00:00E a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela reacende o debate sobre impactos comerciais na América Latina.
00:07O mercado acompanha os efeitos sobre comércio, energia e investimentos num cenário de incerteza política
00:12e possíveis mudanças nas regras do jogo.
00:16Analistas indicam reação limitada no curto prazo, mas alertam para consequências no médio e no longo prazo.
00:23Para analisar esses desdobramentos, eu converso agora ao vivo com o João Alfredo,
00:27coordenador do Observatório de Negócios Internacionais da PUC Paraná.
00:32Tudo bem? Boa tarde. Seja muito bem-vindo.
00:35Muito boa tarde. Quase boa noite aí, Natália.
00:38Esse boa tarde, boa noite muito especial aos espectadores da Times.
00:43Obrigada pela sua disponibilidade em bater esse papo com a gente, então, nessa tarde quase noite de domingo, João.
00:49Bom, vamos lá. Quais devem ser os principais desdobramentos do aspecto comercial dessa intervenção norte-americana na Venezuela?
00:57Aqui a gente tem várias possibilidades que podem se estender a partir de agora.
01:04E a gente pode... devemos lembrar também que até mesmo os aspectos humanitários que devem ocorrer daqui para frente
01:10têm impactos comerciais.
01:13Bom, naturalmente, o primeiro impacto pode ser no preço do petróleo, uma vez que a Venezuela tem as maiores reservas do mundo.
01:19E no mercado de petróleo, na verdade, o efeito central não é apenas a produção venezuelana em si,
01:25porque essa produção opera muito abaixo do potencial, mas o choque de risco geopolítico.
01:31Então, a Venezuela, mesmo produzindo pouco, essa captura do Maduro abre a possibilidade
01:37de um prolongamento do preço do risco geopolítico, que é um prêmio embutido nesses preços aí,
01:43que reflete medo de interrupções futuras ou sabotagem em infraestrutura energética.
01:50No médio prazo, eu apontaria dois cenários distintos.
01:53Se nós tivermos uma transição política relativamente estável,
01:57se isso se consolidar e as sanções forem gradamente suspensas,
02:01a perspectiva do retorno do petróleo venezuelano no mercado pode exercer uma pressão para reduzir preços.
02:08E aí, ao contrário, a Venezuela, se esse não for o cenário, se entrar no cenário de fragmentação e sabotagem,
02:15aí o país se torna efetivamente uma reserva presa, reforçando preços mais altos por mais tempo.
02:23Outro ponto, o impacto comercial importante, é sobre as rotas logísticas.
02:27Então, a gente tem aí a região, o litoral norte da Venezuela, o litoral caribenho,
02:32é um ponto importante de entrada e saída de mercadorias, há uma série de ilhas na região,
02:37e certamente que as operadoras logísticas podem operar com preços maiores,
02:43preços mais elevados, seguros também mais elevados,
02:46isso tudo pressiona os custos do comércio exterior, não só do Brasil, mas dos demais países da América do Sul.
02:53A gente falou já ao longo desse plantão, inclusive, sobre esse possível impacto reduzido,
02:58num primeiro momento do petróleo mundial, no médio e no longo prazo.
03:03Então, você diria que os efeitos significativos seriam esperados, então, a médio e a longo prazo?
03:09A gente sabe do enorme potencial do petróleo ali na Venezuela, mas pouco explorado,
03:15porque faltou, claro, faltou investimento, faltou infraestrutura,
03:19e para que isso chegue, depende de investimento, dinheiro e de uma estabilidade,
03:25que a gente ainda não sabe quanto tempo vai levar, né?
03:27Com certeza, e depende não só de infraestrutura, de dinheiro, mas depende de gente qualificada.
03:34E a Venezuela foi o segundo país do mundo que mais enviou refugiados e pessoas, no geral, para o exterior.
03:40E aqui o que me preocupa é caso a gente tenha uma fragmentação do Estado venezuelano.
03:45Então, a gente não sabe o que vai ocorrer, a gente está aí às voltas com a Corte Suprema da Venezuela,
03:51dizendo que Delci Rodrigues deveria assumir, os militares do país já responderam,
03:57dizendo que ela é presidente nesse momento, mas uma eventual fragmentação do Estado venezuelano
04:02amplia economias paralelas, né?
04:05Contrabando de combustíveis, de ouro legal, tráfico de mercadoria, lavagem de dinheiro,
04:09fluxos esses que distorcem preços, corroem a arrecadação tributária de países vizinhos
04:14e criam, é claro, concorrência desleal para empresas formais.
04:18Outro ponto é sobre, no médio prazo, a reconfiguração de cadeias energéticas e minerais, né?
04:24Então, a Venezuela não é relevante apenas pelo petróleo, mas por reservas de ouro e minerais estratégicos.
04:30Qualquer cenário de colapso ou de transição caótica
04:34pode fazer com que esses recursos tendram a ser explorados de forma predatória,
04:40fora de padrões ambientais e regulatórios, muitas vezes integrados a redes criminosas.
04:45Isso cria tanto uma pressão competitiva sobre produtores legais,
04:50quanto um aumento da volatilidade de preço em nichos específicos de commodities.
04:54Isso traz, mais uma vez, o efeito fiscal indireto sobre os países vizinhos.
05:00Só para me justificar agora, no final da minha resposta,
05:02por que eu estou comentando sobre uma eventual fragmentação do Estado venezuelano?
05:07A gente ainda está vivendo um cenário de incerteza, né?
05:10Então, nós não sabemos exatamente como é que esse governo da Venezuela vai se dar,
05:15porque, de um lado, há a posse, o exercício presidencial da vice-presidente Delci Rodrigues,
05:21e, do outro lado, há os Estados Unidos, dizendo que terão uma administração temporária da Venezuela.
05:27Então, há muitas dúvidas nesse momento sobre o futuro próximo,
05:31e isso tudo nos deixa aí com muitos alertas na mão.
05:35Agora, sim, tem muitas incertezas de fato,
05:37mas se as coisas acontecerem como os Estados Unidos planejam e querem,
05:44empresas americanas assumiriam, então, esses investimentos e essa exploração do petróleo em território venezuelano?
05:52Esse seria o curso natural das coisas?
05:54Muito possivelmente.
05:57Antes da minha entrada, eu ouvi a reportagem sobre a fala do Trump e a tradução da fala do Trump de ontem,
06:03quando ele comentou que a Venezuela roubou o petróleo dos Estados Unidos.
06:07Quando ele fala isso, isso, por óbvio, não é um roubo físico, clássico,
06:11mas é uma narrativa política, jurídica e estratégica que traz aí algumas camadas.
06:17Então, primeiro, o Trump parte da tese que o governo do Maduro é ilegítimo,
06:22como boa parte dos países não reconhece o Maduro como presidente,
06:27em virtude de eleições visivelmente fraudadas ano passado.
06:31E, nesse cenário, quando a estatal venezuelana exporta petróleo,
06:34o Trump enquadra isso como uma apropriação indevida de um ativo
06:37que não pertencia ao regime, mas ao povo venezuelano.
06:42Depois, é uma dimensão contratual e financeira, porque empresas norte-americanas
06:46efetivamente tiveram ativos expropriados, contratos rompidos e indenizações não pagas
06:53na Venezuela nesse período de 26, 27 anos de chavismo.
06:57E, para Trump, cada barril exportado, sem que essas disputas sejam resolvidas,
07:03equivale a usar recursos que deveriam servir para compensar prejuízos
07:07de empresas e investidores dos Estados Unidos.
07:10E, por fim, a camada que muito me interessa, que é a camada geopolítica,
07:14e a camada criminal.
07:17Então, ao vincular o petróleo ao narcotráfico, alegando que a renda petrolífera
07:21financia cartéis, redes criminosas e corrupção,
07:24Trump transforma a commodity em um produto de atividade ilícita internacional.
07:30Assim, o petróleo explorado pela Venezuela passa a ser tratado,
07:34no discurso de Trump, como equivalente a uma droga ou um contrabando.
07:37Embora essa tese não seja consensual no direito internacional,
07:42como princípio da soberania, me parece, sim, natural que as empresas estadunidenses
07:47sejam as exploradoras do petróleo venezuelano no médio prazo.
07:52E médio prazo, porque, certamente, toda essa infraestrutura precisa ser atualizada.
07:57E eu sei que depende de muitos fatores, mas eu gostaria de te perguntar,
08:02quanto tempo você acredita ou apostaria que deve durar essa intervenção dos Estados Unidos na Venezuela?
08:09Essa é a pergunta do milhão, eu diria.
08:11Essa é a pergunta mais difícil de todas, né?
08:14Porque, se a gente for pensar em outras intervenções feitas pelos Estados Unidos,
08:19seja na América Latina como um todo, seja em outras regiões do mundo,
08:22houveram algumas que se atenderam por mais de 20 anos,
08:26uma tentativa no Afeganistão, outras tantas no Iraque, enfim.
08:29Por mais que sejam casos muito diferentes, em contextos de terrorismo,
08:34não é possível estimar ainda quanto tempo essa intervenção estadunidense poderia durar.
08:40Fato é que tudo depende do desenrolar da situação nos próximos dias.
08:44Ao menos em tese, nós já ouvimos aí algumas fontes comentando que a Adelci Rodrigues,
08:51a vice-presidente, já estaria se comunicando com o Marco Rubio,
08:55o secretário de Estado dos Estados Unidos.
08:58E ontem me chamou a atenção Trump dizer que a Maria Corina Machado,
09:01a opositora recém-vencedora do Prêmio Nobel da Paz,
09:05me chamou a atenção ele dizer que ela é simpática, mas ela não conta com apoio.
09:08Uma das razões pelas quais o Trump teria dito isso é justamente que já haviam conversas
09:15em andamento com a própria Adelci Rodrigues.
09:19Isso tudo aumenta muito as especulações sobre se teria havido algum tipo de ajuda
09:24dos venezuelanos para uma captura tão rápida do Nicolás Maduro
09:29que só a captura dele teria levado aí menos de um minuto, 47 segundos para ser preciso.
09:35Impressionante, né?
09:35E de fato levantou muitos questionamentos mesmo sobre possível envolvimento
09:41de alguém que teria favorecido tudo isso.
09:43Aguardemos então, né?
09:45Tudo depende dos próximos dias, estaremos ligados.
09:48Eu quero agradecer João Alfredo, coordenador do Observatório de Negócios Internacionais
09:53da PUC Paraná, pela participação com a gente nesse domingo.
09:56Muito obrigada e ótima semana por aí, João.
09:59É sempre uma alegria estar na Times Brasil.
10:01Um forte abraço a vocês e aos espectadores.
10:04Obrigada, boa noite.
10:05Tchau, tchau.
10:05Tchau, tchau.
10:05Tchau, tchau.
10:05Tchau, tchau.
10:05Tchau, tchau.
10:06Tchau, tchau.
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