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  • há 8 meses
A montanhista fala sobre como resolveu o problema criado por um companheiro de escalada que dificultou sua vida no Everest.

Assista à íntegra da conversa: https://youtu.be/qMqsfhP2AHA

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Transcrição
00:00Tem um aspecto no teu livro ali, que também me chamou muita atenção,
00:05que eu acho que tem a ver também com o que a gente está falando.
00:09Você até mencionou ali como é que é a experiência de lidar.
00:17Você, acho que foi absorvida aí pela grade 6,
00:22deixa eu fazer a correção aqui, que eu estava falando errado o nome,
00:25porque o Santalena viu aí em você uma forma de lidar com as pessoas,
00:32uma forma diferenciada.
00:33Você humaniza esse contato e isso naturalmente está associado a esse teu perfil,
00:41essa tua sensibilidade social, naturalmente.
00:47Como é que é, o quanto isso é importante, por exemplo,
00:51numa expedição como essa, você está ali todo mundo junto.
00:53E aí é o que você falou, que foi um ponto decisivo ali na tua subida.
00:58O teu guia não pode.
01:00E como é que é, se o teu colega também não pode?
01:04Todo mundo está junto, tem que descer todo mundo junto.
01:07Qual é o desafio de você subir em grupo?
01:11Poxa, eu fico aqui pensando, né?
01:12Quando a gente vai na CVC, para a Disney, ou para um cruzeiro,
01:18eu, para mim, no máximo eu viajo com dois casais,
01:24para mim já não dá mais, porque família tem que ir, todo mundo,
01:27vai para o café da manhã, todo mundo toma café da manhã, vai almoçar,
01:31tem todo mundo ir para a praia.
01:33Tem gente que gosta, tem gente que já é mais difícil.
01:37Qual é o grande desafio?
01:38Porque ali, naturalmente, a gente está falando de coisas que estão associadas
01:42a um risco de morte ali iminente, caso um tome uma decisão equivocada.
01:47Eu já vi, já assisti filmes que retratam isso de forma muito clara.
01:54Basta que um se desequilibre psicologicamente,
01:58resolva sair do grupo, resolva tomar uma decisão equivocada,
02:01que pode comprometer o grupo inteiro e até levar à morte de outras pessoas
02:05que estão ali dentro desse grupo.
02:08Faz todo sentido, Claudio.
02:09Você deu um exemplo excelente aí, né?
02:11Se a gente for a Disney em grupo, em família, né?
02:13Que a gente já se conhece, não sei quanto tempo, ou amigos íntimos.
02:16Ainda assim, a gente tem dificuldade.
02:17Toda vez que a gente fala em grupo,
02:19há uma dificuldade de buscar se aproximar de uma homogeneidade aí,
02:23de pensamento, de vontade, de interesse.
02:25Então, é difícil.
02:26O grupo é sempre heterogêneo, então é super desafiador.
02:29No entanto, existem alguns princípios que a gente pode adotar
02:32para garantir essa harmonia do grupo,
02:34essa tolerância entre os participantes,
02:35e mais que tudo, garantir segurança.
02:37No caso do Everest, uma coisa que é fundamental
02:40é que cada cliente, cada participante,
02:42conte com pelo menos um dia específico seu.
02:45Então, até o campo básico, claro, vai todo mundo junto,
02:47no mesmo grupo, mas no campo básico em diante,
02:49se tiver ritmos diferentes,
02:51vontade diferentes,
02:54não quiser ficar próximo, grudadinho com o outro,
02:56está tudo bem, dá para fazer.
02:57Até na barraca, às vezes a gente precisa compartilhar barracas,
03:01mulheres com mulheres, se não tiver casal,
03:03esse tipo de coisa,
03:04mulheres que compartilham a barraca dupla,
03:06homens em outra barraca dupla,
03:07e às vezes eu não estou me dando bem com essa parceira na barraca.
03:11A gente tem que conversar na operação,
03:12tem como trocar de barraca,
03:13porque a questão emocional vai ser determinante,
03:17se a gente vai seguir em frente, se vai voltar,
03:19se vai ter sucesso, não vai.
03:20Todo mundo tem que estar bem fisicamente,
03:21todo mundo tem que estar bem tecnicamente,
03:24mas o que vai determinar sucesso é o emocional.
03:28A gente não pode aceitar que uma questão emocional
03:31de relacionamento abale a nossa empreitada,
03:33o nosso desempenho e a nossa segurança.
03:35A gente tem que resolver,
03:36o princípio aí é dialogar,
03:38é resolver enquanto há tempo.
03:40Eu, por exemplo, Claudio,
03:41tinha uma questão muito grave
03:43de lidar pela primeira vez com o machismo na montanha.
03:47Eu já atuava, quando eu fui para o Everest,
03:49eu já trabalhava há 10 anos como guia de montanha,
03:52já praticava sem montanhas por esse período,
03:54todo, mas foi a primeira vez que eu tive contato
03:56com o machismo nesse tipo de ambiente,
03:58porque eu achava que as pessoas iam para esse lugar
04:00com uma filosofia de humanização,
04:02de somos iguais, de todos podem,
04:04essa era a teoria que eu tinha na minha cabeça.
04:05Mas não, a montanha é reflexo da nossa sociedade,
04:09o que a gente vive lá é reflexo da que a gente vive na cidade também,
04:12se na cidade tem machismo, lá também tinha.
04:15Foi curioso, porque eu demorei para entender,
04:17para interpretar aquilo como sendo real,
04:20mas ficava lá na minha barraca, refletindo, pensando,
04:23por que ele estava me tratando desse jeito,
04:24ele tratava a mim e a outra mulher do grupo
04:27de maneira muito hostil, agressiva,
04:29a mesma frase que ele falava para mim agressivamente,
04:32ele falava com outra colega do grupo,
04:33um homem, de maneira delicada,
04:35sutil, suave, amável, amistoso,
04:39e eu achava que,
04:40nossa, mas será que eu estou interpretando mal?
04:42E eu não dialogava com ninguém do grupo sobre esse assunto,
04:44porque eu achava que por estar naquele ambiente hostil,
04:48estava mais sensível,
04:49e talvez eu estivesse interpretando mal
04:51aquela pessoa ali do grupo brasileiro.
04:53Mas, dali uns dias, ele se revelou,
04:56ele se abriu no refeitório,
04:57quando estava todo mundo no grupo,
04:59ele me agrediu verbalmente,
05:01e todo mundo,
05:01opa, o que está acontecendo?
05:02Por que disso?
05:03E aí colocaram ele no lugar dele,
05:05e a partir dali eu pude realmente neutralizar ele e entender.
05:08É isso mesmo, eu entendi errado,
05:09eu entendi certinho,
05:10e você não vai mais interferir na minha empreitada.
05:13Eu estava sendo moída,
05:15especialmente por aquela interpretação,
05:17aquilo estava me prejudicando na minha expedição,
05:18mas quando eu consegui perceber
05:19que eu não estava errada não,
05:21e que todo mundo estava percebendo
05:22que, poxa, estava a meu favor,
05:24rolou ali um certo suporte emocional,
05:26eu pude seguir em frente
05:27e focar no meu objetivo,
05:29esqueci esse cara,
05:29ele ficou neutralizado na minha realização.
05:34O que você falou para ele?
05:38Ô Claudio,
05:39eu não vou falar aqui literalmente o que eu falei,
05:42porque a única forma que eu encontrei
05:43para neutralizar...
05:44Nesse horário tem alguma restrição,
05:47mas a gente conhece...
05:48Não tem problema.
05:50Mas é necessário esse pipi mesmo,
05:52porque de fato eu tive que falar um palavrão para ele,
05:54eu falei,
05:55vai para aquele lugar
05:55e eu sou tão cliente aqui quanto você,
05:58eu não estou aqui trabalhando,
05:59eu não estou aqui como guia,
06:00eu não estou representando a operadora de montanhismo,
06:02eu trabalhei tanto ou mais que você
06:03para estar aqui
06:04e ter direito de estar nesse lugar.
06:06Então fica na sua,
06:07me deixe em paz
06:08e me esquece, cara.
06:10Eu não estou competindo com você,
06:11se você está competindo comigo,
06:12é problema seu,
06:14não me atrapalhe,
06:15vou em frente.
06:15Esse machismo está associado
06:18a uma percepção equivocada
06:19de que a mulher é mais frágil,
06:21não vai conseguir subir,
06:23vai me prejudicar,
06:24porque a gente está no mesmo grupo,
06:25quando chegar lá em cima
06:26eu vou ter que...
06:27vai acabar inviabilizando a minha subida,
06:30é isso?
06:31Um pouco disso sim, Claudio,
06:33mas em alguns momentos
06:34eu percebi aquela fala dele
06:35que ele estava preocupado
06:36que ele estava recebendo
06:37uma visibilidade
06:38que ele não estava tendo.
06:41Ele tinha um ego ali muito...
06:43Nossa, invejinha, hein?
06:46Invejinha no...
06:46Invejinha no Everest, pô.
06:51Ridículo, ridículo, ridículo.
06:52Desnecessário, desnecessário.
06:53Mas o que eu interpretei
06:55e os demais também perceberam
06:57exatamente a mesma coisa.
06:58Principalmente, Claudio,
07:00depois que...
07:01Enquanto eu estava em expedição,
07:03houve ali a aparição
07:03de um programa de TV
07:04numa rede forte aí,
07:06de televisão,
07:08TV aberta,
07:08e eu apareci naquele programa,
07:09o número de seguidores aumentou muito,
07:11ele começou a se incomodar
07:13até com isso.
07:13Eu não estava nem preocupada,
07:15não estava preocupada com nada disso, gente.
07:17Tem coisa muito mais relevante
07:18para se preocupar.
07:19Mas ele se incomodou
07:21com cada parte que acontecia,
07:23que dava visibilidade a mim,
07:24ele estava incomodado demais, demais.
07:26Olha só, né?
07:27Imagina...
07:28Olha como é que a coisa é sensível, né?
07:31Então, de repente,
07:32você está lá,
07:32focada na missão,
07:34aí você tem que
07:34ter controle emocional
07:37para lidar com esse tipo de assédio, né?
07:40Não deixa de ser um assédio,
07:42uma pressão psicológica
07:43e um tratamento...
07:45Cara, é complicado.
07:46Você já tinha sofrido
07:47esse tipo de machismo
07:50em outras ocasiões
07:52ou foi realmente pontual nessa?
07:54Foi muito pontual.
07:55Eu confesso que,
07:57se houve algum momento anterior,
07:58foi tão velado que nem percebi.
08:00Esse foi pontual,
08:01direto, claro e repetido.
08:03Então, não tive como fugir,
08:05perceber e aceitar.
08:06Existe sim, existe.
08:07E aí
08:12E aí
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