00:00Agora André, um dos maiores gargalos que nós percebemos na educação é o fundamental 2, ali começa a ter um problema muito sério, e principalmente parte desse gargalo é a ausência de professores especializados em temas, como química, física, matemática, como é que nós podemos suprir essa carência de professores capacitados?
00:23A ideia, a saída é o ensino tempo integral? O que nós temos que fazer para poder encorajar professores a ingressar nesses ensinos específicos para que nós possamos ter a quantidade de professores necessários para atender a demanda?
00:39Pois é, a gente teve essa discussão, eu acho que isso tem a ver com a organização do currículo primeiro, nós tivemos essa discussão com a reforma do ensino médio, em que em vez de ter uma série de disciplinas obrigatórias que tem que se aprender tudo,
00:57então a pessoa saia, o aluno saia do ensino médio com um conhecimento ralo, fino de uma opção de coisa, para fazer os itinerários, e deixar um pouco mais flexível com algumas disciplinas de currículo obrigatório, português, matemática, ciência e tal.
01:13Eu achava que com isso a gente já resolveria em parte esse problema.
01:19Então a exigência de ter que aprender essas disciplinas é porque você torna elas obrigatórias e as pessoas não terem um pouco essa flexibilidade de escolher.
01:31Mas dito isso, eu acho que em parte esses problemas vão ser resolvidos com a mudança demográfica que está ocorrendo, em que temos cada vez menos alunos chegando.
01:42Mas em outra parte, precisamos sim valorizar a carreira de professor, valorizar não só a remuneração, mas as condições de trabalho, e precisamos também aqui utilizar cada vez mais as tecnologias a nosso favor.
02:00Então eu acho que uma combinação de novas tecnologias em sala de aula com a valorização da carreira do professor, eu acho que a gente mitiga ao menos esse problema.
02:10E essa grande evasão muito preocupante no ensino médio, que isso vem estrangulando demais a capacidade e o aprendizado da nossa mão de obra para aumentar a produtividade do Brasil.
02:20Como é que nós vamos resolver a questão de produtividade e educação?
02:24Vou entrar já na produtividade, mas vamos primeiro para a evasão.
02:29A evasão eu acho que tem dois componentes.
02:31Primeiro tem um componente da atratividade do ensino médio para uma parcela dos nossos jovens, das nossas jovens.
02:38Não é atrativo para isso.
02:40Por que não é atrativo?
02:42Porque o que essas pessoas almejam não é o que encontra no ensino médio.
02:48Então a gente tem um ensino médio em que boa parte das pessoas que entram no ensino médio vão aprender competências, conhecimentos que não vão ser úteis para o mercado de trabalho, para a trajetória laboral dessas pessoas.
03:06O mercado de trabalho mudou, o mundo está mudando e ainda as nossas escolas, com o que se está ensinando, não está muito conectado com certas trajetórias laborais.
03:19E para essas pessoas não é interessante.
03:21Então eu acho que tem um lado sim de tornar o ensino médio atrativo, tornar mais conectado com o mundo do trabalho.
03:28A gente ainda não tem essa conexão.
03:31Começou esse esforço com a reforma do ensino médio, mas não foi adiante.
03:35Então essa desconexão precisa ser endereçada.
03:40E parte disso é aumentar o ensino profissionalizante, os cursos técnicos, como que você...
03:44Exatamente.
03:45A reforma do ensino médio de 2017, 18 não me lembro agora, a ideia era exatamente tornar a trajetória técnica profissional como a trajetória do ensino médio regular.
03:56E uma parcela desses jovens que já quisessem ingressar, como de fato acontece, a grande maioria já ingressa no mercado de trabalho durante e após o ensino médio,
04:07poderiam ter tempo para se dedicar a aprender habilidades e competências para essa trajetória.
04:15O que acontece é que até então o modelo era, você fazia o ensino médio regular, além disso, para além disso fazia o ensino técnico e profissional.
04:24Você dera o duplamente custoso para quem já queria ter competência para o mercado de trabalho.
04:29A gente tentou fazer isso no ensino médio, mas com a reforma, mas não implementamos bem.
04:34Eu acho que a gente precisa implementar bem essa reforma, não desistir dessa ideia de tornar o ensino médio voltado para competência e habilidades da trajetória laboral que as pessoas queiram fazer.
04:47Então, esse é um ponto.
04:49Mas, Felipe, tem um outro ponto da evasão, que é o fato de ainda uma parcela grande de nossos jovens serem, nas estatísticas, classificadas como nem-nem, nem estuda, nem trabalha.
05:03Quase que metade desses nenéns são mulheres e uma boa parcela porque engravidam.
05:13Então, esse é outro aspecto da gravidez precoce, que eu acho que também precisa ser endereçada, que explica, em parte, a evasão.
05:27E temos alguma política exitosa ou exemplar nessa área?
05:30Eu, particularmente, não conheço, mas o Brasil é cheio de experiências disso.
05:38Tendo uma dessas, tem toda a razão, olhar qual dessas estão melhor atacando esse problema, ver exatamente quais são os mecanismos que estão em operação ali e ver se pode torná-la em larga escala.
05:52Isso sim.
05:53Agora, queria voltar para a produtividade, pode ser?
05:56Vamos lá.
05:57Como é que eu vejo produtividade?
05:59Eu acho que a produtividade tem três aspectos.
06:02Tem a produtividade do trabalhador, tem a produtividade do posto de trabalho e tem o que eu chamo da produtividade do casamento do trabalhador com o posto de trabalho.
06:12Então, eu organizo, assim, meu raciocínio e produtividade nesses três aspectos.
06:17A produtividade do trabalhador é a habilidade do trabalhador.
06:21Então, eu estou trabalhando na Fundação Getúlio Vargas, eu vou trabalhar em alguma outra empresa, eu mudo de posto de trabalho,
06:30mas eu carrego comigo as minhas habilidades que podem ser úteis e produtivas lá.
06:35Então, essa é a produtividade do trabalhador.
06:37Obviamente, está associado com formação, educação, treinamento, seja educação formal, seja treinamento, local de trabalho,
06:45mas isso é a habilidade que eu carrego comigo.
06:49A produtividade do posto de trabalho é a produtividade do local de trabalho.
06:54Tem a ver com a tecnologia que é utilizada com o gerenciamento, com a organização, com a interação entre as pessoas.
07:00Então, imagine o seguinte, a pessoa, você trabalhando em um dado lugar, tem uma dada produtividade,
07:11uma outra pessoa vem trabalhar nesse mesmo lugar e tem o mesmo desempenho.
07:16Então, isso tem a ver com tecnologia, com a adoção de tecnologia e com o gerenciamento.
07:21E o terceiro é exatamente saber combinar aquela pessoa com aquela qualidade de competências com a qualidade do posto de trabalho.
07:33Então, a produtividade do trabalhador é o nosso sistema educacional, o que a gente está falando.
07:38A gente precisa melhorar esse nosso sistema, inclusive a produtividade do próprio sistema de educação.
07:44A qualidade do posto de trabalho é a adoção de tecnologia, ambiente de negócios.
07:51Como é que uma empresa vai investir em novas tecnologias se não tem um trabalhador qualificado,
07:58se não tem um ambiente propício para investimento,
08:01se não tem alguma segurança jurídica para que esse investimento,
08:07depois de um tempo, vai gerar os frutos para ela.
08:10Então, isso tem a ver com a adoção de tecnologia com o ambiente geral de negócios.
08:14E a combinação de que trabalhador vai para que ocupação,
08:19esse mercado, digamos, de intermediação entre empresas e trabalhadores,
08:24é um mercado de trabalho funcionar bem.
08:25Ser um mercado de trabalho bem regulado, fluido,
08:29que garanta uma proteção ao trabalhador,
08:31mas, ao mesmo tempo, garanta capacidade de adaptação,
08:35de inovação em tecnologia e de transição de postos de trabalho de trabalhadores,
08:41que garanta os ganhos de produtividade.
08:45Então, essa é a agenda de produtividade do Brasil, a meu ver.
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