00:00É interessante, eu queria pegar um gancho já que a gente está falando de política externa aqui.
00:04A Europa, o papel da Europa.
00:06O plano Drag, eu gostei muito do plano do Mário Drag, ele toca em três pontos fundamentais,
00:11a questão da produtividade na Europa, a questão da independência energética
00:15e um renascimento de uma política industrial praticamente investindo na indústria de defesa.
00:20Ele dá ali um blueprint.
00:22Mas assim como o Brasil, ele coloca ali os grandes desafios que a Europa tem,
00:26criar um mercado de capital único, desregulamentar, tem todos ali um desafio.
00:30Você vê a Europa também com esse potencial de renascer com uma potência econômica?
00:36Eu vejo, mas eu tenho mais pessimismo em relação à Europa do que em relação ao Brasil.
00:42Porque a Europa tem um grande problema de, na União Europeia,
00:46você ter que em vários momentos ter consenso ou maioria de países para tomar certas decisões.
00:53Inclusive o acordo do Mercosul a passar no parlamento precisa desse parlamento europeu,
00:58desse consenso, não consenso, mas a maioria dos países.
01:02E isso é difícil, né?
01:04E o grande problema para mim da Europa é o mindset,
01:12essa tentativa de desregulamentação que não avança,
01:15porque eles são muito preocupados com essa questão da regulamentação.
01:21que é importante, mas se você engessa, você fica para trás.
01:26E é por isso que os Estados Unidos, nos últimos anos, cresceu tanto a produtividade e a renda
01:32e a Europa ficou para trás.
01:33E agora, com a questão da tecnologia, quando você fala em investimento em tecnologia, em AI,
01:41é Estados Unidos e China.
01:42Cadê a Europa?
01:43Não consegue avançar por conta da regulamentação.
01:46Então o Plano Drag seria ótimo, ele mesmo coloca essa questão da regulamentação,
01:51que precisa mudar, mas a gente não vê esse avanço.
01:54E é mais difícil por conta de ter 27 países que precisam conversar, sentar numa mesa.
02:01E o pior, cada país tem seu problema político interno.
02:05Então é muito melhor, mais fácil no Brasil, que a gente é um país só.
02:09Eu sei que cada Estado tem a sua questão interna política,
02:14mas de conseguir aprovar no Congresso do que conseguir aprovar na Europa.
02:18Ou seja, o desafio cultural do Brasil é se livrar desse nacional desenvolvimentismo,
02:25de uma política anti-mercado, acreditar nas virtudes da intervenção do mercado.
02:29E o da Europa é como se desapegar do Estado assistencial para se tornar um pouco mais competitivo.
02:36Exato.
02:37E a gente tem a vantagem e, ao mesmo tempo, uma desvantagem,
02:41que a nossa renda é muito inferior à da Europa.
02:43Então, se a gente conseguir avançar um pouquinho,
02:47para o brasileiro vai ser um ganho tão substancial.
02:53Então, é muito popular.
02:54Isso aconteceu na Coreia do Sul.
02:57E por que não acontece com a gente?
03:00Agora, nós temos um outro enorme desafio aí, já de médio prazo,
03:03que é essa mudança demográfica no Brasil,
03:05que vai exigir do próximo presidente da República
03:08fazer uma segunda reforma da Previdência,
03:10que é sempre algo extremamente custoso politicamente.
03:14Mas não tem jeito.
03:15Nós vamos ter que mexer nessa questão da Previdência mais uma vez.
03:18Inclusive, acabando com privilégios, né?
03:20Algumas categorias que acabaram ficando fora do sistema previdenciário.
03:24Você acha que isso vai ter que ser uma decisão rápida no próximo governo
03:28ou que ele pode esperar um pouco?
03:30Não, eu acho que vai ter que ser rápida.
03:32Porque a reforma da Previdência que foi aprovada,
03:36ela partiu de uma tabela sobre como as pessoas iam envelhecer no Brasil,
03:41que já foi ultrapassada.
03:43As previsões foram largamente ultrapassadas.
03:47Então, ainda que a regra do salário mínimo não tivesse mudado,
03:51a gente precisaria atualizar
03:52e colocar os grupos que ficaram de fora para dentro.
03:55Agora, então, que a regra do salário mínimo
03:58tirou toda a economia que a reforma foi feita, toda,
04:01é como se a gente não tivesse feito reforma.
04:03O aumento real do salário mínimo.
04:05O aumento.
04:05O aumento acima da inflação.
04:08Isso.
04:09É.
04:09Isso matou a economia da reforma da Previdência aprovada.
04:14Então, a gente tem esse problema.
04:16Acho que tem que ser já, tem que ser para agora.
04:18Entendeu?
04:19E a gente vai ter que pensar,
04:21acho que ter uma discussão pública sobre
04:25o quanto que o Brasil quer gastar com os idosos
04:28e quanto que quer gastar com os jovens.
04:30Que esse é um problema.
04:30O número de idosos está crescendo,
04:32a gente vai precisar aumentar o gasto aqui,
04:34mas a gente precisa qualificar a mão de obra,
04:38inserir nesse mercado de trabalho,
04:40torná-la competitiva para poder sustentar esse grupo.
04:44Então, essa revisão do gasto público vai ser muito importante,
04:47porque se a gente continuar gastando com os idosos
04:53sem revisitar como que vai pagar essa conta,
04:56o dinheiro não vai dar.
04:59O Solange, uma questão importante,
05:01que a gente discute pouco em economia,
05:03mas que ela é fundamental,
05:04é a estrutura federalista do Brasil.
05:07Os entes subnacionais, os estados,
05:09têm estado crescendo 7%,
05:11têm estado crescendo 5 mil por cento, 6 mil por cento.
05:13Então, nós temos muito foco no crescimento regional.
05:16E nós temos governadores,
05:19uma safra extraordinária de bons governadores,
05:21que são pró-negócio, que querem atrair negócio.
05:24Como é que nós podemos fazer esse ajuste na legislação
05:27para melhorar o ambiente de negócio,
05:29quando você tem governadores pró-mercado
05:32olhando para o investimento
05:34e, por outro lado, essa outra força
05:36puxando para o intervencionismo estatal,
05:38para o nacional-desenvolvimentismo a nível federal.
05:40Como é que pode harmonizar um pouco isso
05:42para que esses investimentos venham para o Brasil?
05:46Com certeza, os estados que estão crescendo 7%, 8%
05:49foram estados que cuidaram das contas fiscais
05:53e conseguiram atrair investimento.
05:55Porque tem muito estado que fez reforma administrativa,
05:59que fez reforma da Previdência
06:00e outros que não,
06:02que estão até agora renegociando a dívida com o governo,
06:05rolada pelo STF,
06:06que diz que não precisa,
06:08que não pode cortar salário de servidor,
06:11não pode cortar aposentadoria.
06:12Então, eu acho que o que precisa
06:14para tentar igualar um pouco esse crescimento
06:19é, primeiro, que o STF,
06:23que o judiciário,
06:24não passe por cima de políticas públicas
06:27com o discurso de que, olha,
06:28não é possível não pagar funcionário público.
06:32Porque se o funcionário público dos estados não receberem,
06:34eles vão forçar o governo a fazer reforma.
06:37Porque se a dívida for sempre rolada
06:39com o setor público,
06:40com o governo federal,
06:42com taxas de juros completamente,
06:45muito mais baixas do que o custo da dívida pública,
06:49então, nunca vai precisar,
06:50não tem o incentivo de fazer reforma.
06:52Não tem.
06:53E aí, eu acho que se cair no colo do governador
06:56porque não conseguiu entregar
06:58o custo da falta de bem-estar do seu estado,
07:04ele vai fazer.
07:06E aí, isso vai precisar ser casado
07:09com essa revisão de benefícios sociais.
07:11Porque tem muito estado que não faz nada
07:13porque a maior parte da sua população
07:15recebe o benefício social
07:16que vem do governo federal.
07:18Então, eu acho que tem que ter
07:19essa questão federativa na mesa.
07:23é uma das reformas importantes
07:24que muito pouco se fala.
07:26Foi bom você ter trocado nesse ponto.
07:28Aliás, a reforma da lei,
07:30a lei da responsabilidade fiscal aprovada
07:32foi justamente para trazer
07:35a responsabilidade fiscal
07:36desse alto grau de endividamento
07:38de estados no governo.
07:39Foi essa federalização da dívida
07:41dos estados que acabou fazendo
07:43com que aprovasse a lei
07:44de responsabilidade fiscal.
07:45E, novamente,
07:48há um descontrole de contas públicas
07:50em muitos estados
07:51que recebem hoje a val da União
07:53e, pior,
07:54o judiciário entrando
07:56e dando ganho de causa
07:57para o Estado caloteiro
07:58e fazendo a União pagar a conta.
08:00Como é que a gente vai sair desse embrólio?
08:02Não, a lei de responsabilidade fiscal
08:04acabou no Brasil.
08:05Só não decretaram a morte dela ainda
08:07porque está escrito ali.
08:08Mas, assim,
08:09não é cumprida.
08:11Não é cumprida.
08:12Então,
08:13a gente volta
08:14para a questão
08:15dos três poderes
08:17terem que cada um
08:18ficar na sua caixinha
08:20porque, senão,
08:21nenhuma reforma
08:22é efetiva.
08:24Não pode um Estado
08:25inadimplente
08:26que não faz reforma
08:27ter o aval
08:29para continuar recebendo
08:31os impostos
08:33recolhidos pela União.
08:34Não pode.
08:36Se a população
08:37não sofrer as consequências
08:38do seu voto,
08:40isso não muda.
08:41não pode um dinheiro.
08:41Então,
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