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  • há 2 dias
No Visão Crítica, o cientista político José Álvaro Moisés analisa o cenário das eleições de 2026 a partir de uma perspectiva histórica.
Ele afirma que o Brasil vive um período de transição política, marcado pela consolidação de uma direita permanente e por uma disputa mais profunda entre projetos políticos. O professor alerta para os impactos desse contexto sobre a democracia e o papel estratégico das instituições no próximo ciclo eleitoral.

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Transcrição
00:00Professor Moisés, como é que fica o ano de 26, já que é, claro que é um ano eleitoral,
00:05mas sempre se fala no Brasil em presidência da república, como se o resto não existisse.
00:10Como é que o senhor vê esse ano de 26, especialmente a questão da presidência da república, mas não só?
00:16Boa noite, professor Vila, colegas, Luana, Rodrigo.
00:22Eu queria colocar a questão, Vila, num outro plano do debate, que é o seguinte.
00:29Eu acho que, quando nós olhamos a experiência da nova república, pelo menos da nova república para cá,
00:37nós tivemos 30 anos, digamos assim, de disputa política muito importante,
00:46entre, eu diria, entre duas tentativas de levar a termo a herança de natureza social-democrática da Constituição de 88.
01:00A Constituição de 88, ela aponta numa direção muito de uma vitalidade social-democrática.
01:09E a disputa era entre o PT e o PSDB, apesar de grandes, digamos assim, discussões, debates,
01:18havia um respeito mútuo no modo como esses dois competidores levavam a disputa eleitoral.
01:27Eu acho que nós estamos vivendo no Brasil, de um ponto de vista histórico mais longo,
01:33e você, historiador, pode interpretar bem isso, nós estamos vivendo um período só de uma transição,
01:40no sentido de que a direita, que com o fim do golpe de Estado, do regime militar,
01:49tinha ficado, de certa maneira, recolhida, porque a força, o impacto era muito grande das forças democráticas,
01:57e a direita tinha uma certa vergonha de se constituir com clareza.
02:02Agora, ao contrário, o cenário político brasileiro começa a ter uma direita permanente
02:10que disputa com as forças progressistas, não só com a esquerda, disputa, inclusive, com os democratas,
02:18com a área das forças democráticas, que valoriza direitos humanos, valoriza o avanço da democracia,
02:26valoriza uma retomada da economia, no sentido de melhorar a vida comum das pessoas.
02:34A direita disputa isso de uma maneira muito atroz, muito pesada.
02:41E, de certa forma, isso está colocado para a conjuntura eleitoral que vai ocorrer em 2026.
02:51Quer dizer, as forças representando essa direita ganharam a eleição de 2018,
03:00depois o Bolsonaro e o seu apoio perderam o poder, e a grande questão deles agora é voltar ao poder,
03:09a qualquer custo, como dizia o professor Rodrigo, em relação a alguns dos anos.
03:16Eu acho que isso é interessante, porque é um modo de estabilizar no Brasil, com clareza,
03:24linhas políticas mais profundas e que, num certo sentido, remetem para a possibilidade de projetos mais significativos.
03:32A direita, embora tenha posições muito conservadoras em relação a uma série de coisas,
03:40não tem com clareza, com muita clareza, um projeto econômico que você possa dizer que inova.
03:47E a esquerda ficou, de certa maneira, em alguma das teses anteriores, que vem do período da Nova República,
03:56e compensações a mudanças que ocorreram, e entrou em algumas áreas sociais que permitiam melhorar a vida das pessoas,
04:07ou, pelo menos, melhorar o consumo da população mais pobre do país, de uma participação no consumo.
04:16Eu acho que, então, em 2026, essas posições mais, digamos, que organizam o pensamento,
04:24e organizam os projetos, vão estar em grande disputa.
04:27O Rodrigo mencionou uma coisa muito importante.
04:30A extrema-direita, hoje, foca, fundamentalmente, a ideia de que é preciso ter maioria no Senado,
04:37para, com isso, não apenas fazer o impeachment de alguns dos ministros do Supremo Tribunal Federal,
04:43mas mexer na Constituição.
04:47As pessoas comuns que nos ouvem, talvez não tenham suficiente informação
04:54para entender o que significa isso, e a implicação que isso pode ter.
04:59Mexer na Constituição pode representar, nesse momento, atrasar, fazer um retrocesso
05:06em relação a aspectos muito importantes que foram de conquistas democráticas.
05:12Então, eu vejo essa transição, nesse sentido,
05:16estar se tornando permanente, na vida política do país,
05:21uma opção conservadora, e que, em alguns graus, vai para um extremo,
05:26como nós vimos nas políticas de segurança.
05:30Veja que, não só essa mega-operação que ocorreu no Rio de Janeiro,
05:36algumas semanas atrás, mas também o que já tinha ocorrido em São Paulo,
05:42aqui na área da Baixada Santista,
05:45uma política administrada, não é, pelo governador Castro do Rio,
05:50e aqui em São Paulo, pelo Tarcísio,
05:52que se assemelha, em alguns aspectos,
05:55àquela política mais radical adotada, por exemplo,
05:58num país como El Salvador,
06:00em que todos os direitos, de alguma maneira, foram derrubados.
06:04E o presidente tem muito prestígio,
06:07porque, num certo sentido, controlou.
06:09Mas controlou o crime de tal modo que não tem...
06:13As pessoas não foram sequer julgadas,
06:16e, algumas vezes, foram mortas nos cárceres.
06:18Então, eu penso que esse debate que leva a questões tão fundamentais
06:26vai estar muito presente na campanha de 2026.
06:31E essa ideia, essa noção de que é preciso fazer maioria,
06:37no caso da extrema-direita, no Senado,
06:40ela tem um objetivo claro.
06:42Não é apenas defender a anistia do Bolsonaro.
06:47Não é apenas defender e...
06:49É modificar alguns aspectos do modo como nós conseguimos fazer avançar
06:55a democracia no Brasil.
06:58Ela não está inteiramente consolidada,
07:00mas ela avançou muito.
07:02E mesmo em outros programas que nós participamos com você,
07:06críticas que nós fizemos ao Supremo Tribunal Federal,
07:09não retira em nada a importância da Suprema Corte,
07:13que, todavia, como a maioria no Senado,
07:16da extrema-direita, pode estar em questão.
07:20Então, eu penso que essa transição que eu vejo
07:24é do estabelecimento, de uma maneira mais permanente no Brasil,
07:28de uma força conservadora, que, às vezes, tem essa radicalidade
07:33que nós vimos em alguns casos, e, de certa forma,
07:37a necessidade do outro campo, do campo progressista, se renovar.
07:42Aqui, eu voltaria a programas que você fez,
07:46em que eu ouvi o debate e vi colegas, inclusive,
07:49com os que estão aqui hoje,
07:51chamando a atenção para uma coisa muito importante.
07:54Embora o eleitorado brasileiro não esteja totalmente polarizado,
08:01quer dizer, o eleitorado brasileiro não está dividido só
08:03entre a posição de extrema-direita e da esquerda.
08:08Há, de certo modo, um conjunto moderado de eleitores
08:14que querem uma outra solução.
08:16Significa que será necessário, nessa transição,
08:21a emergência de novas lideranças.
08:25Esse é um problema no Brasil muito difícil de resolver.
08:29Os partidos não assumem bem essa função
08:32de formar líderes, formar novas líderes,
08:36abrir as portas para os mais jovens que querem
08:39entrar na política e, de alguma maneira,
08:42oferecer a possibilidade de uma mudança.
08:45Então, esse é um tema que eu penso que será muito central
08:48nas eleições de 2026, porque provavelmente
08:52nós vamos ficar de novo divididos entre esses dois polos.
08:59Eu não tenho segurança de que haverá tempo
09:02e haverá suficientes elementos novos
09:05para emergir uma liderança, digamos,
09:08de centro democrática capaz de disputar
09:11com os bolsonaristas e com o Lula.
09:13Quer dizer, 2026 pode ter essa chance, não é?
09:19Mas não está claro, nós não temos suficiente informação ainda
09:23para ver emergir nessa transição que eu estou procurando descrever
09:30uma força democrática nova de centro
09:33que tenha conteúdo, que tenha capacidade de projetar o país
09:38para o futuro e, ao mesmo tempo, enfrentar os dois polos.
09:41com a crítica necessária a fazer aos dois polos.
09:46Ô, Vila, eu até diria o seguinte,
09:48num certo sentido, a crise que nós estamos vivendo
09:51é um pouco a crise de paradigmas universal.
09:55Quer dizer, nos anos...
09:57com a queda do Muro de Berlim,
10:01um dos paradigmas importantes de mudança
10:04e de criação do novo homem,
10:06ali, junto com o Muro, caiu.
10:08E a esquerda ficou um pouco sem...
10:11A esquerda mundial, não é?
10:13Ficou um pouco sem um novo, digamos assim,
10:16um novo rumo, não é?
10:19Que, em última análise, significa
10:20como conviver com o capitalismo, não é?
10:23Agora, outro paradigma, supostamente vencedor,
10:27que, em algum momento, Fukuyama
10:29imaginou que o filósofo norte-americano,
10:33não é?
10:33que era a grande mudança
10:34e que a história parava ali
10:36porque o liberalismo tinha ganho,
10:39não levou em conta
10:40que há uma crítica muito forte,
10:44há uma crise muito forte
10:46em toda a concepção do liberalismo,
10:48que vem desde o iluminismo, não é?
10:51Que é o tema da representação.
10:54Se as pessoas sentem
10:56que não estão representadas,
10:59sentem que não fazem parte do processo,
11:01sentem que são marginalizadas,
11:03elas ficam contra a política.
11:06E, muitas vezes,
11:07ao ficarem contra a política,
11:09aceitam soluções autoritárias,
11:12autocráticas,
11:13como nós vimos ocorrer
11:14nesses últimos anos,
11:1624, 25,
11:17nós vimos emergir
11:19esses padrões
11:21que não são nada democráticos, não é?
11:24Quer dizer, há um desafio
11:25para os democratas
11:28e para a sociedade
11:29se quiser manter a democracia.
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