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  • há 1 semana
O Global Risks Report 2026, divulgado no Fórum Econômico Mundial em Davos, aponta alimentos, energia, água e fertilizantes como insumos estratégicos e instrumentos de poder no cenário global. Nesta entrevista, o consultor de mercado Júnior Crosara analisa os riscos da forte dependência brasileira das importações, os impactos da geopolítica nos preços, os avanços do Plano Nacional de Fertilizantes e os desafios para garantir o abastecimento na safra 2025/26.

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Transcrição
00:00Então, para a gente compreender esse cenário global e também esse cenário local,
00:06nós vamos conversar com o Júnior Krossara.
00:09Ele é consultor de mercado, especializado no agro,
00:12acompanha bastante esse segmento de fertilizantes,
00:15já esteve aqui conosco também para ajudar a gente a fazer essas leituras.
00:20Então, obrigada de novo pela participação, te agradeço pelo seu tempo
00:24e gostaria então de já começar nesse sentido.
00:26Qual leitura que a gente pode fazer sobre a gravidade do setor
00:31a partir, inclusive, desse relatório de riscos que foi lançado aí em Davos?
00:37Mariano, grande prazer estar com você e também com todos os telespectadores.
00:41Eu acho que você, e eu fico feliz de ver a tua profundidade no tema
00:45e você também clamando para a sociedade, para os agricultores tomarem pé da situação
00:51que hoje a discussão é da cadeia e não é mais dentro e localmente.
00:56Na fazenda ou na propriedade rural.
00:59A gente está hoje num grande desafio para a safra 26 e 27.
01:05Ou fertilizantes, ou o setor de fertilizantes, ele é fundamental para garantir
01:09as nossas produtividades, as nossas produções.
01:13E o agricultor brasileiro está numa situação de grande impasse.
01:16porque, por mais que o dólar tenha se enfraquecido mundialmente,
01:21a dolarização dos fertilizantes cria também, ou o aquecimento da demanda de setor,
01:28criou um ganho de preço, uma crescente de preço de quase 10% na base dólar
01:32dos fertilizantes fundamentais do NPK.
01:36Esse setor está no centro da discussão geopolítica, do risco geopolítico, como você tratou,
01:45e essa discussão cria algumas fragilidades para o nosso agronegócio.
01:50Quando se tem mais de 85% dessa matéria-prima sendo importada,
01:55e quando nós falamos em recordes de importação,
01:58a gente tem que lembrar que esse material que está vindo,
02:02ou o produto que está vindo, ele tem uma concentração menor de nutrientes
02:06do que a gente estava importando.
02:08Ou seja, cria um gargalo logístico maior,
02:11cria uma movimentação maior,
02:14mas a gente tem que lembrar que a concentração é menor também.
02:16Então, hoje, que pé que nós estamos?
02:19Para a sábado é 26 e 27,
02:21a gente ainda tem muita coisa para acontecer no mercado,
02:25a gente está atrasado dos últimos cinco anos,
02:27o produtor está muito tenso porque ele está numa colheita
02:32e também já está tendo que tomar algumas decisões para os próximos meses.
02:39E o que a gente tem dito aqui é, a decisão avalia três grandes critérios.
02:42A primeira coisa é como eu estou, ou seja, em caixa, em disponibilidade,
02:47o quanto eu vou precisar e aonde estou.
02:51E o aonde estou está muito ligado também à região que ele está,
02:54porque tem regiões que você precisa ir de 90 dias com antecedência
02:59para você ter a parte de fertilizantes.
03:02Então, fertilizantes se tornou um tema crucial.
03:05E o grande ponto, Mariana, que você traz é,
03:08não tem nada que nos traz que a gente vai ter aí uma queda de preços.
03:13Pelo contrário, a gente vai ter, sim, uma pressão maior externa
03:17por demanda de fertilizantes,
03:19um protecionismo maior dos grandes produtores, como a China.
03:25E aí, o que você, você que acompanha esse mercado,
03:28eu queria entender que se você tem visto algum avanço concreto
03:32no Plano Nacional de Fertilizantes.
03:35A gente não pode esquecer que existe esse plano, que tem metas.
03:39Inclusive, no final de 2025, eu perguntei para o Ministério da Agricultura
03:44como que estava andando.
03:45Eles disseram que só iam ter esses números consolidados em 2026.
03:49A gente já está em 2026, porque tinham metas, inclusive, para 2025.
03:54Está andando, não está andando.
03:55Como que você avalia isso?
03:57Inclusive, desse ponto de vista de formação de preço.
04:01Porque eu não imagino, claro, é uma commodity global.
04:04Então, não é um plano nacional de fertilizante que vai alterar o preço.
04:07Mas a gente está falando de um plano exatamente para criar independência.
04:11Estão ali os biofertilizantes, a ciência brasileira.
04:15Está tendo algum avanço ou, infelizmente, é só para inglês ver?
04:20Mariana, assim, tirando a questão partidária, a questão política,
04:24a gente vê, sim, algumas evoluções.
04:27Mas a gente tem sempre que lembrar que a coisa estrutural do setor de fertilizantes
04:30é de médio a longuíssimo prazo.
04:33A gente tem algumas plantas do Nordeste sendo reativadas para nitrogênio.
04:37A gente tem uma discussão ainda sobre a exploração de cloreto na Amazônia.
04:43É uma questão bem sensível, que está tendo algumas evoluções.
04:47Mas hoje, para você ter uma produção plena dessas fábricas de nitrogênio,
04:52vou te trazer um dado,
04:54ela demora quatro anos para ter aí uma produção plena.
04:58E, produzindo plenamente,
05:01ela vai atender até 12% de uma demanda de nitrogênio que nós temos.
05:05Então, ainda é muito pouco.
05:07Ainda é muito pouco para aquilo que a gente precisa.
05:10Então, para um setor que representa 23% do PIB,
05:13que é o grande líder da balança comercial,
05:16que casa e também, realmente, a estrutura, a nossa sociedade,
05:21ainda é muito pouco essa movimentação.
05:23Então, de novo, o plano que nós temos,
05:26há, sim, grandes atrasos,
05:28mas há também, a gente tem que reconhecer que há essas movimentações,
05:32mas ainda é muito pouco.
05:33Há pouco pela demanda de crescimento da nossa produção,
05:39há pouco pela necessidade que nós temos hoje
05:43de ter outras ações, a não ser a instalação da fábrica,
05:46mas tem uma questão também logística,
05:48como você estava bem dizendo.
05:50Então, assim, há movimentações,
05:51mas nesse passo não vai ser com 15%, 30% ou 45%.
05:56A demanda ainda, ela cresce muito maior que uma oferta nacional.
06:00Então, a gente vê que esse plano deveria ser revisitado
06:06e, mesmo ele caminhando, ele precisa ser muito acelerado
06:10nas suas pretensões, nas suas ambições.
06:12Sim, ações e prazos factíveis, né?
06:15Porque lançar um projeto é fácil,
06:17a questão é colocar ele para rodar de verdade, né?
06:20E aí eu queria te perguntar,
06:21a gente também, sempre olhando para essa questão geopolítica, global,
06:26não dá para esquecer do componente Rússia.
06:29Eu queria entender um pouco como que está o fornecimento deles,
06:33mas de outros países,
06:34como que você tem visto, então, também,
06:37esse fornecimento global, as compras e vendas,
06:40se está numa situação, digamos assim, normal,
06:45ou se a gente está passando por alguma questão geopolítica,
06:48alguma guerra em alguma parte do planeta Terra,
06:50que também está comprometendo ou preços,
06:53ou disponibilidade dos insumos.
06:55Eu queria deixar claro, né, para todos os espectadores,
06:58que tem que acompanhar três países.
07:01O primeiro deles é a China, o segundo é a Rússia,
07:05e o terceiro é a Irã.
07:06E por que eu estou colocando nessa ordem,
07:08em termos de fornecimento, né,
07:11de matéria-prima ou de fertilizantes para o mundo inteiro?
07:13A Rússia, sim, há um fornecimento que não tem, né,
07:19grandes entradas.
07:21Então, há um processo, né, de guerra,
07:24há um processo, né, conturbado,
07:26mas há uma estabilização de fornecimento.
07:28O grande ponto que eu queria chamar a atenção
07:30é que a China, ela é a nossa solução, né,
07:34a nossa salvação no agro,
07:36mas ela também é um grande problema,
07:37porque ela determinou que até agosto, setembro,
07:41ela pararia de exportar, né,
07:43toda a parte de fosfatado.
07:45E isso impacta muito fortemente, né,
07:48um nutriente que é fundamental,
07:50que depois a gente pode discutir
07:52como é que vai ser o comportamento de preço.
07:54O Irã, que aí, de novo,
07:56não é por uma questão, né,
07:58de barreiras ou de guerra,
08:00mas uma questão, né, de inverno que acontece lá,
08:03e a gente tem que lembrar
08:04que o gás natural é a base de produção, né,
08:06da ureia, né, dos bases nitrogenados,
08:10há, sim, uma grande restrição.
08:11Então, o que eu te digo, Mariana,
08:13é a gente precisa olhar muito esses três países,
08:15porque a Rússia, há o sinal amarelo,
08:18mas não tem nenhum impedimento,
08:20a China está extremamente vermelha nesse processo,
08:24e o Irã, por uma questão agora de clima, né,
08:26de sobrevivência do direcionamento do gás natural,
08:29há, sim, né, um fator vermelho.
08:31Deixa eu trazer outro ponto também,
08:32que é importante a gente sempre orientar
08:35e estabilizar que a Índia
08:36tem uma demanda muito aquecida,
08:40e a gente tem que lembrar que a Índia subsidia, né,
08:42a importação de fertilizantes,
08:44e ela não sente essa volatilidade
08:46na ponta, né, dos seus importadores.
08:48A Índia também tem criado
08:50uma escassez maior do que a gente tinha.
08:52Um outro ponto, gente,
08:53que a partir de março,
08:55os Estados Unidos começam a puxar
08:57os seus fertilizantes.
08:58Já começa agora com nitrogênio,
08:59mas o grosso é março.
09:00Então, produtores,
09:02a gente não tem grandes sinais
09:06de notícias positivas,
09:09porque os países produtores
09:11têm uma instabilidade,
09:13ou de guerra,
09:14ou de protecionismo comercial,
09:16ou de urgência, né, climática,
09:19e o mercado está aquecido mundialmente.
09:23A questão que você trouxe da China,
09:25você falou ali dos meses,
09:26setembro, outubro,
09:28você se referia a 2025,
09:30ou é um prazo para 2026?
09:33Esse é um ponto importante.
09:35É em 2026.
09:36Então, está vigente o plano
09:37do governo chinês
09:39em zero exportação de fosfatado.
09:42E isso se dá
09:43por uma questão estrutural
09:44e por uma alocação
09:46e proteção também
09:47do setor, né,
09:48de carros elétricos.
09:50E a gente sabe
09:51da relevância do enxofre
09:52na produção de baterias.
09:53E aí, só para a gente encerrar,
09:57então, porque você falou
09:57um pouquinho dessa safra,
09:59então, 26, 27,
10:00muito brevemente, Júlia,
10:01o que você tem visto,
10:02então, inclusive,
10:03de preços?
10:05A gente, você já falou,
10:06vários sinais vermelhos aí,
10:07mas em relação a preço,
10:08disponibilidade
10:09para essa safra aqui, né,
10:1126, 27,
10:12o que você tem avaliado?
10:13Mariana, assim,
10:14a minha preocupação
10:15está na questão
10:16de estoque de passagem
10:18para cloreto, tá?
10:19A gente teve, né,
10:21a gente teve um decréscimo, né,
10:23de estoque de passagem
10:24de cloreto,
10:25até porque a gente importou
10:26menos cloreto, né,
10:27que é uma questão importante.
10:29Qual que é a nossa previsão, né?
10:31São preços aquecidos,
10:33são preços, né,
10:34que realmente tendem
10:36a se estabilizar na alta,
10:38o dólar vem ajudando,
10:40mas a gente tem que lembrar
10:41que o mais importante
10:42não são ou não é, né,
10:44o preço da tonelada,
10:46mas a relação, né,
10:47de poder de compra
10:48do agricultor
10:49que vem caindo aí
10:51fortemente.
10:53E aí tem um ponto importante, né,
10:55fazer mau negócio,
10:56você faz,
10:57você não precisa fazer
10:58a qualquer momento.
11:00Então,
11:01o grande ponto
11:02que eu queria alertar
11:02aos agricultores é
11:03olhe muito bem
11:05a sua condição de caixa,
11:07olhe muito bem
11:07aonde você está
11:09e quanto tempo
11:10que esse produto, né,
11:11demanda para estar
11:12na sua propriedade.
11:14E o outro ponto
11:14fundamental, Mariana,
11:16que é um ponto
11:16que a gente conversa aqui
11:17semanalmente
11:18com os nossos clientes.
11:20A agricultura de precisão,
11:22análise de solo,
11:23porque vai haver, sim,
11:25uma discussão
11:25de redução
11:26de aplicação
11:27de fertilizantes,
11:29mas a gente sabe
11:30que isso tem um limite.
11:31Então,
11:32uma boa análise de solo,
11:33uma boa recomendação técnica
11:34e uma boa aplicação,
11:36isso pode ser fundamental
11:38para garantir
11:38a produtividade.
11:39A gente acredita
11:40que o agricultor brasileiro
11:42é extremamente tecnificado,
11:44a gente vê isso,
11:44e essa ponderação
11:46nessa decisão
11:47ela vai ser importante.
11:48Então,
11:48a gente acredita
11:49uma restrição,
11:50principalmente em fosfato,
11:52mas há muito ponderado
11:54aí e o mercado
11:55muito mais compassado
11:57como ele já está atrasado.
11:58Como informação,
11:59a gente tem 35%,
12:01algo em torno disso
12:01no Mato Grosso já rodado,
12:03mas algo em torno
12:04de 7% a 8%
12:05no Rio Grande do Sul.
12:06Veja a disparidade
12:06que nós temos
12:07no Brasil inteiro.
12:08e o Brasil inteiro.
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