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  • há 6 meses
A montanhista Aretha Duarte, primeira latino-americana negra a escalar o Everest, fala sobre as montanhas mais desafiadoras do planeta.

Assista ao programa completo: https://youtu.be/qMqsfhP2AHA

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Transcrição
00:00Como é que é voltar para a civilização? Você correu no salão de beleza, você correu no celular, ou você não quer saber de celular, ficou irritada com o barulho da cidade? Como é que é ficar aí esse tempo todo no silêncio e depois voltar para a civilização?
00:18Interessantíssimo, é um desafio readaptar, porque de fato a gente tem muito menos pessoas para interagir ali. Eu escalei em 2021, a gente estava ainda em pandemia, a gente não podia ter contato com outras operações, com outros grupos ali no campo base, então eu basicamente tinha contato com a minha operação, com os nepaneses que estavam trabalhando com a gente, mas os outros cinco brasileiros que estavam tentando escalar na mesma ocasião.
00:40E quando eu volto para a cidade, a primeira coisa que eu falei para minha mãe, mãe, não avisa a data que eu estou chegando, porque eu não posso gerar aglomeração e nem estou em condição, com mente, com cabeça, para lidar com tanta gente.
00:52Eu tenho certeza, pelo número de mensagens que eu tinha no Instagram, gente, eu não conseguia responder ninguém e eu gosto muito de dar atenção adequada, de qualidade, eu não estava conseguindo mentalizar.
01:03Eu morria de saudade da minha mãe, da minha família, do namorado, dos sobrinhos, dos irmãos, da avó, das amigas. Então, a primeira semana após a Everest, no dia seguinte eu dei uma coletiva de imprensa, falando de como tinha sido e tentando divulgar aí os meus sentimentos, mas na semana seguinte eu pedi férias.
01:21Eu fui para a área rural e com o namorado para ficar ali isolado um pouquinho para tentar me reconectar.
01:26Até as atividades físicas eu demorei para voltar a fazer. Eu fiquei mais ou menos três meses sem vontade de treinar, sem vontade de olhar fotos, sem vontade de olhar os vídeos que eu tinha feito lá na montanha.
01:37A gente veio com uma baixa emocional, com uma baixa física muito grande, a gente foi tanto demais.
01:41Mas depois eu me recuperei e me reorganizei até do ponto de vista de hormônio, de vitamina, porque o nosso corpo realmente sofre demais na montanha.
01:52E aí eu voltei às minhas atividades normalmente. Mas, de fato, a gente precisa desse momento de descanso e é super desafiador, porque estava todo mundo querendo saber o que é que tinha acontecido, como é que tinha sido.
02:01É frustrante depois de você voltar para o dia a dia e fazer guia de subir a montanhazinha ali de mil metros só, de 1.500?
02:15Não é não, Claudio, não é não. Eu respeito bastante cada montanha. Eu costumo dizer que nenhuma montanha é fácil, é limitar.
02:22Você falou aí das suas experiências em Brasília e no Rio de Janeiro. Eu digo que toda montanha é 15 desafios, sim.
02:27A gente é dependente da nossa condição naquele dia, como é que a gente está, a condição climática naquele dia.
02:32Você falou aí de um acidente que você sofreu e quase não pôde voltar para casa.
02:36Então, a gente tem que sempre respeitar. Qualquer tipo de obstáculo é um tamanho obstáculo e eu respeito cada uma delas.
02:42Diria até que o Everest não é a montanha mais difícil de ser escalada, apesar de ser a mais alta, não é a mais difícil, não.
02:49Qual é a mais difícil?
02:50Não tem. Não existe mais difícil. Eu diria que, por exemplo, tecnicamente falando, existe algumas claras para a gente,
02:56com quanto maior dificuldade. Por exemplo, a face sul da Concagua, um K2 no próprio Malay.
03:01Então, a face sul da Concagua, a Concagua está ali na Argentina.
03:06Está a 6.962 metros. Eu estalei quatro vezes, mas não foi a face sul, eu fui pela roda noroeste, pela roda tradicional.
03:14Mas a face sul, que pouquíssimos brasileiros conseguiram, na verdade, foram dois brasileiros que conseguiram fazer e voltar até hoje.
03:20É uma face mais técnica, muito mais baixa, mas muito mais difícil tecnicamente.
03:23Existem montanhas com um pouco mais de risco de avalanche, montanhas com mais gretas.
03:28O Denali, por exemplo, que está no Alasca, é uma montanha mais difícil fisicamente, porque você tem que carregar mais carga,
03:34você não conta com carregador, você não conta com mais estrutura.
03:37A gente tem que carregar aproximadamente 50, 80 quilos entre trenó e mochila.
03:41Inclusive, é uma montanha que eu quero visitar em 2023 ou em 2024.
03:44Mas a mais difícil é difícil encontrar, depende muito.
03:49Qual a avaliação? É a atitude? É a técnica? É o peso?
03:52É o seu dia? É a sua estrutura? É a sua condição? É a condição climática?
03:57Então, são muitas possibilidades para garantir dificuldade aí na expedição.
04:00Eu vejo muitos esportistas que acabam se viciando na adrenalina do desafio e de se desafiar.
04:14Isso, muitas vezes, acaba levando o sujeito ao limite e à morte.
04:20Como é que você lidar com isso?
04:21Você sente essa coisa de estar sempre, depois de um desafio desse, qual é o meu próximo?
04:25Qual é a próxima montanha?
04:28E aquilo virar uma espécie de vício, uma droga, né?
04:32Porque, afinal, aquilo mexe muito com o emocional, mexe com a parte, com toda a nossa fisiologia,
04:39parte bioquímica.
04:41E é isso, né?
04:42Você tem muito prazer, depois você tem a baixa ali, tem a bad trip, muitas vezes.
04:49Mas é uma coisa muito comum, especialmente em quem faz esporte radical.
04:54que tem esse perigo envolvido, porque o nível de adrenalina é muito constante, é muito alto.
05:02E isso vai se retroalimentando, né?
05:06Como é que você sente isso?
05:07Como é que você lidar com isso?
05:09Você conhece gente que já se estrepou por se desafiar demais na escalada?
05:17Perfeito, perfeito.
05:18Eu acredito que eu não tenho esse sentido em minha vida, não tenho.
05:23Porque, de fato, eu sempre que vou pra qualquer prática, qualquer expedição,
05:26eu tô muito focada no verdadeiro público, que pra mim é a minha casa,
05:30que eu sou muito preocupada com segurança,
05:32de sim, ter bom desempenho, mas poder voltar pro meu lar.
05:36Então, eu não sou viciada nisso e nem penso que alguma montanha pode ser mais desafiadora do que a outra,
05:41não acho que uma montanha pode ser mais desafiadora do que a outra,
05:43eu sempre respeito entendendo que todas elas têm o seu desafio.
05:46Mas já encontrei pessoas que, de fato, mesmo arriscando a vida,
05:51mesmo sendo bastante diverso, mesmo todas as características ali dizem pra ele,
05:56é hora de voltar, ele ainda vai em frente, ele quer executar, ele quer superar um limite,
06:01mesmo estando na melhor condição, nos melhores princípios ali pra seguir em frente.
06:06Alguns voltam, alguns já voltaram, alguns tentam novamente,
06:10eu acho preocupante isso, acho bastante preocupante,
06:13porque às vezes não tá arriscando somente a vida dele,
06:14tá arriscando a vida de todo o seu entorno,
06:16tá arriscando a confiança que a família, de repente, deu nele,
06:20e que os profissionais envolvidos na expedição ali aplicaram nele,
06:25mas é cada um com o seu cada um, né?
06:27É muito difícil avaliar o objetivo do outro,
06:29é muito difícil avaliar o que passa na mente e no coração de cada um,
06:32eu respeito todos eles, mas ainda assim digo que, por exemplo,
06:35em relação a Everest, Cláudio, eu nunca, eu, Aretha, particularmente falando,
06:40eu nunca venderia essa expedição, eu, Aretha, nunca guiaria alguém comercialmente.
06:45Eu gostaria de voltar pro Everest, eu poderia voltar com um colega,
06:48com um amigo, como parceiro, mas eu não levaria comercialmente,
06:52porque eu entendi que ali existe risco de morte, sim,
06:55esses coisas que estão completamente fora do nosso controle,
06:57e eu não conseguiria, eu não teria voz, eu não teria condição,
07:02de dar uma notícia dessa pra um familiar.
07:06Eu iria com o parceiro, mas comercialmente não.
07:09Você ainda tem vontade de voltar?
07:11Voltaria, tendo oportunidade, eu voltaria com certeza.
07:14É incrível aquela montanha, é transformador de novo.
07:17Eu não sei se você já perguntou pro Santa Helena,
07:18ele foi três vezes, por que ele foi três vezes?
07:22Eu acho que o Santa Helena é esse tipo aí que gosta de adrenalina.
07:25E a experiência é sempre única também.
07:29Cada experiência é sempre muito específica, especial.
07:33Ele foi algumas vezes, claro, trabalhando, ele guia algumas pessoas lá,
07:37mas se ele tivesse oportunidade, ele esclararia todas as montanhas
07:40acima de oito mil presentes no planeta, né?
07:43São quatorze montanhas acima de oito mil.
07:45Eu não tenho esse desejo, eu não tenho esse projeto,
07:47mas a Santa Helena tem, e com certeza ele vai fazer se houver oportunidade.
07:51A Santa Helena tem, e com certeza ele vai fazer se houver oportunidade.
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