Pular para o playerIr para o conteúdo principal
Seu cérebro vive no mundo da lua? Entenda o que realmente acontece na mente de quem tem TDAH! Neste vídeo, desvendamos os mistérios desse transtorno neurológico, desde suas origens históricas até os impactos no cérebro moderno.

Viajamos no tempo para conhecer os primórdios da identificação de comportamentos associados ao TDAH, explorando como a ciência evoluiu na compreensão dessa condição. Descobrimos como redes neurais e neurotransmissores como dopamina e noradrenalina atuam no cérebro de quem tem TDAH.

Entenda a diferença entre episódios pontuais de distração e o transtorno em si, e saiba por que o autodiagnóstico, especialmente através das redes sociais, pode ser enganoso. Vamos explorar as manifestações do TDAH e suas formas predominantes.

Descubra por que a desatenção e a hiperatividade poderiam ter sido vantajosas na evolução humana, e como o córtex pré-frontal desempenha um papel crucial nesse desenvolvimento. Uma abordagem completa para compreender o TDAH.

#TDAH #Neurociência #SaúdeMental
Transcrição
00:00O grego Anaesthetos não tinha uma vida fácil lá em Atenas.
00:03Ele não sabia fazer cálculos que tinha colocado ou não o tempero.
00:07O Anaesthetos não era uma pessoa de verdade.
00:09Na real, essa palavra significa, na hora de cozinhar, era um desastre.
00:13Ele sempre estragava as receitas por excesso de sal,
00:16já que ele não lembrava se ele tinha homem obtuso em grego antigo.
00:19Ele é um dos 30 arquétipos do filósofo Teofrasto,
00:22um discípulo de Aristóteles que descreveu a sociedade ateniense no século IV a.C.
00:27Tinha o homem falador, o covarde, o agressivo.
00:31Recentemente, um estudo sugeriu que o Anaesthetos preste de atenção com hiperatividade,
00:35o famoso TDAH.
00:37É claro que não dá pra cravar um diagnóstico só com esse texto em grego.
00:41Mas não dá pra negar que o homem obtuso reunia as características
00:44que a gente associa hoje ao transtorno.
00:46Desatenção, desorganização, dificuldade pra aprender, inquietude e impaciência.
00:52O TDAH atinge 5,3% das crianças e adolescentes em todo o mundo.
00:56E 2,5% da população adulta.
00:59Graças às redes sociais, a gente nunca falou tanto sobre o TDAH.
01:03E dá pra entender por quê.
01:04Quem é que nunca se esqueceu de uma carteira em casa,
01:07perdeu o foco graças ao Instagram,
01:09ou procrastinou até o último dia pra entregar um relatório no trabalho?
01:13Episódios pontuais, porém, não bastam.
01:16O TDAH é uma condição séria,
01:18que se num tratado da maneira certa, pode trazer uma série de problemas.
01:22Pessoas com TDAH sofrem mais acidentes,
01:25demissões no trabalho e reprovações na escola.
01:28Também se divorciam mais e são mais propensos a desenvolver ansiedade,
01:32depressão, alcoolismo e obesidade.
01:34Vamos entender tudo o que você precisa saber sobre o transtorno.
01:37No século XVIII, o fisiologista alemão Melchior Weikart
01:48dedicou um capítulo inteiro de um de seus livros
01:51pra descrever pessoas desatentas.
01:53Pra ele, a causa estaria na má educação recebida durante a infância.
01:58Weikart sugeriu vários tratamentos.
02:00Alguns eram bem razoáveis,
02:01tipo fazer exercício e criar um ambiente de estudo sem distração.
02:05Mas outros não faziam o menor sentido,
02:08como tomar banhos frios e beber leite azedo.
02:11No início do século XX, o médico George Steele mudou o rumo das pesquisas na área.
02:15Em vez de colocar a culpa nos pais,
02:17ele supôs que a desatenção e a impulsividade tinham raízes biológicas,
02:22por hereditariedade ou por conta de alguma lesão cerebral.
02:26Na época, as pessoas ainda sabiam pouco sobre genética,
02:29então a maioria dos pesquisadores apostou as fichas na segunda hipótese.
02:32Mas, com o passar do tempo, essa ideia caiu por terra.
02:35Na segunda metade do século XX, a terminologia mudou.
02:38Em vez de lesão, passou-se a dizer que o transtorno seria algum tipo de disfunção cerebral.
02:44Em 68, o Manual de Diagnóstico Estatístico e Transtornos Mentais,
02:48o famoso DSM,
02:50incluiu pela primeira vez uma condição semelhante ao TDAH.
02:53Ela foi chamada de Reação Hipersinética da Infância.
02:57Mas essa não era uma definição muito precisa,
02:59já que nem todas as pessoas desatentas são imperativas.
03:03Por isso, a condição recebeu o nome de DDA,
03:07Déficit de Atenção Com ou Sem Hiperatividade.
03:10No final dos anos 80, o DDA foi rebatizado para o nome que a gente usa hoje,
03:15TDAH.
03:16Ele pode se manifestar de três formas possíveis,
03:19predominantemente desatenta,
03:21predominantemente hiperativa e impulsiva,
03:24ou uma maneira combinada.
03:26A edição mais recente do DSM lista 18 sintomas,
03:30nove para a desatenção e nove para a hiperatividade.
03:34A gente vai deixar um link aqui na descrição para que você leia todos eles com calma.
03:37Mas, afinal, como é que funciona a cabeça de alguém com TDAH?
03:41O nosso cérebro tem 86 bilhões de neurônios,
03:44e cada um deles está ligado, pelo menos, a outros 10 mil.
03:48É um emaranhado de fios, tipo aqueles postes de luz com gato net, sabe?
03:52Mas é uma bagunça organizada.
03:55Parte desses neurônios integram redes neurais,
03:57que conectam diferentes áreas do cérebro,
03:59para que elas ativem ao mesmo tempo,
04:01dependendo do que a gente estiver fazendo.
04:03Uma dessas redes é chamada de modo padrão.
04:06Ela funciona quando a gente está naquele estado de sonhar acordado,
04:10pensando sobre o passado,
04:12ou divagando sobre o futuro.
04:14Quando surge uma tarefa complexa,
04:16o nosso cérebro diminui a atividade dessa rede de modo padrão,
04:19e ativa outras conexões ligadas à atenção.
04:22É aí que você para de brisar e consegue focar.
04:25O problema, para quem tem TDAH,
04:27é que essa rede de modo padrão não desliga completamente.
04:30É como se o cérebro trabalhasse com um ruído de fundo.
04:33Fica mais difícil focar em algo.
04:35Quem tem TDAH costuma apresentar níveis desregulados
04:38de duas moléculas mensageiras,
04:40a dopamina e a noradrenalina.
04:42A dopamina é o neurotransmissor ligado à motivação.
04:45Já a noradrenalina aumenta a nossa excitação
04:48e coloca a gente num estado de alerta.
04:50É por isso que muitas crianças com TDAH
04:53só passam de ano na escola
04:54depois de muita prova de recuperação.
04:57É que o estresse gigante faz subir os níveis de noradrenalina.
05:00E aí sim o cérebro pega no tranco.
05:02Também explica por que,
05:03mesmo com a desatenção,
05:05quem tem TDAH pode passar horas no videogame.
05:08É que os joguinhos oferecem doses frequentes de dopamina
05:11e garantem a motivação.
05:13Além disso,
05:13o córtex pré-frontal de quem tem TDAH
05:16amadurece mais devagar.
05:18Essa é uma região do cérebro associada ao nosso planejamento
05:21e ao raciocínio lógico.
05:23É ele quem freia os nossos impulsos
05:24e ajuda a gente a se concentrar.
05:26Com o tempo,
05:27o cérebro pode terminar o seu desenvolvimento
05:29e entrar nos eixos.
05:31Ou seja,
05:31dá para o TDAH desaparecer.
05:33É por isso que ele é mais presente em crianças
05:35do que em adultos.
05:37Uma boa parte do TDAH pode ser explicada pela genética.
05:40Mas se essa é uma condição
05:42que traz tantos impactos negativos na nossa vida,
05:45por que a seleção natural só não eliminou ela?
05:48É que, na verdade,
05:49a desatenção e a hiperatividade
05:50podem ter sido uma baita de uma vantagem
05:52para os nossos antepassados.
05:54Um estudo de 2024 colocou centenas de adultos
05:57para jogar um videogame.
05:58O objetivo era coletar frutas
06:00nos vários arbustos que apareciam na tela.
06:03Você podia escolher só um arbusto
06:04e ficar ali numa boa,
06:06ou sair pelo bosque procurando vários deles.
06:08Quem mudou mais vezes de arbusto
06:10conseguiu pegar mais frutinhas.
06:12E adivinha só,
06:13num questionário prévio,
06:15essas pessoas foram justamente
06:17as que deram sinais de TDAH.
06:19Na selva,
06:19onde comida e alimentos estavam espalhados,
06:22os melhores exploradores
06:23eram aqueles mais impulsivos mesmo.
06:26E até a desatenção podia te salvar.
06:28Imagina você ficar super focado em pegar frutinhas
06:30e não perceber que tem um leão se aproximando.
06:33O problema é que,
06:34quando a gente deixou de ser nômade,
06:36as necessidades mudaram.
06:37Para construir casas e cuidar de fazendas,
06:41era preciso mais atenção e paciência.
06:43Essa mudança no modo de vida
06:45aconteceu há uns 12 mil anos.
06:47Em termos evolutivos,
06:48é muito pouco para acontecer
06:49qualquer pressão nos genes.
06:51Se lá atrás já foi uma mudança brusca,
06:54hoje em dia ainda é muito pior,
06:56com celulares e redes sociais
06:57fragmentando a nossa atenção.
06:59Essas coisas não criam TDAH,
07:02mas elas pioram muito os sintomas de quem já tem.
07:04O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento,
07:08tipo o autismo.
07:09Ou seja,
07:10ele precisa aparecer no começo da vida,
07:12antes dos 12 anos.
07:14Se você suspeita de um caso de TDAH,
07:16existem questionários online
07:17que te ajudam a tomar a decisão
07:19de procurar um especialista ou não.
07:21As consultas podem ser feitas com psicólogos,
07:23neurologistas e com psiquiatras.
07:25No caso das crianças,
07:27também dá para procurar um neuropediatra.
07:29O resultado não sai num simples exame.
07:31O diagnóstico leva em conta testes,
07:33o histórico do paciente
07:35e entrevistas com pessoas próximas.
07:37Os problemas têm que aparecer
07:39em mais de uma esfera da vida da pessoa.
07:41Se a criança vai mal na escola,
07:42mas vive de boa o resto do tempo,
07:44talvez ela não tenha TDAH.
07:46Feito o diagnóstico,
07:47começa o tratamento,
07:49que se baseia num tripé de ações.
07:51Educação,
07:52psicoterapia
07:53e medicamentos.
07:54A primeira parte consiste em se informar
07:57com fontes confiáveis.
07:58As redes sociais estão cheias de conteúdo sobre TDAH,
08:01mas tem que ficar ligado.
08:02Em 2022,
08:03uma pesquisa mostrou que,
08:05dos 100 vídeos mais populares sobre TDAH no TikTok,
08:09metade tinha informações falsas.
08:11Já as terapias servem para habilitar o paciente
08:14a lidar com os próprios problemas.
08:15Para o TDAH,
08:16a mais estudada é a do tipo cognitivo-comportamental.
08:20Mas outros tipos também são válidos,
08:22especialmente para tratar coisas
08:23que costumam vir acompanhadas com TDAH,
08:26tipo autoestima baixa,
08:27ansiedade e depressão.
08:29Por fim,
08:30tem os medicamentos.
08:31Eles não curam TDAH,
08:33mas regulam os sintomas.
08:34Existem vários tipos,
08:36e eles atuam nos níveis de dopamina
08:38e noradrenalina da pessoa.
08:40Os remédios são benéficos em 70% dos casos.
08:43Mas, mesmo assim,
08:45o SUS ainda não os disponibiliza por aqui.
08:47Desde 2021,
08:49tem uma lei que garante o acompanhamento integral de alunos com TDAH.
08:53Ela está em vigor,
08:54mas ainda não foi regulamentada.
08:55Ou seja,
08:56não há detalhes sobre como que deve ser a capacitação dos professores
09:00e nem as adaptações em sala de aula.
09:02Sem isso,
09:03não dá para cobrar das escolas
09:05que a norma seja cumprida corretamente.
09:07Não faltam ferramentas para controlar o TDAH,
09:10mas elas precisam estar disponíveis para todo mundo.
09:12Viver com o transtorno já é um quebra-cabeça complexo,
09:16e as peças não precisam ficar ainda mais misturadas.
Comentários

Recomendado