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  • há 5 semanas
“Vá para o raio que o parta!” [“Go to hell!”] is an expression that conveys anger and outrage, used when one wants to send someone “far away.” However, in Pará and especially in Belém, it may mean something quite different: a form of cultural heritage.
It is an architectural style that emerged in Belém between the 1940s and 1960s, associated with modernism, a movement widely adopted in the architecture of the period. Raio que o Parta sought to incorporate modernist elements into local constructions, adapting them to regional realities and enabling their assimilation by more popular social strata.
Its main characteristic was the use of colorful ceramic tile fragments applied to house facades, forming mosaics, generally with geometric patterns. Many of these fragments took on triangular shapes, evoking the image of lightning bolts.

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“Vá para o raio que o parta!” é uma expressão que indica raiva e indignação, quando se quer mandar alguém para “bem longe”. Contudo, no Pará, e, principalmente, em Belém, pode significar algo bem diferente: um patrimônio cultural.
Trata-se de um estilo arquitetônico surgido em Belém, entre as décadas de 40 e 60, associado ao modernismo, movimento adotado na arquitetura da época. O Raio que o Parta buscava trazer os elementos do modernismo às construções locais, com adaptações à realidade da região e sua assimilação pelas camadas mais populares.
Sua principal característica era o uso de cacos de azulejos coloridos, aplicados nas fachadas das casas, formando mosaicos, em geral com formatos geométricos. Muitos deles tinham formatos triangulares, lembrando o desenho de raios.

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Transcrição
00:00Sim, a minha casa é uma casa que data de 1893, só que só em 1960 a minha bisavó, Leonor Fonseca,
00:08ela quer mudar para o raio que eu parto, ela quer, como se usa essa expressão, modernizar a casa,
00:14entrar na época que também era ainda o resto do modernismo,
00:20então ela vê que as casas estão meio que seguindo esse padrão, um pouco mais coloridas,
00:25e a casa deixa de ser uma casa colonial para ser uma casa modernista,
00:31na sua fachada, com alguns elementos em ferro, muito uso da cor, passa a ser mais colorida,
00:38enfim, ela quis, e a data é 1960 que eu achei os documentos.
00:43Todo mundo muito envolvido aqui em casa com o próprio movimento, com relação com a arte,
00:49relação com o patrimônio cultural da cidade.
00:51Eu venho de uma casa popular, como você pode observar, como conta bem a história dos próprios raios,
01:00mas que a gente tem muito interesse nisso, em manter a cidade, essa identidade cultural,
01:05uma identidade que deixa de ser familiar para ser quase coletiva,
01:08uma identidade do próprio bairro também, que tem muitos exemplares ainda,
01:13mesmo que espalhados do raio, que eu parto também.
01:16Em 2022, eu fiz um filme chamado Um Céu Partido ao Meio,
01:21que tem esse nome por fazer essa relação com as casas,
01:24que teria esse nome pejorativo a princípio, de cacos que se partem,
01:30mas que na minha poética eu entendo que é parte, um pouco da parte de cada um de nós.
01:36Então eu fiz um filme que foi encomendado para a comemoração dos 100 anos da Semana de Arte Moderna,
01:43brasileira, e o filme foi filmado todo aqui em Belém, em 2021 para 2022.
01:51Em 2022 eu lancei e sigo com ele ainda até hoje, para os festivais.
01:56Está disponível já também agora, para assistir.
01:59É, uma ideia de divulgar o movimento e com um pouco de poética também,
02:04quanto com a participação do ator Pascoal da Conceição,
02:06interpretando o Mário de Andrade, que em 1927, 1926 esteve em Belém,
02:13não teve acesso ao raio, mas eu brinco com a ideia de que
02:16o que essas pessoas encontrariam, o que sobrou desse raio que eu parto na cidade de Belém.
02:22Que modernismo é esse da Amazônia?
02:24Que na verdade, no meu entender e de algumas outras pessoas,
02:28é o que fundamenta o modernismo brasileiro.
02:31Todas as referências que a gente tem partiram da Amazônia,
02:35então nada mais justo do que o raio estar também sendo representado.
02:40O raio que o parto é um movimento arquitetônico e cultural
02:42que surgiu entre as décadas de 40 e 60 do século XX, no estado do Pará,
02:48e ele surge a partir do estilo arquitetônico da época, que era o modernismo.
02:53Então, uma das características do modernismo era o uso de painéis em azulejos,
02:58Então, a gente tem essa característica no modernismo paraense.
03:02Mas, por conta da nossa localização geográfica,
03:05esses azulejos chegavam pela estrada Belém-Brasília e muitas vezes chegavam a variados.
03:10Então, esses cacos de azulejos foram incorporados por arquitetos e engenheiros
03:15em projetos modernistas aqui em Belém, como em outros municípios do estado.
03:21E o raio que o parto surge como uma inserção da camada popular
03:24nesse estilo arquitetônico, que muitas vezes era restrito à elite local.
03:29Então, por ser um material de mais fácil acesso,
03:32e pelos mestres de obras pedreiros realmente serem a mão de obra desses painéis,
03:37eles começaram a imprimir nas suas casas,
03:40geralmente nas fachadas, como a gente tem esse exemplo aqui,
03:43esses painéis em cacos de azulejo, como uma forma de modernizar as suas casas.
03:48Bom, existem várias versões do surgimento desse nome raio que o parta,
03:52mas a que mais é amplamente difundida é que nesse período estava surgindo a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo
03:58aqui em Belém, e vieram vários professores de outros estados para lecionar nessa faculdade.
04:05Então, em uma das reuniões desses professores foi falado sobre o estilo arquitetônico
04:10que estava acontecendo aqui em Pará, e falaram sobre essas fachadas populares
04:15com esses painéis em cacos de azulejos.
04:17E aí um desses arquitetos que dizem ser o Donato Melo Júnior, que era do Rio de Janeiro,
04:21ele fala que aquilo não era arquitetura nem no raio que parta.
04:25E aí o nome pegou por casar com as características, e hoje em dia ele é ressignificado.
04:29Bom, a importância de preservar é porque muito se debate sobre uma arquitetura,
04:33de patrimonializar uma arquitetura de arquitetos famosos, engenheiros,
04:39e a gente tem uma arquitetura que foi feita pela camada popular,
04:42uma arquitetura amazônida,
04:44e que molda parte desse cenário, dessa história arquitetônica da nossa cidade.
04:49Então hoje em dia a gente tem muitos apagamentos por não ter,
04:52não existiu uma proteção de fato para esses exemplares, para a manutenção desses exemplares.
04:57Foi um primeiro passo muito bom ser reconhecido como patrimônio cultural e material da cidade de Belém.
05:03É um reconhecimento que trata mais sobre a questão do fazer,
05:09a questão da cultura de existir vários exemplares desses da nossa cidade,
05:14mas a gente ainda espera um passo de proteção para esses bens,
05:19para que eles não sejam descaracterizados e apagados.
05:23Exato, então a gente tem um recorrente apagamento,
05:26de querer modernizar mais essa casa hoje em dia, nos moldes do que é a arquitetura hoje em dia.
05:33Então a gente vê recorrentes apagamentos, desde a pintura dos azulejos,
05:38a retirada deles, ou a descaracterização total da fachada.
05:42A Rede Raio que o Parta é um coletivo que foi idealizado por mim,
05:45pela Elisa Almeida e pela Elisa Malcher, nós somos arquitetas e a gente se conheceu durante a faculdade.
05:51Então nos anos de 2020 a gente acompanhou alguns apagamentos e aquilo nos inquietou de alguma forma
05:56e a gente decidiu caminhar por alguns bairros e catalogar algumas fachadas,
06:01registrar fotograficamente, a gente conversou com alguns moradores
06:04e a gente percebeu que a maioria dos moradores não sabia que morava numa raio que o parta,
06:09não sabia o que era o raio que o parta e a gente decidiu iniciar um projeto de educação patrimonial.
06:15Então primeiro a gente fez uma cartilha informativa de maneira bem acessível
06:19para entregar os moradores, explicando o que era esse movimento e a importância de preservar ele.
06:23E hoje em dia a gente atua com palestras, bate-papos, a gente faz oficinas de mosaicos
06:29para perpetuar a importância desse movimento e também a gente se chama rede por ter conexões
06:35tanto com os moradores como com vários outros artistas que usam dessa estética para perpetuar o movimento.
06:42Então a gente vê que ele é um estilo arquitetônico com características bem coloridas, com traços bem delimitados
06:49e ele é muito utilizado tanto na moda, do design, da arquitetura.
06:56Então isso também é uma maneira de perpetuar a importância desse movimento.
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