00:00Um dos principais instrumentos do Federal Reserve, que é o Banco Central dos Estados Unidos,
00:05para avaliar o ritmo da economia antes das decisões sobre a taxa básica de juros,
00:10é o chamado Livro Bege.
00:12É um relatório que reúne percepções qualitativas de empresários, economistas,
00:19líderes comunitários dos 12 distritos do Fed espalhados pelos 50 estados americanos.
00:25E esse Livro Bege costuma ser divulgado duas semanas antes das reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto,
00:33o chamado FONCA, que é mais ou menos como a reunião do COPOM que a gente tem aqui no Brasil.
00:39E essa reunião, então, antecipa sinais de aquecimento ou desaceleração econômica
00:45antes mesmo da divulgação de indicadores como o PIB dos Estados Unidos e o payroll,
00:51que é a lista ali de contratações, principalmente do setor privado.
00:57Vamos falar mais da importância desse termômetro-chave, o tal Livro Bege,
01:03para decisões de juros nos Estados Unidos, com o CEO da STAI e financista,
01:10Tsai Chi Yu.
01:12Tsai, muito obrigado.
01:14É um prazer conversarmos mais uma vez.
01:16Eu sempre tomo todo o cuidado para pronunciar o seu nome mais corretamente possível
01:22para preservar aqui pelo menos uma etiqueta entre nós aqui, entrevistadores e entrevistados.
01:29Mas indo direto ao assunto, vamos falar do Livro Bege?
01:32Até porque eu queria, além de você explicar a importância desse documento,
01:37a sua avaliação da última e mais recente, óbvio, divulgação do Livro Bege.
01:42Por que? O Donald Trump, obviamente, foi nas redes sociais dele, disse
01:46números robustos da economia, os americanos estão consumindo mais, está tudo ótimo.
01:52Claro que o Donald Trump está fazendo uma parte do trabalho dele,
01:56que é enaltecer as próprias conquistas, mas vamos fazer uma análise aqui fora dessas paixões.
02:03Tsai, obrigado pela presença mais uma vez.
02:06A tua avaliação.
02:07Como é que anda a economia americana, de acordo com essa divulgação do Livro Bege,
02:13e se está tudo tão bem quanto o Donald Trump está falando?
02:18Boa tarde, Favali. Tudo bem? Obrigado por me receber.
02:22E antes de comentar sobre o Livro Bege, preciso dizer que sua pronúncia do meu nome é perfeita,
02:27então obrigado pelo cuidado.
02:29Não é um nome fácil, comum, então agradeço ao cuidado.
02:33E falando um pouco sobre o Livro Bege em geral,
02:38então, você disse bem, o Trump, ele trouxe uma, colocou uma lupa mais positiva
02:46do que, de fato, a última atualização do Livro Bege sugere.
02:51De fato, existe um certo otimismo no Livro Bege,
02:55ele traz um otimismo cauteloso,
02:59então, diante de algumas incertezas,
03:02ele não existe um consenso de um otimismo.
03:05O que você nota é que, dos principais distritos avaliados pelos bancos centrais,
03:12as franquias dos bancos centrais,
03:14nos outros estados,
03:16é que existe uma prevalência de otimismo,
03:20mas não é consensual.
03:21Não existe um consenso total.
03:23Então, o Trump, ele não está errado com otimismo,
03:28mas ele está muito mais otimista do que o Livro Bege em si.
03:32Então, você vê essas informações um pouco,
03:36até, de certa forma, conflituosas, contraditórias.
03:40Um exemplo disso é a confiança do consumidor em gastar, em consumir.
03:46Quando você olha esses dados, o que você enxerga, por exemplo,
03:48é que a elite nos Estados Unidos está cada vez mais confiante,
03:52então, você vê, talvez, ali num estato econômico mais,
03:55o impacto das melhorias econômicas é mais sentido,
04:01mas quando você olha para a classe média,
04:03para a base do consumo americano,
04:06você vê uma tendência, na verdade, de corte de gastos não essenciais.
04:10Isso reflete uma certa cautela, uma perspectiva econômica.
04:14Mas, no geral, os dados são bons, ótimos, elas são boas.
04:19Eu acredito que o FED vai levar isso em consideração,
04:22por uma forma equivalente à reunião de Copom deles.
04:25Tsai, bem apontado.
04:27Claro, se a gente olha para a pirâmide social,
04:30essa classe média é aquela que tanto sustenta a indústria,
04:35o comércio, o varejo e o setor de serviços.
04:38E aí, a grande pergunta, está todo mundo de olho,
04:41nesse primeiro trimestre de 2026,
04:45quanto e quanto será o primeiro corte na taxa de juros?
04:52Existe um consenso de que vai haver um corte na taxa de juros nos Estados Unidos.
04:57A questão é quando.
04:59Já agora, nesse primeiro trimestre, é antes de março, é depois de março?
05:04Na tua leitura, na sua análise como financista,
05:07acha que vai ser um pouco mais para frente,
05:10um corte mais cauteloso,
05:12ou o Federal Reserve vai, de alguma maneira,
05:16acabar se dobrando a pressão do Donald Trump
05:18para que esse corte aconteça agora?
05:21E por isso que eu falei da classe média dos Estados Unidos,
05:25grande massa consumidora americana,
05:27que espera uma baixa na taxa de juros
05:30para consumir produtos de alto valor agregado.
05:33Carro, linha branca, o mortgage,
05:36que aqui a gente chamaria de financiamento imobiliário,
05:40a compra de casas recém-construídas,
05:42tudo isso impacta em taxa de juros.
05:44Qual que é a tua avaliação, Tsai?
05:45Eu acredito, Marcelo, que o Jerome Powell vá cortar a taxa de juros,
05:54mas não perto, nem próximo de tanto quanto o Donald Trump gostaria.
05:58Você notou muito bem que existe uma campanha aberta
06:02do executivo, da área executiva do governo,
06:06liderado por Donald Trump,
06:07para que existam cortes mais significativos na taxa de juros,
06:12para fomentar investimento, consumo e etc.
06:16Mas o fato é que dados do mercado de trabalho dos Estados Unidos
06:20têm bons, mas não bons o suficiente
06:22para justificar uma visão um pouco mais radical
06:27dessa taxa de juros.
06:29E a inflação, apesar de ela estar sob controle,
06:32que é o que sugere nos últimos livros beijos,
06:36ele não está ainda 100% sob controle.
06:39Então, eu acredito que o Jerome Powell vá fazer um corte,
06:43um corte pequeno, cauteloso, como você disse,
06:47não vá chegar até onde o Trump gostaria,
06:51mas talvez essa pressão do Trump surja algum efeito.
06:53Um cenário como esse não seria irracional
06:57esperar que o Federal Reserve preservasse a taxa de juros,
07:01não fizesse um corte nenhum.
07:03Como é conflitoso, não existe uma direção tão clara,
07:08seria compreensível se o Federal Reserve
07:11decidisse manter a taxa de juros.
07:13Mas, dada toda essa pressão que o Donald Trump
07:15tem feito em público,
07:17eu acredito que o Jerome Powell vá considerar isso,
07:20não só isso, mas vai considerar
07:22e vai cortar um pouco a taxa de juros
07:25de forma bem pauteloso.
07:27E eu acredito que, se persistir,
07:28esse vai ser o movimento de, ao longo do ano,
07:31a gente vê taxa, redução gradativa da taxa de juros.
07:35E aí, como você bem notou,
07:36a classe média americana é a que mais se beneficia,
07:39de certa forma.
07:40Quando ela vai consumir produtos financeiros
07:43mais estruturados, de maior volume,
07:45então, financiamento de carro, financiamento de casa,
07:48essa taxa de juros faz diferença.
07:50Então, acho que existe uma pressão enorme
07:55e, dado essa decisão, seria compreensível
07:59se mantivesse ou se cortasse um pouco,
08:01dada a pressão, o Jerome Powell provavelmente
08:03vai tentar ir para o meio do caminho,
08:06que é cortar, de forma pautelosa, a taxa de juros.
08:09Tsai, fazer análise já é difícil.
08:12Com o elemento Donald Trump, que é imprevisível,
08:15fica mais complicado ainda.
08:16A gente está falando aí do livro Bege,
08:18que é uma foto, um frame,
08:21a partir do que já aconteceu.
08:23Eu queria pegar esse teu poder de análise
08:25para a gente olhar um pouco mais para frente
08:28coisas que ainda não apareceram no livro Bege
08:30e que podem mudar,
08:32assim como muda a direção do vento.
08:34O que eu quero dizer?
08:35O Donald Trump, nas últimas 72 horas,
08:38apareceu com uma informação que foi
08:40vou sobretaxar em 25% países que fazem negócios com o Irã.
08:46Isso não estava no radar.
08:47Foi uma afirmação, ainda não virou nada na prática,
08:50ele não assinou em nenhuma ordem executiva,
08:52mas está todo mundo ainda de olho
08:54e uma atenção ligada a essa possibilidade.
08:57O preço do petróleo agora cai quase 5%,
09:02abaixo dos 60 dólares o barril Brent,
09:06também muito por conta dessa tensão
09:08e a subida de tom dos Estados Unidos contra o Irã.
09:12Então, isso também entra no radar agora,
09:15algo que o Fed não tinha previsto para trás.
09:18A gente está falando de consumo,
09:20de expectativa,
09:21confiança do consumidor,
09:22que é um dado importante nos Estados Unidos.
09:24Você acredita que essas tensões internacionais
09:28que o Donald Trump traz para a pauta doméstica,
09:31falando em sobretaxação de 25% em parceiros comerciais,
09:35e aí os BRICS entram nessa conta,
09:38as commodities brasileiras poderiam entrar nessa conta,
09:41isso pode quebrar a confiança do consumidor americano
09:45ou ele está tão concentrado no que acontece
09:48das fronteiras para dentro
09:49que isso não acaba mexendo aí no ânimo
09:52dessa classe média consumidora americana.
09:57Marcelo, eu diria que essas incertezas,
10:03um pouco dessa, talvez,
10:04essa imprevisibilidade que o Trump traz
10:07para o governo americano,
10:10elimina a confiança,
10:12mas ela não quebra a confiança.
10:14Então, eu dificilmente enxergo um cenário
10:17em que essas ações vão, de fato,
10:20se traduzir de forma relevante
10:23nas projeções futuras.
10:27O que eu vejo é uma incerteza contínua
10:30que esse governo já traz, de certa forma,
10:33nos últimos anos.
10:34E aí, acho que cada um avalia se isso é bom ou se é ruim,
10:37mas o fato é que o governo americano é mais imprevisível
10:41de uns anos para cá.
10:43E ali, acho que o impacto,
10:45sobretudo, nessa ameaça de taxação ao Irã,
10:50e no tweet, na mensagem que ele enviou em público,
10:55ele falou que era uma decisão definitiva e negociável.
11:00Então, imagino que seja uma questão de tempo
11:02até o governo americano traduzir essa mensagem dele
11:06em ação efetiva.
11:08Mas o fato é que o Irã, hoje,
11:09depois de décadas sendo isolado internacionalmente
11:13e comercialmente,
11:15uma sobretaxação de parceiros comerciais iranianos
11:18não vai ter um impacto tão relevante no mundo como um todo.
11:22Diferente de países que, historicamente,
11:25são muito interligados no comércio internacional,
11:28o Irã, após décadas de isolamento,
11:32ele tem parceiros comerciais restritos.
11:36Então, se concentra em poucos,
11:38e esses poucos, muitos deles já são sobretaxados.
11:42Então, um deles, por exemplo, é a própria China,
11:45que é um dos países que ainda mantém uma certa relação comercial com o Irã,
11:50mas, dado a magnitude das últimas taxações,
11:53daquela guerra comercial que a gente discutiu ao vivo um tempo atrás,
11:5825% para mais ou para menos já não é uma coisa que mude drasticamente
12:02uma decisão, digamos, do mercado chinês em relação ao Irã.
12:06A verdade é que a taxação já existe em um grau muito mais acentuada.
12:10Então, acho que a resposta é que mais incertezas estão à nossa frente.
12:15Não acho que essas ameaças vão quebrar a confiança do consumidor americano,
12:21em geral, vão minar a confiança de alguns,
12:25mas não chega a quebrar o consumidor americano,
12:29a confiança dele em consumir a média e longo prazo.
12:33E eu soube eles focaram muito internamente,
12:36isso também é fato.
12:36Então, eu acho que o consumidor americano se preocupa muito mais
12:42com ações internas do que externas.
12:45Queria agradecer ao Tsai Chiyu, CEO da Stey, analista de finanças.
12:51Muito obrigado pelo teu parecer, Tsai.
12:54Até uma próxima oportunidade.
12:56Estou torcendo para que seja bastante em breve.
12:58Até mais.
13:00Obrigado, Favali.
13:01Até a próxima.
13:02Tchau.
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