00:00O Real Time de volta. A indústria química brasileira avalia como positivo o andamento do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia.
00:10E nós vamos conversar sobre os efeitos da conclusão dessas negociações com André Passos,
00:16que é presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química, a ABICIM,
00:21a quem eu recebo aqui muito gentilmente no Real Time.
00:25Agradeço o seu tempo, André. Uma ótima segunda-feira, uma excelente semana.
00:30E já vamos direto ao assunto.
00:32Estamos aqui nos momentos finais de uma assinatura política entre Mercosul e União Europeia,
00:37depois as votações para os respectivos parlamentos, mais de 30 países envolvidos.
00:42Onde eu quero chegar?
00:44Talvez num arco de tempo um pouco mais largo, uma década, vai ter então essa entrega dos produtos mais baratos latino-americanos,
00:52do Mercosul, para a União Europeia e vice-versa.
00:55Nesse tempo, que talvez a gente calcule de uma década, vai ter de haver uma adequação brasileira
01:01de um monte de normas da União Europeia, de qualidade, de compliance, sustentabilidade, ISOs e tudo mais.
01:10Olhando para o espectro, André Passos, da indústria química, como nós estamos?
01:16Já estamos num padrão internacional para a gente começar já, logo de cara,
01:21mandar os nossos produtos da indústria química para a União Europeia
01:25ou ainda tem um certo caminho de adequação para os padrões europeus?
01:31Bom dia de novo.
01:33Bom dia, boa tarde, Marcelo.
01:35É um prazer começar o ano falando aqui com você.
01:39Essa é a minha primeira participação pública aí, desde a virada de 2025 para 2026.
01:46A contagem de tempo, aliás, aqui é um fato interessante, né, Marcelo?
01:52As discussões desse acordo começaram em 1999, no século passado.
01:58Faz muito tempo, então nós levamos 26 anos até chegar a essa assinatura de acordo, né?
02:07E esse processo todo se deu em um mundo que estava buscando cada vez mais a integração de mercados, né?
02:17Cada parte fazendo a sua melhor parte faria com que nós tivéssemos um aumento de eficiência
02:25no comércio internacional, né?
02:27Esse era um pouco o modelo aí do final do século XX, início do século XXI.
02:33E hoje em dia a gente vê um modelo depois das torres gêmeas,
02:38depois da crise subprime em 2008, depois da pandemia
02:43e depois dessa intensificação da guerra comercial unilateral promovida pelo governo Trump.
02:50A gente vê um mundo muito, mas muito diferente daquilo que a gente procurava
02:57tanto o Mercosul quanto a União Europeia quando começou essa discussão, né?
03:04O sinal, o registro positivo é que esses dois grandes blocos que reúnem 718 milhões de pessoas
03:12e 22 trilhões de dólares em tamanho de mercado do ponto de vista econômico
03:17não desistiram dessa jornada de integração, de aproximação desses dois grandes blocos, né?
03:26Então, o registro positivo que a gente faz, que é muito característico também do nosso setor industrial
03:34aqui no Brasil, é a resiliência, a persistência, né?
03:39A continuar na trilha correta, que do nosso ponto de vista é a trilha de aproximação de mercados,
03:47de aproveitamento das melhores eficiências econômicas em cada mercado.
03:52Esse é o caminho que a gente tem trilhado como indústria química
03:56ou procurado trilhar no nosso país, né?
04:00Existem muitas eficiências que nós vamos ter que procurar a partir dessa integração, sem dúvida nenhuma.
04:09Nossa indústria é, por um lado, nós defendemos isso.
04:14Uma das indústrias químicas mais sustentáveis do planeta, se não a mais sustentável,
04:19porque ela é líder no uso de matérias-primas renováveis, por exemplo,
04:23nós transformamos o etanol em produtos químicos básicos,
04:28em produtos químicos de uso industrial, em eteno, que é a base de muitos produtos químicos,
04:34em ácidos diversos que são utilizados em muitos produtos da nossa vida cotidiana,
04:41nos plásticos, nos tecidos, nos solventes, nos defensivos, enfim.
04:46A gente produz a partir de matérias-primas renováveis como o etanol.
04:51Nós somos líderes mundiais na produção de uma espécie de resina que produz selantes, colas,
04:58a partir de pinos.
05:0070% do mercado mundial é dominado positivamente, no sentido positivo da palavra, pelo Brasil.
05:08Nossa energia, base das operações fabris brasileiras, em especial da indústria química,
05:14mas não somente, mais de 80% dela é de fonte renovável.
05:19Então, a gente tem uma série de eficiências, do ponto de vista da sustentabilidade,
05:26nas quais nós estamos muito além da Europa.
05:30E aí, essa abertura, desse ponto de vista, é fundamental.
05:33Agora, nós temos uma série de outras questões estruturais de competitividade,
05:38que a Europa vive também, dramaticamente.
05:41acesso a um gás natural barato, acesso a subprodutos do petróleo,
05:48que servem ainda e muito para a indústria química, como a nafta petroquímica,
05:53também baratos, que nós vemos a China ter, os Estados Unidos terem,
05:58e o Brasil e a Europa não.
06:02Então, nossas indústrias vivem ambas um quadro de crise,
06:05em função desses dois competidores terem vantagens na química tradicional,
06:13que nós, infelizmente, não temos, e a Europa deixou de ter.
06:18Então, abre-se aí também a perspectiva de procurar, conjuntamente com a União Europeia,
06:23conjuntamente com a indústria petroquímica europeia, que também vive uma crise,
06:28como fechar um bloco no sentido de melhorar nessa relação bilateral,
06:35melhorar a nossa competitividade em relação também a esses dois grandes players.
06:39Então, perseguir, formar esse grande bloco econômico,
06:43se posicionar nesse acordo, no mundo, como um bloco disposto a trocar deficiências,
06:50competir com esses dois grandes players e suas zonas de influência,
06:55é uma perspectiva positiva para nós.
06:58Depois posso falar um pouquinho também das questões específicas,
07:01como os compromissos de desgravação tarifária graduais ao longo de 5, 10, 15, 20, 30 anos,
07:11facilitação de comércio e questões regulatórias.
07:15Vamos, deixa anotado, aqui como eu fiz as minhas anotações,
07:18a gente vai retomar essa conversa.
07:20A gente está no finalzinho do programa,
07:22eu vou me encerrar para a gente fechar aqui o Real Time da segunda-feira,
07:27justamente com a sua conversa.
07:29Conversei com o André Passos,
07:30obviamente nós estamos falando de um assunto muito complexo,
07:33tem ainda muita coisa para a gente esclarecer,
07:36mas como o acordo ainda tem várias etapas,
07:40teremos muitas oportunidades, André, para a gente retomar a nossa conversa.
07:44Obrigado, conversei com o André Passos,
07:46presidente executivo da Associação Brasileira da Indústria Química,
07:50a ABQ, até uma próxima oportunidade.