00:00São bastante previsíveis os efeitos a longo prazo das políticas comerciais de Donald Trump na economia global.
00:06Inflação alta, redução dos acordos comerciais, aumento das incertezas políticas e econômicas.
00:13Ontem o Tribunal de Comércio Internacional nos Estados Unidos suspendeu o tarifaço.
00:19A Casa Branca recorreu e hoje um tribunal de apelação atendeu ao pedido do governo Trump e permitiu a continuidade das tarifas.
00:27Sobre esses assuntos eu converso com a Carla Argenta, economista-chefe da ACM Capital.
00:34Carla, boa noite para você. Obrigado pela sua disponibilidade em conversar com a gente.
00:38Antes de mais nada, Carla, essa disputa judicial torna ainda mais incerto o resultado desse processo todo e o prazo, quando é que isso vai se resolver?
00:49Boa noite, Turci. Bom, esse é um problema que foi criado desde que Trump assumiu o governo e ele vem se arrastando.
00:56Então, ninguém sabe ao certo qual é o nível de tarifa imposto pelos Estados Unidos, sobre quais produtos isso...
01:03E por quanto tempo isso vai valer?
01:06Esse processo de stop and go, ele tem impactos muito diretos sobre o nível da atividade e sobre a reação dos outros governos também.
01:14Isso é o que a gente consegue estimar nesse momento.
01:16Porque ninguém vai tomar uma decisão de investimento em um contexto onde as regras são absolutamente desconhecidas e incertas.
01:23Por hora, é isso que se sabe e esses são os impactos mapeados, embora não verificáveis na prática, até aqui.
01:31Carla, a gente tem visto os títulos do governo americano passarem por um processo de alta nos juros,
01:38ou seja, uma menor procura dos investidores por esses papéis amplamente considerados, reconhecidos como os mais seguros do mundo.
01:46Já é possível dizer, dada a persistência desse processo, que os títulos soberanos dos Estados Unidos já não são mais os mesmos?
01:55Olha, é muito difícil fazer essa afirmação.
02:00Alguns elementos estão por trás dessa valorização, dessa taxa mais elevada que está sendo cobrada.
02:06O primeiro deles é justamente uma expectativa mais elevada sobre a inflação dos Estados Unidos.
02:10Então, o Banco Central norte-americano, o Fed, precisa manipular sua taxa de juros para contornar essa inflação,
02:16o que acaba reverberando sobre a precificação desses títulos.
02:20O segundo ponto, que teve um impacto muito acentuado no mercado recentemente, diz respeito às questões fiscais dos Estados Unidos.
02:28Diante de todo esse processo de redução dos impostos e aumento das tarifas,
02:34e uma expectativa de um crescimento da economia um pouco mais brando,
02:37o equilíbrio das contas públicas dos Estados Unidos foi questionado.
02:41E isso tem seus ajustes também nos títulos públicos e no rendimento desses títulos públicos.
02:47É muito cedo para afirmar que os Estados Unidos deixarão de ser o país que concentra esses recursos,
02:53porque não existe outro país no mundo que consiga absorver o volume de capitais que os Estados Unidos absorvem.
02:59Mas sim, é um dos elementos que mostra mudanças estruturais no circuito financeiro global.
03:03E isso é muito importante e o mercado está de olho nisso.
03:06Agora, já que tem havido essa saída de investidores dos Estados Unidos,
03:11você diria que a nossa Bolsa tem atratividade para recursos estrangeiros nesse momento?
03:17Sim, eu diria que sim.
03:20Alguns elementos colocam o Brasil como destaque.
03:24O primeiro desses elementos é que o Brasil está bem posicionado no comércio internacional
03:28para aproveitar os benefícios e as brechas que surgem dessa nova dinâmica comercial,
03:34principalmente em relação ao comércio que o Brasil possui com a China.
03:39Esse é o primeiro fator.
03:40O segundo fator tem raízes internas.
03:43O crescimento do Brasil tem sido um crescimento sustentável
03:46e que tem trazido surpresas positivas trimestre após trimestre.
03:51O Brasil é visto com bons olhos na esfera internacional
03:54em relação ao seu posicionamento geopolítico.
03:57E nós temos internamente também taxas de juros muito atrativas
04:01e a própria Bolsa com empresas bem posicionadas
04:04para aproveitar mais uma vez essas brechas de comércio externo.
04:07Então, acho que isso faz com que o Brasil se torne um grande país a receber,
04:14um grande receptor desses recursos que estão procurando um ambiente fértil nesse momento.
04:20Carla, e aí o dólar aqui no Brasil tem se mantido,
04:24o dólar contra o real tem se mantido bem, vamos dizer assim,
04:28localizado nessa faixa entre 5,60 e 5,70.
04:31Já faz algum tempo.
04:32Acontece o que acontecer, parece que ele não está saindo muito dali.
04:35A hora que ele começa a chegar perto dos 5,50, ele volta.
04:38A hora que ele começa a chegar perto dos 5,70, ele volta.
04:41Enfim, está aparecendo uma faixa em que ele se acomodou nesse momento?
04:46Acredito que sim.
04:49Passadas essas oscilações mais acentuadas,
04:51que tiveram raízes tanto na economia doméstica como na esfera internacional,
04:55o dólar encontrou um patamar de relativa estabilidade.
04:58E isso se vê frente ao real e se vê frente às demais moedas também.
05:02Se nós olharmos tanto para as moedas dos países em desenvolvimento,
05:06como o peso mexicano, que é uma boa proxy,
05:09a moeda sul-africana, ou até mesmo contra moedas de países desenvolvidos,
05:14é possível verificar essa certa estabilidade,
05:16que em alguma magnitude traz um alento para o investidor,
05:20principalmente para quem está na esfera produtiva,
05:22diante de tantos elementos incertos.
05:24Então a moeda tem oscilado menos e tem sido o ponto positivo
05:28para quem está inserido nessa esfera produtiva.
05:30Acredito que, uma vez mantidos os elementos que nós vemos
05:33permeando a economia nesse momento,
05:36esse é sim o patamar aceitável para o dólar.
05:40Mas o nível de incerteza é muito elevado
05:42e é sempre importante mencionar que o dólar,
05:45que o câmbio de modo geral acaba sendo a variável de ajuste.
05:48Então nós não temos perspectivas muito positivas
05:51de uma estabilidade ao longo do tempo nesse patamar.
05:55Carla, eu te pergunto agora de um ponto que interessa muito
05:58não só para investidores, mas para qualquer consumidor,
06:00ou quase qualquer consumidor, que é a questão do petróleo.
06:04O petróleo vem caindo com essa perspectiva,
06:06entre outros fatores, com essa perspectiva de menor crescimento global.
06:10E inclusive esse ano, só esse ano, a Petrobras já baixou o preço do diesel
06:13três vezes para as distribuidoras.
06:16Quais são as perspectivas para o petróleo nos próximos meses,
06:19na sua opinião, se é que dá para traçar alguma perspectiva
06:22no momento assim?
06:23Olha, nós costumamos acompanhar alguns relatórios de organismos
06:28que verificam o mercado de petróleo com bastante afinco.
06:33E o FMI é um desses organismos que faz projeções
06:37e que tem dados muito ricos para permitir essa estimativa futura.
06:42A partir dos dados do FMI, existe uma expectativa
06:45da manutenção desse preço mais baixo ao longo do tempo mesmo.
06:49Por que isso ocorre?
06:51Porque o petróleo é uma commodity energética
06:54e a commodity energética é muito demandada
06:57em períodos onde existe um aquecimento econômico muito grande,
07:00onde as indústrias produzem, onde o nível da atividade
07:03ao redor do mundo é muito aquecido.
07:05Essas diretrizes de comércio internacional,
07:07elas trazem vetores no sentido oposto,
07:09então elas propõem ou sugerem o arrefecimento do nível da atividade.
07:13Ora, se o petróleo é justamente o que abastece
07:16esse aquecimento econômico,
07:19uma demanda menor sobre o nível da atividade global,
07:22o nível da atividade menor também gera uma demanda menor
07:24sobre essa commodity.
07:27Portanto, a expectativa é de que nós tenhamos, sim,
07:29o petróleo em um patamar um pouco mais baixo,
07:32pelo menos ao longo dos próximos meses.
07:35Carla Argenta, economista-chefe da CM Capital.
07:38Obrigado, Carla, pela sua análise aqui.
07:40Bom restinho de semana.
07:42Muito obrigada e até a próxima.
07:43Tchau, tchau.
07:44Tchau, tchau.
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