00:00Vamos continuar com esse assunto. Eu havia antecipado que o presidente Lula autorizou o Itamaraty a iniciar uma formalização, na verdade, para aplicação da lei da reciprocidade,
00:13que foi aprovada no Congresso Nacional para ser usado contra qualquer outra nação.
00:18Agora, o que será discutido é justamente contra os Estados Unidos.
00:23Nós vamos entender melhor sobre os impactos dessa medida. Nós recebemos aqui Rodrigo Simões, economista, especialista e é professor também na Faculdade de Comércio aqui de São Paulo.
00:36Rodrigo, uma ótima tarde a você. Que bom conversarmos aqui ao vivo na Jovem Pan.
00:42Ainda há muita ignorância, na verdade, sobre este assunto, alguns discursos que não têm uma certa amarração.
00:50Então, existe uma resistência por parte do governo brasileiro em querer ter uma negociação ou, de fato, o governo americano não está a fim de negociar?
01:01Ótima tarde a você.
01:03Boa tarde, Bruno. E é sempre um prazer estar aqui com vocês da Jovem Pan.
01:07Bom, vamos lá. O que está acontecendo neste momento é o seguinte.
01:12É que, por um lado, existe um pedido da Presidência da República Brasileira para poder iniciar a análise, tá?
01:20Não é iniciar a aplicação da lei de reciprocidade.
01:23De reciprocidade é a análise, que é um estudo que leva um tempo para ser produzido,
01:29para a gente poder mensurar, de fato, quais são os reais efeitos sobre a economia.
01:34Então, esse é, para um lado, que o governo brasileiro está tentando tomar algumas decisões, algumas medidas.
01:41Do outro lado, o que o vice-presidente, o Geraldo Alckmin, que também é ministro da Indústria e Comércio Exterior,
01:48o que ele tem feito?
01:50Tem buscado conversar, chamar as autoridades americanas,
01:54chamar o Departamento de Comércio americano, junto com os empresários brasileiros,
01:59para poder tentar negociar.
02:00Esse pedido da Presidência, Bruno, ele, na verdade, é uma forma de alertar os Estados Unidos
02:06de que a gente também está se preparando para poder dar uma resposta, tá?
02:12Então, quando o país sofre um tipo de ataque desse, e veja que não é só o Brasil, tá?
02:18Isso é China, Estados Unidos, desculpa, é Índia, é União Europeia,
02:23todos os países voltaram para dentro e começaram a fazer as suas análises.
02:29Por quê?
02:30Porque essas tarifas, essas tarifas altas que vêm sendo implementadas pelo governo americano nos países,
02:36têm mexido muito com a produção, o setor produtivo, têm impactado nos empregos,
02:41e os países foram, foram à mesa para negociar.
02:46O que o Brasil está tentando é negociar de um lado e, por outro, Bruno,
02:51verificar o quanto que essas tarifas podem impactar aqui a economia brasileira.
02:57E nós aqui da Faculdade do Comércio também temos um estudo aqui pronto que eu tenho aqui
03:01para poder divulgar justamente para a gente entender o impacto, Bruno.
03:05A gente segue com esse assunto.
03:07Quero convidar o João Bellucci, que também está conosco no Fast News,
03:11para fazer uma pergunta.
03:12João.
03:14Professor, a gente sabe que a questão política é indissociável dessa questão das tarifas.
03:19A própria imposição dela pelo Donald Trump ocorre dessa forma.
03:21Mas nos discursos políticos, e pode-se dizer até, de certa forma, eleitorais que o Lula vem fazendo,
03:27a gente não observa de nenhuma forma um apaziguamento do tema.
03:30Pelo contrário, até no discurso que passou agora, ele acaba escalando o conflito.
03:34Você acha que isso acaba também deixando do lado americano a questão de
03:39não vamos negociar, porque cada manifestação que eu vejo dele na imprensa,
03:42me parece que não é o que ele quer negociar,
03:44que ele quer pôr mais gasolina nessa fogueira.
03:47Como que o senhor enxerga esse tema?
03:49Olha, é um bom ponto esse que você levantou.
03:54E o que acontece realmente é isso, é uma questão de comunicação.
03:57Por quê?
03:58Porque todo país, quando ele é retaliado, ele é forçado a dar alguma resposta diplomática
04:06em relação ao comércio, você tem um protocolo a seguir.
04:11Qual que é esse protocolo a seguir?
04:13Primeira de embaixada contra embaixada nos Estados Unidos.
04:16Então, assim, embaixada brasileira, conversa com a embaixada americana,
04:21não deu certo, sobe o escalão, vai para o governo, de fato,
04:25a linha de frente do primeiro escalão com o primeiro escalão do governo.
04:29E se isso também não funciona, você tem outras formas, outros mecanismos,
04:35junto à OMC, a Organização Mundial do Comércio,
04:38para você tentar levar no limite uma negociação
04:42para que o resultado seja favorável para ambos os lados.
04:45Agora, se isso não acontece, que eu acho muito difícil, tá?
04:49E aí você consegue, sim, dar uma resposta.
04:52Só que, claro, quando você vai dar uma resposta
04:55com um jogador do outro lado do tamanho da economia americana,
04:59você tem que ter muito claro qual é o tipo de resposta que você vai dar
05:03e qual é o impacto da sua resposta no setor produtivo brasileiro, nacional,
05:09porque isso interfere diretamente na geração de empregos, tá?
05:15Na dependência e no desempenho das empresas brasileiras
05:19que vendem para os Estados Unidos, tá?
05:21Que exportam ou que importam,
05:23tanto as duas frentes, as que importam, as exportadoras.
05:29E isso tem que ser feito e costurado com uma cautela, uma sutilidade.
05:34A gente ainda não tem os estudos prontos, elaborados.
05:37Nós aqui, a gente tem feito alguns estudos,
05:39por exemplo, quando a gente mensura índice de cobertura
05:42dos produtos americanos, tá?
05:46Proporção do PIB, repasse de pelo menos 60%,
05:51a gente já percebe aqui que pode haver,
05:55se nós decidimos retaliar na mesma medida,
05:59na mesma moeda dessas tarifas,
06:01e isso vai ter um impacto na inflação brasileira.
06:03E esse impacto na inflação brasileira,
06:05nós temos misturado aqui na Faculdade do Comércio,
06:08em torno de até 0,90%, tá?
06:110,90% direto no IPCA.
06:14Ou seja, vai encarecer, sim, uma parte dos produtos.
06:17Mas só que, em paralelo,
06:20o governo tem que correr para poder abrir outros mercados, tá?
06:23Porque também os produtos americanos, nós dependemos,
06:27mas eles também têm um alto valor, tá?
06:29Tem um alto valor de preço, né?
06:31Que não é barato comparado a outros países,
06:34nem comparado à Ásia, nem comparado à Europa, por exemplo,
06:38e também é muito mais caro do que os produtos similares
06:42aqui da América do Sul, Bruno.
06:44Sim, agora em relação a essa reciprocidade,
06:47qual é o sentimento das ruas do mercado financeiro?
06:50Esperam, almejam que, de fato, exista uma reciprocidade?
06:56Não existe um receio de uma retaliação quando subir o tom
07:00com essa reciprocidade, Rodrigo?
07:03Bruno, você sabe que essa sua pergunta,
07:05ela vai no ponto central de como os empresários,
07:10eles estão pensando no momento.
07:12Quando o Brasil trata esse assunto de retaliação,
07:16de tarifas, isso envolve muito, em boa parte, aliás,
07:21as grandes empresas, porque tem grandes gerações de empregos,
07:25você tem um grande consumo, né?
07:28Você exporta ali e importa algo em torno ali de 40,
07:3245 bilhões, que é o que eu mensurei aqui hoje
07:35através da Comex, que são os dados do MDIC.
07:38Então, assim, até o presente momento,
07:41é um volume muito considerado, tá?
07:43Então, isso você tem, pequena, média e grande empresa.
07:47Mas quando você vai para o mercado local, por exemplo,
07:49você vai para as pequenas e médias empresas,
07:51onde o empresário tem mais flexibilidade,
07:54eu estive acompanhando um case de sucesso esse mês aqui,
07:59de um proprietário de rede de academias,
08:01os produtos que ele iria comprar dos Estados Unidos,
08:05em que ele fez a cotação,
08:07e que ele decidiu comprar os mesmos produtos da Ásia e da China,
08:12já com a carga de impostos,
08:15os produtos ficaram 42% mais baratos, tá?
08:19Ele comprando esses produtos para essa área de fitness, né?
08:21De academia.
08:23Então, vejam só, 42% mais barato.
08:27O que o Brasil deve fazer?
08:29Tentar abrir negócio.
08:30Fazer uma boa negociação com os Estados Unidos,
08:34que é um grande parceiro que nós temos,
08:35nós não podemos abrir mão dos Estados Unidos,
08:38porque a gente tem muita empresa que praticamente 80%,
08:4190% do faturamento ou é de exportação ou é de importação,
08:45mas ao mesmo tempo chegou a hora do Brasil fazer também a lição de casa,
08:49abrir outros mercados,
08:51deixar de ser uma economia fechada,
08:54conseguir se posicionar bem no mundo,
08:56nesse novo mundo com esses novos desafios,
08:58e também atender o mercado interno.
09:01Por quê?
09:01Porque o mundo,
09:02o mundo globalizado e um defensor que eu sou da liberdade econômica,
09:07nós temos que fazer negócio com todos,
09:10com todos os países.
09:11Só que tarifas,
09:12ela vai ao contrário do que a teoria econômica diz, né?
09:18Uma tarifa excessiva,
09:20acima de 10%,
09:22você acaba causando um retrocesso nas relações comerciais, Bruno.
09:27A gente vai seguir, Júlia, acompanhando,
09:29assunto que vai render em muito.
09:31Rodrigo Simões,
09:32especialista da Faculdade do Comércio aqui de São Paulo,
09:36conversando com a gente para nos ajudar a entender um pouco mais
09:40sobre essa lei da reciprocidade.
09:42Nos próximos dias,
09:43a gente volta a conversar sim,
09:45porque assunto não vai faltar
09:47e muitas dúvidas também vão surgir, né, Rodrigo?
09:49Ótima tarde a você.
09:51Bruno, é sempre um prazer estar aqui com você
09:53e com toda a nossa audiência.
09:55Uma boa tarde.
09:56Ótimo final de semana.
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