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Flávia Martins, diretora executiva do Museu Afro Brasil, compartilhou sua trajetória, a importância de diversidade e inclusão, e como o museu resgata a história e contribuições da população negra. Ela destacou paixão, protagonismo e impacto positivo na sociedade como motores da sua carreira.

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Transcrição
00:00A protagonista de hoje é Flávia Martins, diretora executiva do Museu Afro Brasil,
00:11Emanuel Araújo, que fica dentro do Parque Ibirapuera, aqui em São Paulo.
00:16Flávia é uma mulher que dedica sua vida a preservar, contar e ampliar as histórias
00:22e as contribuições da população negra no Brasil e no mundo.
00:26Ela acredita que museus não são apenas guardiões de acervos, mas pontes para o futuro.
00:34Com quase 30 anos de atuação em grandes empresas brasileiras e multinacionais,
00:39a trajetória de Flávia Martins abrange os campos da sustentabilidade, cultura, diversidade e inovação.
00:47Construiu sua carreira em organizações como o Pacto Global da ONU,
00:51AIA Earth Partners, Telefônica, Oracle, entre outras.
00:56Ela também é mentora do Instituto Pacto A de Aceleração de Carreira de Pessoas Negras em Cargos de Gestão
01:03e do IVG no programa Nós por Elas.
01:07Flávia reúne experiência na definição de estratégias e implementação de iniciativas de diversidade e inclusão,
01:15tendo ocupado, inclusive, a presidência de um comitê de diversidade por cinco anos.
01:20Flávia, muito obrigada por ter aceitado o meu convite, um prazer ter você aqui com a gente.
01:26A minha primeira pergunta é sempre a mesma para todas vocês.
01:29Quem é Flávia Martins? Como você se definiria?
01:33Cris, muito obrigada pelo convite. É uma honra estar aqui com vocês.
01:38Flávia Martins, primeiro, eu começo reverenciando a ancestralidade que me trouxe até aqui.
01:43E agradeço ao meu pai, Leandro, Sônia, minha mãe, meu pai engenheiro, minha mãe professora de inglês, português e francês.
01:54Essas pessoas são quem me fizeram, são o meu ouro.
02:00Então, Flávia Martins é filha de Leandro e Sônia, jornalista, apaixonada pela vida, pela família.
02:08Eu tenho cinco irmãos, nós somos seis.
02:11Então, assim, eu me definiria como uma apaixonada.
02:14Além da família, eu sou apaixonada por vinhos, por viagens, por arte,
02:20que com certeza ajudou a me trilhar esse caminho que me levou ao Museu Afro.
02:25Então, eu defino muito como apaixonada.
02:28Eu parei de perguntar para as pessoas o que elas fazem e eu passei a perguntar o que as move.
02:35Qual é a paixão delas?
02:36Porque a gente aqui em São Paulo tem essa mania de falar, o que você faz? O que você é?
02:41É, muitas vezes antes de perguntar o nome da pessoa, a gente já quer saber o cargo da pessoa, né?
02:46Exato.
02:46Então, eu comecei a falar sobre paixões, porque isso é muito do que faz com que a gente se levante bem todas as manhãs.
02:54Então, eu me defino como uma apaixonada.
02:56E o que que te move?
02:57O que me move é a paixão.
02:59Eu posso dizer que se eu toquei uma pessoa e passei isso para uma pessoa
03:06e ajudo essas pessoas a descobrirem as suas paixões,
03:10eu estou fazendo esse impacto positivo na sociedade.
03:14Se eu transformei a vida de uma pessoa, e eu tenho muita gente já falando, contando o tanto que isso,
03:24que eu consegui impactar as suas vidas, eu já estaria contente.
03:28Então, assim, uma pessoa já me disse que está feliz e eu me movo a partir dessa transformação.
03:36Por exemplo, o programa de mentoria que você mencionou, eu trabalho muito esse espaço de não ser a primeira,
03:44mais a primeira, né?
03:47Que eu seja a última primeira.
03:49Muita gente fala sobre isso.
03:51Nós somos as primeiras a ocuparmos a cadeira na escola,
03:56a primeira a ocupar a cadeira na universidade,
03:59depois a única na empresa que nós ocupamos.
04:03Eu não tinha referência.
04:04Sim, eu tinha referência da Glória Maria, eu sou jornalista,
04:07mas só a Glória dá a impressão de que, a partir do momento que a gente tem uma população negra tão grande no Brasil,
04:14a gente pensa que não vai ter espaço para as outras irem, para outras Flávias.
04:20Então, esse exercício de que eu não seja mais a única é o que me move,
04:26que eu traga muitas para cá.
04:28Que lindo isso.
04:29Como você lida com a pressão, com as expectativas,
04:34para exatamente estar num lugar que, predominantemente, é masculino e branco?
04:40Olha, não é pouca pressão que nós sentimos, né?
04:44Eu tenho trabalhado muito esse olhar do aprendizado com a minha jornada inteira, né?
04:52E como que os executivos olham para essas mulheres?
04:57E, no meu caso, eu tenho o olhar da negritude.
05:03Eu tenho o recorte racial também.
05:06Eu tive um executivo que perguntou para mim,
05:09você tem certeza dessa decisão que você está tomando?
05:13Porque você já errou três vezes.
05:16Eu falei assim, nossa, eu não sabia que estava sendo contado.
05:20Porque, assim, qual é o balizador dos outros executivos?
05:25Quando nós já estamos na diretoria,
05:27eu nunca tinha visto esse tipo de questionamento
05:30para outros executivos e executivas.
05:33Então, assim, a pressão é muito grande.
05:35Eu tenho falado sobre isso.
05:37O movimento de nós chegarmos, sim,
05:41mas permanecer tem sido o desafio.
05:44Então, assim, eu ocupei cargo de diretoria
05:47por quase dez anos, já agora,
05:50mas tem esse movimento, esse olhar de como que nós avançamos,
05:56trazemos as próximas,
05:57que olhares que essas pessoas recebem.
06:01Você mesmo, eu mesma como executiva,
06:05eu estou avaliando pessoas negras e não negras?
06:10Eu estou avaliando gênero de uma maneira, assim, com equidade?
06:16Será que a gente precisa usar os mesmos medidores
06:20que nós utilizamos para executivos,
06:22homens, héteros, brancos,
06:25quando nós estamos falando de mulheres,
06:28quando nós estamos falando de pessoas negras,
06:29pessoas com deficiência?
06:31Então, esse tem sido o meu exercício
06:34para gerenciar essa pressão
06:36que é colocada em cima de executivas.
06:39E você sente muito mais uma pressão pela questão da raça
06:43do que pelo gênero?
06:45Sim, sim.
06:46Porque a conversa sobre mulheres na liderança,
06:51ela já acontece há um bom tempo.
06:54Muito menos do que nós gostaríamos,
06:57mas há algum tempo.
06:58pessoas negras dão seus primeiros passos, né?
07:02Nós estamos falando de 4% de negros na liderança
07:05e quando nós colocamos o recorte de gênero,
07:09nós estamos falando de 0,5%, 0,4, 0,5%.
07:14São centenas apenas de mulheres.
07:17Nós conhecemos nome, sobrenome,
07:20eu tenho quase todas elas aqui no meu celular.
07:22Então, a gente tem, sim, uma pressão diferente,
07:27um olhar diferente
07:28e é até esperado, apesar de não bom,
07:35de nada bom, essa jornada.
07:37Porque a gente consegue ter sucesso,
07:41a gente consegue estar num lugar de conforto
07:44com o que estamos acostumados.
07:46E nós não estamos acostumados
07:48nem as pessoas negras a ocupar esses espaços,
07:52e tampouco as pessoas brancas
07:55que, ao longo de séculos,
07:57viram apenas pessoas brancas ali.
07:59Eu estou falando de restaurante,
08:01eu estou falando de, inclusive,
08:02o museu onde nós estamos.
08:05Eu pergunto muito
08:06sobre as pessoas conhecerem ou não.
08:09Não conhecem.
08:10Então, assim, é uma jornada
08:12que ela precisa ser encurtada.
08:15E é a minha responsabilidade,
08:16faz parte do meu propósito,
08:18trabalhar para que essa jornada
08:20seja encurtada e menos dolorosa.
08:23O que o mundo corporativo precisa fazer
08:25exatamente para encurtar essa jornada?
08:28E você percebe que já houve um avanço?
08:30Houve um avanço, sim.
08:33Nas próprias televisões,
08:35nós conseguimos ver esse avanço.
08:38Nas corporações, é o compromisso.
08:40Começar por compromisso público compartilhado.
08:44Tem que ser intencional.
08:45Tem que ser intencional.
08:46Tem que haver número.
08:49Tem que falar o que vai fazer.
08:51Nós temos alguns movimentos.
08:52Intencional e transparente.
08:54Exato.
08:54E, assim, quando você faz o intencional,
08:57você está trazendo essas pessoas.
08:59Como que você está recebendo essas pessoas?
09:02O seu público foi preparado
09:04para receber essas pessoas?
09:06Além disso, nós podemos falar sobre
09:09colocar dinheiro.
09:11Sobre investir em projetos.
09:13Não é só falar o que vai fazer.
09:14É investir em projetos com metas
09:18sendo medidas o tempo todo.
09:21Nós podemos falar de executivos e executivas
09:23que são sponsors dessas pessoas
09:25que estão chegando.
09:26Que patrocinam essas pessoas.
09:28Patrocinam, trabalham junto,
09:30mostram o caminho,
09:31mostram que estão ali.
09:32Porque se a liderança não se compromete,
09:35não mostra estar comprometida e comprometida,
09:38o avanço não vai acontecer.
09:40E tem uma questão que eu achei muito interessante
09:42que você trouxe, que é não só chegar lá,
09:46como se manter lá.
09:48Porque, muitas vezes, tem essa...
09:51Ah, existe uma intenção de contratar
09:54mais pessoas negras.
09:55Mas não existe um programa,
09:58um projeto de fato
09:59para que aquelas pessoas avançam
10:02naquela carreira dentro da empresa.
10:04Então, elas podem acabar
10:05não se sentindo pertencentes àquele ambiente
10:08e acabam indo embora.
10:10Então, é óbvio que tem que ter algo
10:11dentro das empresas também
10:12para manter.
10:14Eu gostei muito disso que você falou,
10:15porque vai muito ao encontro
10:17de algo que eu sempre falo.
10:19Sim.
10:20Tem muita gente que diz para mim,
10:22eu não encontrei uma profissional
10:24ou um profissional com o perfil
10:26que você está procurando.
10:28A gente não conseguiu.
10:30Nós estamos falando de 50% de negros
10:33nas universidades.
10:35Então, assim, não é que não exista.
10:38É, não é possível que não exista.
10:39Não, foi procurado com intenção.
10:41Ou mesmo que a intenção exista
10:43e o profissional não exista,
10:45essa pessoa pode ser formada.
10:47Sim.
10:47Eu posso ter uma jornada
10:49um pouco mais longa,
10:50intencional dentro daquela empresa,
10:52com programas de trainees
10:53que desenvolvam essas pessoas.
10:56Então, assim, a resposta,
10:58ela sempre está mais próxima
11:01de quem realmente busca com objetivo,
11:06com metas desenhadas.
11:08É interessante a gente pensar,
11:10por exemplo,
11:11a gente pode dar o exemplo da Aniele,
11:14que entregou 500 currículos
11:18na entrada ali do governo,
11:20quando questionada sobre
11:21onde estão essas pessoas.
11:23Então, assim, esse movimento
11:24de trazer as nossas pessoas,
11:27de saber onde elas estão,
11:29de buscar essa formação.
11:32Tem tantos programas,
11:33há exemplos de formação de língua também.
11:38Olhares.
11:39Realmente você precisa dessa pessoa
11:41falando inglês?
11:43Será que essa vaga exige inglês fluente?
11:46Então, são perguntas
11:47que trazem essa corda
11:52para mais perto da gente.
11:53A gente encurta o caminho
11:55a partir do momento que
11:57fazemos o exercício
12:00da intencionalidade.
12:02Quais foram as estratégias
12:03que você, Flávia,
12:04usou para romper
12:05essas barreiras
12:07e avançar na sua carreira?
12:09A primeira coisa que eu fiz
12:12foi estudar muito.
12:14Eu tinha 10 anos
12:15quando eu enxerguei
12:16o que era o racismo,
12:17eu não sabia o nome que tinha,
12:19mas contei para minha mãe
12:21que não queriam fazer trabalho
12:22comigo na escola,
12:23que não queriam amizade comigo.
12:25E a minha mãe falou
12:26você precisa estudar.
12:28Eu falei, mas eu já estudo tanto?
12:30Tá, mas vai estudar mais.
12:32E eu estudei mais,
12:34tirei 10 em tudo.
12:36Na aula seguinte
12:37de que foi anunciado
12:38esse boletim,
12:40queriam fazer trabalho comigo.
12:41Todo mundo queria fazer trabalho com você.
12:43Eu entendi ali.
12:44Eu não sabia o porquê,
12:46mas eu entendi ali.
12:48O caminho seria o estudo.
12:50E o Brasil,
12:51ele tem esse desafio.
12:54Isso nos foi tirado.
12:55A gente tem essa dificuldade
12:57e essa discrepância
12:59das crianças
13:00que acessam o ensino particular
13:02e as que estão trilhando
13:04o ensino público.
13:05Você estava numa escola
13:06pública ou particular?
13:07Eu estava numa escola particular.
13:09Particular.
13:09Então, assim,
13:11primeiro estudar.
13:12Muito.
13:13Nós estávamos falando aqui
13:14antes de começar.
13:15Eu continuo estudando.
13:17E bastante.
13:18Isso faz muita diferença.
13:19A curiosidade
13:21pelo novo
13:22a me conectar
13:26com as pessoas
13:27corretas.
13:29Eu tenho
13:30uma amiga minha
13:32que também
13:32é coach
13:33e dá esse direcionamento
13:35de plano de vida
13:36e ela me fez
13:37esse direcionamento
13:38Camila Camilo
13:39de plano de vida.
13:41Eu adoro ela.
13:42Ela é incrível.
13:42Minha amiga também.
13:43Amo.
13:44Ela tem esse plano de vida.
13:46Eu já tinha o meu.
13:47Inclusive,
13:48dou mentoria
13:49sobre plano de vida
13:50para novas lideranças
13:53e a Camila fez
13:54a versão avançada disso.
13:56Ela, inclusive,
13:56faz viagens
13:57para conhecer pessoas
13:59com o objetivo
14:00de alcançar
14:02tal meta
14:03profissional
14:04ou pessoal.
14:05Então, assim,
14:06ter um plano.
14:07Nós desenhamos
14:08planos incríveis
14:09para as empresas.
14:10E por que não
14:11desenhar esses mesmos planos
14:13para as nossas vidas?
14:14Eu comecei a fazer isso
14:16há muito tempo.
14:17Tem muita gente
14:18que ainda me pede
14:18esse modelo
14:19falando,
14:19Flá,
14:20você pode mandar
14:21para mim,
14:21por favor,
14:22o seu modelo
14:23de plano de vida?
14:24Eu mando.
14:25E é sobre isso.
14:26As pessoas
14:26agradecendo muito
14:28que utilizam
14:30esse olhar
14:31o tempo todo.
14:32Então,
14:32planejar,
14:33definir metas
14:34para a vida,
14:35estudar
14:36para chegar nelas
14:37e manter
14:38esse ciclo vivo.
14:40E relacionamento,
14:41o tempo todo.
14:42Nunca almoçar
14:43com as mesmas pessoas
14:44todos os dias.
14:46Agende cafés,
14:48agende almoço
14:48com pessoas
14:49que você desconhece.
14:51É interessante
14:52que as pessoas
14:52aceitam esses convites.
14:54No começo
14:54dá receio,
14:56mas as pessoas
14:56aceitam esses convites.
14:58Então,
14:58isso é uma coisa
14:58que eu faço sempre.
15:00E não procurar
15:01essas pessoas
15:01só quando eu estou
15:02precisando de emprego.
15:03Porque tem muita gente
15:04que faz isso.
15:06Mas o networking,
15:07o relacionamento
15:08intencional,
15:09ele gera
15:10um impacto tremendo
15:11na nossa vida.
15:12Você tem como trazer
15:13um resumo aqui
15:14desse seu plano?
15:16Ou ele é muito grande?
15:17Ele está dividido
15:18em saúde.
15:19Tem saúde mental,
15:21saúde física,
15:22saúde espiritual,
15:24saúde intelectual,
15:25de relacionamento,
15:26a financeira.
15:27Então,
15:28coloca ali
15:28quanto você quer ganhar.
15:30Mas assim,
15:31bem alto.
15:32E é impressionante.
15:33Nosso cérebro,
15:33ele é uma máquina.
15:35Então,
15:35essas metas,
15:36elas são lidas
15:37todos os dias.
15:39Você lê de manhã
15:40e lê à noite.
15:41Eu faço isso
15:42e vou atualizando
15:45esse plano
15:45de acordo com
15:46novas metas,
15:48novos olhares.
15:49Qual foi o momento
15:50decisivo
15:51na sua trajetória,
15:52na sua carreira
15:53que te fez ter certeza
15:54de que você
15:55gostaria de trabalhar
15:57com cultura,
15:58com arte,
15:59com isso que você
16:00trabalha hoje
16:00no Museu Afro Brasil?
16:02E você sabe
16:03que eu já entrevistei
16:04o Emanuel Araújo
16:04há muitos anos.
16:06Que coisa maravilhosa.
16:07Cris,
16:09eu sou poeta.
16:10Quando eu tinha
16:11nove anos,
16:13minha mãe veio aqui
16:13e falou,
16:15tá aqui um concurso
16:16pra você
16:17inscrever
16:18esse material
16:19que você
16:19tá preparando.
16:21Me inscrevi
16:22e ganhei o concurso.
16:23Olha,
16:24parabéns.
16:25Comecei a lançar...
16:25Nove anos?
16:26Sim.
16:27Os primeiros livros,
16:28eu fazia parte
16:29de um grupo de poetas,
16:30os primeiros livros
16:31nós lançamos ali
16:32em 99,
16:33se eu não me engano.
16:34Eu tenho 12 livros
16:35publicados.
16:36Então,
16:36essa minha paixão
16:37pela arte
16:38vem muito
16:39da minha mãe
16:40e do meu pai.
16:42Esse olhar,
16:42essa constância
16:43de levar
16:44os filhos
16:46para
16:46todos os museus,
16:49todos os teatros,
16:50todos os cinemas
16:51o tempo todo.
16:52Eu viajo
16:53pra ir a museus,
16:54eu viajo
16:55pra assistir peças.
16:56Eu fui pro Rio de Janeiro
16:57pra assistir
16:59uma peça
17:00recentemente.
17:01Então, assim,
17:02é uma paixão
17:03incrível.
17:04resolvi fazer jornalismo
17:06exatamente
17:07pra ficar mais próxima
17:08da escrita
17:09e conseguir.
17:11E aí,
17:11passei ali
17:12pela jornada
17:12de relações públicas,
17:14depois marketing,
17:15mas sempre olhando
17:16pra questão
17:18da arte,
17:18da sustentabilidade,
17:20que eu sou muito conectada
17:21com esse tema também
17:22e com diversidade,
17:25que eu gosto muito.
17:26Então,
17:27isso facilitou
17:28a minha chegada
17:29ao Museu Afro,
17:30que eu entrei
17:30clicando num link
17:32de vaga.
17:33Foi assim?
17:33Foi assim.
17:34Eu tava em recuperação
17:36em casa,
17:37olhando ali
17:38grupo de WhatsApp.
17:38Recuperação de quê?
17:39Eu fiz uma cirurgia.
17:40De uma cirurgia.
17:41Isso.
17:42E aí,
17:42eu olhei,
17:44tava com o tempo
17:45mais livre,
17:46tava olhando os grupos.
17:47Eu faço parte
17:48de um grupo
17:48chamado Best in Black,
17:50que reúne
17:52esses olhares,
17:52reúne pessoas
17:53negras
17:55com o objetivo
17:56de sair
17:58pra restaurantes,
18:00jogar golfe,
18:01jogar tênis,
18:02cada dia uma experiência.
18:03Nós fomos na Casa Cor
18:04outro dia,
18:05já foram ao Museu Afro,
18:06por exemplo,
18:07e eu cliquei
18:08nesse link.
18:09De princípio,
18:10eu olhei e falei,
18:11é uma vaga
18:11de diretoria executiva
18:12e eu venho
18:13de carreira de marketing,
18:14eu estava como CMO.
18:16Tive aquele
18:17pensamento
18:19e pensei,
18:20se eu fosse
18:20um homem branco,
18:22eu clicaria?
18:23Eu fui lá,
18:25cliquei no link
18:26e fui passando
18:27pelas etapas,
18:28foram bastante etapas,
18:30até ter a aprovação
18:31total do Conselho
18:32Administrativo.
18:33Então você já entrou
18:34como diretora executiva?
18:36Já entrei como diretora.
18:36O que foi esse ano?
18:37Dois meses.
18:38É, eu sei.
18:39Super recente.
18:41Super recente.
18:42Qual é o diferencial
18:43do museu?
18:44Por que quem está aqui
18:45nos assistindo
18:46deveria visitar
18:47o Museu Afro Brasil
18:48Emanuel Araújo?
18:50Cris,
18:51o museu,
18:52ele está falando
18:53da nossa história.
18:55Ele está falando
18:56da base
18:56que formou o Brasil.
19:00E é uma história
19:01que ela não é contada
19:03da maneira
19:03que deveria ter sido contada.
19:06A Flávia,
19:06lá da infância,
19:07que estava passando
19:08por aquilo,
19:09teria outros olhares
19:11sobre ela mesma,
19:13teria um orgulho
19:15enorme de saber
19:16que existem reis,
19:17que existem rainhas,
19:18que existe essa amplitude
19:21de conhecimento,
19:23de inovação.
19:24As rainhas negros,
19:26que você diz.
19:26Negros.
19:27Negros.
19:28Sim.
19:28As pessoas não falam
19:30para a gente
19:31sobre os faraós negros,
19:33não falam para a gente
19:35sobre as universidades
19:37que as primeiras
19:37estavam ali em África.
19:39Então,
19:40você saber
19:41dessa potência,
19:43saber o tanto
19:44de batalhas,
19:46de revoltas
19:47que aconteceram.
19:48Isso é uma falha
19:48na nossa educação?
19:49É uma falha.
19:50Desculpa ter te interrompido,
19:51mas é que me veio
19:52isso na cabeça.
19:53É uma falha.
19:54A gente tem uma lei
19:54que obriga
19:56os jovens
19:58a estudarem
19:58a cultura negra,
20:00a história negra,
20:02e ela não é
20:04aprofundada
20:05sob esse olhar.
20:06É necessário
20:07o treinamento
20:08de todos os professores,
20:10que a lei já existe.
20:12Ela só precisa
20:13ser cumprida.
20:14E isso transforma vidas.
20:17O brilho
20:17nos olhos
20:18das crianças,
20:19dois terços
20:20das pessoas
20:21que visitam o museu
20:22são crianças.
20:24Então,
20:24de 150,
20:25média de 150 mil
20:26pessoas ao ano,
20:27100 mil
20:28são estudantes.
20:30E o olhar
20:31dessas crianças
20:32vendo pela primeira vez
20:34retratos,
20:35pinturas,
20:37obras de artes,
20:38de artistas negros,
20:39entendendo
20:40o tamanho
20:41da inovação
20:42que, por exemplo,
20:43as ferramentas
20:44dos objetos
20:45de trabalho,
20:46as ferramentas
20:47utilizadas
20:47para o trabalho
20:48lá atrás,
20:49há séculos,
20:50eram produzidas
20:52por pessoas escravizadas.
20:54E isso já era
20:55inovação.
20:56Porque não é só
20:57moer,
20:59não é só
21:00cavar
21:01ou fazer
21:02o objeto
21:02do Ourives ali.
21:04Essas pessoas
21:05eram extremamente
21:06especializadas.
21:07É impressionante
21:08o seu brilho
21:08no olhar
21:09quando você fala
21:10sobre isso
21:11e me emociona.
21:12Sim,
21:13emociona muito
21:14porque o museu
21:15realmente emociona
21:16porque nós
21:17conseguimos
21:18encontrar
21:19uma parte
21:20de nós
21:20que estava
21:21faltando
21:22porque realmente
21:22nos foi tirada.
21:24Nós fomos tirar,
21:25nós viemos,
21:27nós fomos sequestrados
21:28de África
21:29e chegamos
21:31nesse país
21:32ou nesses
21:33continentes
21:33todos
21:34com história,
21:36com memórias
21:37que foram
21:38sequestradas
21:39junto.
21:39Eles separavam
21:40famílias,
21:41eles separavam
21:42casais
21:43para que não existisse
21:44essa força.
21:46E ali no museu
21:47existe esse resgate.
21:49Mostra a força
21:50e o papel
21:52da população negra
21:54como também
21:55constituinte
21:56essencial do Brasil.
21:57E aí você estava
21:58dizendo antes
21:58de eu te interromper
21:59que ter acesso
22:01a isso
22:02teria feito
22:03muita diferença
22:04naquela Flávia
22:05de 9, 10 anos
22:06de idade?
22:07Sim,
22:07porque o que
22:08me foi ensinado
22:09foi que foram lá,
22:11buscaram as pessoas
22:12negras,
22:13elas vieram
22:14tranquilamente
22:15para cá,
22:17não se revoltaram,
22:18não se rebelaram
22:19e ficaram trabalhando
22:21e o conhecimento
22:23era todo
22:24de quem estava
22:24mandando.
22:26Mas era isso,
22:27nós tínhamos
22:28artistas,
22:28nós tínhamos
22:29artesãos,
22:30nós tínhamos
22:30exímias
22:33cozinheiras
22:34culinárias,
22:35conectadas com a culinária
22:36e tudo isso
22:37pode ser visto
22:38no Museu Afro.
22:40Então assim,
22:41ali esse equipamento
22:42de cultura,
22:44nós respondemos
22:45para a Secretaria
22:46de Cultura e Economia
22:46e Indústria
22:47do Estado de São Paulo,
22:49esse equipamento
22:50ele deveria
22:51estar muito mais presente
22:54e eu tenho
22:55e eu tenho
22:55essa responsabilidade
22:56de levar o museu
22:58para todo o Brasil
23:00e para o mundo,
23:02principalmente o Sul Global
23:03e trazer o Sul Global
23:04também para o museu,
23:06intensificar essa troca,
23:08essa presença,
23:09porque tem muitas crianças
23:10que não conseguem
23:11vir para São Paulo.
23:13Então,
23:14uma das iniciativas
23:15que nós temos,
23:17essa responsabilidade,
23:18é levarmos o museu
23:20para fora
23:21da casa
23:23que ele ocupa.
23:24E vocês já estão
23:25fazendo isso?
23:26É um projeto
23:26que ainda vai acontecer?
23:28O projeto já acontece
23:29de diferentes formatos,
23:32hoje nós temos
23:33auxílio da tecnologia,
23:34então nos próximos
23:35três meses
23:36nós vamos entregar
23:38nos próximos três meses
23:40um projeto
23:42que leva jogos
23:45em iPads
23:46para as crianças
23:47da Zona Leste,
23:48para a fábrica de cultura.
23:49Então,
23:50tem muitos projetos
23:51acontecendo,
23:52exposições
23:53que são
23:54ou internacionalizadas
23:56ou levadas
23:58para outros museus,
24:00porque o acervo
24:02do Museu Afro
24:03tem oito mil obras,
24:05tem mais de oito mil obras.
24:08Então,
24:08nós não temos como expor,
24:09apesar de ser
24:10uma característica
24:11de Emanuel Araújo,
24:13a quantidade
24:13de obras
24:15que compõem
24:16uma expografia,
24:17a gente não tem
24:20como colocar tudo ali.
24:21Então,
24:21existe essa possibilidade
24:24bem ampla
24:25de levarmos
24:26o museu
24:26para muitos lugares,
24:28no Brasil
24:29e no mundo
24:29e o caminho
24:30do digital,
24:31da realidade virtual,
24:33da realidade aumentada,
24:35ele também traz
24:36essa possibilidade
24:38de que muitas crianças
24:39tenham um futuro
24:41diferente
24:41por se enxergarem.
24:44É muito bonito
24:45ver isso.
24:46Qual é o legado
24:47que você gostaria
24:48de deixar?
24:49Tanto você,
24:50Flávia Martins,
24:51quanto você
24:52como diretora executiva
24:53do museu.
24:54Eu quero ter certeza
24:56que eu impactei
24:57muita gente.
24:59Eu quero ter certeza
25:00que muita gente
25:01não teve dúvidas.
25:03A exemplo de uma pessoa
25:04que eu ia entrevistar
25:05e não chegou
25:07para a entrevista,
25:08eu fiz o RH ligar
25:10para saber
25:11o que aconteceu,
25:12a pessoa olhou para cima
25:13e não teve coragem
25:15de subir
25:15no prédio.
25:19Então, assim,
25:20existem muitos
25:21Brasis
25:22dentro do nosso Brasil
25:25e cada pessoa
25:27que enxerga,
25:29se enxerga
25:29como uma possibilidade,
25:32já justifica
25:32a minha existência.
25:34Esse é meu legado.
25:35Que lindo!
25:36E para a gente encerrar,
25:38o que significa
25:39para você ser protagonista
25:41da sua própria história,
25:43da sua própria vida?
25:45Flávia,
25:46protagonista,
25:47significa
25:48que a minha paixão
25:51valeu a pena,
25:52que os meus esforços
25:53valeram a pena,
25:54que as horas não dormidas
25:56valeram a pena,
25:57que os estudos
25:58valeram a pena,
25:59que muitas pessoas
26:00me trouxeram
26:02até aqui
26:03e me ajudaram
26:05com essa jornada.
26:06Então, a partir do momento
26:08que eu tenha companhias,
26:13tenha outras Flávias
26:15comigo,
26:16eu vou ter a certeza
26:17que eu sou
26:18protagonista da minha vida.
26:20Flávia,
26:20muito obrigada,
26:21prazer te receber
26:23aqui nesse quadro,
26:24obrigada mesmo.
26:25Uma delícia
26:26a nossa conversa
26:27e você me emocionou
26:28em muitos momentos.
26:29Obrigada, Cris.
26:30Obrigada, Cris.
26:30Obrigada, Cris.
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