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  • há 7 meses
Em “Filhos do Mangue”, feito na Barra do Cunhaú, no Rio Grande do Norte, o ator Felipe Camargo interpreta um homem que surge de repente, sem memória, numa comunidade ribeirinha e é acusado de muitos crimes que não lembra ter cometido.
Transcrição
00:00O que é esse?
00:15Repita!
00:17Gente...
00:18Quem é você?
00:19Eu?
00:23Eu caí, o quê?
00:28Mas tu não lembra?
00:30De nada?
00:31Não, não lembro.
00:34Eu não lembro de nada.
00:35E da tua filha?
00:37Rita, não lembra não?
00:38Fala quem tu é.
00:39Fala pra ele quem tu é.
00:41Eu sou a sua filha, Rita.
00:44Eu não lembro.
00:46Não lembra também do Menino Mais Eu?
00:49Quem?
00:50É um cara que perde a memória totalmente.
00:54Ele não sabe o nome dele, não sabe quem ele é.
00:56E as coisas vão meio que aparecendo como flashes na cabeça dele, mas ao mesmo tempo ele está sendo visto, ele está se olhando de uma maneira através dos outros que ele nunca se olhou na vida.
01:16Que nunca se viu na vida.
01:18E ele vai caminhando por um desespero enorme, interno, né?
01:23Da busca da identidade mesmo, né?
01:30É um cara que ele fala, nossa, eu sou esse monstro?
01:33Se a gente for falar um pouco da origem dele.
01:36Ele é um cara filho de um indígena e de uma mãe que no filme a gente não tem a menor ideia de quem seja.
01:45E ela pode ter morrido no parto, isso é uma coisa que foi muito conversada com a Eliane Café, né?
01:56A falta dessa mãe e a relação difícil que ele teve com o pai, talvez até de culpar um pouco ele, ou totalmente, pela morte da mãe no nascimento.
02:12E nunca ter dado carinho a esse filho, né?
02:16Então ele é um cara que tem uma origem de uma rejeição muito grande.
02:21Isso não é a justificativa para ele ter feito tudo o que ele fez.
02:26Mas é como que a rejeição, o sentimento de rejeição, ele pode também jogar o ser humano com uma fragilidade maior,
02:37ou uma, né?
02:41O sofrimento, entendeu?
02:43A dor.
02:44Como é que pode fazer o ser humano virar quase um monstro?
02:47Você queria me falar alguma coisa?
02:49Não.
02:49O que eu acho bacana nesse personagem é que essa possibilidade de desconstrução e reconstrução da personalidade dele,
03:16dos valores, pelo menos foi isso que eu tentei mostrar, assim, fazendo o pé do chão, quer dizer,
03:25tentei incorporar, né, esse buraco enorme que esse cara tem dentro de si.
03:33E aí eu acho que é muito legal, assim, o que a Eliane criou, né, dessa obra de arte, né,
03:44que ele cria, que ele começa, que na verdade ele nem sabe que ele tá produzindo alguma arte,
03:51mas eu acho que tá, né, naquela traquitana.
03:54É uma necessidade, assim, é, assim, inconsciente, né, desse cara botar pra fora dessa falta de orientação, né,
04:08de uma criação mesmo familiar, né, de uma estrutura familiar que esse cara nunca teve.
04:15Sinto um personagem muito rico, sabe, muito rico em contradições e essa questão da memória, né,
04:23se a gente perde a memória e essa memória meio que é resgatada pelo que os outros, como os outros veem a gente, né,
04:35é aquela história, né, que o inferno são os outros, né, é mais ou menos isso.
04:42Pode ser que o céu também seja os outros, né, mas eu acho que tem um pouco isso, assim.
04:48Sem medo das lembranças, são apenas lembranças, venha, filho, venha, sem medo.
05:03Mas o trabalho da Eliane, ele é todo baseado em denúncias, né, em vivências de não-atores,
05:11colocando suas vidas e suas questões ali, né, então, assim, pessoas que estavam ali, que estão fazendo filme,
05:21viveram aquelas situações, de alguma maneira, entendeu?
05:26E isso é... dá uma veracidade àquela história e também cria um desafio enorme pra nós,
05:38que somos atores também, é... a gente não ficar representando, sabe, o risco maior ali que eu sentia
05:47era de eu estar atuando com pessoas que estão falando quase que... estão falando a verdade ali, né?
05:57De repente você vem com maneirismos de interpretação que não valem, entendeu?
06:05Esquece!
06:06E, assim, uma das coisas mais fascinantes nesse filme, assim, pra mim, foi...
06:14e provocado pelo processo da Eliane Café, foi entrar em cena completamente sem saber mesmo o que ia acontecer, entendeu?
06:25É claro, né, que você não vira uma coisa inconsciente, vai, né, a gente sabe, tá em cena, tudo,
06:33mas esse fato, assim, de você ter o controle, quase controle nenhum, é muito instigante e...
06:45É a impressão mesmo de estar jogando num trapézio, assim, sem rede de proteção, sabe, muito claro, assim...
06:54E o barato é... o grande barato é se jogar.
06:58A gente não sabe de onde a gente veio e não sabe pra onde a gente vai.
07:01Eu, particularmente, acho que não veio, assim, né, nada, pum, apareceu, viveu, sofreu, amou, se entregou, criou, teve filho, trabalhou pra caralho, criou pra caramba, não sei o que, não sei o que, e pum, acabou de virar nada de novo.
07:20É, assim, eu não consigo aceitar isso e talvez essa não aceitação, né, ela aconteça com o ser humano de uma forma geral, né, e a gente acaba virando faminto mesmo, porque tá sempre com esse buraco, né, a gente tá sempre meio faminto, meio, é...
07:43Nós somos, assim, seres incompletos, né, e a gente tá sempre na busca de se completar, de se preencher, de entender, e que a gente nunca, isso nunca para, né, e se defender também, né, assim, tanto lá atrás quanto agora, a gente não para também de se defender, de sobreviver, né,
08:12Nós somos seres famintos demais, entende? Mas seria mais fácil, se fosse só a fome do corpo físico, vivendo, do servir, do alimento que os bichos nos ofertam, a natureza tem filho.
08:42Música
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