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  • há 1 dia
Série documental sobre segurança pública no Rio e no Brasil, sequência do filme Relatos do Front. Mostra como, após quatro décadas, os erros das políticas não só se repetem, mas se intensificam, revelando a face violenta e sangrenta por trás do cartão postal.

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00:00A CIDADE NO BRASIL
00:30A CIDADE NO BRASIL
01:00A CIDADE NO BRASIL
01:02A CIDADE NO BRASIL
01:04A CIDADE NO BRASIL
01:06A CIDADE NO BRASIL
01:08A CIDADE NO BRASIL
01:10A CIDADE NO BRASIL
01:12A CIDADE NO BRASIL
01:14A CIDADE NO BRASIL
01:16A CIDADE NO BRASIL
01:18A CIDADE NO BRASIL
01:20A CIDADE NO BRASIL
01:22A CIDADE NO BRASIL
01:24A CIDADE NO BRASIL
01:26A CIDADE NO BRASIL
01:28A CIDADE NO BRASIL
01:30A CIDADE NO BRASIL
01:32A CIDADE NO BRASIL
01:34A CIDADE NO BRASIL
01:36A CIDADE NO BRASIL
01:38A CIDADE NO BRASIL
01:40A CIDADE NO BRASIL
01:42A CIDADE NO BRASIL
01:44A CIDADE NO BRASIL
01:46Eu parto do princípio de que o Brasil é um projeto muito bem sucedido.
01:53Porque a gente tem que ver para que o Brasil foi montado,
01:56para que o Brasil institucional foi estruturado,
02:00e a gente vai ver que isso até agora funcionou.
02:07Oito anos de idade, agora tá aí, ó.
02:10Perdi minha neta, uma delas, eu perdi.
02:13Não era para perder nem eu, nem ninguém.
02:16O Brasil não é um caso de fracasso,
02:18o Brasil é um caso de um país extremamente bem sucedido.
02:21Porque ele foi projetado para ser exatamente o que ele é.
02:25Na última semana ganhou quatro méritos, como assim?
02:29E no horário de laseadele aconteceu um negócio desse?
02:33É explicável, não tem segurança nenhuma.
02:37Essa montagem colonial, ela nunca foi desmontada.
02:40A estrutura social desigual, brutal, violenta,
02:42que não incorpora a população, ela é mantida.
02:45Ela nunca foi alterada na história do país.
02:47Pelo contrário, ela é reforçada.
02:50Seja aí, velho, filho da puta!
02:53Vou passar, vem.
02:54Nós fomos projetados para não fazer a distribuição da propriedade,
02:58e não fizemos.
03:00Nós fomos projetados para não universalizar o ensino,
03:03e não universalizamos.
03:05Nós fomos projetados para encarcerar uma grande parte da população,
03:09e encarceramos.
03:10Então, até agora, eu não sei onde é que está o erro.
03:14Se você for ver o latifúndio, o agronegócio,
03:18os grupos ligados a estruturas da mineração, empreiteiras, banqueiros,
03:23isso aqui é um paraíso para banqueiros.
03:24Então, esses caras, de fato, para eles o Brasil deu certo.
03:27O Brasil foi projetado para ser um país, no fim das contas,
03:33fundamentado num projeto de poder para uma elite muito restrita.
03:40Então, isso não é um desvio de rota.
03:42Isso é um projeto de Estado que funcionou.
03:46Funcionou.
03:52Pai nosso está no céu.
03:54Céu de Ricardo se funcionou.
03:57Isso não é normal a gente ficar no chão,
03:59porque está tendo tiroteio.
04:01Eu não aceito isso.
04:02Eu não aceito.
04:04Enquanto o futuro prometido para o Brasil nunca chega,
04:08convivemos desde o século XVI com a violência,
04:11a desigualdade, o racismo, a morte.
04:19Repetindo erros do passado e não querendo mudar seu futuro,
04:24o Brasil do século XXI obriga uma grande parte da população brasileira
04:30a viver muda, cega e surda,
04:35na outra face do cartão postal.
04:41O Brasil, o Brasil, o Brasil, o Brasil, o Brasil,
05:11O Brasil, o Brasil, o Brasil, o Brasil, o Brasil.
05:35Cláudio Ferraz, aposentado,
05:37delegado da Polícia Civil do Rio de Janeiro,
05:40Comandei a Delegacia de Repressão das Ações Criminosas Organizadas durante 4 anos
05:45Trabalhei também na Delegacia Antissequestro
05:47Trabalhei em várias outras unidades distritais
05:50E alguns projetos de modernização da Polícia Civil do Rio de Janeiro
05:53E depois tive a oportunidade de trabalhar coordenando o transporte complementar
06:01Do Rio de Janeiro, da cidade do Rio de Janeiro
06:03Com uma estrutura que é uma das maiores fontes de renda
06:08Dessas organizações criminosas, chamadas milícias aqui no nosso estado
06:13É um fenômeno extremamente perigoso
06:20Porque esta empresa criminosa, ela opera dentro de uma lógica racional
06:26De uma lógica empresarial, sempre objetivando o lucro
06:30E operando a violência de uma forma utilitária, funcional
06:34Eu entrei para a milícia porque não tinha opção
06:43É a força do local, é tráfico, não é milícia
06:47Como eu já venho de uma cadeia, como 5-7
06:55Fui levado à reunião para poder me justificar por estar no bairro
06:59E tudo o que acontece no bairro, eles fazem um levantamento
07:02É toda uma logística
07:03Quem é que te saiu da cadeia agora?
07:06Qual foi o crime deles?
07:07Te sarqueiam
07:08As alianças são muito fortes
07:12E eu fui levado à reunião onde eu tive que implorar pela minha vida
07:16Na reunião que eu participei
07:28Tudo o que o cara falava que não podia, fazia, eu fazia
07:32Poxa, no final eu falei, chamei o superior e falei
07:36Qual o superior?
07:37Eu não sei onde vai ficar nesse negócio aí não
07:39Porque tudo o que o senhor falou não pode, eu faço
07:41Não pode bater no viciado
07:43Não pode matar o vagabundo
07:46Não pode invadir boca de fumo
07:49Eu vou fazer o quê?
07:51Sobrou para mim só a vassoura, foi o termo que eu usei
07:53Aí foi me passada a visão
07:55A nossa operação é dinheiro
07:56Não é guerra
07:59O cara está ali, ele dá para morrer
08:00Mas vai ficar ali
08:02Eles não querem estatística
08:04É dinheiro
08:05Ao contrário da visão do extermínio
08:08Extermínio mata
08:10Não tem jeito
08:11Vagabundo
08:11É saco
08:23Eu cresci em meio
08:25Nesse caso ali é um extermínio
08:27Convivi com pessoas daquilo ali
08:29Então os meus heróis
08:30Charles Brons
08:31O filme que eu vi era do Charles Brons
08:35Que me inspirava que ele saia
08:36Para matar os vagabundos
08:38Correr atrás
08:38Então tu se espera
08:39Ele está adotrinado naquilo ali
08:41A cultura da Baixada Fluminense
08:45É uma cultura de justiceiros
08:46E a população, o povo, ele tem necessidade de ter os seus heróis
08:58Quando você vê esse povo submetido a violências, a injustiças
09:08O surgimento dessas figuras é importantíssimo para essa população
09:13Como uma opção de segurança
09:15Como uma opção de buscar o que ele, a população almeja
09:20O que é paz, tranquilidade
09:22Mas isso é uma lorota
09:24Basta um breve diagnóstico
09:28Para perceber que isso era uma mentira
09:30Isso era um grande engodo
09:32O objetivo era lucro pessoal
09:34Ninguém sai de casa na madrugada
09:36Deixando os filhos e a sua esposa em casa
09:39Para matar marginal em prol da sociedade
09:41Isso é conversa fiada
09:42Isso não existe
09:43A milícia é oriunda do extermínio
09:56Que seria o justiceiro
09:58A rapaziada que cuida da cidade, do bairro
10:01Onde a polícia não atua diretamente
10:04Ou não tem acesso
10:05Sub-bairros
10:07Olha, esses garotos aparecerem aqui do nada
10:13Estão sangrando
10:15Com certeza eu estava lá no morro
10:17Todo machucado aquele pretinho
10:21O meu grupo é visto como uma milícia célula
10:33Agora a gente está
10:36Num patamar um pouco maior
10:38Passou por um grupo maior
10:40Mas é considerado como célula
10:42Quando você cria um grupo paramilitar
10:45No caso era o extermínio
10:46E vai se adaptando
10:48Pegando a visão
10:49Ou se atualizando
10:51Em questão de financeiramente
10:53De cobrança
10:54Aí você é chamado
10:55A liderança é chamada para a reunião
10:57E é exposto um padrão
10:58Eles têm um padrão
11:00Tem que seguir o padrão deles
11:01Aí eles são mandados representantes
11:03Da casa maior
11:05Para mostrar o padrão
11:07E não pode fugir daquele padrão
11:08Tem que ser o padrão da casa maior
11:10Meu Deus
11:14Meu Deus
11:15Jesus
11:16Ai meu Deus
11:17Meu Deus
11:24Jesus
11:26Ai Jesus
11:27O que eu faço?
11:28Ai meu Deus
11:29Você vai aqui
11:29Ai meu Deus
11:47Ai meu Deus
11:49Ai meu Deus
11:51Ai meu Deus
11:55Ai meu Deus
11:57Ai meu Deus
11:58Ai meu Deus
11:59Ai meu Deus
12:00Ai meu Deus
12:01Ai meu Deus
12:02Ai meu Deus
12:03Ai Jesus
12:04Esta figura da milícia
12:12De 2000 até 2007
12:14Eles tinham inclusive
12:16Eles tinham inclusive
12:17Uma certa simpatia da população
12:19Da esfera política
12:20E das próprias polícias
12:22Nós iniciamos até 2007
12:24Um período de ostentação
12:26Onde a esmagadora
12:28A maioria
12:29Os líderes desses grupos
12:31São agentes do estado da ativa
12:33Que operavam ostensivamente
12:35Eles inclusive avançaram uma casa a mais buscando a participação direta nas casas legislativas
12:50Eles não estavam mais satisfeitos em apoiar determinados candidatos políticos
13:00Mas sim de participar diretamente das eleições
13:03Fabiano Vieira da Rocha
13:10Fabiano Vieira da Rocha de 32 anos
13:13O Fabi foi preso no sábado em uma ilha de Marabá no estado do Pará
13:18Essas imagens cedidas pela polícia mostram a ação em dois momentos
13:23No barco um policial observa a movimentação na ilha
13:27Em terra outros policiais estão à espreita
13:30Este de camisa rosa disfarçado de turista
13:33Este outro com uma blusa branca amarrada na cabeça
13:37Se passa por um vendedor de cerveja
13:39Uma ação rápida planejada pelo setor de inteligência
13:43Foram 40 dias de investigação à espera do melhor momento para prender o criminoso
13:50Teve um caso bem emblemático
13:52Foi quando eu comecei a fazer a matéria das milícias
13:54Eu comecei a receber informações de que policiais
13:57Alguns policiais militares junto com militares, agentes penitenciários
14:01E até pessoas da própria comunidade
14:03Resolveram formar grupos para poder criar uma segurança na comunidade
14:10Só que esse grupo cobrava taxas de proteção
14:13Cobrava dos carros, das vans que passavam no local também
14:18Cobrava um ágio
14:20Começou a se criar ali uma bolsa
14:24Uma forma, um mercado
14:26Que essas pessoas se locupletavam
14:29A partir do sofrimento dos moradores
14:31Eu fiz essa série de matéria
14:44Só que esses milicianos dessa comunidade
14:47Sabiam quem era o meu informante, obviamente
14:50Fizeram um atentado contra o meu informante
14:54Encheram o carro dele de base
14:56Ele conseguiu sobreviver
14:57Foi para o hospital
14:58E manda a filha dele ligar para mim
15:01Vera, some que eles vão te matar
15:05AA
15:06Provacorn
15:14Plata
15:15Presenta
15:16Plata
15:18Plata
15:20Plata
15:22Perigots
15:24Plata
15:26Plata
15:28Em 2007, se concluiu que a milícia era um problema.
15:39O verniz dessa montagem toda só foi arranhada
15:44com o episódio que aconteceu da tortura dos repórteres do jornal O Dia.
15:49A partir dali, a própria imprensa acordou para o problema.
15:53Porque também não é fácil você desmistificar esses heróis.
15:59Porque você muda totalmente sua vida.
16:01Eu fiquei afastada do jornal, eu tive síndrome do pânico,
16:05eu nunca tinha passado por tratamento psicológico,
16:09eu tive que fazer esse tratamento para poder voltar.
16:12E eu não queria ter policial fazendo a minha segurança.
16:16Como eu ia poder colocar um policial fazendo a minha segurança
16:19se tinham policiais envolvidos com as milícias?
16:22Lógico, não são todos, mas quem é quem?
16:24Como é que eu vou saber? Não dá.
16:27O poder paralelo. Você escuta todo dia isso, alguém falar.
16:30Que poder paralelo, galera? Para com isso, você é palhaçada.
16:33O cara é policial, civil, policial, militar, bombeiro,
16:36o cara é guarda municipal, o cara está dentro da estrutura do Estado,
16:39montando aquele aparelho. Como é que ele é poder paralelo?
16:42A ausência do Estado. O que é a ausência do Estado?
16:45É o próprio Estado alíquo, a partir dos seus funcionários.
16:47O delegado da cobertura, o vereador da cobertura, o juiz da cobertura.
16:51Quando a gente olha para isso, não. Isso aqui é um super esquerdo.
16:55A milícia hoje é considerada como firma.
17:00Ela tem toda a estrutura de uma empresa.
17:02Se for para analisar, contador, segurança, diretor majoritário,
17:09que é o responsável por tudo, que é o dono, aí tem.
17:12Abaixo dele eu seria o gerente geral de uma empresa.
17:15O meu grupo é visto como uma milícia célula.
17:20A milícia não é financiada por ninguém.
17:23Ela se autofinancia.
17:25Cria-se um caixa, um recurso, e conforme vai associando a outras células,
17:31ao crescimento do recurso, correto?
17:33A casa maior hoje é a liderança da Zona Oeste.
17:36Existem duas milícias, a do Batman e a do Echo. Não tem jeito.
17:42Estou ao vivo, ó. Do Nogueira, porra. Estou ao vivo.
17:46Ai, Davis, tomei, ó. Tomei, ó. Nogueira é nosso, filha da puta. Perdeu, cuzão.
17:52A cidade está segregada.
17:55E, às vezes, até para você ser atendido num posto de saúde,
17:58o chefe da região tem que falar, porra, atende o fulano aí.
18:01Porra, é essa, meu irmão? Que liberdade é essa que eu tenho?
18:05Eu tenho que estar debaixo de um guarda-chuva, de uma informalidade
18:08para poder acessar a educação, por exemplo?
18:10Eu pago imposto, meu irmão. Pago água, pago luz, pago taça de esgoto sem ter esgoto.
18:16Então eu tenho direitos, mas não me entregam os meus direitos.
18:19Na verdade, sucateiam a parada, fica esse monte de governo não-governo,
18:24gerado pelo governo, que não governa,
18:28e que você tem que se submeter aos guarda-chuva deles.
18:31Do poder, do bairro onde eu moro, ou de um outro bairro,
18:34ou do poder político, ou do poder econômico, ou do poder informal.
18:38Cara, isso é liberdade? Que porra de liberdade é essa?
18:43O juiz é baleado, sendo socorrido.
18:48Sendo socorrido, ó.
18:56Só pra você ter uma ideia, cara, do meu concurso eu enterrei dez.
18:59Novamente, a gente enterrou mais policiais.
19:04Eu fui a esses dez sepultamentos e eu vi as mães desses dez policiais.
19:09O ferimento que eu tenho é de estilhaço, né?
19:11Granada e tiro de 762. Granada!
19:15Nesse dia que eu saí ferido daqui, um dos meus colegas,
19:17bom, operacional, uma sensibilidade incrível também,
19:22ficou com o rosto todo ensanguentado porque no dele veio no rosto,
19:26no meu veio na perna.
19:28Tudo isso é absurdamente doloroso.
19:34Mas muitos de nós glamourizam esse cenário.
19:36Eu digo nós, sociedade, né?
19:38Vamos incluindo, assim.
19:40A gente vai glamourizando e vai achando que a solução tá por ali, entendeu?
19:43Corre, gol!
19:52A crise permanente da segurança pública no Brasil é um projeto.
20:06São mais de 60 mil homicídios por ano e um milhão de homicídios nos últimos 30 anos.
20:14A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado no Brasil.
20:19Em 2020, 198 policiais foram assassinados no Brasil.
20:38Além de outras centenas que tiveram ferimentos graves com sequelas físicas e psicológicas.
20:45Nenhum outro país do planeta tem números tão vergonhosos.
20:51Nossa história segue sendo escrita com sangue, exploração e morte.
20:59Onde isso tudo começou?
21:01O que me impressiona mais é o que não mudou.
21:13O que me impressiona mais quando a gente pensa na polícia do Rio de Janeiro
21:16é a continuidade de procedimentos.
21:19É como a polícia ainda opera numa lógica que vem lá do século XIX.
21:25Com a vinda da família real pro Brasil, em 1808, fugindo lá do ataque do Napoleão,
21:33a gente começa a ter a presença de um Estado assumindo controle cada vez maior
21:39sobre os comportamentos da sociedade.
21:42Pra isso eles trazem, por exemplo, uma instituição que existia há 50 anos mais ou menos em Lisboa,
21:49que é a Intendência Geral de Polícia.
21:53A Intendência de Polícia tinha uma função de prefeitura.
22:09Ela cuidava não só dos crimes policiais, que à época existiam, mas cuidava da iluminação pública,
22:14com óleo de baleia, cuidava do aqueduto, como o aqueduto da Lapa,
22:18quer dizer, cuidava da administração da água, ela cuidava dos enterros,
22:22ela tinha uma função de alcaide ou de prefeito.
22:25Isso fica muito explícito de como o trabalho policial se confundia com a atividade plena de governo,
22:31refletindo uma lógica de um governo policial.
22:34A sua piscina está cheia de ratos
22:39Tuas ideias não começam a ler aos fatos
22:44O tempo não para
22:49Eu vejo o futuro repetir o passado
22:53Eu vejo um museu de grandes novidades
22:58O tempo não para
23:01O Brasil não nasce em 1808, né?
23:03O Brasil nasce em 1532, quando você decide deixar o tipo de exploração de pau
23:11Brasil extrativa e superficial
23:14e você decide montar uma economia, montar a partir do trabalho escravo aqui
23:22A gente tem que pensar que a gente está falando primeiro de uma sociedade colonial
23:24de uma sociedade de invasão, de conquista de um território
23:28Então você já tem conflitos
23:30É meio guerra na sua origem
23:33Portugueses contra índios
23:35Traz todo um sistema escravista
23:37Que é um sistema desigual
23:39Fundado em última instância
23:41Na ideia de que você pode usar a violência contra os seus escravos
23:45Eles não são pessoas, eles são bens
23:46O Brasil não é um país pacífico
23:56O Brasil é um país fundado
23:58Numa história extremamente violenta
24:00Que é outro mito que a gente tem que quebrar
24:04O mito de que nós somos pacíficos
24:08Nós resolvemos as coisas no sorriso
24:11Nós somos fadados ao consenso
24:13A nossa história é, sistematicamente, uma história de violência
24:18Então essa sociedade ainda está o tempo todo fundada em ideias de conflitos
24:37E resolução de conflitos pela via da força
24:40É assim que se resolve
24:48Dê a 난ha
24:51Seu
24:52Ele tinha que estar ali dentro
24:53E ele tinha que estar ali dentro
24:55É ele
24:57ele está atravessando, ele está atravessando
24:59E ele está atravessando
25:01É ele estava atravessando
25:03Por que a violência se combate com violência?
25:06Eu acho que essa polícia militar no Brasil tinha que matar mais
25:09Violência se combate com violência
25:11Eu acho que essa polícia militar no Brasil tem que matar mais
25:16O Brasil tinha que matar é mais.
25:18Vagabundo tem que ser tratado no cacete na bala.
25:20Tá com pena? Leva esses bandidos pra sua casa.
25:23Em qualquer lugar do mundo, quem tá de fuzil é abatido pela polícia.
25:27O ladrocina tem que morrer.
25:30O traficante tem que morrer.
25:33Porque são bandidos.
25:35E bandido bom é bandido morto e enterrado em pé.
25:39Toda vez que as pessoas ficam louvando políticos que fazem discurso de ódio,
25:50que querem destruir, que querem prender, que querem matar, que querem torturar,
25:53eles, na verdade, são corresponsáveis pelos crimes, por certos crimes,
26:00por tortura em prisão, por abusos policiais.
26:03Eles são corresponsáveis, mas eles não se veem assim.
26:07Eles se veem como cidadãos de bem.
26:08Com pessoas boas, pessoas legais, muitas vezes pessoas religiosas,
26:13pessoas de grande bondade, né?
26:16Eles não veem que essa mentalidade que eles exaltam
26:21é que amola a faca que alguém passa em alguém, né?
26:26É que calibra a arma que o outro atira.
26:29Lá nos grupos de extermínio, como na milícia,
26:31você tem empresários que financiam mesmo, que dão grana pra isso.
26:35Traficante, ele vai ser preso ou vai ser morto,
26:37é um cara, é um fascínio procurado pela polícia.
26:40Não tem nem direito político.
26:41Grupo de extermínio, matador de grupos de extermínio, não.
26:43Eles se elegem, são personalidades políticas.
26:46Senhores, o deputado Tenório Cavalcante, de Caxias.
26:54Ele pretende disputar a Câmara Federal.
27:00O povo está comigo.
27:02Eu garanto a maioria dos votos de Caxias
27:05pra mim e pra UDN.
27:15Pra falarmos de milícias,
27:18Esquadrão da Morte,
27:19ou que foram os grupos de extermínio,
27:21ou que foram os personagens como Mão Branca e outros,
27:26nós não podemos analisar isso à margem do Estado.
27:29O que temos aí é uma imbrigação
27:31de interesses que passam pelas instituições,
27:35por interesses privados
27:37e por estes prestadores de serviços.
27:40Então, nós podemos chegar na Baixada Fluminense
27:41e ouvir isso de um chefe político local.
27:44O governo manda lá,
27:46no Estado do Rio de Janeiro.
27:48Aqui, mandamos nós que somos daqui.
27:51Em 1958,
28:10quando, depois de fazer um curso
28:11na Escola das Américas,
28:13o general Rio Grandino Cuell,
28:15que comandava o segundo exército
28:17no dia do golpe de 1º de abril de 1964.
28:22Rio Grandino Cuell era o chefe
28:24do Departamento Federal de Segurança Pública,
28:27que era a polícia civil do Distrito Federal.
28:33E ele monta um grupo de homens autorizados a matar.
28:37A sociedade não tinha ciência de que eles faziam isso,
28:40mas esses homens eram homens especiais autorizados a matar.
28:43Era o sete James Bond da polícia do Distrito Federal.
28:53Um pouco depois, em 1962,
28:56um remanescente desse grupo,
28:59agregado a outros,
29:00formam 11 homens.
29:01E o Lacerda, Carlos Lacerda,
29:03os condecora como homens de ouro da polícia,
29:06que era uma forma de eliminar a criminalidade,
29:09eliminando o criminoso.
29:13Você vai ter uma coisa que eu acho que só acontece nesse momento no Brasil,
29:18que são os policiais conhecidos.
29:21O que a gente lembra mais hoje é o Lecoque,
29:24porque virou a escolha de Lecoque,
29:26o Esquadrão da Morte.
29:28O Lecoque era um herói da polícia linha dura.
29:33Isso vai desencadear uma heroicização
29:36que vai levar à criação dos homens de ouro da polícia.
29:41Os homens de ouro eram os policiais com poder de matar,
29:45licença para matar,
29:46eram os 007 da nossa polícia.
29:48O Brasil é um país muito assentado na violência.
29:59E a gente não conseguiu, infelizmente,
30:02nem a partir da redemocratização,
30:05constituir uma sociedade um tanto mais cordial.
30:09Era fundamental uma política nacional de redução de homicídios.
30:13E o governo brasileiro,
30:15nem os mais progressistas que tivemos nos últimos anos,
30:19eles se comprometeram com isso.
30:22Nós vamos enfrentar os grupos de crime organizado,
30:38custe o que custar,
30:39e doa quem doer.
30:41Nós vamos tombar gradativamente
30:44todos os itens da crime organizado.
30:47Nós não abrimos mão e não concordamos
30:49e não vamos negociar com o bandido.
30:52Nós vamos continuar nessa linha de enfrentamento.
30:58E a gente vai cada vez investir mais.
31:04Esses que estão nas comunidades,
31:06de fuzil na mão, dominando o território,
31:08são terroristas.
31:11Para lhes garantir
31:13esse legítimo direito à defesa,
31:16eu, como presidente, vou usar essa arma.
31:22E aí, dizem que eu sou violento.
31:51A gente tem que distinguir o que é violência
31:53e o que é crime, entendeu?
31:55Crime é o que está no código penal.
31:58Homicídio, sequestro, estupro, roubo, latrocínio.
32:03Isso é crime.
32:04E o que é violência?
32:05Porque uma caneta,
32:07ela certamente,
32:08dependendo da forma como ela seja escrita,
32:10dependendo do que ela escreva ali,
32:12dependendo da assinatura,
32:13ela é muito mais violenta
32:14do que todas as armas juntas.
32:19O presidente da república,
32:21no uso da atribuição que lhe confere o artigo 9º
32:24do ato institucional nº 5,
32:27resolve baixar o seguinte ato complementar.
32:30Fica decretado o recesso do Congresso Nacional
32:34a partir desta data.
32:39Carregando em suas costas,
32:41mas não em sua consciência,
32:42os traumas e crimes ainda não resolvidos
32:45de 21 anos de ditadura,
32:47o Brasil do século XXI
32:49parece condenado a repetir
32:51os mesmos erros
32:53do seu passado autoritário
32:55e escravocrata.
32:58Em vez de buscar a evolução,
33:00ainda se deixa enganar
33:02por heróis populistas
33:03que insistem em andar para trás,
33:06em direção ao Velho Oeste,
33:08à Idade Média,
33:10à barbárie.
33:12A polícia no Brasil,
33:13ela é violenta,
33:14não porque policiais
33:15que ingressam na corporação
33:16são recrutados, né,
33:18em ambientes onde só tem psicopata,
33:21só tem gente cruel,
33:22nada disso.
33:25A polícia brasileira
33:28é um reflexo direto, né,
33:30de um projeto
33:31de desigualdades sociais
33:32que necessita
33:34de uma polícia violenta
33:35para manter
33:35essa estrutura desigual
33:37funcionando.
33:44A segurança pública,
33:45ela é montada
33:46no binômio
33:47minha segurança
33:49e aquele que ameaça
33:50a minha segurança.
33:51Isso é universal,
33:52isso não é só o Brasil.
33:53Ato público,
33:54Estado do Invito,
33:54nós admitimos
33:55para chata nem com isso.
33:56Está todo mundo preso.
33:58E hoje,
33:58vamos ser encuadrados
33:59além de segurança nacional.
34:00O herói
34:01é o cara
34:02que vai matar
34:03esse inimigo,
34:04só que esse inimigo
34:04é construído socialmente.
34:05A ditadura criou
34:07um inimigo.
34:08Ah, meu inimigo
34:09é o comunista,
34:09é o subversivo,
34:10é o esquerdista,
34:12é o favelado,
34:13meu inimigo
34:13é o traficante,
34:15meu inimigo...
34:15Por que não é um miliciano?
34:16Não, um miliciano
34:17é o herói.
34:17O senhor vinha com mais uma pessoa?
34:25Não, era geralmente
34:26vinha duas pessoas,
34:27eu mesmo pegar aqui.
34:29Um dava o impulso
34:30e lançava.
34:32Isso aqui já era fogo alto
34:33aqui, obviamente.
34:34Fogo alto,
34:34ainda tinha as coisas
34:35de empurrar ele.
34:36Veras foi executado
34:40por mim.
34:41Nistur Veras.
34:42Esse daqui foi,
34:44eu não estou lembrando o nome,
34:45mas foi estinerado
34:48em Campos.
34:49Sim.
34:50Por mim.
34:51Foi morto
34:52na Casa da Morte.
34:53Em Petrópolis.
34:54Em Petrópolis.
34:55E o corpo dele,
34:57eu já o recebi,
34:58ele morto já.
34:59Então, eu passei
35:00o período sendo executor.
35:02Eu saquei
35:03e atirei
35:04na cabeça dele.
35:06Mas talvez a gente
35:08possa realmente pensar
35:09a ditadura militar
35:10e o regime militar
35:11como sendo esse marco,
35:14porque é nesse momento
35:15que as polícias,
35:17e sobretudo naquela época
35:18a polícia civil,
35:20através de dois delegados,
35:23o delegado Cláudio Guerra
35:24no Espírito Santo
35:25e o delegado Fleury
35:26em São Paulo,
35:27elas têm esse papel
35:28de combater
35:30o que eles entendiam
35:32como um movimento
35:33político.
35:34e eles têm que usar
35:37naquele momento
35:38táticas, técnicas
35:39e estratégias de guerra,
35:41porque eles achavam
35:42que estavam combatendo
35:43uma guerrilha,
35:45estavam numa guerrilha urbana.
35:46Eu acho que esse momento
35:47do regime
35:48é marcante
35:49para o que vai se tornar
35:51a polícia militar
35:52e a polícia civil
35:53no decorrer dos anos.
35:55Eles militarizaram demais
36:04no começo dos anos 70.
36:06Tinha gente na rota
36:07naquele momento
36:08que fazia a inspeção,
36:09tem gente que fazia
36:10conversando com o pessoal
36:11da companhia
36:11e perguntava
36:13se já derrubou
36:14o seu vagabundo hoje?
36:15Polícias militares
36:20com certeza melhoraram
36:21desde o fim
36:22do regime militar.
36:24Passaram por vários
36:25governos civis,
36:26mudou muito,
36:27algumas se adequaram
36:28melhor do que as outras,
36:29mas esse interregno militar
36:33atrasou
36:34as nossas polícias
36:35por muitas décadas.
36:36Os agentes da repressão
36:45eles estavam envolvidos
36:46numa estrutura
36:47de acobertamento,
36:50de tolerância
36:51com crimes políticos.
36:54O emprego de tortura,
36:56o emprego da violência
36:57foi uma estratégia
36:59de Estado
37:00no sentido
37:01de se buscar informações
37:02para reprimir a esquerda,
37:04mas isso não era previsto
37:06na Constituição.
37:06Então se criou
37:10um acobertamento
37:11dessa prática.
37:15Dos porões
37:16do regime militar
37:17é que vem
37:19essa máquina
37:20de assassinato seletivo
37:21que acaba se colocando
37:23a serviço
37:23do crime organizado.
37:28E esse contexto
37:30coincide
37:31o desmonte
37:32da máquina
37:33de repressão
37:34dos porões
37:35da ditadura
37:35com novas
37:37articulações
37:38do crime
37:38organizado.
37:40Dentre elas,
37:41por exemplo,
37:42a formação,
37:42vou dar um exemplo
37:43aqui,
37:43da cúpula
37:44do Jogo do Bicho.
37:44E o Jogo do Bicho
37:57junto com a polícia
37:58vão se articular
37:59em grupos
38:01de segurança privado,
38:03extermínio,
38:04fazendo a guerra
38:05na Baixada Fluminense
38:06e no Rio de Janeiro
38:07contra o crime,
38:09sempre muito empoderados
38:10com o dinheiro do jogo.
38:11esse acobertamento,
38:20esse guarda-chuva
38:21de proteção
38:22para aquele agente
38:24que também visualizou
38:26naquele ambiente
38:27condições
38:28de buscar
38:29lucro pessoal,
38:32ele foi buscar
38:33lucro pessoal
38:34principalmente
38:35naquela época
38:36na questão
38:36do jogo do bicho.
38:37E foi visto
38:38por agentes
38:39do Estado
38:40que estavam
38:41acobertados
38:41naquelas sombras
38:42como uma possibilidade
38:44de ganho financeiro.
38:50Isso se transforma
38:51nos anos 2000,
38:53quando os capos
38:56do bicho
38:56começam a morrer
38:58e envelhecer
38:59e os filhos deles
39:01começam a disputar
39:02os espólios
39:03dos bicheiros
39:03e começa
39:04a ocorrer
39:05um grande conflito
39:08na cena do bicho
39:09no Rio.
39:11E eles começam
39:12a contratar
39:12policiais
39:13para matarem
39:14nessa guerra
39:15do bicho.
39:16Surge o escritório
39:17do crime
39:17nessa época
39:18do Adriano Magalhães
39:19da Nóbrega
39:20e aí
39:21matadores especializados
39:23começam a ser
39:24contratados
39:25pelos milicianos
39:26e pelos bicheiros
39:27e que surgem
39:28com esse novo
39:28modelo de negócio
39:29que vai tomar
39:31o Rio de Janeiro
39:31a partir dos anos
39:322000 e 2010
39:33com os grupos
39:34paramilitares.
39:38A milícia hoje
39:39atua em todas
39:40as áreas,
39:41todas.
39:42Forças armadas,
39:43militarismo,
39:45até a gente
39:45costuma falar
39:46o PI,
39:47camarada que não é nada.
39:49Todas as áreas
39:50que você imaginar
39:51tem um simpatizante
39:53ou um integrante
39:54da milícia.
39:57A milícia,
39:59a gente pode afirmar
40:00que ela é uma organização
40:01criminosa
40:02tipo mafiosa
40:03porque ela vem
40:07com um discurso
40:08de legitimação,
40:09ela vem buscando
40:11uma aliança
40:13com o Estado,
40:17como se ela fosse
40:18parte do Estado,
40:20que na verdade é.
40:22A guerra é contra
40:23os traficantes,
40:24a polícia só é
40:25um meio
40:27de facilitar o trabalho.
40:28o camarada paga,
40:31a polícia entra,
40:33bate na vagabundagem,
40:34enfraquece
40:35e a gente só
40:35domina o ambiente
40:36e se mantém lá
40:37para que eles não voltem.
40:40Existe toda uma
40:40diplomacia
40:41entre a polícia
40:42e a milícia.
40:44O tráfico não tem
40:45diplomacia,
40:46infelizmente é barro.
40:47um dos criminosos
40:54mais perigosos
40:55do país
40:55foi morto hoje
40:56em uma operação
40:57da polícia civil
40:58do Rio de Janeiro.
41:00O miliciano
41:00Wellington da Silva Braga,
41:02o Eco,
41:03era procurado
41:04há quatro anos.
41:05hoje toda a estrutura
41:09que uma delegacia
41:11tem em termos
41:12de informação,
41:13a Casa Maior tem.
41:15Hoje o até
41:16mais importante
41:16que os armamentos
41:18é as alianças,
41:19é a informação.
41:20Se trabalha em cima
41:21da logística
41:21dá informação.
41:24Então o que protege
41:25nem é tanta arma,
41:27é a informação.
41:29Aí,
41:29tacaram fogo
41:30aqui no João Mites 3,
41:31mano,
41:31duas revampos
41:32e tiro pra caramba.
41:34isso aí, ó.
41:35Aí, filho,
41:35aqui em Palmares agora.
41:36Os caras vieram
41:37aqui deram
41:37um montão de tiros aí, ó.
41:41Água, luz,
41:43terra,
41:44casa,
41:45aterro sanitário
41:46clandestino
41:47eles fazem,
41:48calçadas estão agora
41:49aqui em Cordovil.
41:50Além do transporte
41:51alternativo,
41:52passaram-se a vender
41:53territórios,
41:55fazer grilagem
41:58de terras,
42:00construir lajes,
42:01atuar no ramo
42:02imobiliário.
42:03o tráfico de drogas
42:04no atacado,
42:05o tráfico de drogas
42:06no varejo,
42:07falsificação
42:07de bebidas alcoólicas,
42:09de cigarros,
42:11receptação de veículos
42:12apreendidos,
42:13homicídios.
42:16Nós vimos agora,
42:17recentemente,
42:18a criação de um grupo
42:19que prestava serviço
42:20para diversas empresas
42:21ilegais.
42:22onde a população
42:36tiver zonas
42:38de exclusão
42:39e serviços
42:41e bens
42:41que não são contempladas
42:43pelo Estado
42:44e devidamente
42:44regulamentadas,
42:46nós teremos
42:47a formação
42:48desses núcleos
42:49criminosos
42:49aproveitando-se
42:51desses nichos
42:51para obter lucro.
42:52Você quer ver
42:53quem é que ganha
42:53onde milícia está?
42:54Só sei lá
42:55quem é que tem
42:56terras ali,
42:57quem é que tem
42:57comércio ali,
42:58quem é que tem
42:58empreiteira construindo ali.
43:00Você vai ver
43:00quem é que tem
43:00voto ali.
43:01Você prometendo
43:21exterminar
43:22aquela pessoa
43:24que produz
43:25medo cotidiano
43:26nas cidades
43:27parece uma solução
43:28de curto prazo
43:29para um problema
43:30muito crucial.
43:31a pessoa
43:32ela ganha pouco
43:33acorda às 5 da manhã
43:34trabalha até às 10 da noite
43:36para um salário mínimo
43:37já é uma vida dura
43:38mas ser roubado
43:39às 5 da manhã
43:40no ponto de ônibus
43:41e levarem o celular
43:42é uma coisa insuportável.
43:46E quando vem
43:46um populista
43:47prometendo
43:48matar essas pessoas
43:49exterminar esse problema
43:50da frente
43:51ele tem
43:53uma capacidade
43:55de engajar
43:56cúmplices
43:57muito fácil
44:00porque as pessoas
44:00estão em pânico
44:01o único caminho
44:02que a gente tem
44:03é mostrar
44:04pela nossa história
44:06como isso só
44:07produziu mais desordem
44:08e mais violência
44:09como as ações
44:10violentas
44:11produziram mais violência
44:12como quando a gente
44:14deu o passe
44:14para os esquadrões
44:15da morte matar
44:16eles viraram
44:16as piores quadrilhas
44:18do crime
44:18no Rio de Janeiro
44:20em São Paulo
44:21o poder de matar
44:23permite que as pessoas
44:24queiram ficar ricas
44:25com esse poder
44:26e ao mesmo tempo
44:38eles produzem
44:39dissidências
44:40e grupos rivais
44:41que passam
44:41a tentar matá-los
44:42e produz espirais
44:44de violência
44:44e mais desordem
44:45a violência
44:47só produz violência
44:48e uma das grandes
44:49características
44:49também do Estado
44:50moderno
44:51é que o Estado
44:52passou a exercer
44:53o monopólio legítimo
44:54da violência
44:55em defesa
44:56de um contrato coletivo
44:57quando você
44:58rompe com esse contrato
45:00e quando o Estado
45:01moderno
45:01deixa de exercer
45:03esse monopólio
45:04legítimo
45:04da violência
45:05o que acontece
45:06é que vários grupos
45:08passam a tentar
45:09se impor
45:09pela violência
45:10e a gente passa
45:11a viver numa selva
45:12com vários predadores
45:13tentando
45:15se devorar
45:16e onde o mais forte
45:18sobrevive
45:19e você não tem
45:21condição de sobreviver
45:22se você
45:23não está disposto
45:24a matar
45:24então esse ambiente
45:26é uma distopia
45:28o pior dos mundos
45:28e não é à toa
45:29que a gente demorou
45:30dois mil anos
45:31para criar um Estado
45:32democrático
45:33legítimo
45:34que interrompesse
45:35esses ciclos
45:36nós estamos
45:45levando a população
45:46informações
45:47dizendo que existe
45:49um plano B
45:49plano C
45:50um plano B
45:51dizendo que existe
45:53muito mais
45:53do que simplesmente
45:54responder
45:55violência com violência
45:57acho que é fundamental
45:58é o esclarecimento
46:00disso
46:00para desmistificação
46:02de determinadas
46:03de determinadas práticas
46:05de determinadas posturas
46:06que só incrementam
46:08mais ainda
46:09a nossa insegurança pública
46:10incrementam mais ainda
46:11o nosso Estado
46:12de violência
46:13nós temos que dizer
46:21que existe
46:21muito mais
46:22do que o que está
46:22sendo feito
46:23desde 1500
46:24até porque
46:24se prosseguirmos
46:26nessa evolução
46:27daqui a pouco
46:28nós não teremos
46:29mais
46:30como voltar
46:32atrás
46:32vai chegar
46:33um ponto
46:34que os interesses
46:35vão estar
46:35tão enraizados
46:37tão
46:37ancorados
46:39que você não vai ter
46:39mais como
46:40retornar
46:41e buscar um caminho
46:42de uma certa normalidade
46:43é a esse ponto
46:44que nós não podemos
46:45deixar de chegar
46:46vou contar pra vocês aqui
47:12podem não acreditar
47:13eu dormia de coturno
47:14do jeito que eu toquei
47:15de calça
47:16de coturno
47:16de colete
47:17no sofá
47:18raramente eu estava
47:18dormindo com a minha esposa
47:19eu não dormia
47:21você vai me perguntar
47:31se era contra
47:31com medo da polícia
47:33ou com medo dos traficantes
47:34não com medo
47:35das pessoas
47:36da minha milícia
47:37então eu estava preparado
47:40para uma guerra
47:40interna
47:41eu não dormia
47:42então ou seja
47:44eu não tinha vida
47:45hoje eu não tenho
47:47projetos para o futuro
47:48meu projeto para o futuro
47:49hoje é
47:50o pouco recurso
47:51que eu tenho em casa
47:52é melhorar a minha casa
47:53quando eu partir
47:54minha família
47:55estar estruturada
47:55e seguir a vida dela
47:56e me livrar
47:58dos cárceres emocionais
47:59que é
47:59aproveitar o tempo
48:01que eu tenho de vida
48:02
48:02para tentar ser
48:04uma melhor
48:04mais ou menos
48:07sem
48:07ele era o melhor
48:23exemplo que nós
48:23podíamos ter
48:24a nível de
48:25pessoa
48:26de família
48:27o meu sobrinho
48:30era um menino
48:31negro
48:31não é porque
48:32ele é negro
48:33que ele é bandido
48:34meu sobrinho
48:35não vai passar
48:35como bandido
48:36para ninguém
48:37não aceito isso
48:39eu quero justiça
48:41para a família
48:47do policial militar
48:48é terrível
48:50a gente nunca
48:51sabe
48:51o que pode
48:52acontecer
48:53o estado
49:04acabou
49:04com a minha família
49:06acabou
49:06com os sonhos
49:07da minha família
49:08minha filha
49:09me pergunta
49:10mãe
49:10por que a polícia
49:11matou o meu irmão
49:12o que eu vou dizer
49:13para ela agora
49:14que aqueles
49:15que deveriam
49:15nos proteger
49:16nos matam
49:17o Brasil
49:21real
49:22que constrói
49:22isso aqui
49:23no braço
49:23pobres
49:25moradores de periferia
49:26favelados
49:27negros
49:28se você olhar
49:28para essa galera
49:29isso aqui não é país
49:30isso aqui deixou
49:31eu costumo dizer
49:31que isso aqui
49:32é um estupro
49:33seguido de execução
49:34sumária
49:35isso aqui não é um país
49:35isso é um país
49:36que deu certo
49:37para grupos específicos
49:38e deu muito certo
49:39deu muito bem
49:40eles ganham muito
49:41mandam isso aqui
49:42dominam
49:43se você berrar
49:44eles te matam
49:44se você se expressar
49:46de forma contrária
49:47eles vão te executar
49:48esse é o país
49:49que é o que eu vivo
49:50no Brasil
49:59a lei não é para todos
50:00a justiça é cara
50:02tardia
50:03e nunca chega
50:04para quem vive
50:05nas favelas
50:06e periferias
50:07onde os heróis
50:08são justiceiros
50:09violentos
50:10e fortemente armados
50:12um pacto
50:17entre a sociedade
50:18civil organizada
50:19e as autoridades
50:21em favor da vida
50:22é tão importante
50:24quanto eleger
50:25o próximo presidente
50:26do país
50:27nós somos esse projeto
50:36de genocídio
50:37nós somos esse projeto
50:38de aniquilação
50:39dos corpos
50:40e esse projeto
50:41é um projeto montado
50:43por gente sã
50:44esse Brasil
50:45que a gente está falando
50:46não é uma sociedade
50:47adoestida não
50:48ela é uma sociedade
50:49que quer isso
50:50e sempre quis isso
50:52o que a gente tem que fazer
50:53é estabelecer
50:54um contraponto
50:55é escovar
50:56a história do Brasil
50:57a contrapelo
50:58como diria o Walter Benjamin
51:00para fazer o Brasil
51:02começar a dar errado
51:03pelo menos
51:04esse Brasil institucional
51:05pelo chão
51:15pelo amor
51:16pelo sangue
51:17pela cor
51:17fidelidade
51:18lealdade
51:19nome do senhor
51:20a minha amada
51:21a minha família
51:22e o nove de julho
51:24que me mostrou
51:24a importância
51:25do tá no bagulho
51:26a gente atira
51:27no escuro
51:28não escuta ninguém
51:29não adianta
51:30o sermão
51:31e a tempestade
51:32que vem
51:32não sei se tem
51:33alguma coisa
51:34a ver com um destino
51:35mas os problemas
51:36são B.O. desde pequenino
51:38o rap é hino
51:39pra mim
51:39já estava escrito
51:40neguinho
51:41um baianinho
51:42assim
51:42que anda perto do fim
51:44sim
51:44a nossa escola
51:45sempre é cara
51:46o tempo é rir
51:47isso eu sei
51:48o relógio não para
51:49cara
51:50ferida sara
51:51mas na alma
51:51não tem cura
51:52na sua arrogância
51:53ou na sua
51:54humildade pura
51:55se segura
51:56que te ofereço
51:57é muito bom
51:58é força e poder
51:59através do som
52:01eu digo
52:01cada degrau
52:02a gente aprende
52:03a sofrer
52:04viver
52:04morrer
52:05sorrir
52:06e a chorar
52:07chorar pelo passado
52:08pagar pelos pecados
52:09contando cada sombra
52:11no seu sonho
52:12atormentado
52:12acorrentado
52:13sei lá
52:14drogado
52:14se pá
52:15enfraquecendo
52:16injustiçado
52:17se afogando
52:17no mar
52:18eu tô lá
52:19lado a lado
52:19com a fé
52:20no coração
52:21nem que pra isso
52:22eu amanheça
52:23dormindo no chão
52:24meu irmão
52:24não
52:27eu
52:27vou
52:27ver
52:28m
52:28murió
52:29no chão
52:30Obrigado.
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