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Jorge Bodanzky recorre às memórias afetivas do período em que cursou a UnB para nos mostrar todo um painel da juventude na década de 1960, com seus sonhos e expectativas, crises e projetos interrompidos.
Transcrição
00:00:00A CIDADE NO BRASIL
00:00:30A CIDADE NO BRASIL
00:01:00A CIDADE NO BRASIL
00:01:02A CIDADE NO BRASIL
00:01:04A CIDADE NO BRASIL
00:01:12A tua impressão daquele momento da Universidade de Brasília, que você foi em 64, foi?
00:01:20Foi. A impressão foi de tristeza.
00:01:30Eu me lembro que nós nos encontramos, eu, o Jorge Maltan e você.
00:01:36Eu tinha sido convidado, junto com o Maltan, para fazer uma conferência.
00:01:42Nós éramos artistas, ele, o escritor, que tinha acabado de lançar um livro de sucesso,
00:01:49o Deus da Chuva e da Morte, e eu, que tinha entrado na Bienal de 63,
00:01:55e era uma promessa da nova pintura.
00:01:59Então, com 23 anos, fomos fazer uma conferência, a primeira conferência convidada.
00:02:06E nós nos encontramos com você, Jorge Prudansky,
00:02:11que você nos mostrou todas as dependências da universidade,
00:02:16mas tinha um quê de tristeza, que se sabe, não sei porquê,
00:02:22se sabia que aquilo ia afundar.
00:02:25A CIDADE NO BRASIL
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00:02:51A CIDADE NO BRASIL
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00:02:58A CIDADE NO BRASIL
00:02:59Brasília era uma utopia e a universidade um sonho que entusiasmava a gente dos quatro cantos do Brasil.
00:03:18Intelectuais, acadêmicos, pessoas que pensavam o país, estavam dispostas a largar tudo para se dedicar a esse sonho.
00:03:29A construção de uma universidade catalisava o sentimento de uma nova maneira de se pensar o Brasil.
00:03:40Finalmente era hora de se criar um novo país.
00:03:59O que eu tenho e adquiro, posso ainda adquirir, mas a minha coleção pessoal do Brasil é muito grande.
00:04:22Tem muita coisa, quer dizer, uma aqui, eu não quero saber, como é o nome desse, desse, desse, desse...
00:04:29Mordepe.
00:04:30Mordepe.
00:04:30Ranja um lápis para mim, vai?
00:04:32Hum.
00:04:33Tem lápis, lápis?
00:04:34Tem.
00:04:35Onde é que é?
00:04:36Isso é da mesa?
00:04:37Deixa eu passar aqui.
00:04:38Mordepe quer dizer o quê?
00:04:39Vem ao contrário.
00:04:40Mordepe da Bahia também, né?
00:04:41É.
00:04:42Mordepe da Bahia também, né?
00:04:44Eu e eu fizemos um diretório que foi a Cristalina, a gente para acabar lá, o financiar o diretório.
00:04:59Eu era um jovem cheio de sonhos e um pouco confuso.
00:05:12Junto com o amigo Sérgio Prado, tivemos uma ideia maluca de sair de São Paulo, de ônibus e ir até Machu Picchu.
00:05:19No meio do caminho, paramos em Brasília, onde eu tinha uma prima, a Silvia Ortoff.
00:05:24Chegando lá, ela me levou para conhecer onde estava sendo construído o Instituto Central
00:05:29de Artes pelo arquiteto Alcides da Rocha Miranda.
00:05:33Ele descreveu de maneira tão fascinante o projeto que eu não tive dúvida.
00:05:37Voltei para São Paulo, fiz o vestibular e, poucos meses depois, eu estava em Brasília.
00:05:42Em 1964, ingressei no UNB.
00:05:45Cheguei em Brasília em 1962.
00:06:02Meu pai era paulista do Partido Comunista, tradutor, editor e amigo de todos os intelectuais de São Paulo.
00:06:12Um dia, ele encontrou o Darcy Ribeiro no aeroporto.
00:06:15O Darcy chegou para ele e disse,
00:06:17Neves, vamos agora comigo para Brasília.
00:06:21Estamos construindo uma universidade lá e eu quero você com a gente.
00:06:26Meu pai foi parar lá por conta do entusiasmo do Darcy.
00:06:31E eu fui parar lá pelo entusiasmo do meu pai.
00:06:35A universidade tinha sido concebida pelo Darcy e pelo Anísio Teixeira
00:06:45nos moldes das mais modernas e mais requintadas universidades do mundo.
00:06:50A universidade de Brasília, a rigor, na sua concepção, é fruto das ideias de Anísio Teixeira
00:07:11e da capacidade de execução de Darcy Ribeiro.
00:07:15São dois nomes que se completam, porque o Anísio Teixeira é mais velho
00:07:21e tinha já toda uma vida dedicada à questão do ensino.
00:07:27A reforma universitária, né?
00:07:29A reforma universitária, a criação do SPPC.
00:07:31Mas o Darcy Ribeiro, que o considerava o grande mestre com toda razão,
00:07:36o Darcy Ribeiro foi o grande articulador político
00:07:39para fazer com que a universidade, de fato, fosse fundada.
00:07:44Porque o governo do Juscelino não tinha passado,
00:07:49ainda não tinha sido regulamentada a existência da universidade.
00:07:54Quem pensou primeiro em fazer uma universidade no ainda projeto de Brasília?
00:08:21O arquiteto e urbanista Lúcio Costa, que, junto com Niemeyer, desenhava a nova capital do país.
00:08:29Dois dos maiores arquitetos do século XX.
00:08:32Lúcio Costa planejou a cidade e Niemeyer desenhou seus edifícios e monumentos.
00:08:38Lúcio Costa acreditava que, mais do que um centro administrativo,
00:08:42a cidade tinha uma vocação para ser um importante núcleo cultural do país
00:08:47e, assim, incluiu a criação da universidade em seu plano piloto.
00:08:51O Juscelino não era muito favorável à criação de uma universidade aqui, diga-se de passagem,
00:09:13que o Darcy Ribeiro usou de todo o seu poder de sedução para convencer o Juscelino
00:09:20que tinha que ser criado uma universidade modelo, numa cidade modelo.
00:09:25O governo julgava que uma cidade burocrática não poderia ter uma universidade,
00:09:37que não caberia uma universidade em uma cidade administrativa.
00:09:42E eles alegavam que o estudante aqui dentro do campus ia perturbar a paz,
00:09:51o silêncio político da esplanada dos ministérios.
00:09:56Essa pretensão de isolar a universidade não deu certo.
00:10:00Brasília, naquela época, entusiasmava todo mundo para a arquitetura,
00:10:24porque nós víamos, assim, coisas, formas maravilhosas serem feitas
00:10:31e todo mundo estava fazendo experiência.
00:10:35Nós tínhamos muita vontade desse cheiro de liberdade
00:10:39que nós tínhamos sentido por quatro anos no governo do JK.
00:10:43E foi um momento, assim, riquíssimo no Brasil.
00:10:46Foi o surgimento da bossa nova.
00:10:49Mostrou para todo mundo que todo mundo estava num momento muito feliz.
00:11:05Brasília era o país do futuro.
00:11:08Isso estava introdutado.
00:11:11Não era uma coisa epidérmica ou da pele para fora.
00:11:14Era algo interiorizado em cada uma das pessoas que viveu o Brasil naquela época.
00:11:21Formar mentes para uma década de 60 que se inaugurava,
00:11:49aberta, promissora, cheia de potencial, de desenvolvimento,
00:11:58de um país como um todo, uma pátria livre e democrática.
00:12:03Em 1962, quando Darcy, no expediente de um censo de oportunidade enorme,
00:12:16ele se meteu na Câmara, justamente na renúncia do Jânio Quadros
00:12:20e pela mão de Filinto Miller,
00:12:24torturador célebre do governo de Getúlio,
00:12:27que estava presidindo a sessão e o projeto da universidade estava na mesa.
00:12:33E aquilo foi feito muito a toque de caixa
00:12:35por conta da situação que se criou com a renúncia de Jânio.
00:12:40Ninguém sabia o que fazer do poder naquela hora.
00:12:44O Congresso fechava ou o Congresso não fechava,
00:12:47o Congresso tomava atitudes
00:12:48e o Darcy sentou-se lá no fundo da galeria,
00:12:52esperando, com o projeto na mesa.
00:12:55E aquela história, né?
00:12:57Projeto tal, número tal no CCC.
00:13:00Bateu na campa, aprovado.
00:13:02Foi assim que o Darcy aprovou o projeto
00:13:04da criação da Universidade de Brasília.
00:13:07Isso foi alguma coisa de milagroso,
00:13:09porque instaurou na universidade,
00:13:11mesmo por um período breve,
00:13:14um projeto revolucionário.
00:13:18A fundação da universidade foi assinada pelo Jango,
00:13:28imediatamente conseguiu a construção do campus,
00:13:33que foi doado patrimônio à universidade,
00:13:35foram doados, se não me engano,
00:13:3712 superquadras para a universidade se manter.
00:13:42Então ela tinha recurso para manutenção.
00:13:48Darcy pediu essa cidade de Oscar Niemeyer,
00:13:55ele deveria desenhar os primeiros prédios da universidade.
00:14:00Aí deu um prazo,
00:14:02Oscar não cumpriu, foi deixando, arrastando.
00:14:04Estava Alcides da Rocha Miranda,
00:14:06que era um arquiteto conhecido no meu tempo,
00:14:08um arquiteto experimentado, reconhecido, etc.
00:14:11Chegou para Alcides e disse,
00:14:12Alcides, Oscar não quer fazer o coisa,
00:14:16eu acho que você deve fazer.
00:14:18Alcides era muito amigo de Oscar,
00:14:20entendia todas essas birutagens de Oscar,
00:14:22assim, com uma elegância fantástica.
00:14:25E no momento, o X, ele disse assim,
00:14:27Zumberto, você vai me ajudar aqui.
00:14:30Aí eu era jovem arquiteto, ansioso,
00:14:33comecei a trabalhar com Alcides, né?
00:14:35E Alcides era assim,
00:14:36um aprendizado que você tinha com ele,
00:14:38fantástico, um troço assim.
00:14:40Para mim, mudou o rumo da minha vida, né?
00:14:43Começamos o trabalho,
00:14:45e na verdade, eu, Darcy e Alcides,
00:14:47em que entramos primeiro no campo da universidade,
00:14:49com lama pelo tornozelo,
00:14:51que chovia, né?
00:14:52Meu pai era um arquiteto moderno,
00:15:06quer dizer, ele tinha a fé no futuro, né?
00:15:11E a fé que a arquitetura poderia melhorar a humanidade, né?
00:15:15Quando meu pai começou a fazer os projetos do UNB,
00:15:17que são os primeiros projetos do UNB,
00:15:18são dele, né?
00:15:20Ele formou uma equipe,
00:15:21ele praticamente morou no campo nesse período,
00:15:24durante a obra,
00:15:24quer dizer,
00:15:25as plantas saíam da prancheta,
00:15:29e iam direto para o canteiro de obra,
00:15:31então não tinha,
00:15:33não tinha o intervalo entre o projeto e a execução,
00:15:37e ao mesmo tempo ele estava já conversando
00:15:42sobre a estrutura do próprio instituto, né?
00:15:44que era oено,
00:16:10que era o único que teve que comer, né?
00:16:11O Darcy Ribeiro já concebeu a universidade como um todo, não como reunião de faculdades,
00:16:22como aconteceu em São Paulo e no Rio de Janeiro e em outras capitais.
00:16:27E estruturou essa universidade em faculdades, institutos e centros.
00:16:34Caberia as faculdades à formação profissional e o instituto à formação básica.
00:16:39E os centros fazendo essa ligação da cidade com o campus.
00:16:46Então veio o professor Alcides Rocha Miranda e criou o Instituto Central de Artes,
00:16:55que seria o básico para a arquitetura.
00:16:58E assim foi, criando os institutos antes das faculdades.
00:17:02Então já nascia a faculdade dentro de uma concepção integrada de conhecimento.
00:17:09A CIDADE NO BRASILIA
00:17:19Sabe, Neymar, quando eu estive em Brasília, eu convivi muito com o Anísio, até a morte dele em 71, né?
00:17:43A concepção da universidade era dele, né?
00:17:48Aqui, então, é o texto que o Oscar escreve sobre a universidade, como é que foi pensada,
00:17:58como é que foi conceituada e como é que chegou no projeto de arquitetura, né?
00:18:04Aqui é a produção em francês, aqui, então, a gente começa falando do projeto, né?
00:18:10Aqui, então, é uma maquete da universidade.
00:18:14Aqui tem tudo que o Darcy diz, os alunos de Direito poderem conversar com ele em cima e ter contato em troca de experiências, né?
00:18:25Os alunos de Direito saírem da escola como especialista, só sabem as coisas sobre a universidade.
00:18:31Aí, isso já trocavam ideias.
00:18:34E aí, você lutar para que o estudante tenha, ao mesmo tempo, que ele está cursando, ensina direito,
00:18:42o ensinamento sobre a vida, sobre o ser humano, sobre a diferença de classe, sobre a miséria.
00:18:50Ele está preparado quando começar a vida dele profissional, ter dentro dele esse sentimento de solidariedade que é dispensado.
00:19:01Com certeza.
00:19:02Com certeza.
00:19:03Não está ali nada, né?
00:19:05Está vizendo.
00:19:06Eu acho que esse livro que eu fiz agora é justamente sobre o problema do jovem, que sai da escola muito especialista.
00:19:15Ele não conta com o mundo que espera por ele, né?
00:19:18É verdade.
00:19:19É terrível.
00:19:20Então, ele quer ser o vencedor.
00:19:22É uma merda, né?
00:19:24Nessa época, a universidade era toda cheia de poeira.
00:19:40Eu logo vi que eu devia arranjar uma calça ali e começar a ir para as aulas preparada para
00:19:47subir em construção, porque a gente conhecia o que estava sendo feito dentro da universidade.
00:19:55Vi essas pessoas mesmo, o Luiz Humberto.
00:19:59Eu vi muitas vezes o Oscar fazendo experiência com telhas, com vigas, cimento protendido.
00:20:11O Oscar falava muito pouco e não dava muita confiança, mas eu ficava encantada com ele.
00:20:19Muito bonito, muito sério.
00:20:23Quando o Lúcio Costa desenhou o plano diretor da Universidade de Brasília, ele colocou
00:20:32unidades.
00:20:33São as caixinhas, não havia, não é difícil que unificasse.
00:20:38O Oscar viu o plano do Lúcio Costa e fez uma intervenção junto às caixinhas.
00:20:45E criou esse grande edifício que é o centro da universidade.
00:20:51O centro funcional, o centro urbano e o centro de convivência da universidade.
00:20:59A obra fundamental da universidade que era o Mihocão.
00:21:02O Mihocão é que deu também uma certeza da continuidade da universidade.
00:21:07Por sinal, uma arquitetura assim muito bem concebida, com o espírito da época, mas
00:21:13até hoje ela é nova.
00:21:16Muito bom.
00:21:21Música
00:21:22Música
00:21:27Música
00:21:31Música
00:21:33Obrigado.
00:22:03Obrigado.
00:22:33Bom, coisa que tem conhecimento da história da universidade.
00:22:38Com que objetivo ela foi fundada?
00:22:41Em que propósito?
00:22:43Não sei se vocês ouviram falar em Darcy Ribeiro, Anísio Teixeira,
00:22:47que são os fundadores da universidade.
00:22:49O que isso diz para vocês?
00:22:52Acho que é mais para difundir o conhecimento,
00:22:55ter uma universidade na capital do país,
00:22:58de poder estar facilitando o conhecimento para uma cidade que é nova
00:23:04e trazer as pessoas para a capital para poder ter esse contato
00:23:09e ser uma parada meio difundida de você chegar e poder estar dentro do campo
00:23:15sem ser aluno, poder assistir a aula sem ser aluno
00:23:19e transitar pela universidade e conhecer tudo o que tem.
00:23:22Trazer pessoas, trazer profissionais, especialistas
00:23:27e atrair novas pessoas que quisessem habitar Brasília também,
00:23:35que quisessem gerar conhecimento na capital do país.
00:23:38Você encontra várias pessoas ao redor de Brasília, em Brasília,
00:23:43que elas fazem a universidade aqui já tem muito tempo
00:23:48e elas chegam e perguntam como é que está lá e é muita coisa igual.
00:23:53eles ainda falam sobre o ICC e falam tipo
00:23:57como é que estão os prédios novos e como é que estão as coisas.
00:24:00E eu acho que isso é uma coisa que continua na história da universidade, sabe?
00:24:06O jeito que ela é preservada, mesmo que não é muito preservada,
00:24:11mas a história que ela tem nas construções.
00:24:16sempre que vem outras pessoas de outras cidades para cá eu faço questão de passar pela UNB
00:24:20e as pessoas ficam sempre surpresas que o campus ele é aberto, né?
00:24:24Diferentemente de ir numa cidade grande, onde o campus às vezes é espalhado pela cidade, os prédios, né?
00:24:30Ou são áreas que são fechadas, cercadas mesmo.
00:24:33Aqui na UNB é tudo aberto e integrado na cidade e eu sempre achei isso incrível, assim.
00:24:38É uma coisa muito inteligente, o ICC, os prédios, né?
00:24:41São construções que elas são... elas despertam algo afetivo em mim muito forte.
00:24:48Me emociona muito o campus da UNB, eu gosto muito daqui, acho lindo.
00:25:07Brasília estava construindo-se uma cidade, uma capital do país
00:25:12e estava-se também construindo uma nova universidade.
00:25:16e isso empolgou de tal forma os intelectuais
00:25:20que saíram físicos de alto gabarito, pesquisadores internacionais e vieram para cá,
00:25:27para trabalhar para cá, inclusive o Salmeron, Ciro dos Anjos e etc.
00:25:33Esse projeto foi realmente fantástico do ponto de vista da mobilização.
00:25:39porque ele tinha uma ideia política de ser a universidade um centro de transformação do país.
00:25:47Passei no vestibular e eu e minha irmã Sônia fomos juntas cursando letras,
00:25:56tendo aulas não só do curso de licenciatura de letras,
00:26:01como aulas de sociologia com o professor Darcy Ribeiro,
00:26:06aulas de filosofia com o professor Iulo Brandão,
00:26:10aulas de linguística com professores alemães convidados,
00:26:15estudando na primeira biblioteca do Brasil, que funcionava 24 horas
00:26:22e que foi ofertada pela Fundação Ford.
00:26:25E aprendendo o que era uma utopia, dizia-se assim,
00:26:30vocês formem logo porque vocês vão participar da administração do país.
00:26:36Universidade de Brasília Quintal do Palácio do Planalto,
00:26:40nós todos nos tornaríamos trabalhadores de um Brasil mais espraiado
00:26:49por esse território nacional inteiro.
00:26:59A gente se identificava com o momento,
00:27:01você está fazendo alguma coisa importante,
00:27:03você não sabe nem direito o que é,
00:27:05mas você começa a entender que você está fazendo uma coisa muito importante.
00:27:10E no caso aí era a Universidade de Brasília.
00:27:13Nós estávamos fazendo a Universidade,
00:27:15você se lembra que a Universidade foi inaugurada ali no edifício dos Candangos,
00:27:23com as autoridades importantes que existiam em Brasília naquela época,
00:27:29nós passamos a noite forrando as cadeiras do auditório,
00:27:35botando aquelas capas de couro para poder ter condições de abrir a Universidade no outro dia.
00:27:45Quer dizer, nós estávamos com a mão na massa, nós não éramos visitas.
00:27:51Para mim a Universidade foi a grande revolução do ensino superior brasileiro.
00:28:07Foi a iniciativa do Darcy para acabar com a cátedra,
00:28:12para criar o departamento, para criar uma carreira docente dentro da Universidade.
00:28:19É uma guinada de 180 graus à Universidade de Brasília.
00:28:24Na época, eu acho que quase todos nós tínhamos esse entendimento,
00:28:29porque acreditava numa proposta inovadora que até certo ponto funcionou.
00:28:35O Instituto Central de Artes representava essa euforia.
00:28:48Era nesse ambiente de experiência onde se tinha uma total liberdade de escolha de matérias.
00:28:56Tínhamos que escolher outras matérias também fora do Instituto,
00:29:00em um caldo de cultura único.
00:29:02Era fascinante.
00:29:04Nós vivíamos aquilo 24 horas por dia,
00:29:07convivendo com mentes como Amélia Toledo,
00:29:09Atos Bucão, Luiz Humberto,
00:29:12Professor Fortman,
00:29:14Paulo Emílio Salles Gomes.
00:29:18Cheguei ao convite do Paulo Emílio
00:29:21para integrar o corpo docente do novo curso de cinema.
00:29:24de forma que era um espírito de renovação total.
00:29:33Renovação total, não é?
00:29:36Em uma sociedade nova, em direção a uma sociedade nova,
00:29:40numa universidade nova, numa cidade nova.
00:29:45O professor universitário tem que ter contato com a cidade.
00:29:52Isso era fundamental.
00:29:54Havia na W3 um cinema que se chamava Escola Parque.
00:30:00E toda, se não me engano, quarta-feira,
00:30:02Paulo Emílio dava uma palestra e projetava um filme.
00:30:11Um dos projetos do departamento foi um filme chamado Fala Brasília,
00:30:18que representaria também uma forma de circulação do trabalho universitário.
00:30:25A primeira vez eu comecei falando no gravador, em casa.
00:30:32De repente fui abordado por uma equipe de filmagem da universidade, né?
00:30:36Eles falaram pra mim,
00:30:38contar sobre o regime do meu estado, né?
00:30:42Eu entrei nesse filme,
00:30:43eu trabalho lá na universidade, no Bloco 1,
00:30:46Luiz Carlos chegou um dia lá com o gravador,
00:30:49então pediu que eu fizesse uma reunião com uns quatro ou cinco companheiros,
00:30:54o Caracá falar sobre a situação de Brasília, né?
00:30:58Creio eu que seja esse filme baseado,
00:31:02procura assim de estudos,
00:31:04sobre o modo de falar, assim dizendo, sotaque melhor dizendo,
00:31:08de cada pessoa, de cada estado do Brasil.
00:31:11A universidade era a vida de Brasília.
00:31:28Fechando a universidade, fechou a vida,
00:31:30porque lá é que nós tínhamos o concerto do Claudio Santoro,
00:31:34todo sábado de manhã.
00:31:37E o concerto, lá de dentro, saia as músicas pra fora.
00:31:47E começou pra montar um departamento de música, né?
00:31:49E veio em 1962.
00:31:53E pra isso, nós saímos pelo país, né?
00:31:57Para contratar os professores, né?
00:32:01Era muito difícil, no princípio, você conseguir trazer.
00:32:05O pessoal que veio no início da universidade,
00:32:08veio todo de fora pelo entusiasmo que eles tinham em fazer a universidade.
00:32:13Construir aquela universidade de sonhos.
00:32:17Então, ele fazia parte da coordenação total da universidade.
00:32:20Foi fundada imediatamente a Orquestra de Câmara
00:32:23com os professores da universidade.
00:32:25Essa orquestra dava concertos todos os sábados.
00:32:28Esses concertos ficavam lotados,
00:32:31que vinha gente não só da cidade,
00:32:33mas todos os outros professores terminavam as aulas antes do concerto
00:32:36pra garantirem o acesso ao auditório da música,
00:32:40que era pequeno, não cabia a todo mundo.
00:32:41Então, se abria aquelas janelas que vão do chão até o teto,
00:32:46e o pessoal sentava nos jardins em volta, na grama em volta do auditório.
00:32:50Então, aquilo era uma coisa imperdível.
00:32:52Não é?
00:32:53Não é?
00:32:54Não é?
00:32:55Não é?
00:32:56Não é?
00:32:57Não é?
00:32:58No leite.
00:32:59Não é?
00:33:00Não é?
00:33:01Não é?
00:33:02O auditório de música era um projeto muito bonito, né, mas aberto pra fora, ele abria.
00:33:28Então você podia estar assistindo dentro ou nos gramados.
00:33:41A universidade acontecia não só no momento da aula, ela acontecia o tempo todo.
00:33:46Nós aprendíamos, nós convivíamos entre nós, alunos e professores, 24 horas por dia nos bares, nos cinemas, nas conversas.
00:33:58Os professores tinham uma relação com os alunos absolutamente porta aberta.
00:34:11O professor tinha suas aulas, tinha um momento para orientar os alunos e tinha outra parte onde havia uma relação muito mais liberta.
00:34:25O fundamento da liberdade é que era essencial. E os alunos percebiam claramente isso.
00:34:33Era isso, a possibilidade de ser livres para criar.
00:34:39Amélia Toledo era uma professora que ensinava o tempo todo.
00:34:45Nós íamos para a casa dela durante o almoço, depois da aula.
00:34:51Quer dizer, a universidade, para mim, não acabava.
00:34:55Essa vida em comum, para nós, foi uma experiência única.
00:35:02A convivência mesmo com os outros professores.
00:35:06Foi uma experiência que eu acho que nos levou melhor a fazer um trabalho coletivo também,
00:35:15não só um trabalho individual do professor que toma a condução e vai para a universidade,
00:35:21lá na aula dele, na sala dele, de vez em quando se encontra com os outros.
00:35:27Nós tínhamos um objetivo comum e eram pessoas com muitas variadas experiências,
00:35:36pessoas que viam de lugares muito diferentes.
00:35:40Em geral, o pessoal que estava também começando, então, estava aprendendo da vida.
00:35:52O convívio entre professores e alunos era uma coisa maravilhosa.
00:35:56Hoje, um dia que eu falei, cheguei aqui em casa e falei com a mamãe,
00:36:03Mamãe, a aula de terça-feira vai ser lá em Pirinópolis.
00:36:09E nós vamos de ônibus e depois nós vamos...
00:36:15Eu vou dormir lá.
00:36:20Nunca tinha acontecido isso comigo, nunca tinha saído de casa.
00:36:31Fiquei num hotel com a Amélia, com a Marília.
00:36:37Comecei a namorar o Eudoro lá em Pirinópolis e foi assim que eu aprendi o barroco mineiro,
00:36:49o barroco brasileiro.
00:36:52Foi eles, mas ele era muito mais frio.
00:36:54Foi isso que eu levava a ser a descoberta do interior.
00:37:03Você chegar em cidades coloniais que não...
00:37:06Sabe, Goiás Velho, a descoberta de Goiás Velho que era remoto, era muito...
00:37:09Era muito nossa, levava 10 horas, poxa, a linguagem velha de Brasília.
00:37:16Você tinha velhas fazendas.
00:37:18Então era como se tivesse quase um século XVIII,
00:37:22quer dizer, eram resquícios de um período que tinha passado
00:37:27e lá estava mantido intacto.
00:37:29Tinha um frescor nisso tudo.
00:37:33Essa descoberta do interior foi muito boa para mim,
00:37:36quer dizer, de um sentido de Brasil maior do que do litoral.
00:37:53O fato de Brasília estar no meio do Brasil
00:37:55nos dava a possibilidade de nos abrirmos para um mundo completamente novo
00:38:00e sair dali para explorar o país.
00:38:06Por exemplo, uma vez eu saí com o Jorge Bodense,
00:38:25a cristalina para fotografar,
00:38:27que era uma coisa extraordinária,
00:38:29essa coisa de loucura do interior do Brasil,
00:38:32que tinham descobertos cristais.
00:38:34Era uma região completamente esburacada,
00:38:37as pessoas viviam no meio de uma lamaçal enorme.
00:38:41de um caminho.
00:39:00Esse momento foi fundante, vamos dizer, não só da universidade,
00:39:03como da minha personalidade, da minha pessoa e da minha relação com o meu país
00:39:06se eu não conhecia o Brasil.
00:39:08Eu saí de São Paulo, fui para Brasília
00:39:11e a partir de Brasília que eu percebi o que é o Brasil.
00:39:14Comecei a perceber que o Brasil é muito grande,
00:39:18que o Brasil é muito diverso.
00:39:20Isso para mim era um dado totalmente novo.
00:39:22E surgiu essa minha vontade de conhecer o Brasil,
00:39:25de sair por aí.
00:39:27Nós começamos primeiro mais timidamente a viajar para Perinópolis
00:39:30nos dias de semana,
00:39:31depois para Goiás Velho.
00:39:33E nas primeiras férias,
00:39:36pegamos um barco no Rio São Francisco
00:39:38e fomos,
00:39:40descemos o Rio São Francisco até Juazeiro e Petrolina,
00:39:44dali pegamos um trem para Salvador.
00:39:46Quer dizer, atravessamos,
00:39:48cortamos o coração do Brasil.
00:39:51Foi a primeira vez que eu entrei para o interior,
00:39:54e fomos de carona de caminhão,
00:39:57sem dinheiro nenhum, dormindo em rede.
00:39:59A grande aventura que era conhecer o Brasil,
00:40:01mas que fazia parte desse caldo cultural,
00:40:02que era o Brasil.
00:40:03A grande aventura que era conhecer o Brasil,
00:40:04mas que fazia parte desse caldo cultural,
00:40:06de Brasília.
00:40:08A grande aventura que era conhecer o Brasil, mas que fazia parte desse caldo cultural de Brasília.
00:40:30O professor Luiz Humberto emprestou uma câmera da universidade.
00:40:33Você vai fazer essa viagem, então você faz um registro dessa viagem.
00:40:36Imagine uma laica que estava lá na minha mão, seja que você vai viajar, traz uma coisa de volta para a gente aqui.
00:41:06Essa vivência muito típica dos anos 60, né?
00:41:19De meio de contracultura ou de procura de novas saídas, quer dizer, o jovem se exercendo de uma maneira diferente da geração anterior, isso tudo no meio da Universidade de Brasília.
00:41:34Isso tudo no meio da Universidade de Brasília, que dava a chance da gente se encontrar, conversar.
00:41:51A Universidade de Brasília, além da parte formal de ensino, ela tinha uma abertura para convívio.
00:41:59E essa abertura para convívio deu margem a muita criação e propostas.
00:42:09Todos morávamos praticamente juntos.
00:42:13Grande parte do grupo morava no campus.
00:42:18Tinha o alojamento dos alunos, dos bolsistas, dos professores.
00:42:25Nós vivíamos juntos, no mesmo lugar.
00:42:28Isso criava uma solidariedade, criava uma troca de vivências, de experiências.
00:42:35O primeiro alojamento que a gente teve foi na Zanóis.
00:42:43Era literalmente um barraco.
00:42:45Em que a gente puxou, para fazer um chuveiro, a gente puxou uma mangueira do vizinho para a água escorrer.
00:42:54O barraco não tinha luz.
00:42:58Bem no meio do cerrado, mas era um local típico de alojamento dos estudantes.
00:43:03Um centro, até o Paulo Emílio teme uma vez lá.
00:43:14A Zanóis não estava ainda.
00:43:16Os edifícios, tinha só os barracos.
00:43:18E o Paulo Emílio foi lá.
00:43:20E alguns professores, eu contei que tinha um barraco dos estudantes.
00:43:24Eles foram visitar o barraco.
00:43:26O Paulo Emílio foi lá.
00:43:27E ele achou que eu estava morando lá também.
00:43:29Porque eu ia de vez em quando visitar, mas na realidade eu não estava morando lá.
00:43:32Ele voltou para a universidade e falou com tudo.
00:43:34Olha, eu conheci o barraco do Bodansky.
00:43:36E aí ficou o nome de barraco do Bodansky.
00:43:38Eu sou um rio de raiz.
00:43:39Eu não estava morando lá, mas o barraco tinha o meu nome.
00:43:41O campus tinha essa relação com o cerrado.
00:44:03Quer dizer, o campus era na franja do cerrado.
00:44:07Não era tão gramado como ele é hoje em dia.
00:44:10A grama foi muito posta pelos militares.
00:44:13Eles pelaram o campus e o gramado.
00:44:15Mas o campus, ele se misturava com o cerrado.
00:44:19E isso era bonito.
00:44:21Porque o cerrado é uma descoberta.
00:44:23É uma descoberta.
00:44:24Você tem que entrar no cerrado.
00:44:25A experiência do cerrado não é uma cidade fora para dentro.
00:44:28É uma cidade dentro.
00:44:35Você circulava pelo campus o tempo inteiro.
00:44:38Sempre tinha gente circulando pelo campus.
00:44:40Então eu ia a caminho da OCA, onde nós morávamos,
00:44:45e encontro um professor de antropologia.
00:44:47Me perguntou, olha, quer ir ao Xingu amanhã?
00:44:52Esteja aqui às sete horas da manhã.
00:44:54E era isso a universidade.
00:44:55Era uma caixinha de surpresa diária.
00:44:59O Darcy era um camarada que,
00:45:03pelo seu contato com os índios,
00:45:06ele se deu conta que você tem que repassar o conhecimento.
00:45:10Ele não pode ser uma propriedade privada.
00:45:13Não faz sentido você vender aquilo que você aprende.
00:45:17Eu acho isso uma puta de uma sacanagem.
00:45:19Ainda mais num país como o nosso.
00:45:21Você tem que passar isso que você sabe.
00:45:24E eu sentia isso naqueles primeiros tempos da universidade.
00:45:29Eu sentia isso.
00:45:30Então isso, para mim, era o meu oxigênio.
00:45:34O povo na universidade.
00:45:36Isso soa um pouco arrojado demais.
00:45:40Mas era interessantíssimo.
00:45:41Uma possibilidade revolucionária,
00:45:48no melhor sentido de uma revolução,
00:45:51de a gente trazer coisas novas
00:45:54e um ar novo a respirar novamente,
00:45:58um ar que não existia no Brasil.
00:46:00E isso incomodou muito,
00:46:02porque o governo militar não tinha percepção
00:46:06do que estava se passando
00:46:07e achava que a universidade brasileira
00:46:09era um grupo de comunistas
00:46:12cujo trabalho tinha que ser completamente eliminado.
00:46:24O pessoal naquela época
00:46:26jamais poderia admitir
00:46:28tanta democracia,
00:46:32tanta discussão,
00:46:34tanta criatividade,
00:46:36tanta mudança.
00:46:36era demais
00:46:38para o conjunto da obra,
00:46:41digamos assim.
00:46:43O primeiro golpe do golpe militar
00:46:44foi cortar a universidade de Brasil.
00:46:47Eles não suportavam isso.
00:46:48Isso seria,
00:46:49além da imaginação deles,
00:46:51o que podia estar acontecendo,
00:46:53aquilo representava um perigo
00:46:54tão grande para a nação.
00:46:55Mas que hoje eu vejo que era real mesmo.
00:46:57Imagine se deixassem continuar
00:46:58a universidade de Brasil.
00:46:59O Brasil seria outro Brasil.
00:47:00Nesse caso,
00:47:01não teriam entrado nunca.
00:47:03E eles perceberam isso antes da gente.
00:47:05e ceifaram tudo violentamente.
00:47:35quando foi dado o golpe,
00:47:39ninguém sabia para onde correr,
00:47:41o que fazer.
00:47:42E se sabia que as tropas
00:47:44estavam já na rua,
00:47:47nas ruas que estavam já
00:47:48para os outros poderes.
00:47:50Aquilo foi um momento terrível.
00:47:52Muito, muito duro.
00:47:54Muito duro.
00:47:55Foi um soco.
00:47:57Um soco.
00:47:58Essa foto, com certeza,
00:48:07foi feita, acho que,
00:48:08no dia seguinte ao golpe.
00:48:10Bem próximo.
00:48:11A gente vivia no rádio.
00:48:14E pode-se ver nessa foto também
00:48:16cartazes enrolados,
00:48:18que eram cartazes cubanos
00:48:19que a gente colecionava,
00:48:21de sergrafias lindíssimas.
00:48:22Cartazes de filme,
00:48:24cartazes de propaganda
00:48:25da Revolução Cubana,
00:48:26que eram muito queridos.
00:48:28A gente tinha muito orgulho
00:48:30de ter esses cartazes
00:48:31que o pessoal trazia de Cuba,
00:48:33e se tornaram uma arma
00:48:35contra a gente depois.
00:48:36A gente não sabia o que fazer com isso.
00:48:38De repente, alguém pega
00:48:39e o que vai acontecer.
00:48:40Então, depois,
00:48:42a gente acabou queimando eles,
00:48:43infelizmente.
00:48:43Me lembro que vocês estavam
00:48:57queimando coisas
00:48:58e saía uma puta
00:49:01de uma fumaça preta
00:49:02pelo prédio da arquitetura.
00:49:06e o filme não pegava fogo.
00:49:10Os filmes não pegavam fogo.
00:49:12Saímos dali
00:49:12com aquela caixa de filmes
00:49:14e enterramos, rapaz,
00:49:17no ICC.
00:49:18Tinha uma máquina
00:49:19que estava botando terra
00:49:21num buraco.
00:49:23Vai, ia e voltava.
00:49:24Quando ela ia pra lá,
00:49:25a gente jogou a caixa aqui dentro,
00:49:27o cara veio
00:49:27e botou terra por cima.
00:49:31Os filmes devem estar lá
00:49:32até hoje.
00:49:34Foi muito difícil
00:49:36suportar aquele momento lá.
00:49:43A partir do golpe militar
00:49:45de 1964,
00:49:47a Universidade de Brasília
00:49:48sofreu inúmeras invasões.
00:49:51Essas fotos registram
00:49:52uma delas,
00:49:54a de 1968.
00:50:01Um belo dia,
00:50:21estávamos trabalhando
00:50:21no estudo de arte.
00:50:23Bateram na porta
00:50:24da nossa sala.
00:50:25Quando eu olho,
00:50:26estavam soldados
00:50:27enfileirados,
00:50:28entrincheirados,
00:50:29como se tivesse
00:50:29uma guerra,
00:50:30com metralhadoras
00:50:31apontadas
00:50:32para o Instituto de Arte.
00:50:34Era uma coisa
00:50:35tão surrealista
00:50:36que eu comecei a rir.
00:50:38E o soldado
00:50:39que estava do outro lado
00:50:40também,
00:50:40que não sabia
00:50:41a impressão
00:50:42do que diabo
00:50:43ele estava fazendo lá,
00:50:44ele ria também.
00:50:46Então,
00:50:46era uma coisa
00:50:47muito maluca
00:50:48esse começo.
00:50:49Ninguém se entendia,
00:50:51nem eles
00:50:51o que estavam fazendo lá.
00:50:58Nós ficamos lá a noite,
00:51:00toda a noite inteira,
00:51:00tomando conta.
00:51:06Mas,
00:51:07no dia seguinte,
00:51:09a polícia entrou
00:51:10do mesmo jeito.
00:51:12Nós tínhamos muito medo
00:51:13do que ia acontecer.
00:51:14A universidade
00:51:15foi cercada.
00:51:17Teve uma pressão
00:51:19brutal,
00:51:20tremenda,
00:51:20sobre a universidade.
00:51:22Muita gente foi presa.
00:51:24Logo nessa primeira invasão,
00:51:25todo mundo levado
00:51:26para o
00:51:27teatro nacional.
00:51:39Travam quebrando tudo,
00:51:41invadiam a biblioteca
00:51:43e faziam um alinco
00:51:44nos livros
00:51:45na base, assim,
00:51:46da maluquice,
00:51:47da maluquice.
00:51:49De uma vez,
00:51:50pegaram, por exemplo,
00:51:51o livro de engenharia,
00:51:52resistência de materiais.
00:51:54Aí a gente
00:51:54se divertia também,
00:51:55a gente estava
00:51:56graças
00:51:56dessa patacoada
00:51:58que faziam.
00:51:59Um ano depois do golpe,
00:52:06a universidade
00:52:07já estava sob cerco.
00:52:09Era muito comum
00:52:09chegar na universidade
00:52:11e não poder entrar
00:52:12porque a polícia militar
00:52:15de Goiânia
00:52:15estava lá saqueando
00:52:16a biblioteca
00:52:17para ver se tinha
00:52:18algum livro sobre viver assim.
00:52:20Um episódio
00:52:20que a gente
00:52:21não esquece nunca
00:52:22é que no dia
00:52:24do nosso casamento,
00:52:26que foi maio
00:52:27de 64,
00:52:28dois dos nossos
00:52:29padrinhos
00:52:30estavam presos.
00:52:33Então, era
00:52:33um clima de insegurança.
00:52:35Depois foram presos
00:52:36outros, né?
00:52:37Foi preso o Greff,
00:52:38foi preso outros,
00:52:39são vários deles.
00:52:42Foi muito ruim
00:52:42ter vivido
00:52:43esse período.
00:52:44Ítalo, Ítalo.
00:52:45Muito ruim,
00:52:46muito ruim.
00:52:47Ah, e muitos,
00:52:48muitos professores
00:52:49presos,
00:52:49Lincoln, enfim.
00:52:52Presos assim,
00:52:53por que prende
00:52:53professores?
00:52:54Eu não sei.
00:52:55A coisa foi se agravando.
00:52:57Primeira manifestação,
00:52:58que eu participei
00:52:59de uma passeata,
00:53:01que aliás,
00:53:01não era uma passeata,
00:53:02era uma demonstração
00:53:03na rodoviária,
00:53:06e a polícia
00:53:07começou a cercar
00:53:08o exército,
00:53:09e o pessoal dizia,
00:53:10vamos cantar o hino
00:53:11nacional que eles param.
00:53:13Aí começamos a cantar
00:53:14o hino nacional,
00:53:15mas não pararam.
00:53:15Aí que atiçou eles,
00:53:16caíram de pau
00:53:17em cima da gente.
00:53:19Eu corri,
00:53:21tanto que eu saí
00:53:23da rodovia,
00:53:23e cheguei
00:53:24do primeiro ministério,
00:53:25na Esplanada,
00:53:26que não é perto.
00:53:28Eu não sei.
00:53:28Bom, eu tinha idade
00:53:29para fazer essa corrida,
00:53:30hoje eu não conseguiria.
00:53:31A CIDADE NO BRASIL
00:53:35A CIDADE NO BRASIL
00:53:38A CIDADE NO BRASIL
00:53:41A CIDADE NO BRASIL
00:53:42A CIDADE NO BRASIL
00:53:42A CIDADE NO BRASIL
00:53:43A CIDADE NO BRASIL
00:53:43A CIDADE NO BRASIL
00:53:44A CIDADE NO BRASIL
00:53:44A CIDADE NO BRASIL
00:53:45A CIDADE NO BRASIL
00:53:45A CIDADE NO BRASIL
00:53:46A CIDADE NO BRASIL
00:53:46A CIDADE NO BRASIL
00:53:46A CIDADE NO BRASIL
00:53:47E quando a universidade foi invadida, que houve o golpe,
00:54:09nós não acreditávamos que o Brasil estava na véspera de uma ditadura militar.
00:54:15A gente não acreditava, a gente tinha uma ilusão completamente estúpida que no Brasil isso jamais aconteceria.
00:54:45E quando a universidade foi invadida, a gente tinha uma ilusão completamente estúpida.
00:54:52Com o golpe de 64 houve a queda de Darcy Ribeiro, a perseguição, essa gente toda, Anísio,
00:55:07todos os fundadores, verdadeiramente os fundadores da Universidade de Brasília.
00:55:22Eu fiquei na Universidade de Brasília ainda até 65, no final de 65, com uma grande esperança de que tudo aquilo fosse repensado pelo governo militar.
00:55:42E porque eles fizeram uma CPI no Congresso, que o professor Salmeron foi a pessoa que foi o relator da Universidade de Brasília,
00:55:52fez um discurso brilhante, maravilhoso, que foi jogado às traças. Ninguém tomou conhecimento disso.
00:55:59Se você vai ao presidente da república e não obtém dele o menor gesto de simpatia ou desrespeito pelo que a universidade estava fazendo,
00:56:14você tem que fazer o quê?
00:56:17Então houve uma decisão, uma discussão, em que haveria como única possibilidade, uma espécie de um grito,
00:56:23para que todo mundo soubesse o que estava acontecendo dentro da Universidade de Brasília, de uma admissão coletiva.
00:56:29E aí a admissão coletiva se fez, por si só, não tinha mais o que discutir.
00:56:35Porque você tinha absoluto silêncio e indiferença do governo central com relação ao drama que a Universidade de Brasília estava vivendo.
00:56:44Nem todo mundo concordava com isso, mas eu devo dizer que com clara postura
00:57:07com clara postura de que se eles querem nos demitir,
00:57:15eles que nos demitem.
00:57:18Não temos que fazer o trabalho para eles.
00:57:26Veio aquela lista na minha mão, o auxílio estava na mesa,
00:57:30aí eu peguei a lista assim, aí o auxílio disse, para assinar.
00:57:35Eu disse, não, quem assina é o senhor. Passei para ele.
00:57:38Imagino que deve ter sido muito sofrida essa decisão para o meu pai,
00:57:42porque ele gostava muito, mas não havia, para ele, ele não havia espaço mais.
00:57:47Então ele pede demissão com 200 outros, que é uma coisa incrível você pensar
00:57:51que 200 pessoas, parte da classe média, com todos os compromissos
00:57:59que a classe média tem para o futuro, de compromissos financeiros e tal,
00:58:02opa, rompe o pé na demissão e sai. Foi de uma coragem fantástica.
00:58:06Eu nunca soube de outro caso igual.
00:58:08O fechamento da UNB, com a saída dos professores,
00:58:21foi a primeira vez que eu vi que ideias podiam acabar com a gente.
00:58:27Porque nós não tínhamos nada, nós só tínhamos ideias,
00:58:32nós não tínhamos nada, nada que pudesse nos comprometer.
00:58:37O fechamento da UNB, com a saída dos professores,
00:59:07a marca do golpe militar foi tão lancinante na minha família,
00:59:15meu pai sumiu, nós só fomos vê-lo oito meses depois.
00:59:19Nós morávamos num apartamento maravilhoso, funcional, na 305,
00:59:25e eu e minha irmã acabamos indo para um quarto de empregada,
00:59:28a mamãe voltou para São Paulo.
00:59:30Para mim foi tão doloroso tudo aquilo, porque eu vi a saída do Darcy,
00:59:37a saída do Jango, a saída de todos os professores,
00:59:41todo mundo chorando, todo mundo sem dinheiro,
00:59:43e depois os boatos de que todos tinham roubado,
00:59:48que eu fiquei com horror moral à Brasília.
00:59:51Eu entendo perfeitamente a posição do Niemeyer e a posição do próprio Darcy,
00:59:57que nunca mais quis voltar e que olhava aquilo.
01:00:01Isso aqui é uma filha minha que se perdeu.
01:00:03A nossa casa foi invadida pelos militares e nós perdemos tudo o que estava dentro.
01:00:22A única coisa que sobrou à música do Claudio foi salva,
01:00:26porque exatamente o presidente do Supremo Tribunal,
01:00:30que era nosso amigo,
01:00:32mandou o carro oficial dele lá em casa,
01:00:36pegou toda a música e levou para o apartamento dele.
01:00:39Entendeu? Por isso sobrou.
01:00:41O resto, móveis, o que tinha dentro,
01:00:45desapareceu com a invasão dos militares no nosso apartamento.
01:00:49Eu fui para o Rio ter meu filho,
01:00:52e nós deixamos o apartamento fechado, claro.
01:00:55Era um inferno nesse tempo todo.
01:00:57Ele ficava numa espécie de máquina de pressão.
01:01:02Ele fez um concerto, por exemplo, de música americana,
01:01:05os estudantes reclamaram, papapá,
01:01:07que estavam fazendo música americana.
01:01:09Aí ele fez um concerto, uma música polonesa,
01:01:11baseada em temas medievais.
01:01:14Foi chamado no cartel para explicar.
01:01:17E o Claudio disse, então eu só tenho que me dar um mista.
01:01:19Quer dizer, Tchaikovsky, Chopin,
01:01:21nada disso a gente pode tocar mais,
01:01:22porque é russo, polonês.
01:01:24Só que foi do século passado, mas enfim.
01:01:27Só a ignorância dos militares, né?
01:01:30Para dizer que aquela universidade era comunista.
01:01:34Eu tinha muita admiração pela União Soviética,
01:01:37mas sabia como aquela universidade
01:01:39jamais existiria na União Soviética.
01:01:43Poderia existir nos Estados Unidos, na França, etc.
01:01:45Mas não num país totalitário.
01:01:49Doutor, porque o que você está perguntando para mim é um ideário.
01:01:55Esse ideário era da cabeça do Darcy Ribeiro,
01:02:00doutor Rocha Miranda e professor Pompeu de Sousa.
01:02:07Então, sabe o que são pessoas muito confiantes no saber,
01:02:14no ideal, na liberdade,
01:02:16de acreditar na liberdade.
01:02:19Não conhecer outra coisa que não seja liberdade.
01:02:22Liberdade não tem substantivo, nem adjetivo.
01:02:25Não existe isto.
01:02:25Liberdade é pura, liberdade, mais nada.
01:02:31Nós ficamos perdidos aqui nessa terra.
01:02:55Depois do golpe militar e do fechamento,
01:03:11quando a gente ia sair,
01:03:12com a saída maciça dos professores,
01:03:15a universidade não tinha ninguém.
01:03:17Ficou fechada há um tempão,
01:03:18porque não tinha mais professor.
01:03:21E eu achava que ia ser uma comoção internacional.
01:03:23Para a minha surpresa, ninguém se mexeu.
01:03:27Não lembro de nenhuma moção internacional
01:03:31que tivesse tomado partido
01:03:35de uma universidade importante no Brasil
01:03:37que tinha sido fechada.
01:03:39Isso foi uma tristeza sem tamanho.
01:03:43É uma decepção muito grande.
01:03:45Foi um sonho muito grande.
01:03:49Isso fez mal,
01:03:51machucou a gente durante muito tempo.
01:03:54E certamente influenciou
01:03:55muitas atitudes e direções e decisões
01:04:00que tomamos através do tempo.
01:04:02pela dificuldade que foi de absorver esse golpe.
01:04:12Inútil.
01:04:13Totalmente inútil.
01:04:15Foi ridículo.
01:04:16Foi horrível.
01:04:17Eu acho que não deviam ter feito isso.
01:04:21Você já imaginou para nós, alunos,
01:04:24o que é os próprios professores desistirem?
01:04:26Pedir demissão?
01:04:30Eu tenho certeza que foi uma boa coisa de sair.
01:04:34Porque eu acho que progressivamente
01:04:37a gente ia começar com uma questão de sobrevivência.
01:04:42Eu temia que as pessoas começassem a fazer concessões.
01:04:45O ensino ia ser feito de uma maneira
01:04:49que não seria o projeto inicial do Darcy.
01:04:53Não seria aquele projeto inicial.
01:04:55E voltando naquele momento,
01:04:57seria impossível manter aquilo que existia inicialmente.
01:05:12Houve uma...
01:05:14Uma derrota, com certeza,
01:05:20mas eu, individualmente, eu não caí.
01:05:23A decadência, o arruinamento
01:05:26da Universidade de Brasília
01:05:29representou uma perda
01:05:31que, talvez, eu não sei dizer,
01:05:34talvez não tenha sido ainda recuperada.
01:05:37Em todo caso, um gigantesco atraso.
01:05:39O golpe militar, ele não acabou só com o Brasília.
01:05:45O saber no Brasil foi dinamitado.
01:05:48Não há uma universidade hoje
01:05:51que chegue aos pés do que foi aquela concepção.
01:05:55Nenhuma, nenhuma.
01:05:56Tanto, sim, que até hoje não surgiu um projeto
01:06:00ou igual ou mais revolucionário.
01:06:03Hoje, nós não fomos capazes...
01:06:11Nós não fomos capazes de blindar
01:06:15ou instaurar na universidade
01:06:17um compromisso profundo, visceral,
01:06:21para conservar as ideias da sua existência
01:06:26desde os anos de 1960, no início.
01:06:29Por que, então, a gente não...
01:06:31Novamente, não insere no ensino no Brasil
01:06:34uma reforma da universidade
01:06:36para aparar um golpe certeiro
01:06:40que a deprimiu e a anemiou.
01:06:44Quer dizer, tornou a universidade
01:06:46quase que um fantasma do que ela poderia ser.
01:06:50Com as lições não tão antigas
01:06:54que é a experiência da Universidade de Brasília.
01:06:57Eu acho que se devia...
01:06:58A gente tem que apelar para uma memória.
01:07:01E aí a gente se perdeu exatamente
01:07:03porque a universidade se omitiu,
01:07:05especialmente a Universidade de Brasília,
01:07:07que era, para ser exemplo,
01:07:09por que a universidade se exime
01:07:12de fazer um questionamento diuturno?
01:07:17A universidade não debate mais nada.
01:07:20A universidade se burocratizou.
01:07:23Onde que foi parar esse projeto?
01:07:37Foi um negócio assim...
01:07:39O sentimento era uma profunda perda.
01:07:43Porque se nós perdemos nossa carreira,
01:07:44nós perdemos parte da nossa vida,
01:07:46parece que tudo foi inútil, não foi.
01:07:48Depois nós fomos uma luta, né?
01:07:50Eu, por exemplo, descobri que eu
01:07:52era mais fotógrafo que arquiteto,
01:07:55comecei a buscar uma saída profissional.
01:07:58Todo esse esmagamento e tudo,
01:08:03não acabou com tudo, não.
01:08:06As ideias novas acabam triunfando
01:08:09um dia ou outro.
01:08:11É muito difícil você destruir
01:08:12uma experiência cultural daquele tipo.
01:08:14É muito difícil.
01:08:16Claro que a barbárie foi grande,
01:08:17o obscurantismo imenso,
01:08:20muita coisa foi esmagada,
01:08:22houve mortos, houve feridos,
01:08:24houve tudo isso,
01:08:25houve exílio, essa coisa toda,
01:08:29mas gerou-se novidade em Brasília,
01:08:32gerou-se muita novidade.
01:08:44Aquele instante foi uma tal explosão
01:08:49de força cultural
01:08:51que acho que marcou definitivamente.
01:08:53acho que quem viveu o Brasília
01:08:55naquele momento
01:08:56não saiu igual.
01:08:59É impossível,
01:09:00porque é o que a gente aprendeu
01:09:03e o que a gente viveu.
01:09:10Agora, 50 anos depois.
01:09:1250 anos depois.
01:09:23já faz muito tempo
01:09:35que a ideia original
01:09:37de Anísio Teixeira
01:09:38e Darcy Ribeiro
01:09:39foi interrompida.
01:09:41Mas será que ideias morrem?
01:09:43E sonhos podem desaparecer?
01:09:50de Anísio Teixeira
01:10:10Amém.
01:10:40Amém.
01:11:10Amém.
01:11:40Amém.
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