00:0013 bilhões de anos atrás, o universo era bem jovem.
00:04E ao contrário da maioria das crianças, ele era bem monótono também.
00:08Consistia basicamente em 3 xícaras de hidrogênio para cada xícara de hélio,
00:13tudo flutuando por aí em nuvens gigantescas.
00:16Não dá pra criar muita coisa só com dois elementos.
00:19Mas não esquenta a cabeça, eles eram só o começo.
00:21Nuvens imensas recheadas de hidrogênio são delicadas, principalmente pelo lance delas serem, bom, imensas.
00:36Se rola uma pequena perturbação, elas já desabam sob o próprio peso.
00:39E aí o gás começa a ficar denso, muito denso.
00:43Densidade é sinônimo de calor, como você pode perceber num ônibus cheio.
00:46E quando o calor no centro da nuvem atinge um certo patamar,
00:49os átomos de hidrogênio pedem arrego.
00:52De 4 em 4, eles se fundem e começam a formar hélio.
00:55Essa fusão libera uma dose cavalar de energia.
00:58E aí essa bola de gás esquentadinha começa a brilhar.
01:01É assim que nasce uma estrela.
01:02Faz 5 bilhões de anos que o nosso Sol queima hidrogênio sob pressão.
01:06E ele ainda tem mais ou menos a mesma quantidade de tempo pela frente, antes de morrer.
01:11O Sol consome 600 milhões de toneladas de hidrogênio por segundo.
01:15Essa energia homérica flui pra fora e compensa o esforço que a gravidade faz pra dentro.
01:20É isso que evita que o astro entre em colapso.
01:23É um cabo de guerra entre duas forças.
01:25Quanto maior a estrela, aliás, mais rápido acaba a gasolina.
01:28Um estrelão com 25 vezes mais massa que o Sol, por exemplo,
01:32acaba com seu estoque de hidrogênio em só 7 milhões de anos.
01:36O que é um piscar de olhos na escala cósmica.
01:38A solução é ter um motor flex.
01:40Se o que resta quando o hidrogênio acaba é hélio, por que não queimar hélio?
01:44Bacana, a fusão do hélio gera átomos ainda mais pesados, de carbono.
01:48Esse é o elemento mais importante pra vida na Terra.
01:50Todos os seres vivos, incluindo você, são de carbono.
01:53É legal, mas esse plano B dá errado.
01:56Ou melhor, até dá certo, mas dura pouco.
01:58Em 500 mil anos, o hélio acaba.
02:01E chega a hora do plano C, queimar o carbono.
02:04Essa história se repete de novo e de novo, de elemento em elemento.
02:07Toda vez que o combustível da estrela termina,
02:09ela precisa queimar um elemento mais pesado pra continuar viva.
02:12E cada vez que ela queima um elemento mais pesado, ela gera um terceiro.
02:16Mais pesado ainda.
02:17Esses elementos vão se acumulando no núcleo em camadas, como uma cebola.
02:21De gambiarra em gambiarra, a estrela faz a tabela periódica crescer.
02:25É no ferro que essa escalada chega ao fim.
02:28É impossível fundir átomos de ferro dentro de uma estrela.
02:31Esse processo consome mais energia do que libera.
02:34E sem energia pra combater a gravidade, a estrela finalmente desaba.
02:37Entre 1 e 3 segundos, tudo aquilo que ela já produziu é arremessado em direção ao núcleo,
02:43bate e é ejetado pra todo lado a uns 10% da velocidade da luz.
02:47Essa é a explosão mais violenta que a natureza é capaz de produzir.
02:51Todos os átomos que você come, bebe e respira foram entregues ao mundo dessa forma.
02:55Essas explosões se chamam supernovas.
02:58E além de enriquecer o universo com os elementos que estavam no interior da estrela,
03:02elas conseguem produzir elementos novos, ainda mais pesados.
03:05Só que, pra fazer isso, não adianta repetir a receita da fusão nuclear.
03:10Você precisa usar outro método, a captura de nêutrons.
03:14Um átomo é feito de três partículas.
03:16Os prótons e nêutrons, que ficam no núcleo, mais os elétrons, que ficam em volta.
03:20Os prótons são os mais importantes.
03:22É a quantidade deles que define de qual elemento é um átomo.
03:25Seis prótons? Carbono.
03:28O número de nêutrons, por outro lado, pode variar até certo ponto.
03:31A maioria dos átomos de oxigênio tem oito nêutrons, mais alguns tem dez.
03:36Mesmo assim, você pode respirar esses aí sem medo.
03:39Dá na mesma.
03:40Ou melhor, dá quase na mesma.
03:42Se você coloca nêutrons demais em um átomo, ele fica instável.
03:45E um átomo instável emite algo chamado radiação beta,
03:49pra transformar um nêutron em um próton.
03:51Ou um próton em um nêutron.
03:53O que for mais indicado pra restabelecer o equilíbrio naquela situação.
03:56Por exemplo, imagina que você tem um átomo de carbono, que tem seis prótons,
04:01e ele tá com oito nêutrons.
04:03E isso é demais pra ele.
04:04Então, um átomo transforma um nêutron em próton por radiação beta,
04:08e fica mais estável, com sete prótons e sete nêutrons.
04:11Só que, quando muda o número de prótons, muda o elemento.
04:15Nasce um nitrogênio.
04:16É aí que reside a magia da radiação.
04:18Ela faz a tabela periódica crescer, transformando um elemento em outro,
04:22em vez de fundir um elemento com outro.
04:24O que nos leva de volta ao espaço.
04:26Quando rola uma supernove e a estrela começa a desabar,
04:29as camadas externas pressionam as internas a tal ponto
04:32que os prótons e elétrons lá no meio não aguentam o tranco.
04:35Eles são esmagados e formam nêutrons.
04:37Isso gera um montão de nêutrons livres,
04:40que podem grudar aos montes em qualquer átomo levinho que esteja dando sopa.
04:43Esses átomos vão inchando e começam a emitir radiação pra se equilibrar.
04:47Cada vez que isso acontece, eles pulam uma casa pra cima na tabela periódica.
04:51E assim nascem a prata, o ouro, a platina.
04:54Não é só em supernovas que essa magia acontece.
04:57A maior parte do ouro que existe em cada Rolex, na verdade,
05:00veio da colisão de estrelas de nêutrons, que é um evento raro no universo.
05:04Também nascem elementos quando uma anã branca, um outro tipo de estrela morta,
05:08suga a matéria de uma estrela vizinha até explodir.
05:11O átomo mais pesado que você consegue encontrar dando bobeira na natureza
05:14é o urânio, com 92 prótons.
05:17Se você quiser um átomo ainda maior, você precisa de um laboratório milionário
05:20de uma pós-graduação em física nuclear.
05:22Desde 1940, quando o primeiro átomo de proveta saiu do papel,
05:27a tabela periódica cresceu 26 casas.
05:29Foi de 93 elementos a 118,
05:33uma média de um elemento novo gestado em laboratório a cada três anos.
05:37Hoje, o melhor jeito de criar esses gigantes é com um tiro ao alvo sofisticado.
05:42Átomos leves são disparados a 100 milhões de quilômetros por hora
05:46na direção de átomos pesados.
05:48A trombada é tão forte que, com sorte, o elemento leve e o pesado se juntam
05:52e geram um só.
05:53Muito, muito pesado.
05:55Essa história de jogar Counter-Strike microscópico com um acelerador de partículas
05:59rola em alguns institutos de pesquisa mundo afora.
06:02Na Alemanha, o Centro Helpholz de Pesquisas sobre Íons Pesados, o GSI,
06:07foi responsável por produzir sete elementos inéditos entre as décadas de 80 e 90.
06:11Já o RIBF, no Japão, se dedica a fabricar isótopos muito radioativos
06:16de átomos familiares para nós.
06:18O pai de todos os laboratórios, porém, não é um pai.
06:20É uma mãe.
06:21A mãe Rússia.
06:22A 110 quilômetros ao norte de Moscou, na cidade de Dubna,
06:26fica o JINR, o Instituto de Pesquisa que mais faz a tabela periódica crescer.
06:31Foi lá no laboratório Flerov que nasceram os elementos 113, 114, 115, 116, 117
06:39e o maior de todos, o 118.
06:42O nome desse monstrinho é Oganesson.
06:45Nascido em 2006, ele foi feito a partir do Califórnio,
06:48um elemento artificial que, por si só, já é ridiculamente grande, com 98 prótons.
06:54Os pesquisadores atacaram o Califórnio com um fecho de átomos de cálcio, com 20 prótons.
06:5920 mais 98 dá 118.
07:02Bingo!
07:02Aí o PAC, que é a FIFA dos químicos, demorou uma década para reconhecer o Oganesson.
07:07Ele só entrou na tabela periódica oficialmente em 2016.
07:11O motivo dessa demora toda é que, quando você produz um átomo gigante,
07:14não dá para levar ele na sala de reunião e mostrar para o comitê avaliador.
07:18O átomo desaparece tão rápido quanto ele nasceu.
07:21O Oganesson sobrevive 0,00085 segundo.
07:26Depois disso, ele decai por alfa, um outro tipo de radiação.
07:29Nisso, o Oganesson gospe fora dois prótons e dois nêutrons.
07:33Com isso, ele se torna um outro elemento, o livermório,
07:36que também dura pouco, 0,01 segundo.
07:39Aí o livermório decai de novo e ejeta mais um pedacinho de si.
07:42Ele vira o Copernício.
07:44O Copernício, por sua vez, explode e se fragmenta em dois ou até três átomos menores e aleatórios,
07:50num processo chamado fissão espontânea.
07:52Como todo átomo radioativo, o 118 é grande demais para o próprio bem.
07:56E isso quando ele consegue nascer.
07:58No experimento de 2006, o time do JINR disparou 4,2 trilhões de átomos de cálcio por segundo no alvo,
08:07sem parar, ao longo de 45 dias.
08:10Mesmo assim, só três átomos de Oganesson se formaram.
08:13Diante de uma miséria dessas, provar que ele existe já é motivo de comemoração.
08:17Você pode estar se perguntando se dá para fazer um átomo grandão e também estável.
08:22A resposta é que sim, talvez seja possível, por mais algumas frações de segundo.
08:26Mas isso depende de outros conceitos malucos da física nuclear,
08:29como números mágicos e algo chamado vale da estabilidade.
08:33E esses são assunto para outro vídeo.
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