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00:00Serpentes nos rios que trançam o coração do Brasil
00:04Levando a água da vida, do fundo da terra, a produção do Brasil
00:10Gente que entende, que fala a língua das bandas dos bichos
00:16Gente que sabe o caminho das águas das terras do céu
00:23Velho mistério guardado no seio das vidas sem fim
00:28Tesouro perdido de nós, distante do bem e do mal
00:35Vem do bem e do mal
01:05Coitado Tibério
01:08Pobre trouxe menina pra cá agora pra jogar no braço do outro
01:14Isso ainda vai acabar muito mais
01:22Positivo, estou te copiando bem, pode parar, câmbio
01:25Positivo, me ligaram do Rio de Janeiro, José Leôncio
01:28Pedindo conta do seu filho, o Juventino, o nome era Dona Mariana
01:33Deve ser a avó dele, câmbio
01:36Positivo, é a avó dele mesmo, câmbio
01:39É, ela está esperando a minha resposta, hein
01:42O que é que eu digo, câmbio
01:45Você disse que está bem, que é pra ela não se preocupar, câmbio
01:51É, ela quer saber se ele está com o senhor
02:16A senhora acaba de me dizer agora, com todas as letras
02:20O José Leôncio informou que o Jove não está morando na fazenda
02:24E isso não era esperado?
02:26Está vivendo com a tal moça, Juma
02:28Ah, mamãe, tenha calma, que isso?
02:30Não mata pera, meu Deus do céu, não mata pera
02:34Na beira do rio, lá nos confins da fazenda dele
02:37Estão vivendo lá sozinhos, os dois no meio das onças
02:39Os jacarés, as cobras
02:40Ué, foi onde eles se conheceram
02:42E foi onde a Juma tratou dele, quando ele foi mordido por uma boca de sapo
02:46Pois então, o José Leôncio deve ser um louco pra permitir uma coisa dessas
02:49Eu acho que isso é uma coisa que não preocupa em absoluto o José Leôncio
02:54Ele foi criado no lombo de um cavalo
02:57Nesse ponto eu acho que a Madeleine tem razão
03:01O José Leôncio deve ser um louco pra mim
03:18O José Leôncio deve ser um louco pra mim
03:18E aí
03:37Você não mandou falar isso, José?
03:39É
03:41E não é verdade, João?
03:42Você tá aqui comigo?
03:43Não tá
03:44Fala com a Juma, tá?
03:46Tá
03:47Eu não menti, menti.
03:49Mas elas, coitadas, devem estar com o coração na mão, Zé.
03:55Mas...
03:56Principalmente a mãe dele.
04:38A mãe não queria mais o pai.
04:46Por causa dos meus irmãos.
04:50O que tem teus irmãos?
04:52Estava tudo morto e enterrado pelos caminhos.
04:57Ela não queria queimar nenhum fio, mas era pra mim sofrer, Juventus.
05:02Ela dizia pra mim que estava cansada de chorar nessa vida.
05:07E daí?
05:10Já lhe contei muito.
05:14Mas foi aqui que eles me fizeram.
05:18Nessas águas.
05:21Bonito isso.
05:24Eles me fizeram do jeito que nós estamos fazendo agora.
05:29E eu nasci.
05:32Tá certo que...
05:34A mãe me deixou embora na canoa.
05:37Mas depois ela foi atrás de mim.
05:39Ela se jogou na água e me pegou de volta.
05:42Você se arrependeu?
05:44É.
05:46Mas porque eu era menina, viu, Juventino?
05:49Só porque eu era menina.
05:51Porque se tivesse sido outro homem, ela tinha me deixado embora.
05:59A gente tomava banho juntas aqui.
06:04Nós duas.
06:07Ela me ensinava tanta coisa.
06:11Me ensinava da vida, as coisas da vida.
06:19Me ensinou a odiar os homens.
06:24A desconfiar deles.
06:28Como é que você tá aqui comigo agora, então?
06:30Me amando desse jeito?
06:33Você não é homem?
06:35Que que é, mulher?
06:39Você é o meu amor.
06:46Você é o meu amor.
07:26Você é o meu amor.
07:27Você acha que eu sou trouxa?
07:29Ora, acho até que você não me conhece.
07:31É.
07:33Conheço, conheço muito bem.
07:34Por isso que eu tenho medo, né?
07:36Medo de quê?
07:37Medo você perder a carma, senhor?
07:39É de a carma, nunca, filho.
07:42Fala bobagem.
07:43Do jeito que seu filho é?
07:45Deixa ele lá.
07:46Deixa ele quieto.
07:48Se eu não impedir ele de ficar lá no começo,
07:51eu não vou correr atrás dele agora, não.
07:53Mas ele deve estar bem.
07:55Se eu não pense bem, já estava batendo aí na porta.
07:58Se for tinhoso que nem você é,
08:00morre de forma num barco nessa porta.
08:02Acontece que ele não é mais tinhoso do que eu, não.
08:04Nem ele, nem o Tadeu.
08:08Se eu não for tinhoso do que eu, não é mais tinhoso do que eu, não é mais tinhoso do
08:09que eu.
08:09Filho do Jorendino, só um teu.
08:12Sou puro sangue.
08:23Se um dia eu for embora daqui,
08:26você vai comigo.
08:28Pra onde?
08:31Pra onde eu for.
08:33Se não é, né?
08:36A Juventina, eu já lhe falei.
08:40Eu não vou sair daqui nunca.
08:43Vem comigo?
08:48Nem.
08:51Eu ia chorar, mas eu não ia, não.
08:56Fica assim, não, vai?
08:59Assuma hipótese.
09:02Quero ver você, Tristinha.
09:05Claro, então não fala mais nisso.
09:07Ah, então me dá um beijo.
09:25Ah, mãe, avó, quase a tia até, pra não falar do avô,
09:30todo mundo, quase todo mundo me botou pra fora
09:35naquela casa o dia que eu fui buscar em mim.
09:42A tia, não.
09:44Na verdade, a minha cunhada Irma,
09:46ela no fundo, no fundo, ela sempre ficou do meu lado, viu?
09:51Isso também é coisa que já não interessa mais nada, né?
09:56São águas passadas, né, seu Zé Leôncio?
10:01Mas é que não lavaram a mágoa que eu trago no peito até hoje, Tiberio.
10:07A dona Filó pediu pra você ouvir um cafezinho.
10:09Ah, é bom, é bom.
10:10Para tomar essa pinguinha, pra não falar bobagem demais.
10:19Pois eu quero ter uma prosa com você, tá bom, Mônica?
10:33Pois é, Tiberio.
10:35É, não é da minha família nem nada, mas se você quiser namorar dentro de casa, eu...
10:40autorizo, quer dizer, se for do seu interesse, né, meu?
10:45Ele gosta dela, pai.
10:48Tô lá cego, não vê isso, Tadeu.
10:51Agora, Tiberio.
10:54Ó, cuidado.
10:56Muito cuidado.
10:59Mulher é um bicho traiçoeiro.
11:02Você dói de botina, ó,
11:04Vem outro que leva.
11:26Se eu pudesse, lhe contratava com o meu ajudante, viu?
11:30Não quero ser ajudante de ninguém, não.
11:32Obrigado.
11:32Tô falando isso que eu tô gostando de ver a sua competência.
11:37Se eu fosse competente, eu não fazia besteira que eu fiz, não é?
11:41E tudo por causa de rabo de saia, né, meu?
11:44Parar de conversa fiada aí, vai.
11:47É, se o amigo não tivesse perdido também os documentos,
11:52eu podia arrumar um emprego numa transportadora lá de São Paulo,
11:56que faz muito a Rota de Foz do Iguaçu.
11:59Primeira viagem que o amigo fizesse,
12:03encostava o caminhão por lá,
12:05atravessava a fronteira.
12:07Não, não, não.
12:07Não, eu vou,
12:08eu vou chegar lá assim,
12:10mas eu vou chegar nem que seja a pé, meu.
12:12Eu vou pegar o meu caminhão de volta,
12:14meus documentos.
12:15Não, na verdade,
12:15o que me deixa mais bravo é o meu berrante.
12:17Eles levaram o meu berrante, viu?
12:20Berrante?
12:20É, deixa eu falar.
12:22Eu tenho que dar conta daqueles boi também.
12:24Eu vou botar aqueles dois na cadeia, viu?
12:27Ou se vou.
12:28No Paraguai,
12:29você tá brincando.
12:33É que você não me conhece, viu, querido?
12:36É, deixa eu falar.
13:06A CIDADE NO BRASIL
13:09Você não olha nem na minha cara quando fala comigo?
13:11Ai, que bobagem!
13:14Como agora, ai?
13:16Tô te olhando, fala!
13:19Explica pra mim, o que é que tá acontecendo?
13:24O que tá acontecendo, Tibete?
13:26O que ele tem como bom amigo?
13:28Uma pessoa que me quer bem?
13:30Mas eu não gosto de ser do jeito que você tá pensando.
13:33Só isso.
13:35De quem você gosta, então?
13:38Ninguém?
13:39Eu não encontro de ninguém, mas posso vir a gostar, né mesmo?
13:42Eu não quero ser no meu caminho.
13:45E o que que ele queria, amor?
13:50Conversar.
13:53Conversar sobre o quê?
13:56Ai, dona Filó, o Tibete pensa que eu gosto dele.
14:01E você não gosta, né, muda?
14:03Tô certa nisso, né?
14:07Não como ele quer.
14:11Caso de Levi?
14:13Não.
14:15Quer dizer, ainda não.
14:18Não tem certeza de nada.
14:21Bom, mas pra qual dos dois que você deu esperança?
14:25Pra nenhum.
14:26Pra nenhum.
14:29Eu nem sei até quando vou ficar aqui, vindo.
14:34Da menininha mais estranha.
14:46A gente vai se apartar aqui, ó.
14:49Vou deixar você por aqui.
14:52E vou seguir a estrada.
14:58Quanto é que o amigo tem no bolso?
15:03Só uns trocados.
15:05Meu dinheiro ficou com os meus documentos lá no porta-luvas do caminhão, né?
15:10Era o dinheiro contadinho pro diesel.
15:13Ei, porqueira.
15:14Eu tô mais liso do que bunda de anjo, viu, Greco?
15:19Nesse ponto eu não posso lhe ajudar, viu?
15:21Não, você já fez demais.
15:23Já fez demais.
15:24Desse jeito eu...
15:25Eu não sei como é que o amigo vai conseguir chegar no Paraguai, viu?
15:29E se chegar?
15:31Vai conseguir encontrar seu caminhão?
15:33E se encontrar?
15:35Vai conseguir trazer ele de volta?
15:38Ué.
15:39Eu posso pedir ajuda pra polícia de lá, não posso?
15:43Você tá brincando?
15:45Ei, seu Zé Luca, de nada.
15:47O senhor não sabe, não tem conhecência do chão que tá pisando?
15:51É, é ônibus, automóvel, caminhão.
15:54Tudo que se rouba aqui e chega lá, adeus.
15:57Não tem jeito.
15:58E no que você, que você peça implore pro presidente daqui, vai ter jeito.
16:05Então nesse caso, quem vai acabar virando ladrão sou eu, não é?
16:09Porque eu perdi uns bois que não eram meus.
16:11Porque eu perdi meu caminhão que eu ainda não tinha acabado de pagar.
16:14Olha aqui, grego, o que um homem de bem faz numa situação dessa?
16:17Você quer me dizer o que um homem de bem faz?
16:19Vira ladrão de verdade.
16:22É vergonha na cara?
16:24Vira.
16:25Antão.
16:49Meu coração já sabe que eu sei.
16:55Cuidado.
16:55Não quero mais me amar.
17:00Não bate mais junto.
17:03Está na distância, não sabe voltar.
17:10Ficou nas planícies, nas alvoradas, no entardecer.
17:18Nas águas profundas, perdido nas matas do Pantanal.
17:28O que está acontecendo com você, amigão?
17:37Nada, nada.
17:38Está tudo certo.
17:40Não, não está não.
17:41Você sabe que eu te conheço, né?
17:43É, só estou um pouco aborrecido.
17:45É por causa dessa muda, né?
17:47É, por causa dela.
17:50Você se enrabixou mesmo pela menina, hein?
17:53É, mas eu vou tirar ela da minha cabeça.
17:55Do coração dá para tirar ela?
17:58Eu vou tentar.
18:00Ela diz que gosta de mim, mas não do jeito que eu quero que ela goste.
18:04É, eu logo imaginei isso.
18:07É, eu nunca gostei de ninguém do jeito que eu gosto dela.
18:18Posso dar um conselho para você, Tibete?
18:22Fala.
18:23Manda esse Levi embora.
18:25Some com ele.
18:29Bem que eu estava desconfiado.
18:31Então você pode ter certeza.
18:34Eu digo mais para você ainda.
18:35Ele está dando em cima dessa muda quando você não está.
18:39Ele não está lhe despeitando.
18:42Não.
19:08Ele não está lhe despeitando.
19:10Ele não está lhe despeitando.
19:51Abertura
20:09Abertura
20:16Abertura
20:27Pronto.
20:29Abertura
20:30Aracica.
20:31Pode comer à vontade.
20:35Pelo amor de Deus, Dona Maria.
20:38O quê? Vai discutir agora? Vai discutir?
20:41Você come e come quieto. Quieto.
20:44Senhora.
20:48Mas e seu Tenório?
20:50Seu Tenório, não se preocupe, seu Tenório, não.
20:54Seu Tenório está lá, cuidando da vida dele.
21:01Se me ver aqui, ele pode ficar bravo.
21:04Ele não vai ver você aqui, garoto.
21:08O que é a Dona Guto?
21:10A Dona Guto saiu também com o pai dela.
21:13Ah, saiu que ficou aqui sozinho, sacado, sozinho.
21:20É.
21:27Cansado, essa vida.
21:31Por quê?
21:33Não, eu parei nada.
21:36Você come quieto.
21:49Tá bom?
22:07Esse caburador que está entupido.
22:09Vai precisar dar uma limpeza nele.
22:13Tem ferramenta aí?
22:14Chave de fenda, essas coisas?
22:15Bom, alguma cosita.
22:17Te lembra?
22:19Eu sempre falo, amigo.
22:21Tire as coisas do lugar, volta a poner no mesmo lugar.
22:25Não entende?
22:26Pero é uma merda, amigo.
22:29Aqui é só uma chave de fenda.
22:31Não tem uma chave de fenda aí?
22:32Bom, canivete sim.
22:34Bom, tá bom.
22:34Um canivete serve também.
22:36Toma.
22:40Acho que vai servir.
22:44Era bom um alicate.
22:47Tem um alicate aí?
22:48Alicate?
22:49É.
22:50Não, não.
22:52Mineto outro dia estava brincando com o alicate.
22:59É uma merda, Mineto.
23:01É.
23:02Eu não posso desmontar esse caburador com o dente, não, moço.
23:05Bueno, claro, claro.
23:07No meu caminhão tinha tudo.
23:10O fio de uma égua.
23:12O que passou?
23:13Não é nada, não.
23:14É que roubaram meu caminhão e lá eu tinha ferramenta.
23:16Bem, eu também tinha.
23:18Mas o que eu vou fazer?
23:21Minero e Mineto, me entende?
23:23Eu sei, eu sei.
23:25É uma merda.
23:32Desse jeito é nunca que eu vou chegar no Paraguai.
23:42Essa área de terra que eu lhe falei outro dia...
23:45Isso, amigo, vai botar esse assunto.
23:47É verdade a gente parar a prosa aqui.
23:49Bem, bem, é que eu...
23:50Eu estava disposto a fazer qualquer negócio por causa dessa situação.
23:54Olha, eu vou lhe repetir o que eu já lhe disse.
23:56Eu não tenho dinheiro nem interesse em comprar mais terra nenhuma.
23:58Já chega as que eu tenho.
23:59Tá bem, tá bem.
24:00Não se fala mais nisso.
24:03E sobre esse outro assunto?
24:05O da criação de jacaré?
24:08Ah, bom, esse assunto aí, Tenor, eu acho que a gente precisa deixar em banho-marinho, entendeu?
24:12Porque não é hora de pensar em investir mais nada.
24:14A gente primeiro tem que deixar pra ver que ruim que as coisas vão tomar, né?
24:18É, pensando bem, eu acho que o amigo tá certo.
24:24Vamos deixar baixar as águas.
24:26O amigo aceita um coiaque?
24:28Ah, aceito, obrigado.
24:32O amigo me permite lhe fazer uma pergunta?
24:36Até duas.
24:39Não tá preocupado, não, com esse mundo de terra que você tem aí, largada?
24:45Não, não, não, não tô largada, não.
24:47Tem gente minha lá tomando conta pra evitar a invasão.
24:52Mas é tudo terra improdutiva.
24:55Mas eu vendo pra quem quiser produzir.
24:58E não tá preocupado com essa tarde de reforma agrária, não?
25:03Tô ouvindo falar dessa reforma agrária desde que eu me conheço por gente.
25:08Entra governo, sai governo, muda a merda e as moscas continuam a mesma e nunca aconteceu nada.
25:14Até nessa tal de constituição.
25:17Andaram fazendo uma guerra danada por causa desse assunto e não quer que deu.
25:21Se eu fosse perder o sono por causa disso, eu tava perdido.
25:26É, mas não sei não.
25:28Pode ser que dessa vez tenha mudado as moscas também, não?
25:33É que o amigo tá querendo chegar.
25:35Pô, eu nunca tinha levado uma paulada tão grande.
25:38Eu tô com uma dinheirama danada presa lá no tarde do banco que você entrar.
25:41E não sei quando que eu vou poder botar a mão nele de novo, não é?
25:44É, eu também tenho um pouco.
25:47Pois é.
25:48Agora eu fico pensando, se eles não se importarem em desagradar essa multidão de pessoas que se sentiram prejudicadas com
25:55as medidas que eles tomaram,
25:57você acha que eles vão se preocupar em desagradar a meia dúzia aí que tem metade das terras do Brasil
26:03na mão, inclusive o amigo?
26:07Bom, certo.
26:08Mas eu não acredito nisso.
26:12Com terra, eles não vão mexer.
26:14Por quê?
26:16Porque seria a mesma coisa que mexer em vespeiro e eles não são bestas.
26:20Vão continuar na mesma falação de sempre naquela lenga-lenga e vai continuar tudo como tá.
26:26Como eu lhe disse, se eu fosse perder o sono por causa disso, eu tava perdido.
26:34Você nunca atirou na sua vida?
26:36Nunca.
26:38Não vou usar arma de fogo, não.
26:40É, mas aqui precisa aprender.
26:43Pega.
26:47Aponta aí pra algum lugar e atira.
26:58Você sabe segurar uma arma.
27:01Aprendi nos filmes da televisão.
27:04É só firmar mais aqui no ombro.
27:07Isso.
27:12Nossa, Juventino.
27:14É.
27:15Eu era menininho, eu treinava com uma espingardinha de chumbo.
27:18Acho que eu peguei o jeito.
27:21É, toma.
27:22Não gosto disso aqui, não.
27:26É pra gente se defender.
27:33Daqui.
27:41Tá, Valde.
27:47Tá, Valde.
28:15Eu não podia me negar a lhe acompanhar.
28:20Eu fico aborrecida de ficar lá dentro ouvindo aqueles papos dos nossos pais.
28:24Eu posso imaginar, dona Guta.
28:28Adelio, fala uma coisa.
28:30Fala.
28:32Você é mesmo filho do seu Zé Leôncio?
28:34Eu já disse que sou.
28:37Filho de bastardo, então.
28:39E eu não gosto desse nome, dona Guta.
28:41Desculpa, meu.
28:42Desculpa, eu não quis lhe ofender.
28:44Não foi minha intenção.
28:46Tá, tá tudo bom.
28:49Mas o filho legítimo dele é o Juventino, né?
28:52É.
28:55Funda, é tudo a mesma coisa, né, Cadê?
28:57Ah, mim?
28:59Só de saber que o seu filho dele tá bom.
29:01Claro.
29:05Cadê?
29:06Fala.
29:08Eu gosto de você.
29:25Gente, tem que tomar cuidado.
29:27Não, ninguém tá vendo.
29:34Agora chega.
29:37Pra que tanto medo muda?
29:41Eu não quero magoar o Tibério.
29:43Ora, tô um pouco me importando com ele.
29:47Se você disser que quer, eu te carrego daqui comigo.
29:52Não.
29:53Por quê?
29:56Por que não chegou a hora ainda?
30:03Obrigado.
30:07Quando meu pai comprou essas terras,
30:10ele tinha o sonho.
30:12Mas era o sonho dele, meu.
30:14Ele dizia, filho,
30:17um dia nós vamos ter mais boi por esses pastos
30:20do que estrela no céu.
30:24E o outro sonho dele era
30:26ter muito filho.
30:28Um, uma camada de moleque.
30:32Ai, só teve eu.
30:35Coisa do destino, né?
30:38A mãe morreu quando eu nasci.
30:40Vai, Zé.
30:41Toma um café, vai.
30:42Deixa ele falar, dona Filó.
30:47Mas também, ó,
30:48ele nunca mais quis saber se casar.
30:51Nunca.
30:52Quer dizer,
30:53mulher, ele tinha,
30:54era muita.
30:56Por essas currutelas da vida aí,
30:59ixi,
30:59aí,
31:00mas também tá certo, né?
31:02Era macho,
31:03tava vivo,
31:04fazer o quê?
31:07Oi,
31:08quando eu tinha feito a idade,
31:09em 16 anos,
31:11ele me colocou uma dona na rua,
31:14no Sertão do Goiás.
31:17Aí ele falou assim,
31:18ó, filho,
31:19mostra pra essa peça apionada aí,
31:21que cê é homem.
31:24A gente vinha numa currutiva,
31:27e aí quando a gente entrava com a boiada,
31:29por meio daquela currutela,
31:32as mocinhas ficavam tudo na janela,
31:34jogando flor pra gente,
31:36que nem borboleta,
31:37porque a gente pegava no ar,
31:38assim,
31:39flor que nem borboleta.
31:42Os dois aí,
31:44prozeando,
31:45prozeando,
31:45esvaziaram uma garrafa de pinca.
31:47Ah,
31:48deixa ele falar, mãe.
31:52Eu acho bonito isso,
31:54flor do goiás.
31:57Quando um burro fala,
31:59os outros abaixam a orelha.
32:06E aí,
32:08ela me falou assim,
32:10eu sou a flor da currutela.
32:13Ele era a minha,
32:14era uma morena,
32:15a mais bonita que tinha lá,
32:17ela escolheu pra mim, né?
32:19Aí,
32:20então,
32:21ela,
32:21na minha cara,
32:23já tirando a roupa,
32:24assim,
32:24ela me disse,
32:25se você é filho do jovem,
32:27tia,
32:27você vai me provar,
32:28e essa coisa é assim.
32:30E eu nadava com as pernas tremendo.
32:35Cara,
32:36desculpe,
32:36dona Guta.
32:37Oh,
32:38meu Deus do céu,
32:38tô falando demais.
32:40Foi a pinga,
32:41viu, dona Guta,
32:41foi a pinga,
32:42porque eu não tô acostumado
32:43a ficar falando dessas coisas.
32:45Aí dá mais a presença
32:46de uma donzela, né?
32:48Pois eu gostaria muito
32:49de saber como é que acabou
32:50essa aventura.
32:51E não se constranja comigo,
32:53seu Zé Leôncio.
32:57Oi,
32:58oi,
32:59oi,
33:01oi,
33:02oi,
33:04oi,
33:04oi,
33:04oi,
33:05oi,
33:05oi,
33:05oi,
33:05oi,
33:05oi,
33:05oi,
33:10oi,
33:11oi,
33:11oi,
33:12oi,
33:12oi,
33:27oi,
33:45A Mãe está exagerando, querendo que a gente cuide da casa toda.
33:48Pare de resmungar, Madeleine, é uma situação de emergência.
33:52Eu detesto cozinhar.
33:54É, mas tem mão boa para isso, fique sabendo.
33:57Quando é brincadeira, mas não quando é todo dia.
34:01Você aprendeu muita coisa para a Filó, não foi?
34:04Filó.
34:07Eu ficava sozinha quando os alíons saiam com as comitivas.
34:11Aí eu ficava brincando com ela na cozinha.
34:15Éramos só nós duas naquele casarão, naquele fim do mundo.
34:20Tempero do feijão da Filó eu nunca vou esquecer.
34:26O que você disse?
34:27Não, nada.
34:29Eu...
34:30Eu estava me referindo ao...
34:32Ao tempero do feijão da Filó.
34:34Eu ouvi, irmã.
34:36Imagine, Madeleine.
34:38Eu me expressei mal.
34:40Foi uma...
34:41Uma confissão, irmã.
34:43Eu sempre desconfiei disso, minha querida irmã.
34:46Sempre.
34:47Eu sempre.
34:48Você acha que eu acreditei naquela história que você me contou uma vez?
34:50Aquela sua viagem para a Punta de Leste?
34:53Aquele homem que você era apaixonado, que era casado.
34:56Você nunca teve estrutura para isso, irmã.
34:58Mas você teve estrutura para ir lá para o Pantanal e para dormir com o meu marido.
35:03Para com isso.
35:04Não vejo essa carinha de santa para cima de mim, porque eu sei que você sempre foi apaixonada por ele.
35:09Desde o dia que ele botou o pé aqui nessa casa.
35:11E para!
35:12Sua santinha enrustida.
35:14Para!
35:15Sua nojentinha.
35:16Você dormiu, você deu em cima do meu marido, você dormiu nele.
35:19Para!
35:20É mentira?
35:21Para.
35:22Pelo amor de Deus.
35:23Diga que eu estou mentindo.
35:24Diga que eu estou mentindo.
35:25Diga que eu estou mentindo.
35:26Foi!
35:28Foi a verdade.
35:30Mas eu nunca pensei nisso, Madeleine.
35:32Eu juro por Deus.
35:33Eu não fui lá para isso.
35:34Eu juro pela alma do papai.
35:36Não fui o papai nessa história, sua semvergonha.
35:39Eu estou sendo sincera, Badeleine.
35:41Essa sua santinha, dessa sua filhinha, essa vagabunda, ela dormiu com o meu marido, com o Zé Leôncio.
35:47Ele não era mais seu marido.
35:49Você o havia abandonado, você havia roubado o filho dele.
35:53Eu não traí ninguém.
35:55Eu não traí, mãe.
35:56Mas aconteceu, não aconteceu, irmã?
35:58E não foi lá na prainha, na beira do rio?
36:02Na minha cama, sua vagabora!
36:04Para!
36:05Sua semvergonha!
36:06Foi a minha irmã que ela está com coisa.
36:08Você não tem mais minha irmã.
36:10Sua sem a minha irmã!
36:12Sua sem a minha irmã!
36:13Para!
36:14Madeleine!
36:14Para, pelo amor de Deus!
36:17Para!
36:22Para que isso, Madeleine?
36:25Para que isso?
36:27Sua vez, depois de tantos anos...
36:29Sua vez, sua vez, sua vez.
36:34Não interessa, depois de todos esses anos, se ela dormiu ou não dormiu com ele.
36:40Que estupidez, que estupidez!
36:43Pois é, o que você está dizendo?
36:46Vinte anos nessa casa falando em Zé Leôncio como se ele fosse a coisa mais importante da nossa vida.
36:51Exatamente.
36:53Vivendo de lembranças, eu!
36:56E agora eu fico sabendo que a minha pobre irmã também!
37:00Pois é, esse é o lado trágico de toda essa história.
37:03Ele não fez a escolha certa, não é?
37:07É, mamãe.
37:09Isso deve estar certa.
37:13Quem sabe com ela, tivesse sido diferente, melhor.
37:19Pois então.
37:21Vá falar com ela, peça desculpas, não deixa sua irmã assim tão magoada.
37:26Mas, Madeleine, você de qualquer maneira teve a sua vida, ela não.
37:30Meu Deus, e apesar de tudo, eu amo a minha irmã.
37:37Senta.
37:40Vá falar com ela.
37:42Mãe.
37:44Que estupidez.
37:47Vem, Diálogos.
37:49Que estupidez.
37:52Que estupidez.
38:09Irmã, sou eu.
38:13Irmã.
38:18Irmã.
38:30Ai, meu Deus.
38:32Vem, Diálogos.
39:18Há muitos anos atrás, eu fiz este mesmo caminho.
39:23Nestas mesmas águas.
39:25Deve ter viajado então comigo, dona.
39:28Mas, nessa vida, ele me conheço por gente.
39:33É verdade, deve ter sido com o senhor mesmo.
39:37Só no minha estranha, não.
39:42Seu cunhado do senhor José Leôncio.
39:49Agora eu tô lembrado.
39:51Irmã da mulher que, na água dele, ainda levou o filho dele embora.
39:55É, é isso mesmo.
39:57É, foi a melhor coisa que podia ter acontecido na vida dele.
40:03É, vê isso atrapalha.
40:06Por que o senhor diz isso?
40:07Por nada, não.
40:10Mas, tô estranhando, a dona tá vindo e chalando.
40:14Hoje em dia é só avião pra cima e pra baixo.
40:17Hoje em dia tem mais aviões voando por aí que tu e o Ju.
40:21Eu posso imaginar.
40:23É.
40:25Tá mudando tudo.
40:28Eu gostava mais de antigamente.
40:30Eu também.
40:37Eu também.
40:39Eu também.
40:39Eu também.
41:08A CIDADE NO BRASIL
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45:42Eu...
45:43Ah, oi
45:48O que essa novinha está fazendo aqui?
45:50Nada, nada, nada
45:51Diz que você...
45:52Eu explico isso aí
45:53Eu estou morando aqui com ele
45:54Dona Madeleine
45:55O Gustavo
45:56Ele me adotou
45:58Não saiu
46:01A CIDADE NO BRASIL
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