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  • há 8 meses
A montanhista Aretha Duarte fala sobre as dificuldades que enfrentou para conseguir praticar o esporte.

Assista à íntegra da conversa: https://youtu.be/qMqsfhP2AHA

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Transcrição
00:00Você já sofreu racismo na tua prática esportiva e profissional?
00:05Perfeito. De maneira individualizada, não, Claudio.
00:08Também posso dizer que nunca havia percebido nenhum tipo de racismo.
00:10O que eu posso dizer é que, naturalmente, eu sofro, sim, o racismo estrutural,
00:14no sentido de que as pessoas negras têm maior dificuldade de praticar algumas atividades,
00:19como, por exemplo, a prática do montanhismo,
00:21que exige da gente um alto investimento financeiro,
00:24as pessoas negras, de modo geral, são mais marginalizadas,
00:26têm menos acertos a muitas coisas,
00:27porque, historicamente, está comprovada a motivação, o motivo disso.
00:31O racismo estrutural, sim, mas essa coisa individualizada, direta, clara, verbal, não.
00:37Nem na montanha, nem fora dela.
00:40Que bom, fico feliz.
00:41Porque a gente está... Por isso que é tão importante colocar aqui...
00:46A primeira está na capa do livro.
00:50Bota aqui, cadê? Põe aqui.
00:52Está na capa do livro.
00:53Para quem não está enxergando, aqui,
00:55a primeira brasileira negra a escalar a montanha mais alta do mundo.
00:59Por que é importante?
01:00Porque a gente está falando...
01:02Você, Aretha,
01:07assim como milhões de mulheres e mulheres negras,
01:13quando a gente fala de qualquer questão envolvendo mercado de trabalho,
01:17de uma maneira geral,
01:18envolvendo qualquer tipo de aspecto da sociedade,
01:21envolvendo violência de gênero,
01:22é aquela história.
01:25Você tem a escala da mulher,
01:27você tem o machismo,
01:29e você tem o machismo associado ao racismo.
01:32A mulher negra acaba sendo aí
01:33essa...
01:35figura mais marginalizada
01:41desse setor, vamos dizer assim,
01:44desse setor, não,
01:45dessa parcela da sociedade
01:48que já é marginalizada.
01:49Então, é um desafio ainda maior,
01:53é complexo,
01:57é problemático,
01:59e a nossa sociedade parece que tem uma dificuldade
02:04de olhar para si mesma e enxergar isso.
02:06Sim, é sim.
02:08A nossa sociedade, de modo geral,
02:09é toda ela muito preconceituosa,
02:12muito racista.
02:12A mulher negra é dita como sendo a mulher sempre forte,
02:16sempre resistente,
02:17ela suporta qualquer coisa,
02:18as pessoas esquecem que a gente tem sentimento,
02:20que a gente é ser humano,
02:21a gente é sensível,
02:23as pessoas esquecem que a gente tem capacidade
02:24de cumprir qualquer tipo de função,
02:26desde que seja dado instrumentos para a gente,
02:28oportunidade de a gente se capacitar.
02:31De modo geral,
02:32toda vez que alguém...
02:33Se eu pensar numa médica,
02:34eu jamais imagino uma médica negra,
02:36se eu pensar numa astronauta,
02:37eu jamais penso numa astronauta negra.
02:40Sempre que eu penso numa doméstica,
02:41eu imediatamente penso numa mulher negra.
02:43Então, eu coloco as mulheres negras
02:45em determinadas colocações.
02:46Eu não estou dizendo que algumas dessas funções
02:48não são dignas de serem cumpridas.
02:51Todas elas são muito dignas.
02:52Mas a gente sempre coloca a mulher negra
02:54numa caixinha XYZ,
02:56quando a gente, na verdade,
02:56deveria ter oportunidade de praticar qualquer coisa,
02:58de ocupar qualquer lugar.
03:00É uma batalha.
03:02Há muito a crescer,
03:03é muito a entender.
03:04É uma batalha, sim.
03:06É muito curioso, né?
03:08Sei lá, estou aqui.
03:09Sou diretor de um veículo de comunicação independente,
03:13vou contratar um setorista de judiciário,
03:18que é uma coisa muito específica.
03:20É a especificidade da especificidade de uma cobertura.
03:23Aí, quando você vai olhar,
03:24você não encontra.
03:26Eu sou casado com uma negra
03:29e, assim,
03:32eu sei o quanto isso é marcante.
03:38A nossa filha nasceu branca de pele,
03:41e, assim,
03:45passamos diversas vezes por situações
03:47de alguém virar,
03:50eu estou longe,
03:51a minha mulher está sozinha com a minha filha,
03:53e aí alguém vira e fala assim,
03:55ah, é sua filha, né?
03:56É sua filha?
03:57Sempre com aquele preconceito embutido.
04:01E isso causa uma revolta enorme.
04:05E é muito curioso,
04:06porque ela tinha muita dificuldade de se...
04:09Por isso que eu te perguntei,
04:10o que você respondeu?
04:11Porque, assim,
04:12ela tinha muita dificuldade de reagir a isso.
04:15porque é muito difícil, né?
04:18Já é difícil para uma mulher normal,
04:19para uma mulher negra,
04:20é mais difícil ainda
04:21você ter essa reação estruturada,
04:25você ser capaz de reagir
04:27no mesmo nível ali,
04:29ou, assim,
04:29de se colocar,
04:31de se colocar efetivamente
04:32e pedir o respeito a você
04:36e a quem está com você.
04:38E hoje ela já está com a língua mais solta,
04:42para a sorte nossa.
04:46E é o seguinte, né?
04:47A gente realmente é preciso reagir
04:49quando necessário,
04:52quando, né?
04:53Em situações desse tipo.
04:55E é muito curioso, né?
04:56Situações, assim,
04:57vai, né?
04:59Às vezes você sai,
05:00você sai mais largado, né?
05:02Bota uma bermuda,
05:03bota um chinelo,
05:05uma havaiana,
05:06e aí é muito diferente, realmente, né?
05:09Então, assim,
05:09a gente já passou por situações também
05:11de passar numa loja
05:12e aí entra,
05:13está de chinelo,
05:14está não sei o quê,
05:15o tratamento é diferente.
05:16Se você entra bem arrumado e tal,
05:18o tratamento é outro.
05:19Então, também tem essa questão
05:22desse preconceito
05:25que envolve uma questão de classe, né?
05:29Envolve uma questão financeira, né?
05:33Então, se você se dá muito bem,
05:34se você é negro,
05:35se está muito bem,
05:36se está com carrão,
05:37também já tem gente que olha
05:39e já vê aquilo com...
05:41Como é que conseguiu, né?
05:42Como é que conseguiu esse carrão aí?
05:44Jogador de futebol?
05:46Ou é artista?
05:48Ou como é que é, né?
05:50Ou como é que conseguiu,
05:51exatamente, isso?
05:53Gente, é no detalhe
05:55que esse racismo estrutural se revela.
05:59Muitos se negam a admitir isso
06:02e muitos não têm a experiência,
06:08não têm o contato suficiente
06:11para perceber a existência disso.
06:13Então, nega essa existência,
06:16mas, assim,
06:17é uma postura realmente
06:19que precisa ser modificada
06:21na sociedade como um todo.
06:22A gente precisa se enxergar,
06:24a gente precisa se enxergar
06:25como um povo miscigenado, né?
06:28O Brasil é uma sociedade
06:30absolutamente miscigenada
06:31e isso é maravilhoso, né?
06:34A gente considera
06:36tudo que está envolvido nisso
06:37e toda a grandeza
06:39que faz com que o Brasil
06:40seja rico em todos os sentidos,
06:42culturais, sociais.
06:46Então, assim,
06:46eu queria primeiro te dar
06:48parabéns pela tua trajetória,
06:51por você se colocar
06:53da forma como você se coloca,
06:55de você se enxergar
06:58como uma referência.
06:59Eu acho que,
07:00quanto mais aretas existirem,
07:04melhor para todos nós.
07:06Maravilha, Cláudio.
07:07Muito obrigada, muito obrigada.
07:08De fato, é um desafio
07:10para a gente,
07:11enquanto pessoa negra,
07:12é um desafio estar o tempo todo,
07:13tendo que ser combatente,
07:15é sofrido,
07:15é estudante,
07:16é dolorido,
07:17é ruim,
07:18é esgotante,
07:19é esgotante.
07:20Mas todos nós
07:20temos a corresponsabilidade
07:21de garantir
07:22essa mudança de mentalidade,
07:24de acabar com qualquer tipo
07:25de racismo.
07:27O racismo estrutural
07:28tem que ser aniquilado
07:29e todo mundo pode participar,
07:31tem que ser um antirracista
07:32efetivamente.
07:33Então,
07:34é necessário,
07:35é necessário para a coisa mudar.
07:38Mas o que eu quero,
07:39de verdade,
07:40é que a gente entenda
07:40que a pessoa negra,
07:41de algum modo,
07:42promoveu o Brasil.
07:43O Brasil é o que é Brasil,
07:45porque lá atrás,
07:46se a gente revisitar
07:47a nossa história,
07:48a pessoa negra,
07:50o afrodescendente trazido
07:51lá atrás,
07:51é que trabalhou,
07:52é que batalhou
07:52para que isso aqui
07:53fosse construído.
07:54E sem receber,
07:55e sem remuneração.
07:55Então,
07:56é importante a gente relevar,
07:57relevar no sentido
07:58de valorizar
07:59toda essa população
08:01e ser respeitado.
08:01Vamos parar de olhar
08:02para a cor da pele
08:03e dizer que é isso
08:04que é aquilo.
08:04A cor da pele
08:04não representa nada.
08:07Nada.
08:07É o que está por trás,
08:08é o valor,
08:09é o princípio,
08:10é o respeito
08:10que é necessário prevalecer.
08:12Vamos construir
08:13uma sociedade
08:13cada vez mais
08:15relevante
08:17e, de fato,
08:18que respeite.
08:20É isso.
08:20Vamos se respeitar,
08:22se amar.
08:23Isso vale
08:24para tudo,
08:26isso vale para tudo.
08:28E, olha,
08:29Aretha,
08:31primeiro,
08:32mais uma vez,
08:33eu tinha te falado
08:33antes da gente começar
08:34como é importante
08:36você contrariar
08:37as estatísticas.
08:38E a gente
08:39está num momento
08:41muito bom,
08:42eu acho que,
08:43da produção intelectual,
08:44da produção
08:45cultural,
08:46isso aqui
08:47é importante.
08:49Então, assim,
08:49a gente trazer histórias
08:50como a sua
08:51para abrir
08:53a cabeça
08:53de muita gente,
08:54inspirar
08:55tantas mais.
08:56Aliás,
08:57a minha filha ontem
08:58viu esse livro,
08:59porque o livro
08:59chegou para mim ontem,
09:00então,
09:01eu estou terminando
09:02de ler.
09:03O livro chegou
09:04para mim ontem aqui,
09:05está marcado aqui,
09:06já estou aqui
09:06quase terminando.
09:09Aí,
09:10a minha filha
09:10que está se alfabetizando
09:11agora,
09:12está fazendo sete anos
09:13esse mês,
09:14ela leu,
09:16aí perguntou
09:17o que era Everest,
09:18aí eu expliquei
09:18para ela o que era Everest,
09:20aí ela,
09:21papai,
09:21depois você me empresta
09:22para eu ler o livro?
09:23Aí ela viu o livro.
09:25Eu falei,
09:25com maior prazer.
09:26Fantástico,
09:28fantástico.
09:29Claudio,
09:29você sabe que eu estou com...
09:31Deixa eu te falar,
09:32deixa eu te falar,
09:33eu falo muito também,
09:34então,
09:35você me perdoa.
09:36Mas, assim,
09:37quando ela estava
09:38na barriga da minha mulher,
09:40a gente fica naquela discussão,
09:41né?
09:41Pô,
09:41nome,
09:42nome,
09:42nome,
09:43nome.
09:43Aí,
09:44para mim,
09:45estava muito claro,
09:45o nome dela vai ser Serena,
09:47em homenagem
09:48a Serena Williams.
09:49e eu achei
09:50que ela fosse vir,
09:51né?
09:54Negra e tal,
09:55e forte,
09:57daquele jeito ali e tal,
09:58e ela veio linda,
10:00forte,
10:00mas branca,
10:01igual a neve aí do Everest.
10:06E aí,
10:06foi muito engraçado.
10:08Eu falei,
10:08cara,
10:08não tem esse negócio,
10:10não,
10:10vai ser Serena.
10:12E a gente brinca com isso,
10:14sorri de tudo isso,
10:15mas com a consciência
10:16muito clara,
10:17né?
10:18de que a gente é tudo isso,
10:20né?
10:20E é essa a nossa mistura
10:23que faz com que a nossa sociedade
10:26seja tão rica
10:28e o quanto é importante
10:29a gente valorizar isso.
10:31Que incrível saber
10:32que a Serena veio
10:33nessa família tão incrível
10:34de respeito,
10:35viu, Claudio?
10:35Parabéns,
10:36parabéns.
10:37Ela é Serena na força,
10:38ela é Serena na força
10:39e vai representar.
10:40Esse livro aqui,
10:41eu escrevi para adultos,
10:42mas o meu sonho inicial
10:43era sonho infanto-juvenil.
10:45Então,
10:46quem sabe em 2023
10:46a gente consiga converter
10:47em livro,
10:49em quadrinhos
10:49para as crianças,
10:50para os jovens.
10:51Vai dar certo.
10:52Aí ela vai falar,
10:53poxa, papai,
10:54mas eu já li o outro,
10:55agora que ela lançou esse,
10:57com figurinhas.
11:01Sensacional.
11:02Aretha,
11:03olha,
11:03muito bacana,
11:05muito obrigado mesmo
11:06pela tua vinda aqui
11:07no CD Talks,
11:09nosso podcast
11:10do Antagonista.
11:11parabéns
11:13e sucesso.
11:15O programa
11:16permanece
11:17à disposição
11:18para a sua próxima
11:20expedição.
11:23Fantástico,
11:23fantástico.
11:23E teremos muito mais,
11:24né?
11:25Eu sou apaixonada
11:25por montanha,
11:26devo escalar
11:26muito mais ainda,
11:27sempre vou contar com vocês.
11:29Eu amei nosso bate-papo,
11:30foi muito agradável
11:31e que muito mais gente
11:32saia daqui inspirada.
11:33Obrigada, Claudio,
11:34muito obrigada.
11:35Legenda Adriana Zanotto
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