00:00Voltando a falar sobre o cenário internacional, completou um mês, nesta terça-feira, o ataque dos Estados Unidos à Venezuela, que resultou na prisão do então presidente Nicolás Maduro.
00:13O petróleo do país segue entre os temas e debates econômicos, assim como os reflexos na geopolítica.
00:20A presidente interina da Venezuela, Adelci Rodrigues, prometeu uma reforma no setor petrolífero venezuelano, que vai romper décadas de um protecionismo, um domínio estatal, o que seria mais uma opção para os investidores, tendo essa abertura.
00:39A gente recebe o professor e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP, Ahmed El Khatib, para comentar a relação entre a Venezuela e os Estados Unidos.
00:52Como é que está esse cenário econômico, professor? Seja muito bem-vindo.
00:57Professor, a gente olhar a situação da Venezuela, Estados Unidos, Trump, Maduro, eu vou fazer uma analogia simples, que é como se fosse uma mesa de jogo de pôquer.
01:09O presidente Donald Trump fez o que se parecia improvável, invade a Venezuela, captura o presidente, leva preso, está sendo julgado em Nova Iorque.
01:19O governo interino chavista continua no poder.
01:22Onde que eu estou fazendo essa comparação com o jogo de pôquer?
01:24O Trump foi lá e colocou todas as fichas na mesa.
01:26Depois que ele reuniu as grandes petrolíferas americanas, esperando uma resposta pronta de
01:33Vamos voltar para a Venezuela, precisa de um investimento maciço para voltar a época de ouro da extração petrolífera do petróleo americano.
01:43Daí recuaram, ninguém foi lá e dobrou a aposta do Trump.
01:48Então ele está com as fichas na mesa meio perdidas.
01:52Professor, a partir dessa premissa, o que a gente pode pensar de consequências para o mercado petrolífero?
01:57Aí ficou todo mundo olhando o preço do petróleo.
02:00Teve uma oscilação, subiu, agora de uma certa forma está voltando para a sua normalidade.
02:07Isso é um período ainda de acomodação das placas tectônicas?
02:11Ou a gente ainda pode esperar um turbilhão envolvendo a Venezuela e o preço internacional do petróleo?
02:18Boa tarde mais uma vez.
02:19Boa tarde, Marcelo. Boa tarde a toda a sua audiência.
02:23Excelente essa analogia com a mesa de pôquer.
02:26Eu acho que é uma forma bem lúdica de explicar como é que está o mercado do petróleo.
02:31Me permita estruturar essa tua analogia colocando o nome nos jogadores.
02:38Então a mesa de pôquer do petróleo, como você bem coloca, na verdade a gente tem quatro jogadores em potencial.
02:45Aí o Trump, que é o dealer agressivo, a Venezuela, eu diria que é um jogador quebrado.
02:50Ela tem aí a maior reserva de petróleo do planeta, mas extrai cerca de um milhão de barris por dia.
02:56Mas tem cartas fortes por ter a maior reserva de petróleo do planeta, o petróleo.
03:00A gente tem as refinarias dos Estados Unidos com muito interesse na Venezuela.
03:03Então são jogadores técnicos, cheios de regras, de análise de viabilidade econômica.
03:08Ou seja, deram um tom de racionalidade para o Trump, dizendo, olha, a gente não consegue aumentar a produção de um milhão de barris para cinco, dez milhões de barris por dia
03:17sem um alto investimento e sem um nível de cooperação técnico muito agressivo.
03:22Eu diria que a gente tem mais um jogador aí que é o mercado global, é o Pepe.
03:25Mas a China e a Índia, que são os traders.
03:28É uma plateia que reage, eu diria, a cada movimento nessa jogatina de pôquer.
03:34Então, na primeira rodada do pôquer, a gente teve o blefe improvável.
03:40O Trump entrou na mesa dizendo, olha, eu vou normalizar tudo, já combinei com a sucessora do Maduro,
03:47eu preciso do petróleo venezuelano, portanto, empresas americanas tragam investimentos.
03:52Isso foi um blefe bem estratégico, eu diria, para forçar a Venezuela a negociar,
03:57para enfraquecer eventuais e potenciais aliados ao Maduro e sinalizar o mercado,
04:03olha, eu posso abrir a torneira do petróleo quando eu quiser.
04:07Então, o mercado, quando ouviu isso, passado um mês dessa conversa que nós tivemos aqui,
04:11inclusive, contigo, o mercado pensou, bom, não vai entrar mais petróleo no mundo.
04:16Logo, o preço tende a cair.
04:18Claro, numa primeira precificação, o preço caiu ligeiramente.
04:23Mas a gente percebeu ao longo do tempo, desse curto espaço de tempo,
04:27que o Trump recuou, como você bem disse, e deixou as fichas na mesa.
04:30Então, depois, o Trump não entregou totalmente o que prometeu.
04:34As sessões não sumiram por completo, os controles permanecem lá,
04:38e a política ainda é incerta na Venezuela.
04:40Então, numa mesa de pôquer, isso significa que ele apostou alto,
04:45mas não mostrou todas as cartas.
04:47Então, ele mantém algumas fichas na mesa para usar depois.
04:49Isso ele usa como poder de barganha, ele sempre fez declaradamente.
04:54Então, qual que é a mensagem implícita que a gente tem aí?
04:56Eu posso abrir ou fechar o petróleo venezuelano quando eu me converto.
04:59Então, isso cria uma volatilidade estrutural no mercado de petróleo.
05:03Então, o que isso significa no curto prazo?
05:05Bom, a gente vai ter bastante volatilidade, alteração de preços,
05:09e um novo teto de preços.
05:10Então, enquanto o Trump mantiver essas fichas na mesa,
05:13vai ser difícil ver o petróleo disparar muito,
05:16e difícil ver o petróleo desabar bastante.
05:18Isso se explica, Marcelo.
05:20Porque o mercado passa a operar com uma premissa fundamental.
05:23A qualquer momento, os Estados Unidos podem liberar mais petróleo venezuelano.
05:26Então, isso funciona como um teto psicológico de preços.
05:29Espera-se um mercado nervoso, com picos de quedas,
05:32mas sem um superciclo de alta imediata.
05:34Professor Ahmed, só para colocar todo mundo, então, com os números concretos,
05:40eu fiz um gráfico a partir de 2013, esse número é importante,
05:43porque 2013 é quando Maduro assume o poder após a morte de Hugo Chávez.
05:47De 2013 até 2024, com números consolidados, pegar dados da Venezuela é muito complicado,
05:53o país ficou com dados muito deteriorados, mas esses aqui são os últimos dados sólidos.
06:00Chama atenção para isso aqui, no período 2003-2014,
06:04a capacidade de extração de quase 2 milhões de barris de petróleo.
06:10E Sudia, hoje, está aqui em números arredondados, perto de 655 mil.
06:18Ou seja, é uma queda abrupta, muito por incompetência da própria Venezuela,
06:24por um mau uso da máquina da PDVSA, a estatal do petróleo.
06:30E aí entra a minha pergunta.
06:32O tamanho da reserva, a maior reserva de petróleo conhecida no mundo,
06:36300 bilhões de barris ainda enterrados na Foz do Orinoco,
06:41e os Estados Unidos compram da Venezuela 295 mil barris por dia,
06:48sendo a Venezuela o terceiro maior fornecedor.
06:50Só que a Venezuela, para voltar a essa, vou chamar aqui de época de ouro,
06:55precisa de um investimento na casa dos 100 bilhões de dólares.
06:59Alguém vai aparecer com esse dinheiro?
07:02Quer dizer, voltamos à analogia.
07:03As fichas estão na mesa, aparentemente ninguém foi lá pegar,
07:07ninguém quer comprar essa aposta caríssima.
07:09Até porque 100 bilhões de dólares é muito dinheiro.
07:12E essas grandes petrolíferas americanas já perderam dinheiro no chavismo
07:17quando foram forçadas a sair e abandonar suas estruturas lá dentro.
07:21Existe um enorme arcabouço de insegurança, convenhamos.
07:24É bem isso, Marcelo.
07:28Esse gráfico é muito explicativo.
07:30Na verdade, quando o Maduro chegou, a produção já estava em declínio.
07:34Então, quando o Maduro assumiu em 2013,
07:36o sistema petrolífero venezuelano já mostrava alguns sinais de desgaste.
07:40Mas não tão drástico quanto depois.
07:43A indústria, embora ela tivesse as maiores reservas do mundo, e ainda tem,
07:47ela já enfrentava um problema de infraestrutura muito antiga,
07:49muito deteriorada, sem uma manutenção adequada.
07:51Então, houve ausência de investimento em tecnologia e equipamento.
07:55Então, essa necessidade constante de manutenção e de aportes regulares de investimento
08:01fez com que, ou ausência de, fez com que, mesmo com grandes reservas,
08:05como você bem colocou, a gente tivesse aí uma produção cara e tecnicamente difícil.
08:11Agora, voltando aí com a analogia que você comentou,
08:16com a lógica econômica, e usando a tua inteligente analogia com o poker,
08:20bom, primeiro, o tamanho das reservas é uma pilha de fichas.
08:24Então, a Venezuela, de fato, tem as maiores reservas provadas, comprovadas,
08:29de petróleo do mundo, 300 bilhões de barris.
08:31Então, na mesa, isso significa que ele é um jogador com o maior número de fichas,
08:35mas sentado num banco quebrado e sem crédito.
08:38Então, ter reservas enormes não gera riqueza por si só.
08:41O que importa é a capacidade de extrair, capacidade de refino, de transporte,
08:45e de vender sem sanções.
08:46Então, hoje, a Venezuela tem as fichas, que são as reservas,
08:50mas ela não tem infraestrutura nem financiamento para jogá-las na mesa.
08:52Agora, 100 bilhões de reais, o primeiro relatório da ExxonMobil disse isso ao Trump.
08:56Olha, eu não consigo extrair, aumentar capacidade de maneira exponencial,
09:02como você acha que daria.
09:05Porque é necessário, de fato, como você bem disse, um investimento muito maciço.
09:10Então, o que seria voltar a essa época de ouro?
09:12Não é uma tradução mais econômica, para quem nos assiste.
09:15Seria voltar, mais ou menos, para uma produção de 2,5, 3 milhões de barris por dia.
09:21Só que, assim, para chegar nesse nível, nível de países do Conselho de Cooperação do Golfo, por exemplo,
09:28eu teria que ter investimentos gigantescos.
09:31Primeiro, teria que ter uma carta na mesa para reabilitar os campos de produção.
09:35Isso eu não tenho.
09:36Eu preciso reativar postos que estão fechados na Venezuela.
09:38Eu preciso trocar equipamentos que estão corroídos.
09:40Eu preciso importar diluentes para o petróleo pesado.
09:43Isso não se coloca na conta.
09:45Treinar e recontratar engenheiros.
09:47Talvez a Venezuela não tenha mais.
09:49Então, só o custo disso, dezenas de bilhões de dólares.
09:53Segunda, a segunda carta que precisaria estar na mesa ali,
09:56é reconstrução de refinarias.
09:57Hoje, muitas das refinarias que estão na Venezuela operam mal ou já pararam.
10:01Então, sem refinaria funcionando, o país depende de importações e perde valor agregado.
10:05Tem uma grande reserva, mas não consegue extrair ali minimamente para atender a demanda global.
10:10Então, ele fica refém de parceiros externos.
10:12Então, aqui, a gente teria um custo muito alto, mas uma tecnologia estrangeira,
10:16porque a Venezuela não tem.
10:18A terceira carta, reabrir o financiamento internacional,
10:21que por muitos anos ficou fechado por conta das sanções que a Venezuela recebeu
10:25dos países ocidentais e, em especial, dos Estados Unidos.
10:28Sem isso, nada vai acontecer.
10:30Ninguém vai investir pesado se houver risco de novas sanções,
10:33se o governo for instável, se houver uma insegurança jurídica
10:37ou se tiver confisco de ativos, como a gente percebeu em alguns países da América Latina,
10:41em alguns anos atrás, com algumas empreiteiras brasileiras.
10:44Quem bancaria isso numa mesa de pôquer real?
10:47Aí entra a sua analogia inicial, Marcelo.
10:49É o Trump, que é o dealer.
10:50Ele invista na Venezuela, mas sob minhas regras.
10:54Então, ele não quer bancar tudo.
10:55Ele quer controlar o jogo.
10:57Então, ele quer escolher quem entra.
10:58O problema é que as empresas americanas não estão topando esse risco.
11:03Bom, professor Ahmed, uma rápida conclusão.
11:06Claro que ainda a gente terá muitas conversas a respeito,
11:10mas nem sempre, quando as palavras estão
11:13possibilidade de investimento, petróleo,
11:16o cenário, obrigatoriamente, ele é apetitoso.
11:20A Venezuela tem uma prova disso.
11:22E aí, o Trump formou uma situação que talvez ele não esteja conseguindo sair.
11:27Vou fazer outra analogia, tá?
11:29Uma sinuca de bico.
11:31Na próxima conversa, a gente troca a mesa de pôquer pela mesa de bilhar.
11:36Professor Ahmed El Khatib, que é docente e coordenador do Centro de Estudos em Finanças da FECAP,
11:43a quem eu agradeço mais uma vez.
11:45Espero retomarmos em breve essa conversa, professor Khatib,
11:48porque o assunto é fascinante e ainda tem muitas camadas para desmembrarmos.
11:54Obrigado, bom restinho de semana, até uma próxima.
11:57Eu que agradeço, um abraço a todos.
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