00:00Sim, a minha casa é uma casa que data de 1893, só que só em 1960 a minha bisavó, Leonor Fonseca,
00:08ela quer mudar para o raio que eu parto, ela quer, como se usa essa expressão, modernizar a casa,
00:14entrar na época que também era ainda o resto do modernismo,
00:20então ela vê que as casas estão meio que seguindo esse padrão, um pouco mais coloridas,
00:25e a casa deixa de ser uma casa colonial para ser uma casa modernista,
00:31na sua fachada, com alguns elementos em ferro, muito uso da cor, passa a ser mais colorida,
00:38enfim, ela quis, e a data é 1960 que eu achei os documentos.
00:43Todo mundo muito envolvido aqui em casa com o próprio movimento, com relação com a arte,
00:49relação com o patrimônio cultural da cidade.
00:51Eu venho de uma casa popular, como você pode observar, como conta bem a história dos próprios raios,
01:00mas que a gente tem muito interesse nisso, em manter a cidade, essa identidade cultural,
01:05uma identidade que deixa de ser familiar para ser quase coletiva,
01:08uma identidade do próprio bairro também, que tem muitos exemplares ainda,
01:13mesmo que espalhados do raio, que eu parto também.
01:16Em 2022, eu fiz um filme chamado Um Céu Partido ao Meio,
01:21que tem esse nome por fazer essa relação com as casas,
01:24que teria esse nome pejorativo a princípio, de cacos que se partem,
01:30mas que na minha poética eu entendo que é parte, um pouco da parte de cada um de nós.
01:36Então eu fiz um filme que foi encomendado para a comemoração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna,
01:43brasileira, e o filme foi filmado todo aqui em Belém, em 2021 para 2022.
01:51Em 2022 eu lancei e sigo com ele ainda até hoje, para os festivais.
01:56Está disponível já também agora, para assistir.
01:59É, uma ideia de divulgar o movimento e com um pouco de poética também,
02:04quanto com a participação do ator Pascoal da Conceição,
02:06interpretando o Mário de Andrade, que em 1927, 1926 esteve em Belém,
02:13não teve acesso ao raio, mas eu brinco com a ideia de que
02:16o que essas pessoas encontrariam, o que sobrou desse raio que eu parto na cidade de Belém.
02:22Que modernismo é esse da Amazônia?
02:24Que na verdade, no meu entender e de algumas outras pessoas,
02:28é o que fundamenta o modernismo brasileiro.
02:31Todas as referências que a gente tem partiram da Amazônia,
02:35então nada mais justo do que o raio estar também sendo representado.
02:40O raio que o parto é um movimento arquitetônico e cultural
02:42que surgiu entre as décadas de 40 e 60 do século XX, no estado do Pará,
02:48e ele surge a partir do estilo arquitetônico da época, que era o modernismo.
02:53Então, uma das características do modernismo era o uso de painéis em azulejos,
02:58Então, a gente tem essa característica no modernismo paraense.
03:02Mas, por conta da nossa localização geográfica,
03:05esses azulejos chegavam pela estrada Belém-Brasília e muitas vezes chegavam a variados.
03:10Então, esses cacos de azulejos foram incorporados por arquitetos e engenheiros
03:15em projetos modernistas aqui em Belém, como em outros municípios do estado.
03:21E o raio que o parto surge como uma inserção da camada popular
03:24nesse estilo arquitetônico, que muitas vezes era restrito à elite local.
03:29Então, por ser um material de mais fácil acesso,
03:32e pelos mestres de obras pedreiros realmente serem a mão de obra desses painéis,
03:37eles começaram a imprimir nas suas casas,
03:40geralmente nas fachadas, como a gente tem esse exemplo aqui,
03:43esses painéis em cacos de azulejo, como uma forma de modernizar as suas casas.
03:48Bom, existem várias versões do surgimento desse nome raio que o parta,
03:52mas a que mais é amplamente difundida é que nesse período estava surgindo a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
03:58aqui em Belém, e vieram vários professores de outros estados para lecionar nessa faculdade.
04:05Então, em uma das reuniões desses professores foi falado sobre o estilo arquitetônico
04:10que estava acontecendo aqui em Pará, e falaram sobre essas fachadas populares
04:15com esses painéis em cacos de azulejos.
04:17E aí um desses arquitetos que dizem ser o Donato Melo Júnior, que era do Rio de Janeiro,
04:21ele fala que aquilo não era arquitetura nem no raio que parta.
04:25E aí o nome pegou por casar com as características, e hoje em dia ele é ressignificado.
04:29Bom, a importância de preservar é porque muito se debate sobre uma arquitetura,
04:33de patrimonializar uma arquitetura de arquitetos famosos, engenheiros,
04:39e a gente tem uma arquitetura que foi feita pela camada popular,
04:42uma arquitetura amazônida,
04:44e que molda parte desse cenário, dessa história arquitetônica da nossa cidade.
04:49Então hoje em dia a gente tem muitos apagamentos por não ter,
04:52não existiu uma proteção de fato para esses exemplares, para a manutenção desses exemplares.
04:57Foi um primeiro passo muito bom ser reconhecido como patrimônio cultural e material da cidade de Belém.
05:03É um reconhecimento que trata mais sobre a questão do fazer,
05:09a questão da cultura de existir vários exemplares desses da nossa cidade,
05:14mas a gente ainda espera um passo de proteção para esses bens,
05:19para que eles não sejam descaracterizados e apagados.
05:23Exato, então a gente tem um recorrente apagamento,
05:26de querer modernizar mais essa casa hoje em dia, nos moldes do que é a arquitetura hoje em dia.
05:33Então a gente vê recorrentes apagamentos, desde a pintura dos azulejos,
05:38a retirada deles, ou a descaracterização total da fachada.
05:42A Rede Raio que o Parta é um coletivo que foi idealizado por mim,
05:45pela Elisa Almeida e pela Elisa Malcher, nós somos arquitetas e a gente se conheceu durante a faculdade.
05:51Então nos anos de 2020 a gente acompanhou alguns apagamentos e aquilo nos inquietou de alguma forma
05:56e a gente decidiu caminhar por alguns bairros e catalogar algumas fachadas,
06:01registrar fotograficamente, a gente conversou com alguns moradores
06:04e a gente percebeu que a maioria dos moradores não sabia que morava numa raio que o parta,
06:09não sabia o que era o raio que o parta e a gente decidiu iniciar um projeto de educação patrimonial.
06:15Então primeiro a gente fez uma cartilha informativa de maneira bem acessível
06:19para entregar os moradores, explicando o que era esse movimento e a importância de preservar ele.
06:23E hoje em dia a gente atua com palestras, bate-papos, a gente faz oficinas de mosaicos
06:29para perpetuar a importância desse movimento e também a gente se chama rede por ter conexões
06:35tanto com os moradores como com vários outros artistas que usam dessa estética para perpetuar o movimento.
06:42Então a gente vê que ele é um estilo arquitetônico com características bem coloridas, com traços bem delimitados
06:49e ele é muito utilizado tanto na moda, do design, da arquitetura.
06:56Então isso também é uma maneira de perpetuar a importância desse movimento.
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