meses lá.
24:34A Indonésia, a Jakarta, devido a furar muitos poços de água.
24:40Ela tem um terreno muito poroso, né?
24:45A água está subindo a uma velocidade incrível.
24:49E é o primeiro país que construiu uma capital fora, 1.300 quilômetros em cima da montanha,
24:56para mudar a capital de 11 milhões de pessoas.
24:59Não são 11 mil, são 11 milhões de pessoas.
25:01Então, essas mudanças a gente está vendo.
25:04Você chegar numa ilha que você tem que parar e o nosso barco tem um dessalinizador
25:10e fabricar água durante várias horas, durante um dia,
25:16para prover água para uma população de cento e poucas pessoas,
25:20porque faz três meses de seca, eles não têm água doce para beber e estavam desesperados.
25:26Então, eu sinto isso, assim, na pele, eu vejo isso.
25:32E todos os específicos, vendo...
25:35Não, porque a estatística diz isso.
25:37Gente, eu vi.
25:38Eu não estou dizendo um fato, número, nem nada disso.
25:43Eu vi essa...
25:44Na ilha de Fiji, por exemplo, a gente tem que ajudar os nativos
25:49que estavam construindo uma barreira contra a água que estava subindo
25:53e ajudar a mudar as carteiras, o quadro negro e tal, levantar
25:58e mudar para uma escola nova que eles fizeram, mais para cima,
26:02porque essa ilha, por sorte, tem uma montanha, né?
26:05Então, ilhas, a maioria dos atóis que tem três metros,
26:09o mar sobe um metro, a primeira coisa que invade é o poço de água doce.
26:13Então, assim, a gente vê que realmente está acontecendo.
26:17E pessoas que eu conheci em 1989, numa ilha que se tornaram minhas amigas,
26:27que a gente ia pescar colchinhas, como é que chama?
26:32Marisco na praia.
26:34A gente andava naquela praia e lá pegava marisco,
26:36ela fazia um arroz de marisco para mim.
26:37Isso na Indonésia também?
26:39Não, na Polinésia Francesa.
26:41Aí, depois, na segunda vez que eu passei, a gente já, em 1997,
26:47quando eu passei, a água já tinha subido, a praia já não era tão grande.
26:52E na última vez, agora, que nós passamos em...
26:55Não, não só isso, mas a água estava pelo joelho.
26:59E ela dizia para mim, por que a água não baixa mais?
27:02Ela não podia entender.
27:04É uma ilha que tem 10 habitantes, eles vivem do coco, né?
27:08Eles cultivam o coco e o navio vem uma vez por ano
27:12para buscar e recolher esse coco.
27:14Ela não podia entender como que a água estava subindo.
27:18E os passarinhos que os ninhos estavam sendo cozinhados, né?
27:23Porque a temperatura estava mais alta.
27:25Então, assim, eu vi...
27:27Nós vimos, né?
27:28Dentro da nossa expedição, tudo isso que está acontecendo.
27:33Então, negar que haja mudanças climáticas, sabe?
27:36Eu fico bem brava.
27:37Aí, eu digo, gente, está com...
27:39É um testemunho ocular disso, né?
27:41Nós todos também estamos no Brasil.
27:43Quem ia pensar uma tragédia como o Rio Grande do Sul?
27:46Sim, com certeza.
27:48Nunca, nunca, assim, nem em milhões de anos, previsão,
27:53nós não íamos pensar que isso podia acontecer, né?
27:56Então, ventos fortes como aconteceram recentemente, né?
28:01Eu digo, pessoal, para mim, não existe mudança climática.
28:04Eu digo, eu morava em Florianópolis.
28:06Eu nunca tinha ouvido falar em ciclone, né?
28:09Eu cresci lá, eu nunca tinha ouvido falar em ciclone.
28:11Agora, você ouve essa palavra na boca de todo mundo.
28:14Todo mundo fala, sabe o que é.
28:16A previsão de tempo dá um ciclone, né?
28:19E existiam...
28:21Os nomes dos ciclones brasileiros são designados pela Marinha.
28:25Então, eu não me lembro se eram dez ciclones que eles tinham...
28:28Já passou dos dez e tem que fazer mais nomes.
28:32Novos nomes.
28:32São todos nomes indígenas, né?
28:34Até achamos muito bonito esse lado.
28:36Mas não, sabe?
28:38Então, está aumentando cada vez.
28:40E as pessoas estão...
28:42Ai, mas a maré subiu, que a onda invadiu.
28:45Gente, isso vai se tornar, né?
28:47Uma recorrência.
28:50Então, tem vários lugares.
28:52Pessoal, pensa que é só nas ilhas do Pacífico.
28:54Aqui no Brasil, nós temos uma cidade no estado do Rio,
28:58que também já está sendo invadida.
29:00Na ilha de Itaparica, a água está subindo também.
29:04Então, assim, vários lugares ao longo da costa do Brasil,
29:07a gente está vendo acontecer, né?
29:09Mas nós temos que diminuir, por exemplo,
29:13o consumo de automóveis, por exemplo,
29:17toda essa produção que vem do óleo, do diesel, né?
29:22Então, a gente tem que saber que é uma realidade, né?
29:26Então, as mudanças energéticas têm que estar acontecendo com mais rapidez.
29:31Você também é escritora.
29:33Você já escreveu sete livros.
29:35Tem alguns best-sellers.
29:36Acabou de escrever aqui dois livros infantis.
29:40Vou mostrar aqui para o nosso telespectador.
29:42Tem esse e tem esse.
29:44A Cat é a guardiã dos oceanos.
29:47Isso.
29:47Que é o nome da sua filha.
29:49Isso.
29:49Em que momento que você resolveu virar uma escritora?
29:52E por que escrever para a criança?
29:53Já é para dar um alerta para a criança entender?
29:57Aliás, é muito legal, né?
29:58É a Cat contra o pirata Poluix.
30:01Poluix.
30:02Eu adorei esse nome.
30:03Ele é muito poluíntico.
30:06Poluí tudo.
30:06Poluí tudo.
30:07E que, na realidade, representa todos nós, né?
30:10Um pirata que está ali pertencendo a uma raça humana, vamos dizer assim.
30:18Não.
30:19Eu comecei a escrever.
30:20Já tinha escrito um livro, Infanto Juvenil, mas de todas a nossa viagem da Expedição Oriente,
30:26com lendas.
30:27E aí foi pedido, assim, de várias pessoas.
30:32Escola, fiz programa educacional.
30:33E começaram a pedir e falar.
30:35Aí eu vou dizer, não, vou sentar.
30:37E, realmente, a voz dos oceanos, nesses quatro anos, para mim, foi assim.
30:42Uma escola para me mostrar não só os problemas, mas também as soluções.
30:48Porque a gente encontrou que eu acho o máximo que você falou, por que as pessoas...
30:53As pessoas, sejam estudantes, as mulheres ribeirinhas, pescadoras, as ONGs que estão trabalhando.
31:01Nunca, alguém falou para mim, nunca se viu tanta ONG ganhando dinheiro com essa questão dos oceanos.
31:07Eu falei, se a ONG ganhasse dinheiro, a gente não vai estar um milionário.
31:10Mas não é isso.
31:12Mas é importante que existem muitas ONGs que estão trabalhando.
31:15Então, esse lado positivo que a gente viu, a gente viu, por exemplo, a defesa das restingas,
31:23de plantar, né?
31:25Para não deixar a água invadir.
31:27Os corais, a recuperação dos corais, né?
31:31Como aqui no Brasil, nós temos a biofábrica dos corais.
31:35Então, assim, a gente vê que existem várias pessoas que estão trabalhando com isso,
31:40com essa recuperação da nossa natureza.
31:44Então, eu resolvi, aí disse, vou escrever um livro para as crianças,
31:47sendo que a Cat, a nossa personagem, a guardiã dos oceanos,
31:51para mostrar que como todas as crianças podem também ajudar.
31:55Então, essa é a minha nova faceta, né?
31:59A minha nova missão de estar trabalhando mais na educação ambiental.
32:04Que ontem, aliás, foi o dia internacional, o dia mundial da educação ambiental.
32:10Sim, várias facetas, né?
32:12Várias facetas.
32:12O tempo voou, a gente já estourou, mas eu sempre gosto de terminar
32:17fazendo a mesma pergunta para todas vocês.
32:20O que significa para você ser protagonista da sua própria história?
32:23O que significa para mim?
32:26Significa que eu posso viver a minha vida e, principalmente,
32:33se eu sou capaz de inspirar as outras pessoas a transformarem a sua vida para melhor.
32:42Maravilhoso!
32:43Você é demais!
32:44Obrigada!
32:45Foi um prazer gigantesco.
32:47Muito obrigada a você!
32:52Obrigada!
32:52Obrigada!
32:52A CIDADE NO BRASIL
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