00:00Antes desse encontro, é bom que eu fale que eu peguei pólio na década de 70, né?
00:05E que por 20 anos eu vivi numa redoma, literalmente.
00:09Eu não saía pra nada.
00:11Então eu vi a vida da janela, do que as minhas irmãs traziam da rua.
00:15Mas eu nasci com uma vocação pra ser feliz, uma sede de céu.
00:20E pra matar essa vontade de experimentar e de saber e de viver,
00:24eu vivi através dos livros.
00:26Eu digo que os livros foram meus grandes educadores.
00:29Num dia eu era de Adorim, no outro dia eu era Simone de Borboa,
00:33no outro dia eu era Capitu, Flor Bela, e não tinha como não virar um mulherão, né?
00:37Mas não vamos romantizar.
00:39Foi difícil.
00:41E eu fui oficializar a minha educação aos 20 anos de idade.
00:46Então hoje, quando a escritora Thelma Cunha chega pra palestrar,
00:49eu gosto muito de ir na EJA, porque eu fui na EJA.
00:52Eu estudei, eu fiz supletivo.
00:55Na minha época, que titia já é idosa, era supletivo.
00:59E eu digo, gente, eu já estive aí.
01:01E o olhinho deles brilham.
01:03É a maneira que eu tenho de sarar essa ferida de ter ficado à margem, né?
01:08Eu vou em todas as escolas que me chamam.
01:11A escola lá no meio do lixão do Aurá, até a escola classe A.
01:16Eu vou em todos os lugares.
01:17Eu vou pelos interiores.
01:18E o que é mais interessante e importante de dizer, Eduardo,
01:22que os meus livros são comprados pelos próprios professores.
01:27Isso sim é reconhecimento.
01:30Eu costumo dizer que não tem jabuti, não tem prêmio Nobel, né?
01:34Que supere a alegria pra um escritor.
01:37Porque o que o escritor quer?
01:38O escritor quer ser lido.
01:39Então não tem alegria maior do que a gente ver a menina dos olhos,
01:43da garotada, das pessoas dançando com a nossa palavra.
01:46Não tem.
01:47Eu digo assim que o poeta, ele se escreve, né?
01:51É a maneira que eu tenho de me colocar no mundo.
01:53Se eu ficar com raiva, se eu ficar triste, pode saber que vai rolar uma poesia.
01:57Se eu ficar feliz também.
01:58É o jeito que eu tenho de me colocar no mundo.
02:00Eu gosto muito de escrever nos artes, escutar o barulho da fonte.
02:03Adoro.
02:05Foi uma alegria muito grande.
02:07Eu te confesso que eu sempre sonhei, mas eu não imaginei que seria tão cedo, né?
02:15Porque é a minha chance de fazer uma feira acessível, uma feira inclusiva, não é?
02:23De trazer o meu eleitorado pra feira.
02:28Eu digo que as pessoas com deficiência, elas precisam se ver representadas, Eduardo.
02:33Enquanto a gente não se vê protagonista, eu digo...
02:38Nós temos o quê?
02:39As pessoas com deficiência são 15% da população mundial.
02:44E tu cruzas com essas pessoas no cinema?
02:46Tu encontra pessoas com deficiência no restaurante, no shopping?
02:52Nas feiras?
02:53É raro.
02:54São muito poucas pessoas que a gente cruza, não é?
02:57Eu, todas as vezes que encontro um cadeirante, eu já vou dizendo...
03:00Oi, tudo bem?
03:01Eu fico feliz, porque eu digo assim, que a gente precisa estar em todos os lugares
03:07pra que a gente normalize e obrigue o mundo a se adequar.
03:13Porque eu digo que a única diferença entre Thelma, cadeirante...
03:18Eu não tenho problema nenhum de dizer cadeirante.
03:20Quando eu ligo pro hotel, eu digo logo, olha, eu sou cadeirante.
03:22Que é pra não ter os probleminhas, né?
03:26E tu é que tu usa tuas pernas pra andar e eu uso as minhas rodas.
03:30Se tiver acessibilidade, se tiver espaço, isso não é problema.
03:36O problema é que o mundo não é adequado pra diversidade.
03:39E as pessoas não pensam que pode torcer um pé, que vai envelhecer, não é?
03:46Se todos pensassem assim, é por isso que eu faço questão de ir nas escolas.
03:50Porque as crianças são o nosso futuro.
03:53E como é que a gente vai formar futuros arquitetos, futuros engenheiros, futuros médicos,
03:58que não tenham esse olhar inclusivo?
04:00E a gente só olha, a gente só tem esse olhar se a gente conhecer e se a gente amar
04:05alguém
04:06que tenha essa necessidade de acesso.
04:11Eu digo que eu sou uma estrangeira na minha família.
04:13A gente vai viajar, né?
04:15Aí eu tenho minhas limitações.
04:17Eles querem ir pro Cristo Redentor, eles querem ir...
04:21E eu queria ir pros teatros.
04:23Eu sempre chego frustrada das viagens.
04:26Sempre chego.
04:27Mas nessa última viagem do início do ano, nós fomos pra Recife, porque eu tava muito
04:35apaixonada pela poesia do Miró da Moribeca.
04:38Não sei se tu conheces.
04:39Conheces?
04:40Mas é bom a gente dizer, né?
04:42Que pras pessoas conhecerem.
04:43Um poeta negro, periférico e com uma potência e tão negligenciado pelo mundo.
04:52E eu queria muito ir lá.
04:54Eu fiz contato, eu queria conhecer os colegas, eu queria conhecer o cara que tava fazendo a
05:00biografia.
05:01E eles queriam ir pros pontos turísticos e, enfim...
05:05É isso.
05:06Eu digo assim, que na minha próxima vida, eu até assino esse contrato de vir com uma
05:10deficiência.
05:10Se eu vier muito rica, porque aí sim vai dar pra fazer tudo, que aí não tem barreira
05:16arquitetônica, não tem nada.
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